Os Panteras Negras

O curta-metragem de Agnès Varda foi filmado durante o verão de 1968, quando os Panteras Negras se reuniram em manifestações em Oakland, Califórnia. O motivo das manifestações foi chamar a atenção para o julgamento de Huey Newton, um dos fundadores da organização. Huey Newton respondia pela acusação de homicídio de um policial branco durante uma batida policial em um bairro negro de Oakland.

Agnès Varda não se isenta de tomar partido, focando nas manifestações de rua e nos discursos dos líderes dos Panteras Negras. É um documentário sóbrio, tradicional, mas provocativo. A câmera a serviço do real, a edição pontuada por imagens e frases precisas, transformaram o filme em um dos mais importantes registros históricos deste revoltante contexto racista da década de 60 nos EUA. 

Os panteras negras (Black panthers, França, 1968), de Agnès Varda.

Mur murs

A câmera de Agnés Varda, neste documentário em curta-metragem, percorre as ruas da grande Los Angeles, mostrando murais pintados por artistas anônimos. Os diversos temas traçam um retrato da cidade dos sonhos dos anos 80: violência de gangues, movimentos culturais das ruas, seitas religiosas, marginalizados… 

Como é comum em seus documentários, a cineasta tece comentários sobre as imagens, provocando a reflexão sobre a arte desses artistas anônimos, muitos deles também marginalizados que encontram nas paredes e muros das grandes cidades a possibilidade de se expressar. Muros e murmúrios ecoa como um grito pela beleza e vivacidade das obras. 

Mur murs (França, 1981), de Agnès Varda. 

Sem sol

O documentário/ficção começa com uma frase dita por uma narradora feminina sobre a tela negra: “A primeira imagem de que ela me falou foi a de três crianças na estrada, na Islândia, em 1965.” Vemos, em seguida, a imagem das três crianças, que retorna em mais dois momentos do filme. 

A colagem do diretor, cuja arte pode ser entendida como a estética da montagem, trabalha com imagens filmadas na Europa, na Ásia e na África, amparadas por cartas da narradora/cinegrafista – ficção se intercalando às imagens documentais. 

Os registros incluem rituais religiosos, imagens de opressão, cenas da natureza como um vulcão prestes a entrar em erupção, cotidianos de ruas de grandes cidades. São as memórias do viajante/documentarista Chris Marker, expostas de forma afetiva, às vezes amparadas pelas belas frases das cartas, outras vezes expressas no mais puro silêncio. Arrebatador, talvez seja a palavra para definir Sem sol

Sem sol (Sans soleil, França, 1983), de Chris Marker. 

Os catadores e eu: dois anos depois

Dois anos depois do documentário Os catadores e eu, Agnès Varda volta ao tema, entrevistando novos personagens e revendo catadores do primeiro filme. A novidade é o olhar mais crítico, principalmente de quem depõe para a câmera da cineasta. O impacto do documentário provocou mudanças nas vidas de alguns deles.

Um dos catadores agora vivem em um abrigo, não mais em trailers à mercê de mudanças rotineiras. Jean, o catador professor é quem tem mais espaço, diz que continua com sua militância política contra o desperdício, mas agora tem mais exposição, participa de programas de TV, dá entrevista. A surpresa em seu depoimento é uma crítica ao trabalho de Agnès Varda. Ele comenta que não gostou da forma como a cineasta se expõe no filme, acha desnecessário para a narrativa e o tema suas aparições diante da câmera, quase como se fosse mais importante do que os próprios catadores. 

Nesta sequência, o filme apresenta mais uma reflexão do trabalho de documentar, no caso de Agnès Varda sem medo de se expor, tanto atrás como diante das câmeras. É um documento pessoal de quem observa, participa, reflete e tece críticas, às vezes sobre seu próprio trabalho. 

Os catadores e eu: dois anos depois (Les glaneurs et la glaneuse… deux ans après, França, 2002), de Agnès Varda.

Daguerreotypes

Por uma feliz coincidência do destino, Agnès Varda morou grande parte de sua vida em uma rua de Paris chamada Daguerre. Neste documentário, a fotógrafa e cineasta retrata os moradores de sua rua, pequenos comerciantes que vivem o cotidiano simples e corriqueiro de seus afazeres e prazeres. 

A cineasta comentou que seu filme é “uma análise casual dos meus vizinhos.” De manhã, Agnés Varda saía com sua câmera, puxando uma grande extensão de sua casa pela rua, pois não queria gastar energia dos estabelecimentos e casas onde registrava suas imagens singelas, ternas dos moradores da Rua Daguerre. Todos fotografados de forma casual, assim como preconizou um dos inventores da fotografia: Louis Daguerre.  

Daguerreotypes (França, 1975), de Agnès Varda.

As praias de Agnês

O documentário pode ser visto como uma espécie de testamento fílmico de Agnès Varda. A narrativa começa com a montagem de um cenário em uma das praias frequentadas pela fotógrafa/cineasta na infância. Encenações na praia se fundem a trechos de seus filmes, amparados por uma sensível e sincera narração em primeira pessoa. 

Parte da história do cinema francês, pouco antes e a partir da nouvelle-vague francesa, está registrado em As praias de Agnès. Os relatos e os filmes se imbricam com a vida pessoal de Varda, em momentos de emocionar, como no momento em que ela vê fotos de amigos mortos e, principalmente, ao comentar seu relacionamento com o também cineasta Jacques Demy. A rua onde ela viveu, em Paris, serve como cenário para a simulação de uma praia em plena capital francesa, com areia, sombrinhas, mesas de trabalho como se fosse uma produtora de cinema ao ar livre. Em um trecho, a cineasta tenta definir cinema: “O que é o cinema? É luz que chega de algum lado e que é retida pelas imagens mais ou menos escuras ou coloridas.” Filme a filme, memória a memória, Agnès Varda revela toda a sua paixão por essas imagens escuras ou coloridas e pela vida.  

As praias de Agnès (Le plages D’Agnès, França, 2008), de Agnès Varda.

Ao longo da costa

Ainda no início da carreira como cineasta, Agnès Varda realizou este curta documental para o Escritório Francês do Turismo. A câmera passeia de forma descontraída pelas praias, ruas e monumentos da Riviera Francesa. No início a diretora avisa, vamos deixar o burro e a vaca de lado, alusão aos animais dos simples moradores da costa azul, pois o tema do documentário são os turistas que chegam aos milhares no verão europeu. 

Mesmo sendo uma encomenda oficial, o olhar crítico da diretora se traduz em um texto às vezes irônico e imagens simbólicas da imersão turística nas praias ensolaradas, apinhadas de turistas com seus corpos vermelhos expostos ao sol inclemente. 

Ao longo da costa (Du Côté de la Côte, França, 1958), de Agnès Varda.

Noite e neblina

O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

“A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008

Carta para Elia

Os cineastas da Nova Hollywood fizeram parte da primeira geração de cinéfilos a se aventurarem pela realização cinematográfica. Steven Spielberg e George Lucas deram os primeiros passos na direção influenciados pelos filmes e seriados que assistiram vezes sem conta na infância e adolescência. Spielberg afirma que depois de assistir a Lawrence da Arábia (1962) decidiu que sua vida seria o cinema. George Lucas não nega a influência decisiva dos filmes de Akira Kurosawa, principalmente A fortaleza escondida (1958) na criação de Star Wars

Em Carta para Elia, Martin Scorsese, com certeza o mais apaixonado pela história do cinema entre todos que participaram da Nova Hollywood, faz uma declaração bela, sensível e aficionada ao cinema de Elia Kazan. Scorsese desfila diante da câmera seu conhecimento insaciável sobre Kazan, discorrendo sobre a carreira e filmes do diretor. Dedica a maior parte das análises aos filmes que marcaram sua adolescência e influenciaram sua escolha pelo cinema: Sindicato de ladrões (1954) e Vidas amargas (1955). 

A mancha na carreira de Elia Kazan também é debatida por Scorsese. Na década de 50, Kazan depôs no Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, sob a presidência do senador Joseph McCarthy. Elia Kazan delatou colegas de trabalho, entre eles Lee Strasberg, do Actors Studio, supostamente por participarem de atividades associadas ao comunismo. Martin Scorsese não busca justificativas ou julga a delação de Kazan. 

Nos anos 70, os dois se aproximaram se tornaram amigos, trocaram confidências sobre a paixão em comum pelo cinema. Scorsese comenta que nunca conversou com Elia Kazan sobre o que representaram Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas na sua formação de cineasta. Prefere dizer: “Então, Elia. Isso sempre teve que ficar entre mim e os filmes e a única forma de poder lhe dizer o quanto significou para mim foi fazendo filmes.”

Carta para Elia (A letter to Elia, EUA, 2010), de Kent Jones e Martin Scorsese.  

Os catadores e eu

Um convite à reflexão. Em resumo, é o que instiga a procura do cinema documental. Mais ainda nos documentários de Agnès Varda que não se exime de também refletir sobre os temas e, principalmente, imagens de suas obras. Os catadores e eu, como o próprio título original sugere, é uma incursão em sua própria atividade. Um relógio sem ponteiros, que não marca o tempo, achado no lixo, adorna o escritório da cineasta. 

Assim, Agnès Varda talvez tenha se relacionado com outros catadores e expandiu suas reflexões. Descobriu e expôs o incrível mundo do desperdício, toneladas de alimentos jogados fora diariamente que servem para poucos catadores como alimento diário. 

O ponto de partida e sustentação do documentário é a associação com a arte, pintores célebres que retrataram mulheres catadoras que chegavam após a colheita. Na França, é uma atividade reconhecida por lei, os catadores podem entrar em propriedades privadas e recolher o que sobrou das colheitas. Um advogado catador anda com o código penal em mãos para deixar claro a todos seu direito. Dois outros personagens do documentário catam por ativismo político, têm emprego, mas se alimentam do que acham nas lixeiras. Artistas fazem sua arte com objetos recolhidos nas ruas, assim como Agnès Varda que, com a câmera na mão (deslumbrada com o poder das pequenas câmeras digitais) recolhe as imagens. 

O documentário é também uma reflexão sobre o cinema, como nas belas imagens de caminhões na estrada, enquadrados pelas mãos da diretora. Alguns ficam visíveis entre seus dedos, outros ela esmaga ao fechar a mão. São os caminhões que infestam as estradas, transportando mercadorias que serão consumidas, descartadas, catadas, em um ciclo interminável que separa a sociedade. 

Os catadores e eu (Les glaneurs et la glaneuse, França, 2000), de Agnès Varda.