Cada um vive como quer

Cada um vive como quer (Five easy pieces, EUA, 1970), de Bob Rafelson.

Robert “Bobby” Dupea (Jack Nicholson) trabalha em uma empresa de prospecção de petróleo. Mora com Rayette Dipesto (Karen Black), garçonete, aspirante a cantora – os dois vivem em conflito permanente. O melhor amigo de Bobby é Elton (Billy Green Bush), seu companheiro de trabalho, com quem divide noitadas de bebedeiras e encontros com garotas de programa.

A primeira parte do filme representa a frustração da classe média americana em um período conturbado social e politicamente. Boby não quer nada da vida a não ser se divertir com amigos e mulheres. Trata Rayette de forma desprezível. 

Uma sequência seminal marca a passagem para a segunda parte da trama: em um congestionamento, Bobby caminha de forma irreverente e irresponsável entre os carros, sobe na carroceria de um caminhão de mudanças, descobre um piano e começa a tocar.

Bobby é filho de um músico famoso, sua irmã e irmão também são músicos. Bobby renegou seu talento como pianista e, após uma briga com o pai, saiu de casa para viver de trabalhos esporádicos. Ele é informado pela irmã que o pai tem pouco tempo de vida devido a um derrame e resolve voltar à casa da família para uma breve visita.

O diretor Bob Rafelson e Jack Nicholson foram protagonistas da fase áurea da Nova Hollywood. Amigos, dividiram o crédito em importantes roteiros e fizeram juntos filmes que marcaram o cinema contemporâneo: Cada um vive como quer (1970), O dia dos loucos (1972) e O destino bate à sua porta (1981).

Cada um vive como quer foi indicado aos Oscar de Melhor Filme, Roteiro, Ator e Atriz Coadjuvante. O filme recebeu críticas efusivas de Pauline Kael: “Filme surpreendente, exponencial, eloquente, importante, escrito e improvisado num idioma tipicamente americano, derivado de nenhum outro e descrevendo pela primeira vez, como jamais se viu na tela, a natureza do homem comum americano condicionado a viver mudando porque seu único bem é o ímpeto de poder fazê-lo”.

Na casa do pai, Bobby começa um relacionamento amoroso com a namorada do irmão e a tensão entre os membros da família beira à explosão. A cena mais famosa do filme, quando Jack tenta se reconciliar com o pai, que já não pode entendê-lo devido a doença, representa um dos elementos mais complexos e fascinantes do processo de fazer cinema: a relação entre diretor e ator.

Segundo o diretor Bob Rafelson, Jack Nicholson se recusou a fazer a cena. “Tínhamos conversado sobre a cena do choro. Jack disse que essa era a coisa mais simplista que ele já viu até entre diretores de filmes de motocicleta.”

O depoimento de Bob Rafelson sobre a construção da cena: “O que eu disse a Jack, o que senti que era realmente intrínseco ao filme, era que tínhamos que enxergar o ponto fraco deste personagem, que ele era alguém que tinha emoção, mas que estava tudo bloqueado. Ele se opôs muito a isso, mas eu queria muito ver essa fraqueza e nós escolhemos alguns lugares onde isso poderia acontecer. Mas em particular eu acho que sugeri que fosse diante do pai dele. E Jack disse, ‘Eu não vou fazer isso. Eu não quero fazer isso.’ E eu o mantive acordado durante todo o fim de semana com longas discussões sobre porque isso era importante. Entramos no carro e ele disse, ‘Odeio esse roteiro. Isso é uma merda. Me dê uma caneta.’ Então ele começou a escrever a cena ele mesmo. Eu disse, ‘Eu não me importo com as palavras, contando que eu veja a emoção.’ Eu mandei toda a equipe embora. Posicionei a câmera, segurei o boom, liguei a câmera, olhei para o outro lado e disse ‘ação’. Eu não queria que Jack visse ninguém e apenas ficasse com seus pensamentos e seu pai estava sentado bem ali, o ator. E no final houve um silêncio, uma pausa. ‘Acabou, Jack? Acabou?’ ‘Você está brincando? Você nem viu, nem assistiu? Você está louco? Eu fui lá e fiz uma coisa e você nem sabe se viu ou não? Que se foda então.’”

Depois do sucesso do filme e de sua indicação ao Oscar de Melhor Ator, Jack Nicholson declarou: “Aquele momento naquele filme que quase não existiu teve tanto impacto quanto Sem destino.” 

Elenco: Jack Nicholson (Robert Dupea), Karen Black (Rayette ;dipesto), Billy Green Bush (Elton), Lois Smith (Tita Dupea), Susan Anspach (Catherine).

Valsas de Viena

Alfred Hitchcock aceitou fazer Valsas de Viena (Waltzes from Vienna, Inglaterra, 1934) em um momento delicado de sua carreira na Inglaterra. Seus últimos filmes foram fracasso de público e crítica  e Hitchcock pensava, inclusive, em abandonar a carreira de diretor e se dedicar à produção.

O filme, curto e barato, narra o início da carreira do compositor Johann Strauss (Esmond Knight ), durante a criação da valsa Danúbio azul, e seus conflitos com o pai, o já consagrado músico Johann Strauss (Edmund Gwenn). O pai, arrogante e despótico, não aceita o talento do filho e o encoraja a abandonar a carreira. Strauss vai, então, trabalhar como garçom na padaria do pai de Resi (Jessie Matthews), sua namorada. Nesse ínterim, entra na história a Condessa Helga (Fay Compton), poeta e compositora, que incentiva a carreira do jovem Strauss.

A trama gira praticamente em torno da composição da famosa valsa, com insinuações de um triângulo amoroso que provoca situações cômicas. A Condessa protagoniza encontros eróticas e artimanhas para esconder seu desejo do atrapalhado marido, o Príncipe Gustav (Frank Vosper). Resi, disposta a manter seu provável casamento, praticamente obriga Strauss a trabalhar na padaria, onde acontecem cenas divertidas e um famoso uso da sincronia da imagem e do som nestes primeiros anos do cinema sonoro: o músico observa o ritmo mecânico dos padeiros e dos maquinários durante a feitura das massas e dos pães e o ruído desse ambiente vai aos poucos se transformando nos acordes de Danúzio azul. 

O filme só aumentou a frustração de Hitchcock com seus trabalhos recentes na Inglaterra, mas um encontro inesperado mudou a história. “Foi durante essa fase em que eu estava em baixa, durante a filmagem de Valsas de Viena, que Michael Balcon passou no estúdio para me ver. Graças a ele é que eu havia me tornado diretor de cinema e imagino que, naquele momento, devia estar decepcionado comigo. Ainda assim me perguntou: ‘O que vai fazer depois deste filme?’ Respondi: ‘Tenho um roteiro escrito há algum tempo mas que está dormindo numa gaveta’. O roteiro lhe agradou e ele quis comprá-lo” – Hitchcock.

Era o roteiro de O homem que sabia demais. Segundo o historiador Charles Barr, “Hitchcock fez cinco filmes para Balcon e foi seduzido pela oferta de mais dinheiro, da parte de outro estúdio, British International Pictures. E isso foi bem por algum tempo, mas depois as coisas começaram a ficar complicadas e a carreira de Hitchcock estagnou. E quem foi que apareceu e o ajudou a ressuscitar a carreira, ou pelo menos sua posição de liderança no cinema britânico? Nada menos que Michael Balcon, na época chefe da Gaumont British. E foi Balcon quem permitiu que ele desse o grande salto para fazer a famosa série de seis thrillers que começou com O homem que sabia demais, em 1934.”