O caçador de dotes

O caçador de dotes (A new leaf, EUA, 1971), de Elaine May. 

A atriz, roteirista e diretora Elaine May foi uma das únicas mulheres a participar do movimento Nova Hollywood, nos anos 70. Importante ressaltar que, historicamente, a indústria de cinema dos Estados Unidos, foi dominada por diretores. Durante a era de ouro de Hollywood, entre o surgimento do cinema sonoro e os anos 50, somente duas mulheres dirigiram filmes: Dorothy Arzner e Ida Lupino. 

Durante a Nova Hollywood, diretores como Scorsese, Coppola, Spielberg, Brian De Palma, Michael Cimino, William Friedkin, lançavam filmes anos após ano. No entanto, Elaine May dirigiu apenas quatro filmes, comprovando a segregação sexista de Hollywood. 

“Em comparação com seus pares masculinos, que têm seus filmes vastamente estudados até hoje, a filmografia de May ainda é um tesouro escondido na década de 1970. A cineasta tão aventureira e inovadora como qualquer de seus contemporâneos subverteu a comédia romântica com O caçador de dotes (1971) e Corações em alta (1972). Também flertou com o tema do anti-herói, frequente no movimento, sob uma perspectiva da fragilidade da masculinidade e dos laços de amizade em Mikey & Nicky (1976). Embora May tenha continuado a escrever e a atuar nas décadas seguintes, a maneira pela qual esta brilhante diretora foi deixada de lado pela indústria é sintomática. Elaine May foi uma artista independente que foi intransigente em busca de sua visão única, e seu corpo de trabalho, embora pequeno, é verdadeiramente extraordinário.” – Juliana Costa

O caçador de dotes, seu primeiro filme acompanha o improvável relacionamento entre Henry Graham (Walter Matthau) e Henrietta Lowell (Elaine May). Henry é um playboy e bon vivant que, logo no início do filme, descobre que torrou toda a sua fortuna. A única saída para recuperar seu estilo de vida e saldar as dívidas é se casar com uma mulher rica. A escolhida é Henrietta, botânica e professora universitária, herdeira de uma fortuna. Ela é incrivelmente aparvalhada, incapaz de se comportar “adequadamente” na alta sociedade e administrar com competência seus bens. Depois do casamento, Henry imagina várias formas de matar a esposa. 

O Caçador de dotes é uma comédia com ares de modernidade, mas que conserva também um tom mais clássico, evidenciado principalmente no personagem de Walter Matthau, um homem que, segundo seu mordomo, mantém vivas tradições que já estavam mortas antes dele nascer. (…). Mesmo assombrado com a falta de jeito e traquejo social de Henrietta e mantendo a intenção de matá-la, Henry passa aos poucos a se enternecer e a amparar Henrietta em suas dificuldades. E, ela, apesar de ter herdado muita riqueza de seu pai, leciona, publica artigos e se dedica muito a seu trabalho. Seu desejo é encontrar e classificar uma nova espécie de samambaia, que seria nomeada com seu sobrenome. Henry brinca que assim ela conquistaria a imortalidade.” – Carla Oliveira.

Durante as filmagens, Elaine May excedeu o cronograma e o orçamento. A edição final entregue a Paramount tinha três horas de duração. O estúdio exigiu que a diretora cortasse para 102 minutos. Depois da mudança, Elaine May não só renegou o filme, mas processou o estúdio, começando sua carreira de diretora já em conflito com a indústria. Passou a ter dificuldades em realizar novos projetos, mas lutou para manter sua independência criativa. Muitos outros homens da Nova Hollywood fizeram o mesmo e continuaram em intensa atividade. O caçador de dotes foi um sucesso de crítica e público, mas, na visão dos executivos de Hollywood, uma mulher não pode confrontar o sistema. 

Referências: 

O cinema da Nova Hollywood. Realizadores essenciais. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Video, 2024.

O cinema da Nova Hollywood. Pérolas da coleção. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Video, 2023.

O balão branco

O balão branco (Irã, 1995), de Jafar Panahi. 

Jafar Panahi começou a trabalhar como assistente de direção do mestre dos mestres iranianos Abbas Kiarostami. Em seu primeiro filme como diretor, contou com a colaboração de Kiarostami no roteiro. 

A narrativa de O balão branco transcorre no tempo cronológico de 85 minutos que antecede a chegada da celebração do ano novo iraniano. A menina Razieh está voltando para casa com sua mãe. Ela tenta convencer a mãe a lhe dar dinheiro para comprar um peixinho dourado, bem mais gordinho do que os que eles têm em casa.

Em casa, Razieh conta com a ajuda do irmão mais velho para vencer a resistência da mãe. Quando finalmente ganha uma nota de 500 tomans, Razieh sai feliz para comprar o peixinho, mas em uma série de contratempos no trajeto, perde o dinheiro e tem pouco tempo para recuperá-lo, antes da loja fechar. 

“A maior parte do filme é dedicada aos seus esforços para recuperar o dinheiro. O roteiro pode parecer fraquinho, mas o filme prende a atenção e é fascinante com personagens bem delineados e uma narrativa habilidosa. O empenho de Panahi para redefinir nossa noção de tempo durante o processo é notável. Aos poucos, somos seduzidos pela percepção que a menina tem sobre o transcorrer do tempo, evidenciada pelo desejo de ter o peixinho dourado e todos os obstáculos que ela enfrenta para adquiri-lo.” 

O balão branco venceu a Caméra d’Or do Festival de Cannes, consagrando, logo em sua estreia, Jafar Panahi como mais um mestre do cinema iraniano. Atenção para a sensível e delicada cena final, que justifica o título do filme. 

Elenco: Aida Mohammadkhani (Razieh), Mohsen Kafili (Ali), Fereshteh Sadre Orafaiy (a mãe). Mohammad Shahani (o soldado).

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A mão do diabo

A mão do diabo (La main du diable, França, 1943), de Maurice Tourneur.

Roland Bristol (Pierre Fresnay) entra em uma hospedaria no interior da França. A noite é chuvosa, com raios iluminando as janelas. Um grupo de moradores do vilarejo está reunido; eles sempre encontram à noite para contar histórias. 

Roland está sendo perseguido por alguém e assume um comportamento alerta e agressivo ao menor sinal do lado de fora. Ele não tem uma das mãos, em seu lugar está uma peça de porcelana. Ele se aproxima do grupo e, mais calmo, resolve contar a sua história, advertindo que é uma narrativa difícil de acreditar. 

Maurice Tourneur adaptou o conto La main enchantée de Gérard, do escritor Nerval. Pode-se associar o filme também à clássica história de Fausto que vendeu sua alma ao diabo em troca de juventude e sucesso. Roland, um pintor fracassado, se apaixona pela ambiciosa Irene (Josseline Gael) que não o aceita devido à sua pobreza. Em um restaurante, Roland é seduzido por um artefato em uma caixa e o compra do dono: a mão do diabo, que lhe traz sucesso, riqueza e o coração corrupto de Irene. No entanto, o preço será cobrado.

A narrativa e a estética da película são claramente influenciadas pelo expressionismo alemão e pelo cinema noir americano. O protagonista é consumido pela ambição e ganância e, depois, pela tentativa de redenção. A mão do diabo foi produzido pela Continental, produtora de capital alemão, durante a ocupação nazista na França. Por meio do terror psicológico, o diretor Maurice Tourneur conseguiu driblar a censura e inserir elementos metafóricos sobre a noite sombria que pairava sobre a França ocupada. 

Com Sonia Wieder-Atherton

Com Sonia Wieder-Atherton (França, 2003), de Chantal Akerman. 

O documentário abre com a violoncelista Sonia Wieder-Atherton ocupando sua cadeira em um palco, preparando-se para um concerto. Voz em off de Chantal Akerman: “Diz-se de Sonia Wieder-Atherton que ela escolheu o violoncelo porque queria tocar um instrumento de cordas cujo som poderia fazer durar o tempo que quisesse. Isso é verdade.”

Na primeira parte do documentário, Chantal deixa a violoncelista à vontade, diante da câmera parada, em um cenário escuro, para conversar sobre o começo de sua carreira, sua formação e aprimoramento, suas referências, em “uma mistura de lembranças e coisas que me contaram depois.”

Sônia nasceu em São Francisco e começou a tocar piano. Mudou-se com os pais para Nova York, onde descobriu o xilofone, sem abandonar o piano. Em 1968, após se mudar para a França, estudou violão por alguns anos. Até que descobriu o violoncelo para “fazer o som durar o tempo que eu quisesse.”

Na segunda parte, Sonia Wieder-Atherton interpreta, em fascinantes e sedutoras performances, peças curtas de Schubert, Brahms, Berio, Bach. Acompanhada ao piano por Imogen Cooper, Sonia demonstra sua visceral entrega física, psicológica e emocional ao instrumento.

“Diz-se também que muitas escalas parecem estreitas demais quando ela aparece. Isso é verdade. E que ela nos agarra, nos leva com ela, tão longe e tão fortemente em áreas desconhecidas, às vezes escura, às vezes clara, velha ou nova, em um mistura de prazer e tensão.” –  Chantal Akerman

Três estrofes em nome de Sacher

Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), de Chantal Akerman. 

O cenário é minimalista, como em grande parte dos filmes de Chantal Akerman. Um sofá com uma manta desarrumada em cima, uma pequena escrivaninha no lado oposto, uma cadeira, cortinas vermelhas deixando ver no centro uma parede com duas janelas lado a lado. Sonia Wieder-Atherton entra em cena, senta-se na cadeira com seu violoncelo e começa a tocar a primeira estrofe de Sacher. 

Durante o curta, a consagrada violoncelista, companheira de Chantal Akerman, toca Trois strophes sur le nom de Sacher, composições de Henri Dutilleux criadas em homenagem à Paul Sacher, regente e mecenas das artes. A interpretação visual da música conta com dois personagens que aparecem, sempre filmados de longe, nas janelas ao fundo do cenário, como se estivessem no cotidiano de suas casas, tomando café da manhã, passando roupas, observando a vida pela janela.

O curta foi realizado para ser exibido na televisão francesa. A direção de fotografia e a direção de arte deslumbram o espectador que se deixa levar de forma institiva para a bela performance musical de Sonia Wieder-Atherton.  

A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada

A criança amada ou eu brinco de ser uma mulher casada (L’Enfant aimé ou Je joue à étre une femme mariée, Bélgica, 1971), de Chantal Akerman. Com Claire Wauthion, Chantal Akerman, Daphné Merzer. 

A jovem Claire está em frente ao espelho, apenas de calcinha. Ela se observa atentamente e conversa consigo mesma. “Estou pálida. Meu pescoço é muito longo. Não sou tão alta quanto pareço. Porque tenho braços longos. Pernas longas. E cabeça pequena…” A cena, realizada em plano-sequência, dura cerca de cinco minutos.

O curta-metragem é o segundo filme de Chantal Akerman. Durante trinta minutos, a diretora documenta o cotidiano de Claire e Daphné, mãe e filha, em uma casa no campo, com fotografia em preto e branco. Chantal participa do filme, ouvindo os depoimentos de Claire sobre sexo, a maternidade, frustrações e desejos de uma jovem mãe. 

Em depoimento para o livro Hommage à Chantal Akerman, de Jacqueline Aubenas, a diretora demonstra sua insatisfação com o filme: “É um filme que nunca me satisfez. Apliquei ideias muito abstratas sobre rejeitar a montagem como uma manipulação do espectador, sem levar em conta que optar pelo plano-sequência é muito bonito, mas é preciso preparar e cronometrar esse tipo de tomada meticulosamente. Deixei acontecer, mas não resultou em nada.”

A mudança

A mudança (Le déménagement, França, 1993), de Chantal Akerman. 

Um homem (Sami Fry) entra em um apartamento, observa o ambiente ainda com coisas para arrumar: “Nem mesmo uma alma, apenas eu. Com uma alma, as coisas nunca acabam bem.” Ele se senta em uma cadeira de frente para a janela, a câmera o enquadra a distância, e bate palma: “Há um eco. É o eco de uma alma desaparecida.”

Durante todo o curta, Chantal Akerman filma o homem em interações leves com o apartamento. Ele passa grande parte do tempo em frente à janela, às vezes ele anda, medindo os passos para determinar a extensão de sua nova moradia. 

Em um longo monólogo, o homem reflete sobre sua solidão, sobre seu passado, sobre o silêncio que o espera, demonstrando arrependimento por ter mudado. Em determinado momento, ele relembra um verão na sua antiga residência, quando se apaixonou por três jovens vizinhas, estudantes. “Verão de 1982. Eu estava bem na época. A janela estava aberta, havia uma brisa entrando. A risada de três garotas vinha da casa ao lado. Na manhã, o ar ainda era fresco. Nada. Sem cansaço, um desejo de acordar. Nada. Exceto um homem parado. As suas risadas me davam vida. Um banho frio, uma calça leve, folgada. Camisa aberta, pés descalços. E assim eu vivia.”

A mudança é um filme sobre memórias, sobre o tempo que passa e deixa marcas e o desejo de repetir ou aproveitar melhor algumas coisas. Como a paixão por três jovens estudantes, em um momento em que você ouve a voz de seu próprio desejo: “Vou ver o mar amanhã.”

Retrato de uma mulher preguiçosa

Retrato de uma mulher preguiçosa (Portrait of a lazy woman, França, 1986), de Chantal Akerman. 

Chantal Akerman acorda em seu quarto bagunçado, olha para a câmera e diz: “Hoje é sábado e farei um filme sobre preguiça. Vou levantar em um minuto. Levante-se preguiçosa. Se arrume, tome um banho. Para fazer um filme você precisa levantar e se vestir.”

No ambiente, Sonia Wieder-Atherton, companheira de Chantal, toca violoncelo. Durante cerca de sete minutos, a diretora perambula pelos cômodos em seus afazeres cotidianos do amanhecer, sempre se lembrando que precisa fazer um filme sobre a preguiça. 

O curta de Chantal Akerman faz parte do projeto Sete mulheres, sete pecados (Seven women, seven sins, França, 1986), que reuniu diretoras na realização de curtas, cada uma tendo por base para a ideia um dos pecados capitais. Chantal Akerman trata a preguiça de forma metalinguística sobre o processo de fazer cinema, que exige força de vontade, disciplina, cumprimento de prazos rígidos e uma perseverança quase cruel em todas as etapas da realização. 

As outras autoras envolvidas no projeto são: Ulrike Ottinger, Maxi Cohen, Helke Sander, Bette Gordon, Lawrence Gravou e Valie Export. 

Cortinas fechadas

Cortinas fechadas (Pardé, Irã, 2013), de Jafar Panahi e Kambuzia Partovi. Com Kambuzia Partovi, Maryam Moghadam e Jafar Panahi. 

Em 2010, Jafar Panahi foi condenado pelo regime iraniano a seis anos de prisão. A acusação: “propaganda contra o sistema” e “atividades contra a segurança nacional.” Panahi apoiou a oposição nas eleições de 2009 e tentou filmar os protestos que se seguiram. 

Em prisão domiciliar, o diretor burlou a proibição de não realizar filme durante o período com duas obras: o premiado Isto não é um filme (2011) e Cortinas fechadas (2010), ambos realizados totalmente dentro das casas onde cumpria a pena. 

Cortinas fechadas abre com o morador recebendo clandestinamente um cachorro – o regime considera os cães impuros. Em uma cena de gelar o coração, o cão adotado está em frente à TV, onde passam cenas com cães agonizando nas ruas, após serem violentamente agredidos. 

O homem, um escritor, passa os dias em atividades rotineiras dentro de casa até que, uma noite, dois jovens em fuga da polícia invadem sua residência. A jovem é deixada aos seus cuidados e ela revela conhecer bem o passado do escritor. Em determinado momento, o diretor Jafar Panahi entra em quadro para consertar as cortinas, revelando que está fazendo um filme sobre a clausura do escritor – e também do cineasta. 

O filme é um poderoso manifesto contra as injustiças do regime iraniano, que pune artistas por suas atividades profissionais, jovens que buscam diversão ou protestam nas ruas e os inocentes animais, violentamente chacinados por serem “impuros”. Cortinas fechadas demarca também um dos principais temas das obras de Jafar Panahi: sempre é necessário e possível fazer um filme, pois a verdade deve ser revelada. 

Ouro carmim

Ouro carmim (Talaye sorgh, Irã, 2003), de Jafar Panahi. Com Hossain Emadeddin (Hussein), Kamyar Sheisi (Ali), Azita Rayeji (A noiva), Sharam Vaziri (O joalheiro). 

A sequência de abertura é assustadora. Hussein, um entregador de pizzas, está praticando um assalto em uma joalheira. A câmera foca a porta do estabelecimento de dentro para fora e grande parte da violência acontece fora de quadro. Hussein força o dono da joalheria a abrir o cofre com a arma na mão, enquanto do lado de fora pessoas passam, até que uma cliente entra na loja, vê a situação e foge. Enquanto o conflito entre assaltante e vítima fica cada vez mais violento, pessoas se aglomeram na rua e, aos gritos, tentam evitar o destino trágico que se anuncia. 

A combinação de autorias em Ouro carmim é poderosa: roteiro de Abbas Kiarostami, direção de Jafar Panahi, maiores expoentes do cinema iraniano, colecionadores de prêmios internacionais. A partir do gesto final no assalto, flashback acompanha o dia-a-dia de Hussein nas entregas que faz, principalmente em bairros nobres da cidade. 

Hussein sofre com problemas psíquicos e a tensão evolui à medida que se depara com a divisão de classes no Irã, agravada pelo violento regime que perpetua a injustiça. Outra sequência tão assustadora quanto a primeira, apesar de não-violenta, é quando Hussein entrega pizza em um suntuoso apartamento  e é convidado pelo morador a desfrutar dos luxos que o ambiente oferece, incluindo uma piscina térmica.