Mimetismo

A trama se passa em uma grande casa de campo, durante um congresso universitário de apresentação de artigos científicos. O jovem professor Jakub é o responsável pela organização do evento, tendo que prestar contas sempre a Jaroslaw, seu antigo professor. 

Os longos embates entre os dois professores, de posições intelectuais conflitantes, dominam a narrativa. Outro conflito acontece entre um grupo de alunos, insatisfeitos com os rumos das apresentações, e os organizadores. 

O diretor Krzysztof Zanussi retrata neste pequeno microcosmo burguês intelectual a situação da Polônia durante o regime comunista, marcada por conflitos de classes, por embates entre os velhos representantes do partido e os jovens ansiosos por mudanças. É o eterno conflito de gerações, radicalizado em uma sociedade que insiste em preservar os valores sociais, políticos e culturais do regime dominante. 

Mimetismo (Barway ochronne, Polônia, 1977), de Krzysztof Zanussi. Com Piotr Garlicki (Jaroslaw Kruszyński), Zbigniew Zapasiewicz (Jakub Szelestowski), Christine Paul (Nelly). 

Os palhaços

O início do filme dá o tom deste documentário, misturado com ficção: um menino observa deslumbrado da janela de seu quarto a montagem de um circo. Na noite de estreia, ele está presente, mas ao se ver cara a cara com um palhaço, corre assustado para casa. O menino, claro, é Fellini, o circo é o seu cinema. 

De início, a narrativa abre espaço para o picadeiro do circo com suas atrações, Depois, concentra-se em diversos palhaços que interpretam seus números, cantam, dançam, revelam a arte circense desses anônimos que tomaram conta do imaginário de crianças mundo afora. É a homenagem de Fellini aos palhaços que ele tanto amou e copiou: personagens mascarados, espécies de super-heróis ao avesso, espontâneos, atrapalhados, impudicos, quase sem limites em suas reverberações corporais. 

Os palhaços (I clowns, Itália, 1970), de Federico Fellini. 

Iluminação

O filme abre com o Professor Wladyslaw Tatarkiewicz discursando para o espectador sobre o conceito de iluminação, definido por Santo Agostinho. A seguir, uma série de cenas do jovem Franciszek Reitman passando por provas físicas e psicológicas, visando sua aprovação em uma conceituada universidade polonesa para estudar física. 

A narrativa acompanha os conflitos psicológicos de Franciszek durante seus estudos e sua convivência social. É um embate entre a razão e a fé, entre o racionalismo e a emotividade. Tudo se transforma para o jovem estudante quando ele se apaixona, casa e tem um filho. 

Ao acompanhar dez anos na vida de Franciszek, o diretor Krzysztof Zanussi tece uma profunda reflexão sobre a juventude polonesa do pós-guerra que busca sentido para a vida na sociedade regida pelo comunismo. Promessas que não se cumprem, amores que devem sobreviver ou não às dificuldades cotidianas, a busca pelo trabalho, pelos estudos, o essencial contraponto entre a fé e a razão, é a Polônia refletida em um cinema poderoso e poético. 

Iluminação (Iluminacja, Polônia, 1973), de Krzysztof Zanussi. Com Stanislaw Latallo (Franciszek Retman), Monika Dzienisiewicz (Agnieszka), Małgorzata Pritulak (Małgorzata). 

O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin

O historiador Mark Cousins disse que o cinema dos anos 70 trouxe aquilo que sempre quisemos ver nas telas. Está se referindo a nudez, sexo, violência. Sergio Grieco, diretor italiano do movimento conhecido por nunsploitation, faz parte desta galeria de realizadores que invadiram o cinema da época com filmes ousados, polêmicos, recheados de erotismo, sem se preocupar com o bom gosto. 

As excomungadas de São Valentin narra uma história de amor baseada em Romeu e Julieta. Esteban, da nobre família Albornoz, é apaixonado por Lucita Fuentes, cujo pai, Alfonso Fuentes, não aceita esse namoro, pois as duas famílias são rivais eternas. Como punição, Lucita é enclausurada em um convento Para completar, Alfonso acusa falsamente Esteban de um homicídio, tornando-o foragido da justiça. Perseguido pelos guardas, Esteban, ferido, se refugia no convento onde Elisa está. 

O filme se passa inteiramente dentro do convento. Elisa é asseadiada por Josefa, sua colega de quarto lésbica (atenção para a cena em que Josefa se acaricia nua na cama de Elisa). Logo depois, Josefa é assassinada e mistérios começam a ser investigados, revelando o sadismo sexual da Madre Superiora. 

A película é recheada de cenas de nudismo (seios das freiras aparecem em profusão), tortura praticada pela inquisição e uma sequência aterradora de amparedamento das freiras. Depois de tanto atrevimento, abusando do gosto duvidoso, Sergio Grieco brinda o espectador com uma virada na história de Romeu e Julieta. 

O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin (Le scomunicate de San Valentino, Itália, 1974), de Sergio Grieco. Com Françoise Prévost (Madre Superiora), Jenny Tamburi (Lucieta Fuentes), Paolo Malco (Esteban Albornoz), Franco Ressel (Alfonse Fuentes), Gino Rocchetti (Joaquim), Bruna Beani (Josefa).

Expresso para Bordeaux

Expresso para Bordeaux é o último filme do consagrado Jean-Pierre Melville, diretor que se destacou pelas suas ambições técnicas e narrativas, se aproximando do chamado “cinema de qualidade” francês. A narrativa acompanha um triângulo amoroso entre os amigos Edouard e Simon, ambos apaixonados por Cathy. É um filme policial com as características do cinema noir (Melville queria homenagear o gênero do cinema que mais amava, o americano). 

Simon lidera uma quadrilha de assaltantes. A longa e silenciosa primeira sequência é o assalto ao banco em uma cidade próxima a Paris. É a marca de Melville, presente em quase toda a progressão narrativa da pelicula: grandes silêncios, planos longos, muitas vezes em plano sequência. O caminho dos dois amigos se cruzam tragicamente durante a investigação desse e de outros crimes, colocando, principalmente Edouard, diante de seus princípios. 

O destaque da trama é a sequência do assalto ao trem, quando Simon e seus dois comparsas usam um helicóptero à noite. De novo, a marca de Melville: uma sequência longa e silenciosa, quase toda centrada em Simon, que desce do helicóptero para o teto do trem e depois para o interior. Expresso para Bordeaux é um clássico que exige do espectador aquilo que o cinema tem de potente: a necessidade da contemplação. 

Expresso para Bordeaux (Un flic, França, 1972), de Jean-Pierre Melville. Com Alain Delon (Comissário Edouard), Catherine Deneuve (Cathy). Richard Crenna (Simon), Riccardo Cucciolla (Paul Weber).

A noite americana

François Truffaut sempre afirmou como o cinema americano foi importante em sua formação de cineasta. Ele disse que assistiu mais de 1.500 filmes estadunidenses, escreveu críticas poderosas a respeito do cinema clássico e publicou um dos livros mais importantes sobre cinema da história: Hitchcock/Truffaut – Entrevistas

A noite americana é sua grande homenagem ao cinema que amava e por extensão ao cinema do mundo inteiro. É um filme sobre o processo de fazer filmes, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

O próprio Truffaut interpreta Ferrand, um diretor de cinema durante a realização de um filme de gênero. Sua estrela é a bela Julie Baker que faz par romântico com Alexandre. Durante as filmagens, as relações entre a equipe apresentam as nuances típicas das relações de trabalho: conflitos, agressividades, afetuosidade, relações amorosas, sexuais… Cabe a Ferrand apaziguar tudo isto, pois tudo que ele deseja é terminar seu filme. 

“Truffaut realça a transitoriedade, a fragilidade e a irrealidade da vida em uma locação de filmagem – deixando até mesmo, em uma cena hilária e surpreendente, que um intruso solte o verbo para criticar essa gente de cinema por sua imoralidade desenfreada. A noite americana expõe de forma carinhosa muitas ilusões do processo de filmagem – como podemos constatar quando o sentido de seu título é revelado – mas mantém a nossa admiração diante da magia dos filmes. Como ocorre em outras obras de Truffaut, as cenas de montagem rápida – dedicadas ao frenesi da sala de edição, ou a complicada cena filmada com neve artificial – exprimem afeto profundo e apreço pelas coisas práticas de seu ofício.”

A noite americana (La nuit américaine, França, 1973), de François Truffaut. Com François Truffaut (Ferrand), Jacqueline Bisset (Julie Baker), Jean-Pierre Léaud (Alphonse), Valentina Cortese (Séverine). Jean-Pierre Aumont (Alexandre).  

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Céline e Julie vão de barco

Céline está lendo, sentada em um banco de frente para a rua. Julie, uma jovem vestida de forma exuberante, carregando uma grande bolsa, passa na sua frente e, poucos metros adiante, deixa cair um objeto. Céline pega o objeto e corre atrás da jovem. É o início da longa sequência inicial, Céline persegue Julie que deixa cair outros objetos, como uma despretensiosa brincadeira. 

Jacques Rivette, um dos fundadores da nouvelle-vague francesa, compõe uma obra que remete àqueles deliciosos contos orais que se transformam à medida que passam de voz em voz. Céline e Julie, elas passam a morar juntas, compartilham uma íntima amizade, marcada até mesmo por trocas de identidades. Realidade e imaginação se misturam nas mais de três horas de duração da narrativa. As duas frequentam uma misteriosa casa onde estranhos fatos acontecem, habitada por personagens teatrais ou cinematográficos que repetem, de forma divertida, a mesma esquete. 

“Os espectadores que não entendem francês nunca descobrirão o verdadeiro sabor deste filme, a começar pelo título (Céline e Julie passeiam de barco), que não significa nada, mas, em francês, abre portas para contos, piadas e histórias infantis. Céline et Julie vont em bateau é a senha para um reino onde os caminhos sinuosos trilham o limiar entre o mundo exterior e os sonhos, entre presente e passado, realidade e ficção. Quando Alice seguiu o Coelho Branco, adentrou outro mundo. Quando Julie (Dominique Labourier) entrou no mundo de Céline (Juliet Berto), aparentemente fez algo semelhante, mas, na verdade, não. Qual a diferença? O fato óbvio, porém crucial, é que Alice no país das maravilhas é um livro, e Céline é um filme, feito por um dos mais exigentes e sutis críticos de cinema, Jacques Rivette, que se converteu em notável explorador da natureza do cinema por meio de um questionamento de suas relações com o mundo real e com outras formas de arte.”

Céline e Julie vão de barco (Céline et Julie vont en bateau, França, 1974), de Jacques Rivette. Com Juliet Berto, Dominique Labourier, Bulle Ogier.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

El Topo

David Lyn classifica El Topo como um de seus filmes favoritos. Nada a estranhar, pois o surrealismo e a escatologia são presenças marcantes nas obras de Lyn e Jodorowsky. 

A narrativa é dividida em duas partes. Na primeira, o pistoleiro El Topo, que cavalga sempre em companhia de um menino nu, busca os assassinos responsáveis por um massacre em um povoado. É o típico western que irrompeu os anos 70 com cenas violentas e sanguinárias. O encontro do pistoleiro com os assassinos, liderados por um coronel, é um banho de sangue. 

Na segunda parte, El Topo deixa o menino para trás e cavalga em companhia de Mara, amante do Coronel. Completamente apaixonado, atende a um pedido de Mara: matar os quatro mestres do deserto, guerreiros invencíveis. É a virada da narrativa para o misticismo, para o simbolismo religioso, para inserções metafóricas sobre o sentido da vida e da morte. O sangue continua a jorrar, agora pontuado por cenas caricatas e diálogos nonsenses. 

El Topo foi praticamente banido dos cinemas mexicanos e dividiu críticas mundo afora. Alejandro Jodorowsky sempre buscou recursos para filmar a continuação da saga do mítico pistoleiro, mas parece que, aos olhos do mundo, um El Topo é suficientemente repulsivo. 

El Topo (México, 1979), de Alejandro Jodorowsky. Com Alejandro Jodorowsky (El Topo), Mara Lorenzio (Mara), Brontis Jodorowsky (O menino), Pablo Leder (Monge 1), Giuliano Girini Sasseroli (Monje 2), Christian Merkel (Monje 3), Aldo Grumelli (Monje 4).

Solaris

Muito se diz sobre as semelhanças entre Solaris e 2001 – Uma odisseia no espaço (1969), de Stanley Kubrick. Os dois filmes exigem a entrega contemplativa do espectador; trabalham com intrincadas reflexões psicológicas, envolvendo a busca por entender o mistério da vida; têm passagens abertamente surrealistas, como longas viagens metafísicas; os finais são abertos, incompreensíveis, porém plenos de significados. Enfim, são dois clássicos da ficção científica, do cinema.

Solares é baseado em um romance de Stanislaw Lem, escritor polonês, publicado em 1961. Tarkovski adaptou livremente a obra, incluindo sequências inexistentes no romance, como no início. Em uma bela casa de campo, o psicólogo Kris Kelvin tem uma longa conversa com o piloto Berton, sobre a estação espacial soviética do planeta Solaris. Mortes misteriosas acontecem a bordo, a missão de Kris é ajudar a tripulação. 

Corta para Solaris, Kris encontra mais um membro da tripulação morto e os dois restantes com sérias perturbações psicológicas. Para surpresa do psicólogo, ele encontra também sua  falecida esposa Hari, que passa a mover Kris rumo ao seu passado, suas memórias e desejos mais ocultos. 

“Entretanto, essa convidada não é apenas manifestação física. Possui inteligência, ego, memória e ausência de lembranças. Não sabe que a Hari original se suicidou. Questiona Kelvin, quer saber mais a respeito de si mesma, acaba deprimida ao perceber que não pode ser quem parece. Até certo ponto seu ser é limitado ao que Kelvin sabe a seu respeito, uma vez que Solaris não pode saber mais do que Kelvin; este tema fica mais claro na refilmagem de 2002, de Steven Soderbergh e George Clooney.” – Roger Ebert.  

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A montanha sagrada

A narrativa é dividida em duas partes. Na primeira, um homem com semelhanças físicas ao Jesus Cristo consagrado pelo cinema, transita por uma paisagem agreste, tem o rosto coberto por moscas, é sequestrado por um grupo de crianças e amarrado em uma cruz. O crucificado é salvo por um anão sem pés e mãos. Os dois desenvolvem uma relação de amizade e agressão. 

Na segunda parte, um alquimista reúne um grupo de pessoas, cada um representando um planeta do sistema solar. O misticismo se evidencia em referências ao tarô, estranhos rituais, invocação a deuses e busca pela Montanha Sagrada. 

A experimentação surrealista escatológica (recheada de cenas que beiram a repulsa) de Alejandro Jodorowsky contou com apoio financeiro de John Lennon e Yoko Ono. As duas histórias se encontram, sem coerência narrativa, através de um intrincado jogo de imagens e frases soltas, bem ao estilo Jodorowsky de provocar estranheza em graus elevados. 

A montanha sagrada (The holy mountain, Mèxico, 1972), de Alejandro Jodorowsky. Com Alejandro Jodorowsky, Horacio Salinas, Zamira Saunders, Juan Ferrara.