A narrativa se baseia em uma premissa tradicional no cinema que ficou eternizada em clássicos como Pacto de sangue e Bonnie e Clyde: casal formado por personagens sedutores e glamourosos que habitam o universo do crime.
Em Perseguidos pelo destino, o jovem assaltante de bancos Gigi se apaixona por Bibi, uma extravagante e glamourosa piloto de competição automobilística. A jornada dos dois é uma entrega veloz e frenética à paixão, ao sexo, às emoções, ao perigo incessante. Gigi promete a Bibi um último golpe, pois tem uma dívida com os outros membros da gangue, seus amigos da adolescência delinquente. Tudo dá errado e acontece uma fascinante inversão de valores, com direito a decisões surpreendentes. O casal de protagonistas é a grande atração da película, desfilam charme e erotismo pela tela, enquanto caminham por estradas perigosas, movidos pela velocidade.
Perseguido pelo destino (Le fidèle, Bélgica, 2017), de Michael R. Roskam. Com Matthias Schoenaerts (Gigi), Adèle Exarchopoulos (Bibi), Eric De Staercke (Freddy), Jean-Benoit Ugeux (Serge).
A narração em primeira pessoa encaminha essa história de possível adultério, ciúme, obsessão e crime. A jovem esposa do arquiteto Poznyecev passa seus dias ensaiando a Sonata a Kreutzer, acompanhada de um também jovem violinista. A desconfiança se instaura na mente do arquiteto que passo a passo fica cada vez mais dominado pelo ciúme. Ele finge uma viagem a trabalho e volta repentinamente para casa, flagrando o casal de músicos deitados no sofá.
Jean-Luc Godard, que atua como coadjuvante, é o produtor do curta. Claude Chabrol e François Truffaut também aparecem em pontas. O projeto colaborativo dos jovens críticos de cinema tem uma atração à parte: Poznyecev vai encontrar seu amigo crítico (Godard) no trabalho, cujo cenário é nada mais nada menos que a própria Cahiers Du Cinema.
La sonate à Kreutzer (França, 1956), de Éric Rohmer. Com Éric Rohmer (Poznyecev), Françoise Martinelli (a esposa). Jean-Claude Brialy (Trukhacevskij).
O primeiro filme de Jodorowsky já deixa a impressão que marca sua carreira: provocar o espectador em diversos sentidos, estéticos, sensoriais, narrativos… Lis é uma bela e sedutora jovem paraplégica que precisa da ajuda de Fando para se locomover (não em uma cadeira de rodas, mas em um carrinho). Fando tem um ar ingênuo, infantil, durante a trama vai ser provocado por vários personagens, inclusive eroticamente.
A jornada da dupla se destina a encontrar a cidade mística de Tar, percorrendo uma região desértica, cujos caminhos intrincados são marcados por imensas rochas e pedregulhos. O filme é baseado na peça teatral de Fernando Arrabal, que assina o roteiro junto com Jodorowsky. Misticismo, surrealismo, erotismo, agressividade repulsiva (atenção para a cena em que Lis é espancada por Fando), escatologia, o espectador se depara com tudo que fez de Jodorowsky um dos mais rebeldes e provocativos cineastas da história.
Fando e Lis (México, 1968), de Alejandro Jodorowsky. Com Sergio Kleiner (Fando), Diana Mariscal (Lis).
Marion está em processo de separação. Ela viaja de férias para uma praia na Normandia, junto com a sobrinha Pauline, de 15 anos. A estada das duas é marcada por relacionamentos amorosos que se confundem: o surfista Pierre tem uma antiga paixão por Marion; Marion se envolve com Henri, um notório sedutor; Pauline começa um relacionamento com o jovem Sylvain, mas é assediada por Henri; Henri se envolve com a vendedora Rosette, que acaba complicando o namoro de Sylvain…
Da série Comédias e provérbios (Quem muito fala, prejudica a si mesmo) essa espécie de ciranda de relacionamentos tem a marca de Éric Rohmer. As levezas dos belos corpos ao sol e dos romances nas camas são tratados de forma natural, mesmo quando entram em terrenos perigosos, como o fascínio que Pauline exerce sobre os homens mais velhos. O portão da casa de praia que se abre no início e se fecha no final demarca a natureza desses encontros, desses embates amorosos: coisas do verão.
Pauline na praia (Pauline à la plage, França, 1983), de Éric Rohmer. Com Amanda Langlet (Pauline), Arielle Dombasle (Marion), Pascal Greggory (Pierre), Féodor Atkine (Henri), Simon de La Brosse (Sylvain), Rosette (Louisette).
O curta de Éric Rohmer, com dois personagens em cena, filmado inteiramente dentro de um apartamento (residência de Claude Chabrol), mistura humor, ironia e crítica social. Véronique, uma jovem tutora, tenta ensinar matemática e francês a uma criança. No entanto, o estudante refuta com análises lógicas, mesmo que baseadas em seu raciocínio infantil, as questões apresentadas pela tutora.
O destaque da trama são as investidas da criança contra a tutora e, naturalmente, contro os procedimentos de ensino. Tudo que a criança quer é despachar a professora e voltar para suas brincadeiras no chão da sala. Ficar livre daquilo é também a sensação expressa pela professora que, vez por outra, tira os sapatos e esfrega com impaciência (e talvez com leve erotismo) os pés. .
Véronique et son cancre (França, 1958), de Éric Rohmer. Com Nicole Berger (Véronique) e Alain Delrieu (estudante).
O filme tem um prólogo que remete a romances de férias de verão. Charlotte e Charles estão em uma praia deserta onde podem tomar sol e nadar nus. À noite, praticam sexo de forma quase selvagem (uma dos raros filmes de Rohmer que mostra cenas de sexo beirando o explícito). No final das férias, os amantes se despedem na estação de trem e Charlotte passa seu endereço para Charles.
Corta para Paris, cinco anos depois. É inverno, próximo ao natal. Charlotte trabalha como cabeleireira, é amante do dono do salão e tem outro namorado, Loic. Seu amor de verão ficou no passado (inadvertidamente ela passou o endereço errado e eles nunca mais se encontraram). Mas das tórridas férias de verão, nasceu Elise, agora com cinco anos.
Conto de inverno é o mais aclamado título da série Contos das quatro estações. Após o prólogo, a narrativa se desenvolve em poucos dias, centrada nas indecisões de Charllote quanto aos seus dois namorados, pois ela espera dia após dia a volta quase milagrosa de Charles, seu grande amor.
“Com este engenhoso, porém sombrio, estudo de uma fé desesperada e de um amor perdido, lembrando Minha noite com ela, e a quase irritantemente indecisa e egocêntrica heroína que lembra O raio verde, este é o território arquetípico de Rohmer, chegando por um reconhecimento perfeitamente calculado ao teatro de Shakespeare e, consequentemente, a um final miraculoso porém extremamente satisfatório. Como sempre, também, os desempenhos naturalistas são inteiramente plausíveis, o uso de locais evocativos – Paris e Borgonha – e as caracterizações (incluindo um bibliotecário intelectual e o chefe mais pragmático da garota como seus admiradores) precisamente representativos das escolhas com que a protagonista se defronta.”
O final da narrativa apresenta talvez o ápice do principal elemento narrativo que marca tantos filmes de Éric Rohmer: o acaso. O encontro entre Charlotte e Charles dentro de um ônibus em Paris, o olhar terno com que a menina (que já o conhece por fotos) reconhece o pai. Desses momentos encantadores do cinema.
Conto de inverno (Conte D’Hiver, França, 1992), de Éric Rohmer. Com Charlotte Véry (Félicie), Frédéric van den Driessche (Charles), Michel Voletti (Maxence), Hervé Furic (Loic), Chistiane Desbois (Mãe de Félicie), Ava Loraschi (Elise).
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Gaspard está de férias no litoral. Ele espera a chegada de sua namorada Léna e conhece Margot, com quem começa um relacionamento que oscila entre a amizade sincera e a atração. Entra em cena Solène, jovem com quem Gaspard tem um rápido namoro de verão. O triângulo entre Gaspard, Margot e Solène se complica quando Lèna finalmente chega.
A narrativa é movida, basicamente, pelos diálogos entre Gaspard e Margot, enquanto se movem incessantemente pelas belas paisagens da cidade litorânea. Os flertes e beijos entre Gaspard e as três jovens são entrecortados com reflexões sobre os relacionamentos, sobre as surpresas agradáveis, conflitos e frustrações inerentes entre pessoas que passam a se conhecer. A música que Gaspard compõe (ele é músico e ensaia composições leves ao violão), cantada pela bela voz de Solène, embala esses romances indecisos e fortuitos de verão.
Conto de verão (Conte D’Été, França, 1996), de Éric Rohmer. Com Melvil Poupaud (Gaspard), Amanda Langlet (Margot), Gwenaelle Simon (Solène), Aurelia Nolin (Léna).
A história começa com Stephen sozinho em sua casa de campo, à noite. Ele ouve o som de um acidente, corre até a estrada e se depara com um carro capotado. Anna é retirada com vida, mas o jovem William está morto. Narrativa em flashback reconstitui os dias anteriores ao acidente. A bela e sedutora Anna é aluna de Stephen, namora William e tem um caso com Charley, escritor e amigo do professor.
O diretor Joseph Losey buscou abrigo na Inglaterra na década de 60 para fazer seus filmes – ele entrou para a deprimente lista negra de Hollywood durante o macarthismo. Estranho acidente traz a sua marca, refletida em personagens marcados por desejos, obsessões, a necessidade íntima de almejar vidas diferentes. Stephen, casado, sua mulher está grávida, deseja sua bela aluna, enquanto nutre inveja do sucesso de seu amigo Charley, tanto profissional como no campo das seduções.
A trama é baseada no romance de Harold Pinter, com roteiro do dramaturgo Harold Pinter, outro autor perseguido por suas convicções políticas. O filme conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
Estranho acidente (Accident, Inglaterra, 1967), de Joseph Losey. Com Dirk Bogarde (Stephen), Stanley Baker (Charley), Jacqueline Sassard (Anna), Michael York (William), Vivien Merchant (Rosalind).
Este curta experimental foi filmado em 1951 como um filme mudo. Quase dez anos depois, Éric Rohmer resgatou a película e sonorizou a narrativa, com dublagens de Stéphane Audran e Anna Karina, uma das musas da nouvelle-vague. Mas o grande destaque é a participação de Jean-Luc Godard, com 21 anos, interpretando Walter.
Charlotte está esperando o horário do trem e, antes do embarque, vai até seu apartamento para preparar uma refeição rápida. Walter a acompanha e, enquanto Charlotte prepara um bife, fica o tempo todo encostado na parede. Os diálogos são curtos, os gestos se dividem entre a espera pelo bife (cujo tamanho impede de ser dividido entre os dois) e sugestões amorosas.
O curta é mais um exemplo de como jovens realizadores, no caso os ainda críticos da Cahiers Du Cinema, se envolvem em projetos colaborativos, trabalhando com ideias simples e fascinantes.
Charlotte e seu bife (Presentation ou Charlotte et son steak, França, 1960), de Éric Rohmer.
A narrativa é dividida em duas partes. Na primeira, um homem com semelhanças físicas ao Jesus Cristo consagrado pelo cinema, transita por uma paisagem agreste, tem o rosto coberto por moscas, é sequestrado por um grupo de crianças e amarrado em uma cruz. O crucificado é salvo por um anão sem pés e mãos. Os dois desenvolvem uma relação de amizade e agressão.
Na segunda parte, um alquimista reúne um grupo de pessoas, cada um representando um planeta do sistema solar. O misticismo se evidencia em referências ao tarô, estranhos rituais, invocação a deuses e busca pela Montanha Sagrada.
A experimentação surrealista escatológica (recheada de cenas que beiram a repulsa) de Alejandro Jodorowsky contou com apoio financeiro de John Lennon e Yoko Ono. As duas histórias se encontram, sem coerência narrativa, através de um intrincado jogo de imagens e frases soltas, bem ao estilo Jodorowsky de provocar estranheza em graus elevados.
A montanha sagrada (The holy mountain, Mèxico, 1972), de Alejandro Jodorowsky. Com Alejandro Jodorowsky, Horacio Salinas, Zamira Saunders, Juan Ferrara.