Memória

A escocesa Jessica Holland está na Colômbia, em visita a irmã, acamada em um hospital. Orquidófila, ela tem uma profunda relação com a natureza, contemplativa, silenciosa, quase como uma integrante nata desse meio. Certa noite, ela acorda com um barulho estranho e desconhecido, vindo da selva. Jessica passa a ouvir o barulho em alguns momentos do dia, perde o sono e fica cada vez mais obcecada em descobrir a origem daquele som que parece penetrar em todos os seus sentidos. 

O belo filme de Apichatpong Weerasethakul, primeiro realizado fora da Tailândia, exige do espectador acompanhar a protagonista nestes longos silêncios contemplativos. Longas imagens estáticas compõem esteticamente a narrativa, os diálogos são curtos, quase monossilábicos, seguidos de longos silêncios. 

Durante sua jornada, Jessica cruza com pessoas também envoltas nas questões do sentido, como o técnico de um estúdio que a ajuda a reproduzir mecanicamente o som. O encontro entre Jessica e Hernán, que domina a longa parte final do filme, é pleno de sentidos, porém misterioso, envolto nestas questões incompreensíveis da memória. 

Memória (Colômbia, 2021), de Apichatpong Weerasethakul. Com Tilda Swinton (Jessica Holland), Agnes Brecke (Karen), Daniel Giménez Cacho (Juan), Juan Pablo Urrego (Hernán Bedoya), Elkin Diaz (Hernán Bedoya).

Mães paralelas

Pedro Almodóvar parte de uma premissa triste, a troca de bebês na maternidade, para debater o complexo sentimento de maternidade. Janis e Ana dividem o quarto na maternidade quando estão prestes a entrar em trabalho de parto. Tornam-se amigas, confidentes, mantém uma relação à distância quando as filhas nascem. Tudo muda, de forma drástica, quando Janis começa a suspeitar que a bebê que levou para casa não é sua filha genética. 

Não há segredos ou surpresas nesta trama de troca de bebês. O espectador sabe desde o início da verdade. No entanto, uma virada de roteiro muda o relacionamento das duas mulheres. 

O ponto alto do filme é a narrativa paralela: no povoado de Janis, existe uma cova onde foram enterrados vários homens da cidade, executados durante a guerra civil espanhola. O final, quando a cova é aberta por uma ONG, é revelador, amparado pela potente frase de Eduardo Galeano que fecha o filme: 

“Não existe história muda. Por mais que a queimem, por mais que a quebram, por mais que mintam, a história humana se recusa a ficar calada.”

Mães paralelas (Madres paralelas, Espanha, 2021), de Pedro Almodóvar. Com Penélope Cruz (Janis), Milena Smit (Ana), Israel Elejalde (Arturo), Aitana Sánchez-Gijón (Teresa), Rossy De Palma (Elena). 

A festa

Janet acaba de ser nomeada Ministra da Saúde no governo inglês. Junto com seu marido Bill, um professor universitário, ela reúne um pequeno grupo de amigos em sua casa para comemorar. Um casal de lésbicas, Martha e Jinny, que passou por inseminação artificial e está grávida de trigêmeos. April, a melhor amiga de Janet, junto com seu marido, Gottfried. Tom, um profissional do mercado financeiro.

O clima de alegria e confraternização muda drasticamente quando Bill faz uma revelação que envolve morte e adultério. A festa tem uma estrutura completamente teatral, apesar de o roteiro ser original para cinema: a encenação acontece em um único ambiente com sete personagens. O humor ácido está nos diálogos e em situações inusitadas, como o personagem de Tom que entra no banheiro a todo instante para cheirar cocaína. O conflito principal da trama gira em torno de uma personagem ausente, a mulher de Tom. Mas revelações bombásticas são feitas a cada minuto das conversas. O final surpreendente deixa o espectador fascinado diante de um grande roteiro.

A festa (The party, Inglaterra, 2021), de Sally Potter. Com Timothy Spall (Bill), Kristin Scott Thomas (Janet), Patricia Clarkson (April), Gottfried (Bruno Ganz), Cherry Jones (Martha), Emily Mortimer (Jinny), Cillian Murphy (Tom).

Pleasure

Bella sai da Suécia para Los Angeles com um sonho: ser uma estrela de filmes pornô. Ela faz contatos e rapidamente passa a participar dos sets, mas, de início, impõe certos limites aos tipos de relacionamentos, tentando se preservar até alcançar o topo. No entanto, Bella se vê obrigada a fazer mais e mais concessões, se enveredando em uma rede perversa de exploração sexual. 

Pleasure é o filme de estreia da diretora sueca Ninja Thyberg. Através da trajetória de Bella no mundo, ou submundo, das produções pornôs, a diretora compõe um painel triste da ambição humana, da exploração cruel da indústria cinematográfica pornô. A transformação da personagem de Sofia Kappel (atuação intensa, visceral), testando os limites de seu corpo, é marcante. 

Pleasure (Suécia, 2021), de Ninja Thyberg.Com Sofia Kappel (Bella), Zelda Morrison (Joy), Evelyn Claire (Ava), Chris Cock (Bear), Jason Toler (Mike). 

A garota e a aranha

O filme dos irmãos Zurcher faz parte da tradição do cinema intimista europeu, regido pela simplicidade técnica, mas com intensa força poética. Tudo se passa em uma casa, onde os moradores estão se preparando para uma mudança. Enquanto empacotam objetos, carregam caixas, tentam organizar o caos tradicional desses momentos, cada um se despede à sua maneira um do outro, do lugar, das lembranças. 

Lisa transita pelos ambientes em silêncio quase profundo, tocando em objetos, em uma aranha, gestos sutis de quem deixa uma importante fase da vida para trás. O casal Mara e Markus se movimentam apressados pelos ambientes, pintam paredes. Astrid, a mãe, cuida com carinho de tecidos e comanda os funcionários encarregados da mudança, dos consertos. A narrativa revela, através destes gestos simples e cotidianos das personagens, os mistérios insondáveis da alma quando nos despedimos de pessoas e coisas queridas.  

A garota e a aranha (Das mädchen und die spinne, Suiça, 2021), de Ramon Zurcher e Silvan Zurcher.  Com Henriette Confurius (Mara), Liliane Amuat (Lisa), Ursina Lardi (Astrid), Ivan Georgiev (Markus). 

Aloners

Jina (Gong Seung-Yeon), trabalha no centro de atendimento telefônico de uma empresa de cartão de crédito. Ela vive sozinha e evita qualquer tipo de relacionamento mais próximo, inclusive com seu pai. Considerada a melhor funcionária da empresa, sua chefe a incube de treinar uma nova atendende. Contra sua vontade, Jina aceita, mas não demonstra interesse nenhum na evolução da atendente. 

Aloners reflete o título: o grande tema do filme é a solidão em uma sociedade marcada pelas relações eletrônicas, frias. Jina passa seus dias aceitando e reforçando seu comportamento solitário. No entanto, a visão misteriosa de um fantasma no corredor do prédio onde ela mora pode traçar novos rumos. 

O grande momento do filme é um diálogo telefônico de um cliente que diz ter inventado uma máquina do tempo e precisa de um cartão de crédito que funcione em 2002. Questionado pela jovem atendente sobre porque ele deseja voltar a 2002, o cliente responde: por causa da Copa do Mundo Coreia/Japão, quando as pessoas se encontravam nas ruas, nos estádios, se abraçavam emocionadas. 

Aloners (Coreia do Sul, 2021), de Hong Sung-Eun. 

Fabian – O mundo está acabando

A melancolia, angústia e desesperança da República de Weimar determina o contexto histórico do filme. Aos jovens, resta apenas aproveitar a boemia das noites de Berlim, enquanto tentam inutilmente estudar, trabalhar, sonhar com atividades artísticas. 

Fabian é um jovem publicitário que trabalha para uma empresa de cigarros. Ele conhece e se apaixona por Cornelia, uma bela e ambiciosa atriz. Seu melhor amigo é Labude, filho de um rico industrial que vive em bordéis, bêbado, enquanto tenta concluir sua dissertação de mestrado sobre literatura. 

Fabian perde seu emprego, é abandonado por Cornelia que se envolve com um produtor de filmes, Labude entra em uma jornada depressiva movida a álcool e prostitutas. Tudo caminha para essas incertezas sombrias que pairam sobre a Alemanha pré-nazismo, sobre a Europa, sobre a humanidade. Dois momentos trágicos simbolizam que não existe mesmo futuro para esses jovens sonhadores. 

Fabian – O mundo está acabando (Fabian oder der gang vor die hunde, Alemanha, 2021), de Dominik Graf. Com Tom Schilling (Jacob Fabian), Albrecht Schuch (Labude), Saskia Rosendahl (Cornelia).

O conto do caranguejo rei

A narrativa abre com um grupo de velhos amigos em um bar. A conversa gira em torno da história de Luciano, que deixa dúvidas entre a veracidade e a lenda. Um dos amigos, que diz tê-lo conhecido melhor, passa a narrar os fatos que transformaram esse personagem em uma espécie de mito nesta remota região da Itália. 

Luciano, filho de um importante médico da cidade, é cuidador de cabras e alcoólatra.  Certo dia, o príncipe fecha o portão de seu palácio, impedindo o acesso de Luciano ao caminho mais curto para pastorear seus animais. Revoltado, ele esmurra o portão até arrombá-lo, começando assim uma contenda com a aristocracia que termina de forma trágica. 

O filme se divide em duas partes. Na primeira, além da briga com o príncipe, Luciano tem um tórrido romance com Emma. Na segunda, após a tragédia que termina em morte, Luciano se exila em uma ilha da Argentina, na Terra do Fogo, em busca de um tesouro possivelmente escondido pelos piratas em um lago, habitat dos caranguejos. .  

O grupo de amigos no bar determina o tom da narrativa: os contos populares, as lendas folclóricas. A jornada de Luciano é marcada por paixão, defesa dos mais pobres diante da nobreza, tragédia que o transforma em um possível assassino, exílio em uma região cujos desafios são quase desumanos. Essa história repleta de reviravoltas aproxima o personagem dos famosos heróis consagrados pela poesia épica, pelo teatro, pela literatura e pelo cinema. Assim como em A odisséia, o filme segue os princípios clássicos que determinaram a narrativa dramática: a jornada do herói. 

O conto do caranguejo rei – The tale of king crab (Re Granchio Alessio Rigo de Righi, Itália, 2021), de Matteo Zoppis. Com Gabriele Silli (Luciano), Maria Alexandra Lungu (Emma), Severino Sperandio (Severino). 

O beco do pesadelo

O filme abre com uma sequência enigmática: Stanton Carlisle joga um cadáver no buraco aberto no assoalho de uma sala e, a seguir, coloca fogo na casa. De longe, no campo, observa as chamas tomando conta do horizonte. 

Após o prólogo, a narrativa é dividida em duas partes. Na primeira, Stanton consegue trabalho em um circo, cujos espetáculos variam dos tradicionais números de mágica a exibições de aberrações, como o selvagem que mata e come uma galinha. Stanton se torna amante da vidente Zeena e aprende com seu marido a arte da adivinhação através das cartas. Ele se apaixona pela jovem Molly, também artista do circo, e os dois fogem.

Na segunda parte, Stanton é um vidente de sucesso, rico, ganha a vida em apresentações em clubes e fazendo apresentações particulares para a elite endinheirada. O vigarista começa uma perigosa relação amorosa com Lilith, advogada ambiciosa e inescrupulosa que frequenta a alta sociedade. 

A galeria de personagens circenses da primeira parte da narrativa é o grande destaque do filme. Pessoas que transitam entre a arte e a marginalidade, cometendo atos violentos e grotescos em favor da sobrevivência mambembe, enquanto vivem na ilusão deste mundo miserável, porém, glamouroso. O final surpreendente une as duas partes, demonstrando o apego de Guillermo Del Toro às características básicas da narrativa clássica: transformação de personagem, estrutura circular, a jornada física e psicológica do protagonista por um mundo repleto de obstáculos cruéis e, como revela o final, desumano. 

O beco do pesadelo (Nightmare alley, EUA, 2021), de Guillermo Del Toro. Com Bradley Cooper (Stanton Carlisle), Cate Blanchett (Lilith Ritter), Toni Collette (Zeena), Willem Dafoe (Clem), Richard Jenkins (Ezra Grindle), Rooney Mara (Molly), Ron Perlman (Bruno), Mark Povinelli (Major). 

Noite incerta

O Prólogo anuncia: “Em um armário na sala S18 de um dormitório da Escola de Cinema foi encontrada uma caixa com itens variados, recortes de jornais, flores e cartões de memória. No meio havia cartas escritas por uma estudante de cinema identificada apenas pela inicial L.”

A narrativa parte da leitura dessas cartas, endereçadas ao namorado da jovem. O conteúdo é o amor, a saudade, a desilusão diante do abandono, tristes lamentos sobre a divisão de castas na Índia que, possivelmente, foi a causa da separação dos enamorados. Trechos revelam a agitação estudantil na Universidade de Cinema, motivada pela destituição de um importante diretor. 

A diretora Payal Kapadia compõe um misto de documentário e ficção, imagens poéticas de ambientes urbanos e rurais, de manifestações estudantis, de pessoas das mais diversas idades e classes em meio a esse cotidiano por vezes lírico, outras vezes angustiante, talvez cruel, da sociedade indiana.  

Noite incerta (A night of knowing nothing, Índia, 2021), de Payal Kapadia.