Alucarda: a filha das trevas

Imagine a cena em um filme de hoje: duas jovens de 15 anos, internas em um convento, estão frente a frente, completamente nuas; lentamente seus rostos se aproximam e elas se beijam, um beijo longo e ardoroso.  Alucarda: a filha das trevas (Alucarda: the daughter of darkness, México, 1977), de Juan López Moctezuma, provocou polêmicas e repúdio não só por imagens como esta. Em um bosque, um grupo de homens e mulheres, em uma espécie de ritual satânico, praticam uma orgia. A estética da violência, comum no cinema dos anos 70, está em imagens de corpos mutilados, pessoas sendo queimadas, tentativas de exorcismo. 

No início do filme, uma jovem dá à luz uma menina em um ambiente dominado por estátuas malignas. Ela morre e a menina é encaminhada ao convento. Quinze anos depois, Alucarda (Tina Romero) recebe uma nova companheira de quarto, Justine (Susana Kamini). Durante um passeio no bosque, as duas entram no local de nascimento de Alucarda. A partir daí, se tornam cada vez mais agressivas e violentas, demonstrando comportamentos típicos de quem está sob possessão demoníaca. 

A estética, influenciada pelo expressionismo, associada a uma narrativa que assume o surrealismo, são os grandes destaques do filme. O diretor Juan López Moctezuma trabalha com cores agressivas, o vermelho se impondo de forma satânica sobre as vestimentas brancas das freiras. A ousadia da obra é expor a repressão e incriminação religiosa das freiras e do padre diante do despertar do desejo das jovens adolescentes – coisas de Satã.