A árvore dos tamancos

A árvore dos tamancos (L’albero degli zoccoli, Itália, 1978), de Ermanno Olmi. 

O filme abre com uma sucessão de belas imagens dos campos da Lombardia, norte da Itália. Corta para o camponês Battisti e sua esposa conversando com o padre, que tenta convencê-los a enviar seu filho de cerca de sete anos para a escola. Contrariando a tradição dos pobres camponeses – os filhos desde criança devem ajudar os pais no trabalho, Battisti cede aos apelos do padre, mesmo o menino tendo que andar seis quilômetros para ir e voltar da escola. 

De volta para casa, Battisti e a esposa entram na pequena vila onde moram. Lettering informa: ‘Interpretado por camponeses e gente do campo bergamasco. Eram assim as propriedades lombardas no final do século XIX. Nelas viviam 4 ou 5 famílias de camponeses. A casa, os estábulos, as terras, as árvores, parte do gado e das ferramentas pertencia ao patrão, a quem eram devidas duas partes da colheita.”

A obra-prima de Ermanno Olmi, Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1976, resgata o neorrealismo italiano para narrar a triste e dolorosa exploração, quase escravidão, a que eram submetidos o camponeses. O dia-a-dia das famílias que habitam a vila perpassa fome, falta de perspectiva na criação dos filhos, injustiças e punições aplicadas pelo patrão. Resta aos camponeses o trabalho duro e o apego a uma profunda religiosidade. 

“Nesta recriação da vida dos camponeses da Lombardia, Ermanno Olmi oferece um contraponto à inquietude de seus retratos anteriores da Itália contemporânea: O emprego (1961), I fidanzati (1962), Um dia perfeito (1968), A circunstância (1973). Várias histórias emergem a partir dos detalhes do trabalho dos camponeses e da vida comunitária: o namoro e matrimônio de um jovem casal humilde; um pai cortando a árvore de seu senhoria a fim de fazer tamancos para seu filho ir à escola; um velho que fertiliza tomates com estrume de frango para que amadureçam mais rápido. A iluminação suave, aparentemente quase toda de fontes ‘naturais’, e, sobretudo, a trilha sonora discreta e bem colocada nos dão a sensação de assistir a uma realidade quase palpável. Os planos curtos são uma afirmação do diretor, não nos permitindo ficar envolvidos por muito tempo em qualquer atividade ou ponto de vista, deixando que o filme se amplie, calmamente, em múltiplas direções.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Os noivos

Os noivos (I fidanzati, Itália, 1963), de Ermanno Olmi.  

A abertura do filme é uma fascinante experiência visual. Um grupo de cidadãos entra em um salão de dança. Os músicos preparam seus instrumentos. Começam a tocar. Lentamente, homens e mulheres começam a dançar aos pares, em movimentos graciosos. Giovanni (Carlo Cabrini) e Liliana (Anna Canzi) estão sentados, olhando em silêncio para os dançantes. Têm as feições entristecidas, principalmente Liliana, que denota um semblante choroso. 

Cortes entre o salão de dança e a fábrica onde Giovanni trabalha anunciam o conflito entre o casal: Giovanni recebe uma proposta vantajosa para passar um ano e meio na Sicília, trabalhando na implantação da nova fábrica da empresa. 

O diretor Ermanno Olmi, aclamado por A árvore dos tamancos (1978) é um poeta das imagens. Os noivos transcorre de forma lenta, com imagens simbólicas de Giovanni na nova cidade, sozinho nas pensões onde mora, frequentando bares, na praia onde se entrega a um novo relacionamento, nas festas carnavalescas de rua. A música tema do início do filme pontua sua solidão, como a lembrar sempre da noiva em Milão. 

O estilo documental da câmera revela as referências do diretor: “Em uma conversa com Pasolini, estávamos discutindo o valor de um cinema que, como posso dizer, é tão próximo da realidade a ponto de se tornar nossa visão da realidade. Em outras palavras, reconhecemos o mundo em que vivemos através do cinema. O primeiro surto de inspiração com qualquer profundidade de valor cinematográfico foi com Rossellini. Os filmes de Rossellini me fascinavam porque você podia ver no cinema aquilo que você via nas ruas, na vida real. Naquela hora, eu não totalmente consciente, tive a intuição de que o cinema poderia ser uma forma de enxergar a realidade, não com a intenção de escapar da realidade, mas como sugestão de uma chave para entendê-la.”

A história de Giovanni e Liliana é pautada pela realidade da Itália que adentra a modernidade. As indústrias do norte invadem o sul agrícola, provocando uma ruptura cultural, nas tradições, nos valores morais, da Sicília conservadora. O princípio da modernidade também é a marca do novo cinema dos anos 60. Ermano Olmi comenta sua opção por uma estrutura inovadora.

“Quando fiz O emprega (1961) lembro que havia uma garota na edição. Eu ainda não me sentia preparado para a responsabilidade de editar um filme e eu disse para ela: ‘quando contamos a história dos trabalhadores em casa vamos apenas manter alguns planos deles em suas casas’. Ela contrapôs: ‘O espectador não entenderia.’ Então eu tinha que aceitar um mínimo de compromisso que me deixava insatisfeito. Com Os noivos, antes mesmo de começar a filmar, decidi utilizar o presente e um possível futuro. Quando os noivos trocam cartas de amor no final, isso não é o passado. É como eles se veem, projetado num futuro no qual eles se apaixonam novamente e dançam mais uma vez como noivos. Naquele ponto eu percebi que não podia mais me submeter a um estilo de edição convencional. Eu deveria intervir pessoalmente. Em Os noivos, por ter uma terceira dimensão temporal, que não é o presente, mas uma dilatação do presente no passado e no futuro, a música é uma ressonância interior. O tema musical da dança fica tocando na cabeça dele. Para nós, as memórias costumam vir acompanhadas de música.”

A s cenas de leitura das cartas, entrecortadas por imagens solitárias de Liliana e Giovanni, são muito mais do que sugestões de um passado ou um possível futuro: são palavras, frases, imagens e música que irrompem, deixando o espectador entregue a esse cinema poético.