Alcarràs

O filme da diretora espanhola Carla Simón foi o grande vencedor do Festival de Berlim, conquistando o Urso de Ouro. A narrativa acompanha, de forma quase documental, uma família de agricultores em uma pequena vila catalã. A Família Solé cultiva a terra onde moram sem nunca terem adquirido o registro da propriedade, pois ganharam de presente do proprietário como reconhecimento: o patriarca da Família Solé, ainda vivo, salvou a vida do proprietário durante a Guerra Civil Espanhola. No entanto, os herdeiros originais não querem mais honrar o acordo e tentam expulsar os colonos, pois a terra vai receber modernos painéis de energia solar. 

O coletivismo dos agricultores é marcante, pontuando durante a narrativa o eterno conflito entre agricultores e atravessadores. O grande tema de Alcarràs é a desagregação familiar, dividida entre aceitar o trabalho assalariado na empresa de energia solar ou lutar pela independência e continuar cultivando a terra. O conflito entre geração, pai e filho, é responsável pelos momentos mais tensos e ternos do filme.

Alcarràs (Espanha, 2022), de Carla Simón. Com Josep Abad (Rogelio), Jordi Pujol Dolcet (Quimet), Anna Otín (Dolores), Albert Bosch (Roger), Xenia Roset (Mariona).

A mais bela

Um dos primeiros filmes de Kurosawa, A mais bela foi feito como uma espécie de encomenda da produtora, como parte do esforço de guerra japonês. A trama se passa inteiramente em uma fábrica de instrumentos óticos destinados a artilharias de guerra. O ritmo de produção deve ser acelerado para suprir as necessidades do conflito e cotas de produção são estipuladas. As trabalhadoras devem cumprir a metade da cota destinada aos homens.  Lideradas pela supervisoras Mizushima e  Watanabe, as mulheres exigem um aumento de cota. 

O filme representa uma visão feminista no japão durante a guerra, representada pela pequena rebelião das jovens trabalhadoras que não aceitam diferenças de cotas tão grandes entre elas e os homens. No entanto, resvala frequentemente para o ufanismo dos filmes do gênero, com as mulheres tentando se afirmar também como guerreiras, incluindo o sacrifício em jornadas extenuantes de trabalho.  O ponto forte da narrativa é a solidariedade, o carinho, o afeto que marcam o trabalho em equipe das operárias. 

A mais bela (Ichiban utsukushiku, Japão, 1944), de Akira Kurosawa. Com Takahashi Shimura, Soji Kiyokawa, Ichiro Sugai, Takako Irie.