Céline e Julie vão de barco

Céline está lendo, sentada em um banco de frente para a rua. Julie, uma jovem vestida de forma exuberante, carregando uma grande bolsa, passa na sua frente e, poucos metros adiante, deixa cair um objeto. Céline pega o objeto e corre atrás da jovem. É o início da longa sequência inicial, Céline persegue Julie que deixa cair outros objetos, como uma despretensiosa brincadeira. 

Jacques Rivette, um dos fundadores da nouvelle-vague francesa, compõe uma obra que remete àqueles deliciosos contos orais que se transformam à medida que passam de voz em voz. Céline e Julie, elas passam a morar juntas, compartilham uma íntima amizade, marcada até mesmo por trocas de identidades. Realidade e imaginação se misturam nas mais de três horas de duração da narrativa. As duas frequentam uma misteriosa casa onde estranhos fatos acontecem, habitada por personagens teatrais ou cinematográficos que repetem, de forma divertida, a mesma esquete. 

“Os espectadores que não entendem francês nunca descobrirão o verdadeiro sabor deste filme, a começar pelo título (Céline e Julie passeiam de barco), que não significa nada, mas, em francês, abre portas para contos, piadas e histórias infantis. Céline et Julie vont em bateau é a senha para um reino onde os caminhos sinuosos trilham o limiar entre o mundo exterior e os sonhos, entre presente e passado, realidade e ficção. Quando Alice seguiu o Coelho Branco, adentrou outro mundo. Quando Julie (Dominique Labourier) entrou no mundo de Céline (Juliet Berto), aparentemente fez algo semelhante, mas, na verdade, não. Qual a diferença? O fato óbvio, porém crucial, é que Alice no país das maravilhas é um livro, e Céline é um filme, feito por um dos mais exigentes e sutis críticos de cinema, Jacques Rivette, que se converteu em notável explorador da natureza do cinema por meio de um questionamento de suas relações com o mundo real e com outras formas de arte.”

Céline e Julie vão de barco (Céline et Julie vont en bateau, França, 1974), de Jacques Rivette. Com Juliet Berto, Dominique Labourier, Bulle Ogier.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Duas vidas

Há uma cena no filme que define muito do fascínio da narrativa visual, trabalhada por grandes mestres do cinema clássico americano. Terry McKay está em seu quarto. Ela abre a porta de vidro e se encosta no umbral, olhando para o alto. A porta de vidro continua a se abrir lentamente até parar, o reflexo do Edifício Empire Street estampado no vidro, Terry, com o olhar apaixonado, continua olhando para cima. 

O Empire Street é o local de um encontro arquitetado durante uma longa jornada de navio entre Paris e Nova Iorque. Michel Marnett é um playboy que nunca trabalhou na vida. Está a caminho de Nova Iorque para se casar com uma jovem rica. Terry McKay também está a bordo do navio, sua jornada tem um destino semelhante: vai se casar com um próspero comerciante. A primeira parte da narrativa, passada a bordo do navio, tem o dom das comédias leves, dos romances adocicados. Os dois vivem uma espécie de flerte, de pequenos gestos românticos que não devem se concretizar, de toques insinuantes, enfim, se enamoram de forma despretensiosa. 

A transição entre a primeira e a segunda parte acontece em uma emocionante sequência na Ilha da Madeira, quando os dois aproveitam a parada do navio para visitar a avó de Michel. A partir deste encontro, é preciso encarar a realidade e reescrever os destinos. Mas para isso é preciso tempo. No fim da viagem, os dois combinam de se encontrar seis meses depois no alto do Empire Street, caso tenham certeza deste amor que nasceu. 

Duas vidas apresentou pela primeira vez um dos dramas românticos mais famosos da história do cinema. Na segunda parte da narrativa, o tom muda inesperadamente para o melodrama, exigindo dos espectadores lenços nas mãos para acompanhar os seis meses que separam o casal. 

O próprio diretor Leo McCarey refilmou a história em 1957, com o título Tarde demais para esquecer. Na década de 90, Nora Ephron atualizou a história, respeitando o famoso encontro no mítico edifício em Sintonia do amor, com Tom Hanks e Meg Ryan. 

A sequência final de Duas caras está, indiscutivelmente, entre os finais mais emocionantes do cinema. É uma cena que desarma completamente até o mais empedernido dos espectadores que, com certeza, vai ter que se virar para esconder as lágrimas. 

Duas vidas(Love affair, EUA, Leo McCarey. Com Charles Boyer (Michel Marnet), Irene Dunne (Terry McKay), Maria Ouspenskaya (Grandmother), Lee Bowman (Kenneth Bradley), Astrid Allwyn (Lois Clarke).