White building

No início da narrativa, três jovens amigos percorrem a noite de Phnom Penh, apresentando seu número de dança em bares. É a forma de ganhar dinheiro, mantendo o sonho de vencer um concurso de dança. No entanto, um dos amigos abandona o grupo para morar em Paris. 

Esse início, espécie de road movie suave e silencioso de moto pelas ruas da cidade, simboliza o sonho desses jovens, que será desfeito diante da dura realidade. Nag mora no Edifício Branco, cujos moradores são, em sua maioria, artistas desempregados (como o pai de Nang). Um novo empreendimento será erguido no lugar e os moradores devem aceitar a irrisória oferta de indenização. 

White building foi co-produzido pelo icônico diretor chinês Jia Zhangke e segue os preceitos deste novo cinema asiático. A câmera acompanha os personagens pelas ruas e pelos claustrofóbicos interiores das moradias paupérrimas.As imagens dão o tom da narrativa, acompanhadas por um silêncio perturbador, como se a única alternativa que resta aos personagens fosse contemplar a gradativa destruição de seu modo de vida. 

White building (Bodeng sar, Camboja, 2021), de Kavich Neang. Com Piseth Chhun (Nang), Hout Sithorn (Líder), Chinnaro Soem (Ah Kha), Sovann Tho (Tol). 

Drive my car

Raras vezes o cigarro (esse vício que dizima vidas há tempos imemoriais) se mostra tão poético como na cena em que Yusuke Kafuku e Misaki estendem os braços, com cigarros nos dedos, para fora do teto solar do carro. A cena sela a cumplicidade dos dois, que se conheceram de forma silenciosa, durante os longos trajetos de carro. A jovem Misaki dirigindo, o dramaturgo Kafuku no banco de trás, escutando áudios da peça que está ensaiando.  

Drive my car arrebatou diversos prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro de filme estrangeiro. Kafuku é casado com a roteirista de TV Fukaku Oto. Oto tem um fascinante processo criativo: durante o sexo, conta histórias ao marido que se transformam em tramas de seus roteiros. Ao chegar em casa, certa noite, o dramaturgo encontra a esposa morta, após um AVC. Dois anos depois, Kafuku é convidado para encenar Tio Vanya, de Tchecov, em Hiroshima. Como regra do festival do qual vai participar, o diretor não pode dirigir seu próprio carro. É assim que conhece Misaki, jovem designada para ser sua motorista. 

O filme é um longo ensaio sobre a arte, sobre processos criativos que se confundem com a vida de quem cria. Oto vive uma espécie de catarse mediúnica quando faz sexo, criando fascinantes histórias; Fukaku dirige também em uma espécie de transe, ouvindo os longos diálogos de Tio Vanya, ensaiando suas falas e inspirando seus dias; o jovem Takatsuki, protagonista da peça, abandonou uma carreira de sucesso na TV em busca de sua descoberta como artista. Mas são os longos silêncios entre Fukaku e Misaki que movem a trama rumo às descobertas, ao conhecimento revelador do passado. Assim como o silêncio revelador da arte, expresso na atriz surda-muda que interpreta cenas comoventes por meio da linguagem de sinais. 

Drive my car (Japão, 2021), de Ryusuke Hamaguchi. Com Hidetoshi Nishijima (Fukaku Yusuke), Toko Miura (Watari Misaki), Masaki Okada (Takatsuki Koshi), Park Yoo Rim (Lee Yoon Ah), Reika Kirishima (Fukaku Oto).