
A morte de um burocrata (La muerte de un burocrata, Cuba, 1966), de Tomás Gutiérrez Alea.
O filme abre com o enterro de Paco, que passou a vida se dedicando ao trabalho, se transformando em exemplo nacional. Ele inventou uma máquina capaz de produzir bustos, estátuas, em série. A máquina apresenta um defeito, Paco tenta consertá-la e acaba sugado pelas engrenagens – a morte do operário é encenada em uma divertida sequência de animação.
A comédia pastelão, com toques de surrealismo, é uma crítica severa à burocracia estatal. A viúva de Paco recorre ao funcionalismo público para receber a pensão, mas não consegue devido a um fato: os sindicalistas, como forma de homenagem, enterraram Paco junto com sua carteira de trabalho. O sobrinho da viúva começa um périplo sem fim por instituições até que resolve desenterrar o cadáver à noite para recuperar o documento. A partir daí, a trama ganha os contornos do absurdo, bem ao estilo Luís Buñuel e das comédias pastelões do cinema mudo.
Segundo Tomás Gutierrez Alea, a ideia do filme surgiu de suas experiências pessoais, pois ele teve que resolver problemas domésticos e passou a conviver com a burocracia.
“Cheguei a um ponto em que me senti tão agoniado que tinha ânsias de ‘justiçar’ um burocrata. Tinha acumulado muitas situações de violência reprimida. Os problemas do cotidiano aumentavam e eu vivia irritado. A decisão de fazer esse filme foi uma psicoterapia incrível: me permitiu desviar a violência que estava sentindo e jogá-la no filme. Continuava com minhas dificuldades domésticas – ia aos escritórios, enfrentava funcionários burocratas e perdia muito tempo – mas de algum modo me enriquecia: levava um caderno de apontamentos onde anotava situações, comportamentos, dados. Meus esforços se converteram num trabalho de pesquisa que acabou sendo interessantíssimo e comecei a enfrentar a situação com grande senso de humor. “
Elenco: Salvador Wood, Silvia Planas, Manuel Estanilo, Omar Alfonso.
Referência: Gutierrez Alea: Os filmes que não filmei. Silvia Oroz.