O diário de uma camareira

O diário de uma camareira (França, 1964), de Luis Bunuel.

Céléstine (Jeanne Moreau) chega ao campo para trabalhar como camareira da rica, porém decadente, família Monteil.  Ela ganha a confiança do patriarca da família, velho mulherengo com fetiche por botas, é assediada pelo filho e se envolve com Joseph (Georges Géret), o jardineiro da propriedade. Joseph vai ser o principal suspeito do estupro, seguido de assassinato de uma criança da região. 

A virada acontece quando Célestine decide investigar o crime e se envolve de forma sedutora, usando sua sofisticação e beleza para se aproveitar da família cheia de “podres” para quem trabalha. O final é revelador do imenso desprezo que Luis Buñuel tratou a burguesia em grande parte de sua obra. 

O diretor espanhol, contando com a colaboração do consagrado roteirista Jean-Claude Carriere, tentou ser fiel ao livro homônimo de Octave Mirbeau. O tema, a decadência da burguesia e os conflitos de classe, é um dos favoritos de Buñuel. Destaque para a fascinante atuação de Jeanne Moreau cuja transformação é trabalhada com sutileza, deixando à mostra uma ambição que se constrói à medida que ela conhece, e não julga, o deplorável estilo de vida da família Monteil. 

Simão do deserto

Simão do deserto (Simón del desierto, México, 1965) faria parte de um filme conjunto entre Luis Bunuel e outros cineastas. No entanto, só o diretor espanhol filmou sua parte, colocando o filme na categoria de curta ou média-metragem, com cerca de 45 minutos de duração. 

Simão (Claudio Brook) é um fanático religioso que vive no topo de uma coluna no deserto e é adorado pelos habitantes da região (os representantes legais constroem, inclusive, uma coluna muito mais alta para abrigá-lo). Em alguns de seus intermináveis dias na coluna, Simão é assediado pelo próprio Diabo, interpretado por Silvia Pinal em diversas caracterizações. 

A ousadia surrealista de Luis Buñuel confronta os valores religiosos, desnudando a hipocrisia que permeia as atitudes da igreja. Filmado em uma única locação, a coluna e seus arredores áridos, os pontos fortes da película são a relação entre Simão e o Diabo, que assume diferentes formas, entre elas uma jovem mulher que destila erotismo e uma sedutora adolescente.  

Terra sem pão

Terra sem pão (Las Hurdes, Espanha, 1933) foi o terceiro filme de Luis Buñuel, um curta-metragem documental que retrata a vida miserável dos habitantes de Las Hurdes, aldeia localizada no norte da Espanha. Assim como outros documentários, como o clássico Nanook – O esquimó (1922), o diretor espanhol encenou, com a colaboração dos habitantes, grande parte das situações retratadas.

O fato triste e totalmente reprovável dessa estratégia é que a equipe de filmagem provocou as mortes de dois animais – um burro foi lambuzado de mel para que as abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. As cenas estão no filme. 

O curta é uma experiência terrível de se assistir pois retrata a miséria total de homens, mulheres e crianças, muitos com doenças mentais devido à desnutrição (Buñuel filma essas crianças). Mesmo encenado, o retrato é verdadeiro, o documentário foi baseado no estudo etnográfico Las Hurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), de Maurice Legendre. Terra sem pão foi banido da Espanha fascista e praticamente não foi exibido no resto do mundo, seguindo a sina do filme anterior de Luis Buñuel, A idade do ouro (1931), que também foi censurado.