Pororoca

Para entender a força da linguagem cinematográfica em determinadas narrativas, basta se entregar ao longo plano sequência no parque, quando a filha do casal Tudor e Cristina desaparece. É uma espera angustiante para o espectador, acompanhar sem cortes uma bela manhã ensolarada no parque, onde crianças se divertem, pais relaxam com livros e conversas banais, sorvetes aliviam o calor das crianças e dos adultos. Angustiante, pois o espectador sabe o que vai acontecer com a pequena e doce Maria. 

A partir do desaparecimento da criança, a narrativa se concentra na luta diária dos pais para encontrar a filha. Ao mesmo tempo, o casal tem que enfrentar a degradação do relacionamento, motivada principalmente pelo sentimento de culpa.  Pororoca é um filme difícil de assistir, repleto de sequências que fazem o espectador entrar na tristeza e desespero do casal. A reviravolta na sequência final, claramente uma citação à Taxi Driver, de Martin Scorsese, é impactante, pode-se dizer aterradora ao expor os limites da insanidade. 

Pororoca (Romênia, 2017), de Constantin Popescu. Com Bogdan Dumitrache (Tudor Iunesco), Iulia Lumânare (Cristina), Constantin Dogioiu (Pricop). 

A crônica francesa

O filme começa com uma belíssima homenagem a Jacques Tati: câmera filma do lado de fora um garçom subindo por um prédio, o espectador acompanha a subida pelas janelas, exatamente como a clássica cena de Meu tio (1958). A outra homenagem é também saudosista, pois a narrativa acompanha quatro histórias narradas por jornalistas, de um tempo em que o romantismo, a ousadia, a liberdade de expressão ainda eram tônicas deste fascinante mundo dos contadores de histórias reais. 

Arthur Howitzer Jr. investe o dinheiro do pai para fundar uma revista, A crônica Francesa, recheada de reportagens de estilo literário. As quatro histórias traduzem o jornalismo investigativo, os repórteres acompanham e investigam os fatos narrados. Um ciclista/jornalista percorre as ruas da cidade contando as histórias de seus moradores; uma crítica de arte narra a fascinante saga de um artista que está preso por assassinato e se torna um expoente da arte moderna; um jornalista capaz das maiores frases literárias da revista se envolve com o mundo do crime para retratar os perfis dos mafiosos; uma jornalista tem um caso com um jovem revolucionário quando cobre os manifestos estudantis nas ruas da cidade. 

O estilo extravagante na direção de arte e, principalmente, cenografia, está presente em todas as histórias. A narração de Anjelica Huston colabora com o charme deste filme para ser visto e ouvido com os sentidos abertos à sensibilidade artística de Wes Anderson. 

A crônica francesa (The French Dispatch, EUA, 2021), de Wes Anderson. Com Benicio Del Toro (Moses Rosenthaler), Adrien Brody (Julian Brody), Tilda Swinton (J.K.L. Berensen), Léa Seydoux (Simone), Frances McDormand (Lucinda Krementz), Timothée Chalamet (Zeffirelli), Lyna Khoudri (Juliette), Jeffrey Wright (Roebuck Wright), Mathieu Amalric (The commissaire), Stephen Park (Nescaffier), Bill Murray (Arthur Howitzer, Jr.)

Réquiem para Sra. J

O filme abre com Jelena (Mirjana Karanovic) preparando cuidadosamente a arma que pertenceu ao seu marido. É segunda-feira, com esse gesto anuncia-se a decisão da Sra. J: na sexta-feira, aniversário da morte do marido, ela se matará. 

A narrativa é dividida em espécies de capítulos, seguindo os dias da semana. Jelena está desempregada, sua família desestruturada, o peso do sustento econômico recai sobre a filha mais velha que não suporta mais tal obrigação. O diretor Bojan Vuletic é mais um cineasta europeu a se debruçar com sensibilidade sobre a crise trabalhista na Europa e suas consequências na vida das pessoas e na família. Dessa leva recente, vale citar Dois dias uma noite (2014), O valor de um homem (2015), Eu, Daniel Blake (2016), Colo (2017), Você não estava aqui (2018).

A narrativa alterna momentos de bom humor, destaque para o conselho oferecido a Jelena por um vendedor de armas e as propostas do agente funerário, com momentos depressivos e tensos. resultados da desintegração familiar, das burocracias do estado em relação à assistência de seus cidadãos, da tragédia anunciada ao espectador pela protagonista. Jelena acompanha e assiste a esses momentos com a serenidade silenciosa de quem já tomou sua decisão. Os longos planos em sua caminhada pela cidade, os planos estáticos em sua resignação dentro de casa, ajudam a entender o tratamento sensível tanto em termos de narrativa quanto em propostas audiovisuais deste filme terno. 

Réquiem para Sra. J (Rekviem Za Gospodja J., Sérvia, 2017), de Bojan Vuletic, com Mirjana Karanovic, Jovana Gabrilovich, Danica Nedeljkovic.

Torre. Um dia brilhante

O filme abre com uma referência a um clássico do gênero terror: O iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Visão aérea mostra um carro trafegando por uma bela estrada campestre. No carro estão um casal e Kaja, no banco de trás. 

Eles chegam a uma casa no interior para uma reunião familiar. Mula, a proprietária, é irmã de Kaja e do motorista. A mãe deles sofre de alzheimer e está sob os cuidados de Mula. O centro da trama é a criança Nina, filha de Kaja, mas que foi entregue aos cuidados de Mula seis anos atrás. 

Mistérios do passado rondam a reunião familiar, marcada por situações surpreendentes, como a cura repentina da mãe. A trama trabalha com insinuações ao gênero sobrenatural, que não se concretizam, são muito mais imagens encobertas por mistério, sombras que se dissipam deixando a sensação de paranóia e medo que ronda os segredos da família. O filme de estreia da diretora polonesa Jagoda Szelc é completamente aberto aos caminhos que o passado remete, como na lenta caminhada coletiva no final do filme. 

Torre. Um dia brilhante (Wieża. Jasny Dzień, Polônia, 2017), de Jagoda Szelc. Com Anna Krotoska (Mula), Małgorzata Szczerbowska (Kaja), Anna Zubrzycki (Ada), Dorota Łukasiewicz-Kwietniewska (Anna), Rafał Kwietniewski (Andrzej), Michał Rafal Cieluch (Michał), Laila Hennessy (Nina).

Antologia da cidade fantasma

Na primeira cena do filme, um carro passa pela câmera em alta velocidade, sai da estrada e bate em um contêiner. Simon, o jovem motorista, morre no acidente. Ele era morador de uma pequena comunidade na área rural de Quebec, formada por apenas cerca de 200 moradores. 

A princípio, a trama desenvolve o processo de luto da família e da comunidade, pois todos se conhecem. O clima de inverno rigoroso, expresso em silenciosas paisagens tomadas pelo gelo e pela neve, intensifica o sentimento de tristeza, principalmente em Jimmy, irmão de Simon. Ele busca e clama, a todo instante, por um sinal de seu irmão, como numa tentativa de entender a morte trágica. 

Antologia da cidade fantasma transita pele gênero terror, no entanto é um filme de espectros, dos fantasmas que habitam o interior dos personagens e podem se personificar em imagens ao longe, tão silenciosos quanto nossos maiores medos. A triste solidão invernal dos moradores dessa pequena comunidade é a mesma dos espectros que os assombram.  

Antologia da cidade fantasma (Répertoire des villes disparues, Canadá, 2019), de Denis Côté. Com Robert Naylor (Jimmy Dubé), Josée Deschênes (Giséle Dubé), Jean-Michel Anctil (Romuald Dubé), Larissa Correveau (Adéle), Diane Lavallée (Simone Smallwood), Jocelyne Zucco (Louise), Normand Carriére (Richard), Rémi Goulet (André), Hubert Proulx (Pierre), Rachel Graton (Camille). 

Colo

A adolescente Marta vive os conflitos típicos da idade, agravados por um fato: o pai da jovem está desempregado, a mãe busca o sustento da família trabalhando em dois empregos. Outra adolescente, Júlia, está grávida e vai passar um tempo na casa de Marta. 

A película de Teresa Villaverde compõe o sensível painel do atual cinema europeu que aborda as questões do desemprego, do subemprego, das burocracias do estado que não sabe lidar com seus cidadãos em busca de auxílio depois que perdem as condições de sustento. A gradativa desestruturação da família de Marta reflete a realidade cruel provocada pelo sistema econômico e político. O pai passa pela crise às vezes de forma violenta, outras entregue à resignação de sua condição. A mãe testa seus limites até à explosão, incapaz de continuar lidando com a obrigatoriedade de se entregar a jornadas exaustivas de trabalho. Marta se descobre em meio ao caos, sua caminhada no final do filme é o retrato da solidão que atinge de forma avassaladora os jovens nessa sociedade cada vez mais desestruturada. 

Colo (Portugal, 2017), de Teresa Villaverde. Com João Pedro Vaz (Pai), Alice Albergaria Borges (Marta), Beatriz Batarda (Mãe), Clara Jost (Júlia).

Asako I & II

Em Osaka, Asako vê Baku em uma exposição fotográfica. Na saída, Baku se aproxima, os dois conversam e trocam um beijo nos lábios. É o início de uma paixão que dura seis meses, pois Baku desaparece misteriosamente. Dois anos e meio depois, Asako trabalha em uma cafeteria em Tóquio. Quando leva café para a empresa em frente, pensa rever Baku, agora um jovem executivo. 

O premiado diretor de Drive my car trabalha em Asako I & II com uma narrativa que remete às tramas do duplo, das traições de mentes perturbadas por traumas do passado, claramente uma homenagem a Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock. Questões como a busca dos jovens pela arte em uma sociedade massacrada pela exposição midiática também pontuam a trama. É uma história de amor, ou da resignação que o amor exige quando não se concretiza da forma que tanto desejamos.  

Asako I & II (Netemo Sametemo, Japão, 2018), de Ryusuke Hamaguchi. Com Masahiro Higashide (Baku/Ryohei), Erika Karata (Asako), Koji Seto (Hirakawa), Sairi Itoh, Misako Tanaka. 

Da Colina Kokuriko

A jovem Umi Matsuzaki vive em uma pensão no alto da Colina Kokuriko. Logo de manhã, ela avista um barco de pesca no canal abaixo, trocando olhares com o também jovem Shun Kazama, tripulante do barco. O destino dos dois está selado, pois se encontram na escola de ensino médio, onde estudam. O introspectivo Shun lidera um grupo de estudantes que habita após as aulas um prédio abandonado, nos arredores da escola, o Quartier Latin. O interior do velho prédio reflete o comportamento dos estudantes: espaços caóticos, repletos de livros, experimentos e outras quinquilharias. Quando a direção da escola anuncia a demolição do prédio, Umi e suas amigas se juntam aos outros estudantes para limpar e lutar pela preservação do Quartier Latin. 

Da Colina Kokuriko é a imersão de Goro Miyazaki – o roteiro do filme é escrito por seu pai, Hayo, pela história moderna do Japão. A trama acontece em 1963, às vésperas das Olimpíadas de Tóquio, quando diversas construções estavam sendo demolidas para dar lugar a espaços modernos, simbolizando a nova Tóquio das Olímpiadas.

A singela história de amor entre Umi e Shun traz belíssimas cenas movidas simplesmente ao olhar, aos gestos sutis, ao espaço cênico dos prédios da escola, da pensão onde a jovem mora, do mar. O conflito entre o velho que precisa ceder seu lugar ao novo é abordado de forma bela e poética nas nuances do relacionamento entre os dois estudantes. Eles tentam manter aquilo que é mais importante: a necessidade perene de lutar pela conservação da beleza, seja de que tempo for.  

Da Colina Kokuriko (Japão, 2011), de Goro Miyazaki.

As memórias de Marnie

Anna tem 12 anos, é tímida e sofre de asma. Para melhorar a saúde, ela é enviada para uma temporada à beira-mar, na casa de seus tios. Ela passa os dias passeando sozinha pela praia e pelos campos ao redor, buscando inspiração para seus desenhos. Em um desses passeios, conhece a misteriosa Marnie, com quem desenvolve uma amizade que, aos poucos, sugere enigmas do passado e até mesmo uma espécie de ludicidade mágica. 

As memórias de Marnie é baseado no romance When Marnie Was There (2014), escrito por Joan G. Robinson. É o último filme do Studio Ghibli antes da reestruturação da empresa, com a saída dos principais animadores do estúdio. A trama remete a memórias da infância que se confundem entre a imaginação e a realidade. O passeio de Anna e Marnie pela praia, pelos campos, a descoberta de um moinho abandonado, imagens que remetem a fragmentos de memórias ou sonhos.

As memórias de Marnie (Japão, 2014), de Hiromasa Yonebayashi.  

Pieces of a woman

O espetacular plano sequência de cerca de vinte minutos, durante o trabalho de parto de Martha, acontece logo no início do filme. Ela está em casa com seu marido, Sean. Quando a bolsa estoura, Sean telefona para a parteira – são os tempos modernos, mas o casal escolheu o parto domiciliar, sem a assistência de médicos. Quando a parteira chega, segue-se uma sensível e dolorosa representação dos limites da mulher diante de seu corpo, as dores, as assustadoras reverberações psicológicas durante o pré-nascimento. A câmera acompanha sem cortes a luta de Martha, seu trânsito doloroso pela sala, cozinha, banheiro, quarto. A técnica complexa do plano sequência a serviço da sensibilidade imagética e sonora. 

Pieces of a woman trata de questões inerentes à condição de quem carrega a dor, o luto, de quem oscila entre se entregar e a necessidade de seguir em frente, às vezes inerte diante do tempo que passa – tempo simbolizado pela construção da ponte, outras vezes determinado a vencer a tristeza. 

Vanessa Kirby é o destaque da película, sua interpretação traduz as nuances de quem viveu em minutos os extremos da dor, da felicidade e da tristeza. Seus pedaços são, certamente, quase impossíveis de juntar novamente.

Pieces of a woman (EUA, 2020), de Kornél Mundruczó. Com Vanessa Kirby (Martha), Shia LaBeouf (Sean), Ellen Burstyn (Elizabeth).