Torre. Um dia brilhante

O filme abre com uma referência a um clássico do gênero terror: O iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Visão aérea mostra um carro trafegando por uma bela estrada campestre. No carro estão um casal e Kaja, no banco de trás. 

Eles chegam a uma casa no interior para uma reunião familiar. Mula, a proprietária, é irmã de Kaja e do motorista. A mãe deles sofre de alzheimer e está sob os cuidados de Mula. O centro da trama é a criança Nina, filha de Kaja, mas que foi entregue aos cuidados de Mula seis anos atrás. 

Mistérios do passado rondam a reunião familiar, marcada por situações surpreendentes, como a cura repentina da mãe. A trama trabalha com insinuações ao gênero sobrenatural, que não se concretizam, são muito mais imagens encobertas por mistério, sombras que se dissipam deixando a sensação de paranóia e medo que ronda os segredos da família. O filme de estreia da diretora polonesa Jagoda Szelc é completamente aberto aos caminhos que o passado remete, como na lenta caminhada coletiva no final do filme. 

Torre. Um dia brilhante (Wieża. Jasny Dzień, Polônia, 2017), de Jagoda Szelc. Com Anna Krotoska (Mula), Małgorzata Szczerbowska (Kaja), Anna Zubrzycki (Ada), Dorota Łukasiewicz-Kwietniewska (Anna), Rafał Kwietniewski (Andrzej), Michał Rafal Cieluch (Michał), Laila Hennessy (Nina).

O castelo Cagliostro

É a primeira animação do lendário Miyazaki, realizada antes da fundação do também lendário Studio Ghibli. A trama é baseada no mangá Lupin III, de Monkey Punch, que Miyazaki já havia adaptado como série de TV. O assaltante Arsene Lupin III rouba notas falsificadas em um cassino em Monte Carlo. Junto com seu fiel aliado Jigen, Lupin parte para o Castelo Cagliostro, pequeno reino onde as notas falsificadas são produzidas. A narrativa envolve desejo de vingança, mas muda de rumo quando Lupin conhece Clarisse, jovem destinada a se casar com o malévolo Conde do castelo. 

O castelo Cagliostro é uma divertida história com tons medievais das belas princesas que habitam castelos, transitando pelas narrativas de máfias e gangsteres do século XX, ou seja, uma mistura de tons narrativos bem ao estilo de Miyasaki. A animação é repleta de ação, entremeadas por tiroteios, duelos de samurais e lutas corporais. Logo em seu primeiro longa-metragem, Miyazaki provocou furor no universo da animação, anunciando o que viria na sequência: uma sucessão de clássicos criados e dirigidos pelo mestre dos mestres da animação. 

O castelo Cagliostro (Japão, 1979), de Hayao Miyazaki. 

Moulin Rouge

Paris, 1890. O Cabaré Moulin Rouge agita as noites da cidade luz, repleto de homens e mulheres fascinados pelos espetáculos de danças eróticas, principalmente o can-can. O pintor Henri Toulouse-Lautrec é habitual frequentador, assiste a tudo sentado, enquanto esboça desenhos das dançarinas e dançarinos, bem como de frequentadores. 

Certa noite, quando sai do Cabaré, Toulouse ajuda a prostituto Marie-Charlet a se livrar da polícia e a abriga em sua casa. Ele se apaixona pela jovem, os dois desenvolvem um relacionamento marcado por conflitos e desilusões. 

A filmografia do célebre pintor tem por base a deformidade que o atingiu nas pernas, depois de uma queda na infância. A trama de John Huston acompanha seus primeiros experimentos como pintor da vida boêmia de Paris, retratando basicamente pessoas que frequentavam a noite. Abre espaço também para a revolução que propagou na divulgação publicitária, através dos famosos cartazes promocionais que pintou para o Moulin Rouge. Usando a técnica da litogravura, os cartazes eram espalhados por Paris.

De saúde frágil desde a infância, acometido por uma doença rara, ele cresceu apenas das pernas para cima (tinha cerca de 1,50), a narrativa passa pela tristeza que acometia o artista, incapaz de se relacionar amorosamente com as mulheres. A busca incessante pela arte, a entrega à boemia e ao álcool de forma quase suicida, marcam a trama. Uma bela e sensível homenagem ao artista. 

Moulin Rouge (Inglaterra, 1952), de John Huston. Com José Ferrer (Toulouse-Lautrec/Conde de Toulouse-Lautrec), Zsa Zsa Gabor (Jane Avril), Suzanne Flon (Myriamme Hyam), Colette Marchand (Marie Charlet), Christopher Lee (Georges Seurat), Georges Lannes (Sargento Patou).

Minha noite com ela

Durante a celebração de uma missa católica, Jean-Louis fica fascinado com Françoise. Quando ela sai da igreja, ele tenta segui-la pelas ruas da cidade, mas a perde de vista. Pouco depois, ele reencontra seu amigo Vidal e os dois vão à casa de Maud, médica divorciada que vive de forma livre e despretensiosa com seus relacionamentos. 

A trama de Éric Rohmer, que se aproxima de um possível triângulo amoroso, traz a marca do diretor: longos diálogos em ambientes fechados. Françoise e Maud passam a noite conversando sobre religião, filosofia, entre flertes e tentativas frustradas de um relacionamento amoroso. Quando, finalmente, o protagonista encontra seu objeto de desejo, a jovem e bela Françoise, outros triângulos amorosos se inserem de forma sutil na trama, revelando que as ruas, apartamentos, praias, enfim, a cidade, provoca acasos fascinantes e misteriosos. 

Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, França, 1969), de Éric Rohmer. Com Jean-Louis Trintignant (Jean-Louis), Marie-Christine Barrault (Françoise), Françoise Fabian (Maud), Françoise, Antoine Vitez (Vidal). 

Máfia em Paris

A trama se passa em um hotel de luxo. O inspetor Neveu está no quarto de seu tio, junto com a jovem Arielle.  Anos atrás, um assassinato ocorreu nesse mesmo hotel. O Tio era segurança e não conseguiu desvendar o caso, por isso mora ali, em busca de respostas para o crime. Paralela a essa história, uma anunciada luta de boxe esconde as engrenagens subterrâneas desse mundo dominado pela máfia. 

O título original, Détective, anuncia de forma enganosa a pretensão de Godard em mais uma trama repleta de seus experimentos linguísticos. Na verdade, pouco se investiga no filme, é mais uma catarse do diretor, despejando durante a narrativa fragmentos de imagens: cenas feitas em vídeo, citações a filmes e livros, colagens de diversas mídias… 

“Se Godard ameaça fazer um filme de detetive, é importante que saibamos desde o início: será um filme de Godard, antes de qualquer outra coisa. Ou seja: mais um enigma. Um enigma que nasce das duas camadas com que Godard costuma trabalhar em seus filmes, digamos, convencionais: o fiapo da história e as ligações externas. E se o espectador viciado em entendimentos procurar explicações para tudo, sua experiência ficará prejudicada.” – Sérgio Alpendre. 

Máfia em Paris (Détective, França, 1985), de Jean-Luc Godard. Com Laurent Terzieff (William Prospero), Aurelle Doazan (Arielle), Jean-Pierre Léaud (Inspetor Neveu), Claude Brasseur (Emile Chenal), Johnny Hallyday (Jim Fox), Alain Cuny (Mafioso).

 Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

Drive my car

Raras vezes o cigarro (esse vício que dizima vidas há tempos imemoriais) se mostra tão poético como na cena em que Yusuke Kafuku e Misaki estendem os braços, com cigarros nos dedos, para fora do teto solar do carro. A cena sela a cumplicidade dos dois, que se conheceram de forma silenciosa, durante os longos trajetos de carro. A jovem Misaki dirigindo, o dramaturgo Kafuku no banco de trás, escutando áudios da peça que está ensaiando.  

Drive my car arrebatou diversos prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro de filme estrangeiro. Kafuku é casado com a roteirista de TV Fukaku Oto. Oto tem um fascinante processo criativo: durante o sexo, conta histórias ao marido que se transformam em tramas de seus roteiros. Ao chegar em casa, certa noite, o dramaturgo encontra a esposa morta, após um AVC. Dois anos depois, Kafuku é convidado para encenar Tio Vanya, de Tchecov, em Hiroshima. Como regra do festival do qual vai participar, o diretor não pode dirigir seu próprio carro. É assim que conhece Misaki, jovem designada para ser sua motorista. 

O filme é um longo ensaio sobre a arte, sobre processos criativos que se confundem com a vida de quem cria. Oto vive uma espécie de catarse mediúnica quando faz sexo, criando fascinantes histórias; Fukaku dirige também em uma espécie de transe, ouvindo os longos diálogos de Tio Vanya, ensaiando suas falas e inspirando seus dias; o jovem Takatsuki, protagonista da peça, abandonou uma carreira de sucesso na TV em busca de sua descoberta como artista. Mas são os longos silêncios entre Fukaku e Misaki que movem a trama rumo às descobertas, ao conhecimento revelador do passado. Assim como o silêncio revelador da arte, expresso na atriz surda-muda que interpreta cenas comoventes por meio da linguagem de sinais. 

Drive my car (Japão, 2021), de Ryusuke Hamaguchi. Com Hidetoshi Nishijima (Fukaku Yusuke), Toko Miura (Watari Misaki), Masaki Okada (Takatsuki Koshi), Park Yoo Rim (Lee Yoon Ah), Reika Kirishima (Fukaku Oto).  

Antologia da cidade fantasma

Na primeira cena do filme, um carro passa pela câmera em alta velocidade, sai da estrada e bate em um contêiner. Simon, o jovem motorista, morre no acidente. Ele era morador de uma pequena comunidade na área rural de Quebec, formada por apenas cerca de 200 moradores. 

A princípio, a trama desenvolve o processo de luto da família e da comunidade, pois todos se conhecem. O clima de inverno rigoroso, expresso em silenciosas paisagens tomadas pelo gelo e pela neve, intensifica o sentimento de tristeza, principalmente em Jimmy, irmão de Simon. Ele busca e clama, a todo instante, por um sinal de seu irmão, como numa tentativa de entender a morte trágica. 

Antologia da cidade fantasma transita pele gênero terror, no entanto é um filme de espectros, dos fantasmas que habitam o interior dos personagens e podem se personificar em imagens ao longe, tão silenciosos quanto nossos maiores medos. A triste solidão invernal dos moradores dessa pequena comunidade é a mesma dos espectros que os assombram.  

Antologia da cidade fantasma (Répertoire des villes disparues, Canadá, 2019), de Denis Côté. Com Robert Naylor (Jimmy Dubé), Josée Deschênes (Giséle Dubé), Jean-Michel Anctil (Romuald Dubé), Larissa Correveau (Adéle), Diane Lavallée (Simone Smallwood), Jocelyne Zucco (Louise), Normand Carriére (Richard), Rémi Goulet (André), Hubert Proulx (Pierre), Rachel Graton (Camille). 

Colo

A adolescente Marta vive os conflitos típicos da idade, agravados por um fato: o pai da jovem está desempregado, a mãe busca o sustento da família trabalhando em dois empregos. Outra adolescente, Júlia, está grávida e vai passar um tempo na casa de Marta. 

A película de Teresa Villaverde compõe o sensível painel do atual cinema europeu que aborda as questões do desemprego, do subemprego, das burocracias do estado que não sabe lidar com seus cidadãos em busca de auxílio depois que perdem as condições de sustento. A gradativa desestruturação da família de Marta reflete a realidade cruel provocada pelo sistema econômico e político. O pai passa pela crise às vezes de forma violenta, outras entregue à resignação de sua condição. A mãe testa seus limites até à explosão, incapaz de continuar lidando com a obrigatoriedade de se entregar a jornadas exaustivas de trabalho. Marta se descobre em meio ao caos, sua caminhada no final do filme é o retrato da solidão que atinge de forma avassaladora os jovens nessa sociedade cada vez mais desestruturada. 

Colo (Portugal, 2017), de Teresa Villaverde. Com João Pedro Vaz (Pai), Alice Albergaria Borges (Marta), Beatriz Batarda (Mãe), Clara Jost (Júlia).

Asako I & II

Em Osaka, Asako vê Baku em uma exposição fotográfica. Na saída, Baku se aproxima, os dois conversam e trocam um beijo nos lábios. É o início de uma paixão que dura seis meses, pois Baku desaparece misteriosamente. Dois anos e meio depois, Asako trabalha em uma cafeteria em Tóquio. Quando leva café para a empresa em frente, pensa rever Baku, agora um jovem executivo. 

O premiado diretor de Drive my car trabalha em Asako I & II com uma narrativa que remete às tramas do duplo, das traições de mentes perturbadas por traumas do passado, claramente uma homenagem a Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock. Questões como a busca dos jovens pela arte em uma sociedade massacrada pela exposição midiática também pontuam a trama. É uma história de amor, ou da resignação que o amor exige quando não se concretiza da forma que tanto desejamos.  

Asako I & II (Netemo Sametemo, Japão, 2018), de Ryusuke Hamaguchi. Com Masahiro Higashide (Baku/Ryohei), Erika Karata (Asako), Koji Seto (Hirakawa), Sairi Itoh, Misako Tanaka. 

Édipo Rei

A incursão de Pasolini pela tragédia escrita por Sófocles se tornou um dos principais filmes deste moderno e, em certo ponto caótico, cinema dos anos 60. Após conhecer uma profecia que anunciava que seria assassinado pelo próprio filho, Laio entrega seu filho para ser executado no deserto. O servo não tem coragem de praticar o ato final, Édipo é resgatado e criado pelo monarca do reino vizinho. Na juventude, Édipo encontra Laio em uma estrada e cumpre a profecia. Logo depois, casa-se com sua própria mãe. 

As belas e desertas locações no Marrocos são destaque no filme. A verve poética de Pasolini subverte tempo e espaço, desenvolvendo a trama em três partes. No início, Laio é um militar e vive um apaixonado casamento com Giocasta, na cidade de Bolonha dos anos 60. A segunda parte regride ao tempo de Sófocles, desenvolvendo a peregrinação de Édipo rumo ao seu destino profético de cometer parrícidio e incesto. Na terceira parte, o cego Édipo é guiado por Angelo pelas ruas da Bolonha do início. 

A trama oscila entre as imagens belas e contemplativas de personagens caminhando no deserto, da família feliz brincando nos jardins do palácio, para os planos próximos de personagens, retratos de rostos sofridos e castigados pela miséria e pelo deserto. A verborragia desesperada de Édipo, à medida que se entrega ao seu destino, contrasta com a silenciosa Jocasta que se entrega ao prazer do amor com o próprio filho. Belas e fortes interpretações de Franco Citti e Silvana Mangano. 

Édipo Rei (Edipo Re, Itália, 1967), de Pier Paolo Pasolini. Silvana Mangano (Giocasta), Franco Citti (Édipo), Alida Valli (Merope), Carmelo Bene (Creonte), Julian Beck (Tiresia(, Luciano Baroli (Laio).