A casa e o mundo

Bimala segue os preceitos determinados pela rígida sociedade indiana. É casada com o rico Nikhil e vive reclusa na mansão, na ala destinada às mulheres. Seu marido tem ideias progressistas a respeito da emancipação das mulheres e a incentiva a deixar a reclusão e conhecer seu amigo Sandip, um líder nacionalista que luta conta a colonização britânica na Índia. 

Bimala e Sandip desenvolvem, a princípio, uma relação comum a respeito das ideias nacionalistas. No entanto, essa relação caminha passo a passo para a atração física que ganha contornos irresistíveis e imprevisíveis, diante da conturbada situação política do país. 

A narrativa do aclamado diretor Satyajit Ray tem como contexto a Índia do início do século XX, quando os movimentos nacionalistas ganharam força. Ao mesmo tempo, a trama aponta questões que repercutem ainda hoje, como a divisão de castas indianas, a situação da mulher, oprimida pela cruel dominação masculina. O final trágico deixa pouco espaço para a esperança. 

A casa e o mundo (Ghare-Baire, Índia, 1984), de Satyajit Ray. Com Soumitra Chatterjee (Sandip), Victor Banerjee (Nikhl)), Swatilekha Sengupta (Bimala), Gopa Aich (A irmã). 

Saudações, cubanos!

Em dezembro de 1962, Agnès Varda visitou Cuba a convite do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos. Sua estada de pouco mais de um mês no país de Fidel Castro, logo após a revolução, resultou em cerca de quatro mil fotos tiradas por Varda. As fotos foram expostas em Paris, depois a diretora se debruçou em um trabalho minucioso para fazer esta espécie de documentário animado a partir de fotografias. 

É o retrato vivo da Cuba ainda imberbe da revolução, o próprio título determina o olhar de Agnès Varda: o que interessa são as pessoas, os moradores dessa ilha explorada durante décadas pela ditadura de Fulgencio Batista e pela elite americana. Arte, cultura, com destaque para os movimentos musicais, a vida simples de moradores e trabalhadores, as imagens fascinam, encantam, deixam em cada frame a sensação de um sonho, uma utopia. 

Saudações, cubanos! (Salut les cubains, França, 1963), de Agnès Varda.

The hand

O filme de média-metragem de Wong Kar Wai (cerca de 60 minutos) foi lançado como parte de uma trilogia de contos, Eros, junto com dois outros episódios dirigidos por Antonioni e Steven Soderbergh. A narrativa com forte teor erótico acompanha o jovem alfaiate Zhang que, em linha de sucessão de seu mestre, deve fazer os vestidos da bela Sra. Hu. Logo no primeiro encontro, ele é seduzido por ela, em um jogo que mistura prazer e dominação. 

Este primeiro encontro fascina o espectador pela estética característica de Wong Kar Wai – os planos fechados cobertos de cores quase extravagantes do ambiente, a câmera num misto de sensibilidade e fetiche à medida que as mãos da Sra. Hu provocam o jovem alfaiate. O tema do filme é também o envelhecimento do corpo, não da memória: à medida que a doença consome o corpo da Sra. Hu, os dois vão viver nos desejos daquela primeira noite mágica. 

The hand (China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Gong Li (Miss Hua), Chang Chen (Zhang), Tin Fung (Master Jin). 

Os jogadores de xadrez

Dois nobres indianos passam todo o tempo jogando xadrez. Enquanto uma crise assola o país, a Índia foi anexada ao Império Britânico e os golpistas exigem a abdicação do rei, a única preocupação deles é com o interminável jogo. 

Os jogadores de xadrez foi realizado em uma época na qual a censura imperava na Índia. A alegoria de nobres absolutamente desinteressados e passivos diante dos conflitos sociais e políticos foi a forma do aclamado diretor Satyajit Ray tecer sua crítica mordaz. A narrativa se passa em 1856, mas pode ser visto, ainda hoje, como um retrato satírico da colonização que assolou países do mundo inteiro, sob o olhar complacente da política e das elites locais. 

Os jogadores de xadrez (Shatranj ke khilari, Índia, 1977), de Satyajit Ray. Com Sanjeev Kumar (Mirza), Saeed Jaffrey (Mir Roshan), Shabana Azmi (Khurshid), Farida (Nafisa). 

O amigo da minha amiga

O filme é uma espécie de ciranda amorosa. Dois casais de amigos moram e trabalham nos arredores de Paris. Lea e Fabien são namorados ocasionais, não se decidem pelo relacionamento. Alexandre é um jovem sedutor, desejado por diversas mulheres. Blanche está solteira e em conflito com sua dificuldade em manter namoros. Blanche se apaixona por Alexandre, que nutre desejos por Lea. À medida que conhece melhor Blanche, Fabien se encanta mais e mais pela garota. 

O amigo de minha amiga é o último filme da série Comédias e Provérbios, de Éric Rohmer: “Os amigos dos meus amigos são meus amigos.” A narrativa segue os passos dos quatros jovens, com destaque para Blanche, e seus encontros e desencontros amorosos. Tudo com descontração e bom humor, refletindo as incertezas da juventude diante de seus relacionamentos. O final do filme é divertido e deixa no ar este gosto de quero mais do cinema de Eric Rohmer. 

O amigo da minha amiga (L’Ami de mon amie, França, 1987), de Éric Rohmer. Com Emmanuelle Chaulet (Blanche), Sophie Renoir (Lea), Eric Viellard (Fabien), François-Eric Gendron (Alexandre). 

Noites de lua cheia

O filme faz parte da série Comédias e Provérbios, de Éric Rohmer, começando, como sempre, com uma citação (neste caso, o provérbio foi inventado pelo próprio diretor): “Quem tem duas mulheres perde a alma, quem tem duas casas perde a cabeça.”

A jovem Louise mora nos arredores de Paris com seu namorado, o tenista Remi. Trabalha em Paris, onde tem um apartamento que está alugado. Quando o inquilino deixa o imóvel, Louise decide decorá-lo e fazer dali sua segunda morada, onde decide passar alguns dias da semana sozinha.

Louise representa a mulher que busca sua emancipação, desejosa de ter liberdade em seus relacionamentos. Ela ama Remi mas quer aproveitar suas noites em baladas, longe do namorado. Seu companheiro destes momentos é Octave, casado, mas que nutre uma paixão por Louise – que em diversos momentos se transforma em puro assédio. 

Através de suas comédias e provérbios, Éric Rohmer traça um retrato descompromissado e descontraído da juventude. Em Noites de lua cheia, os personagens estão envoltos nos conflitos provocados pelos relacionamentos amorosos, por desejos de liberdade, de novas experiências. A infidelidade de Louise, de Remi, de Octave, despeja no espectador o frescor da juventude.

Noites de lua cheia (Les nuits de la pleine lune, França, 1984), de Éric Rohmer. Com Pascale Ogier (Louise), Tchéky Karyo (Remi), Fabrice Luchini (Octave), Virginie Thévenet (Camille).

Mur murs

A câmera de Agnés Varda, neste documentário em curta-metragem, percorre as ruas da grande Los Angeles, mostrando murais pintados por artistas anônimos. Os diversos temas traçam um retrato da cidade dos sonhos dos anos 80: violência de gangues, movimentos culturais das ruas, seitas religiosas, marginalizados… 

Como é comum em seus documentários, a cineasta tece comentários sobre as imagens, provocando a reflexão sobre a arte desses artistas anônimos, muitos deles também marginalizados que encontram nas paredes e muros das grandes cidades a possibilidade de se expressar. Muros e murmúrios ecoa como um grito pela beleza e vivacidade das obras. 

Mur murs (França, 1981), de Agnès Varda. 

Mouchette – A virgem possuída

A adolescente Mouchette vive no campo. Seu dia é dividido entre cuidar da mãe, que tem uma doença terminal, e frequentar a escola, onde pratica atos delinquentes, como jogar torrões de terra nas colegas, escondida abaixo da estrada. Um dia, ao sair da escola, resolve ir para casa pelo bosque e é surpreendida por uma tempestade. Ela se abriga na cabana do caçador Arsène, que acabara de ter um confronto com o guarda florestal Mathieu que pode ter terminado em morte.

A trágica narrativa de Robert Bresson evoca sentimentos inerentes à natureza humana das personagens: desejos ardentes, entrega aos vícios, provocações mútuas que levam a agressões. Mouchette participa e se entrega a estas experiências com ousadia e agressividade, quase ciente de seu destino trágico. A obra-prima de Robert Bresson é instigante e perturbadora.

Mouchette, a virgem possuída (Mouchette, França, 1967), de Robert Bresson. Com Nadine Nortier (Mouchette), Jean-Claude Gilbert (Arsène), Jean Vimenet (Mathieu), Marie Cardinal |(Mãe de Mouchette). 

Meu tio da América

O filme começa com narração em off do professor Henri Laborit (personagem real), sobreposta a imagens estáticas de plantas, rios, árvores, detalhes de objetos em ambientes diversos. O professor discorre sobre o motivo da existência humana, apresentando suas teorias sobre o evolucionismo. A seguir, voz feminina apresenta, também sobre imagens estáticas, os personagens. Jean Le Gall, político e professor de história. Janine Garnier, aspirante a atriz  que se torna uma importante estilista. René Ragueneau, funcionário de carreira de uma indústria têxtil. Henri Laborit, médico, professor e pesquisador com importantes descobertas nas áreas anestésica e de reanimação. 

O fio condutor da narrativa são as teorias do professor, entremeadas com as histórias dos outros três personagens que servem como espécie de cobaias e comprovações das teses apresentadas. Eles passam por conflitos que os colocam em posições desafiadoras no trabalho, no casamento, levando a escolhas entre a tranquila vida cotidiana e rupturas. A princípio isoladas, as histórias se cruzam. 

O título se refere a uma metáfora, há um possível tio na América dos personagens que serve como exemplo de ressurgimento de sucesso no país onde todos os sonhos são possíveis. Com esta trama complexa, misto de documentário e ficção, Alain Resnais faz uma crítica cruel e, ao mesmo tempo, bem humorada da sociedade formada por pessoas que precisam manter suas posições seguras enquanto desejam com ardência outros caminhos. 

Meu tio da América (Mon oncle D’Amérique, França, 1980), de Alain Resnais. Com Gérard Depardieu (René), Nicole Garcia (Janine), Roger Pierre (Jean), Nelly Borgeaud (Arlette).

O vagabundo

Raghunath é um prestigiado juiz, casado com Leela. Certa noite, sua esposa é sequestrada pelo bandido Jagga que tem contas a acertar com o juiz. Raghunath o condenou à prisão sem provas, alegando que “filho de bandido será sempre bandido.” Quando descobre que Leela está grávida, o bandido a liberta após cinco dias de cativeiro. Ao saber da gravidez de sua esposa, a dúvida sobre a paternidade se instaura de forma destruidora na mente do juiz. 

A trama expõe questões inerentes ao cruel sistema paternalista não só da Índia, mas da humanidade. O juiz nega a paternidade e seu filho se transforma no Vagabundo do título, cumprindo o destino determinado pelo próprio pai (a vingança de Jagga). Esteticamente, o filme traz a marca do cinema de qualidade desenvolvido em Bollywood, com cenários perfeitos, o melodrama e o musical pontuando a narrativa – gêneros preciosos ao cinema indiano, sequências glamourosas e extravagantes (os sonhos de Raj). 

O vagabundo (Awaara, Índia, 1951), de Raj Kapoor. Com Raj Kapoor (Raj), Nargis (Rita), Prithviraj Kapoor (Juiz Raghunath), K. N. Singh (Jagga), Leela Chitnis (Leela)