Lar dos esquecidos

O terror parece ser o gênero da segunda década do século XXI. Basta ver a quantidade de produções que são lançadas nos diversos streamings. Lar dos esquecidos, produção alemã disponível na Netflix, segue as normas do gênero, além de fazer referência explícita ao clássico A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero. 

A narrativa abre com um brutal assassinato: um idoso mata sua cuidadora, massacrando sua cabeça com um cilindro (referência à aterradora cena de Irreversivel). Corta para Ella dirigindo em uma estrada com seus dois filhos. O destino é a sua cidade natal, um povoado com poucos moradores, a maioria deixou a cidade. Restou aos idosos da cidade uma casa de repouso, onde foram praticamente abandonados pelos parentes. 

Na noite do casamento da irmã de Ella, os idosos se revoltam, acometidos por uma espécie de vírus que os torna violentos e sanguinários. Segue-se um massacre na cidade, com os idosos sitiando a casa onde aconteceu a festa. É a noite dos mortos vivos, no caso, idosos abandonados, relegados a uma vida solitária e sem perspectivas em uma casa de repouso decrépita. Terror e crítica social se misturam em Lar dos esquecidos.  

Lar dos esquecidos (Old people, Alemanha, 2022), de Andy Fetscher. Com Melika Foroutan (Ella), Louie Betton (Alex), Paul Fassnacht (Aike), Ott Emil Koch (Noah), Stephan Luca (Lukas), Anna Unterberger (Kim). 

Fabian – O mundo está acabando

A melancolia, angústia e desesperança da República de Weimar determina o contexto histórico do filme. Aos jovens, resta apenas aproveitar a boemia das noites de Berlim, enquanto tentam inutilmente estudar, trabalhar, sonhar com atividades artísticas. 

Fabian é um jovem publicitário que trabalha para uma empresa de cigarros. Ele conhece e se apaixona por Cornelia, uma bela e ambiciosa atriz. Seu melhor amigo é Labude, filho de um rico industrial que vive em bordéis, bêbado, enquanto tenta concluir sua dissertação de mestrado sobre literatura. 

Fabian perde seu emprego, é abandonado por Cornelia que se envolve com um produtor de filmes, Labude entra em uma jornada depressiva movida a álcool e prostitutas. Tudo caminha para essas incertezas sombrias que pairam sobre a Alemanha pré-nazismo, sobre a Europa, sobre a humanidade. Dois momentos trágicos simbolizam que não existe mesmo futuro para esses jovens sonhadores. 

Fabian – O mundo está acabando (Fabian oder der gang vor die hunde, Alemanha, 2021), de Dominik Graf. Com Tom Schilling (Jacob Fabian), Albrecht Schuch (Labude), Saskia Rosendahl (Cornelia).

Nos corredores

Difícil imaginar um filme atraente e fascinante transcorrido quase que inteiramente dentro de uma loja de departamentos. Mas logo no início de Nos corredores essa sensação desaparece. Começa com cenas silenciosas de uma estrada, corta para os corredores vazios da loja de departamentos, entram quadros quase estáticos e ainda silenciosos, imagens de empilhadeiras, prateleiras repletas de produtos, freezers…

Corta para Christian em seu primeiro dia de trabalho, sendo entrevistado por Rudi, responsável pelo turno noturno da empresa. Christian começa como ajudante de Bruno, um experiente operador de empilhadeiras do setor de bebidas. Pouco depois, entra em cena Marion, funcionária de outro setor. É o plot twist da narrativa: os dois desenvolvem um estranho relacionamento marcado também pelo silêncio, pelos gestos, por olhares e frases rápidas na sala de café. Paixão que se anuncia. 

O filme trata dessas relações de trabalho movidas pelo companheirismo, pelo afeto, pela ajuda nas pequenas dificuldades cotidianas, pela amizade. Fora do trabalho, a vida desses personagens é quase desconhecida entre eles, misteriosa, esconde problemas muito mais difíceis de compartilhar. 

O diretor Thomas Stuber trata de tudo com sensibilidade, permitindo ao espectador conhecer lentamente cada um dos personagens. Voltemos ao início do texto. Difícil imaginar um filme atraente e fascinante transcorrido quase que inteiramente dentro de uma loja de departamentos. Bem, assista Nos corredores e se deslumbre com o poder da imagem nas mãos de realizadores sensíveis, como Thomas Stuber, capaz de captar a poesia de uma empilhadeira se movendo pelos corredores. 

Nos corredores (In den gangen, Alemanha, 2018), de Thomas Stuber. Com Franz Rogowski (Christian), Peter Kurth (Bruno), Sandra Huller (Marion), Andreas Leupold (Rudi). 

Love steaks

Clemens chega a um hotel de luxo, é inverno, ele acaba de ser contratado como massagista. Lara é ajudante do chef de cozinha, bem-humorada, irreverente, mas é alcoólatra. Os dois jovens começam um relacionamento, a princípio como amigos que se ajudam no cotidiano no trabalho, depois como namorados, relacionamento marcado também pela irreverência, por brincadeiras eróticas nas dependências do hotel. 

O diretor Jakob Lass assume a inspiração no Dogma 95 em seu filme. O casal de protagonistas é interpretado por profissionais, todos os outros atores e atrizes são funcionários do hotel onde a película foi filmada. A linha tênue da narrativa, sem grandes atrativos, é compensada por improvisos e ousadas cenas de nudez. Lara chama a atenção com sua energia e vivacidade,entregando-se ao álcool muito mais como uma proposta de vida. 

Love steaks (Alemanha, 2013), de Jakob Lass. Com Franz Rogowski (Clemens) e Lara Schemelling (Lara).

Bagdad Café

A canção I’m calling you já vale o filme. Ela entra no espectador e fica, apenas fica. No entanto, o filme tem muito mais. É uma emocionante história de perda e renascimento pessoal, movida pela relações pessoais entre duas mulheres que começam com estranheza, beiram a agressividade, passam pela compreensão até se transformarem na mais sincera amizade. 

A alemã Marianne está de férias com seu marido nos EUA. Eles se desentendem e ele a abandona em uma estrada deserta e árida. Ela caminha por um longo tempo até encontrar o Bagdad Café, restaurante e pousada de beira de estrada. É recebida pela proprietária Brenda, se hospeda e vai ficando por ali. 

Os tipos que moram e trabalham no Bagdad Café compõem um painel de personagens excêntricos, exóticos, que passam os dias entre desentendimentos e reconciliações. A transformação de Marianne começa quando ela decide organizar o local, ajudando Brenda primeiro na limpeza, depois no atendimento aos clientes, oferecendo divertidas apresentações de mágica. O que fica, no final, além da música, é essa simplicidade da vida que pode e deve ser sentida dia-a-dia através das ternas relações entre as pessoas. 

Bagdad Café (Out of Rosenheim, Alemanha, 1987), de Percy Adlon. Com Marianne Sagebrecht (Jasmin), CCH Pounder (Brenda), Jack Palance (Rudi Cox), Christine Kaufmann (Debby), Monica Calhoun (Phyllis), Darron Flagg (Salomo), George Aguilar (Cahuenga), G. Smokey Campbell (Sal). 

A caixa de Pandora (1919)

Lulu (Louise Brooks) usa de sua escancarada sensualidade para seduzir os homens que a cercam, entre eles um rico editor de jornal e o filho deste. Impulsiva, não se furtando a escandalizar a sociedade, Lulu gradativamente encaminha todos que se envolvem com ela à decadência física e moral. A caixa de Pandora (1919) é dos mais impressionantes filmes de todos os tempos. A encarnação de Louise Brooks como mulher fatal, de beleza arrebatadora, que exige apenas que a câmera se centre em seu rosto ingênuo, definiu muito do que se entende como erotismo destrutivo no cinema.

“Pabst cerca Brooks de impressionantes coadjuvantes e cenários fabulosos (o espetáculo no abarrotado camarim do cabaré ofusca tudo o que acontece no palco), porém é a personalidade vibrante, erótica, assustadora e comovente da atriz que gera identificação com o espectador moderno. A mistura de imagem e atitude de Brooks possui tanta força e frescor que ela faz Madonna parecer Phyllis Diller. Seu estilo de interpretação impressiona pela ausência de maneirismo para a era muda, dispensando os recursos da mímica e da maquiagem expressionista. Seu desempenho é também de uma extraordinária honestidade, já que nunca apela para a pieguice.”

A caixa de Pandora (Die buchse der Pandora, Alemanha, 1919), de G. W. Pabst. Com Louise Brooks, Fritz Kortner, Francis Lederer, Carl Goetz.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A onda

O que mais assusta é o aviso inicial: “baseado em fatos reais.” Rainer Wenger (Jurgen Vogel) é professor de uma escola secundária na Alemanha. O professor oferece uma disciplina sobre autocracia, mas sua vontade era lecionar sobre democracia. Rainer, admirado por seus alunos pelo estilo descontraído de ensinar, resolve construir uma experiência. Durante uma semana, ele forma na classe uma espécie de grupo, intitulado A onda. O professor é o líder, agindo passo a passo na consolidação de um regime fascista. Os alunos se entusiasmam com a ideia e partem para a ação, praticando um jogo com consequências imprevisíveis.

A onda faz parte deste importante cinema alemão contemporâneo que se propõe a discutir o passado nebuloso da nação. Em uma aula, os alunos se recusam a conversar sobre o nazismo. O professor faz então uma aposta arriscada, pois a maioria da classe não acredita ser possível o renascimento do nazismo na Alemanha.

O filme acende luz de alerta, não só em questões políticas, pois várias nações passam por um processo de recrudescimento da extrema direita. Alerta também para o papel das escolas, do educador, na formação política da adolescência. A onda é um filme alemão que dialoga com todos os países, principalmente com aqueles onde os jovens se armam com a facilidade de quem compra uma calça jeans.

A onda (Die welle, Alemanha, 2008), de Dennis Gansel. Com Jürgen Vogel, Frederick Lau.

O anjo azul

O professor Immanuel Rath (Emil Jannings) imitando o cacarejo de galinha diante de sua suprema humilhação é das cenas mais poderosas do início do cinema sonoro. A trama de O anjo azul foi concebida para aproveitar o sucesso de Emil Jannings, mas revelou ao mundo Marlene Dietrich, com todo o talento dramático e erótico da atriz. O autoritário professor vai ao cabaré que dá nome ao filme procurar e repreender severamente seus alunos que frequentam o lugar atraídos por Lola (Marlene Dietrich). Seduzido por Lola, o professor começa sua jornada rumo à decadência.

“Baseada no romance de Heinrich Mann, esta é uma história sobre a decadência, sobre o ‘movimento descendente’. No decorrer dela, Rath será reduzido a um palhaço quase inumano – espelhando o palhaço que aparece antes no papel de um dos vários duplos irônicos do malfadado herói. Sternberg frisa, com um rigor exemplar e sistemático, a verticalidade das relações de espaço no filme: Rath está sempre em uma posição mais baixa, erguendo os olhos para a imagem de Lola (como quando ela joga sua calcinha em cima da cabeça dele), a não ser quando – numa paródia da sua posição autoritária – é bajulado pelo sinistro diretor do teatro.”

O anjo azul (Der blaue engel, Alemanha, 1930), de Josef von Sternberg. Com Emil Jannings, Marlene Dietrich, Kurt Gerron, Rosa Valetti.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schn

O castelo

K chega a uma aldeia castigada pela neve, entra na taberna e diz ser o topógrafo contratado pelo superintendente do Castelo. Os frequentadores logo dizem que ninguém foi contratado para executar tal tarefa e K começa uma peregrinação pela cidade, tentando se comunicar com os responsáveis. Conhece Frieda, amante do superintendente, de quem fica noivo, consegue emprego de supervisor na escola local, mas continua sem entender os motivos da renúncia de todos com relação à sua permanência na aldeia.

O filme de Michael Haneke, feito para a TV austríaca, busca fidelidade ao romance inacabado do escritor Franz Kafka. Os diálogos são literais, com narração em off descrevendo, na maioria das vezes, as imagens. Cortes bruscos, com a tela enegrecida, marcam as passagens de tempo.

“O enredo repleto de ambiguidades perturba, mas também faz rir, e abriga um tema caro a Kafka: o homem em conflito com a falta de sentido dos entraves burocráticos e engolido por eles. Seu personagem principal, K, é um agrimensor que chega a uma aldeia para supostamente medir as terras de um conde. Lá, não se sabe exatamente, no entanto, quem o contratou e por quê. A instância da autoridade é o castelo, mas seus representantes nem sempre estão ao alcance.” – Eduardo Simões.

Referência: O castelo: um filme baseado na obra de Franz Kafka. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Eduardo Simões. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2013   

O castelo (Das schloss, Alemanha/Áustria, 1997), de Michael Haneke. Com Ulrich Muhe (K), Susanne Lothar (Frieda), Frank Giering (Arthur), Felix Eitner (Jeremias), André Eisermann (Barnabas).

O gabinete do Dr. Caligari

O Dr. Caligari chega a Holstenwall, pequena cidade do interior da Alemanha, para apresentar sua atração na feira: o sonâmbulo Cesare acorda ao comando do Doutor e faz previsões assustadoras. Ao mesmo tempo, assassinatos começam a acontecer na cidade e a polícia elege Cesare o principal suspeito.

Esta narrativa mesclando policial e suspense se transformou no filme precursor do expressionismo alemão. O filme introduz as principais características estéticas que passam a dominar o gênero terror. A fotografia é estilizada, sombras assustadoras se projetam na parede. Rostos pálidos, recortados no negro, traduzem o medo. O clima gótico sobressai, recriando a noite tenebrosa das cidades. Os personagens são caricaturais, com interpretações teatrais. Por fim, o cenário é deturpado: casas amontoadas, janelas triangulares, móveis de dimensões desproporcionais, paredes sujas, quartos cubiculares, tudo remete ao mundo da arte expressionista.

Em contrapartida, Robert Wiene comanda o filme de forma conservadora, quase como se filmasse uma peça de teatro. “Surpreendentemente, Wiene, menos inovador do que a maioria dos seus colaboradores, faz pouco uso da técnica cinematográfica. (…) O filme se baseia completamente em recursos teatrais, com a câmera fixa no centro, mostrando o cenário e deixando os atores (especialmente Veidt) encarregados de todo movimento e impacto.” – 1001 filmes para ver antes de morrer

O gabinete do Dr. Caligari é um manifesto artístico nestes anos de construção da narrativa e da estética do cinema. A partir de Caligari, fotografia, iluminação, maquiagem e cenário alcançaram o status da arte nas telas do cinema. “O jogo dos atores integra-se à decoração, integrada à maquilagem e ao vestuário, integrados, por sua vez, à iluminação e aos cenários, num conjunto plástico e deformado, como se uma pintura expressionista tomasse vida e se movesse. Esta estilização de todos os elementos dramáticos do filme será designada, desde então, por caligarismo – expressionismo cinematográfico levado às últimas conseqüências.” – As sombras móveis: atualidade do cinema mudo.

O gabinete do Dr. Caligari (Das kabinett des Doktor Caligari, Alemanha, 1919), de Robert Wiene. Com Werner Krauss (Dr. Caligari), Conrad Veidt (Cesare), Friedrich Feher (Francis), Dagover Hans.

Referências:

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

As sombras móveis: atualidades do cinema mudo. Luiz Nazário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999