Os Panteras Negras

O curta-metragem de Agnès Varda foi filmado durante o verão de 1968, quando os Panteras Negras se reuniram em manifestações em Oakland, Califórnia. O motivo das manifestações foi chamar a atenção para o julgamento de Huey Newton, um dos fundadores da organização. Huey Newton respondia pela acusação de homicídio de um policial branco durante uma batida policial em um bairro negro de Oakland.

Agnès Varda não se isenta de tomar partido, focando nas manifestações de rua e nos discursos dos líderes dos Panteras Negras. É um documentário sóbrio, tradicional, mas provocativo. A câmera a serviço do real, a edição pontuada por imagens e frases precisas, transformaram o filme em um dos mais importantes registros históricos deste revoltante contexto racista da década de 60 nos EUA. 

Os panteras negras (Black panthers, França, 1968), de Agnès Varda.

A padeira do bairro

Este curta-metragem abre a série Contos Morais de Éric Rohmer. Um jovem estudante de direito se sente fascinado por Sylvie, uma mulher que cruza com ele em dias seguidos nas ruas do bairro. Quando Sylvie desaparece, ele passa a frequentar uma padaria, desenvolvendo uma atração pela atendente do estabelecimento. 

Érick Rohmer apresenta neste curta as características que vão demarcar seus filmes seguintes, separados por séries temáticas: jovens se encontram nas ruas das cidades, nos bares e cafés, no campo, nas belas praias francesas e desenvolvem relações que oscilam entre a amizade e o romance. Debates, reflexões em primeira pessoa, diálogos, enquanto se movem incessantemente, os personagens de Rohmer conversam, divagam, seguem movidos por questionamentos e relações ao acaso. 

A padeira do bairro (La boulangère de Monceau, França, 1963), de Éric Rohmer. Barbet Schroeder, Claudine Soubrier (Jacqueline), Michèle Girardon (Sylvie). 

Saudações, cubanos!

Em dezembro de 1962, Agnès Varda visitou Cuba a convite do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos. Sua estada de pouco mais de um mês no país de Fidel Castro, logo após a revolução, resultou em cerca de quatro mil fotos tiradas por Varda. As fotos foram expostas em Paris, depois a diretora se debruçou em um trabalho minucioso para fazer esta espécie de documentário animado a partir de fotografias. 

É o retrato vivo da Cuba ainda imberbe da revolução, o próprio título determina o olhar de Agnès Varda: o que interessa são as pessoas, os moradores dessa ilha explorada durante décadas pela ditadura de Fulgencio Batista e pela elite americana. Arte, cultura, com destaque para os movimentos musicais, a vida simples de moradores e trabalhadores, as imagens fascinam, encantam, deixam em cada frame a sensação de um sonho, uma utopia. 

Saudações, cubanos! (Salut les cubains, França, 1963), de Agnès Varda.

The hand

O filme de média-metragem de Wong Kar Wai (cerca de 60 minutos) foi lançado como parte de uma trilogia de contos, Eros, junto com dois outros episódios dirigidos por Antonioni e Steven Soderbergh. A narrativa com forte teor erótico acompanha o jovem alfaiate Zhang que, em linha de sucessão de seu mestre, deve fazer os vestidos da bela Sra. Hu. Logo no primeiro encontro, ele é seduzido por ela, em um jogo que mistura prazer e dominação. 

Este primeiro encontro fascina o espectador pela estética característica de Wong Kar Wai – os planos fechados cobertos de cores quase extravagantes do ambiente, a câmera num misto de sensibilidade e fetiche à medida que as mãos da Sra. Hu provocam o jovem alfaiate. O tema do filme é também o envelhecimento do corpo, não da memória: à medida que a doença consome o corpo da Sra. Hu, os dois vão viver nos desejos daquela primeira noite mágica. 

The hand (China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Gong Li (Miss Hua), Chang Chen (Zhang), Tin Fung (Master Jin). 

Mur murs

A câmera de Agnés Varda, neste documentário em curta-metragem, percorre as ruas da grande Los Angeles, mostrando murais pintados por artistas anônimos. Os diversos temas traçam um retrato da cidade dos sonhos dos anos 80: violência de gangues, movimentos culturais das ruas, seitas religiosas, marginalizados… 

Como é comum em seus documentários, a cineasta tece comentários sobre as imagens, provocando a reflexão sobre a arte desses artistas anônimos, muitos deles também marginalizados que encontram nas paredes e muros das grandes cidades a possibilidade de se expressar. Muros e murmúrios ecoa como um grito pela beleza e vivacidade das obras. 

Mur murs (França, 1981), de Agnès Varda. 

Ulisses

Em 1954, Agnès Varda produziu e fotografou a famosa cena em uma praia coberta de pedregulhos no Sul da França. Ulisses é o nome do menino sentado, olhando a cabra morta. 

No curta, realizado na década de 80, a cineasta volta ao local da foto, conversa com os protagonistas, buscando as memórias daquele tempo, daquele registro. Através de imagens passadas e presentes, o curta é uma reflexão sobre a natureza de fotografar, sobre memórias perdidas, resgatadas, sobre pessoas simples que são, em determinados momentos, apenas um flash um suas vidas, eternizadas pela arte.  

Ulisses (Ulysse, França, 1983), de Agnès Varda. 

Ao longo da costa

Ainda no início da carreira como cineasta, Agnès Varda realizou este curta documental para o Escritório Francês do Turismo. A câmera passeia de forma descontraída pelas praias, ruas e monumentos da Riviera Francesa. No início a diretora avisa, vamos deixar o burro e a vaca de lado, alusão aos animais dos simples moradores da costa azul, pois o tema do documentário são os turistas que chegam aos milhares no verão europeu. 

Mesmo sendo uma encomenda oficial, o olhar crítico da diretora se traduz em um texto às vezes irônico e imagens simbólicas da imersão turística nas praias ensolaradas, apinhadas de turistas com seus corpos vermelhos expostos ao sol inclemente. 

Ao longo da costa (Du Côté de la Côte, França, 1958), de Agnès Varda.

Noite e neblina

O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

“A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008