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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

Os brutos também amam

A primeira seqüência é clássica. Shane anda a cavalo pela planície quase indivisível no horizonte. O pequeno Joey brinca com sua espingarda de madeira, apontando-a para um veado que bebe água no riacho. Joey acompanha a aproximação de Shane, bela câmera subjetiva que define o olhar de todo o filme. As principais cenas são narradas sob o ponto de vista do menino Joey.

O pistoleiro Shane, disposto a abandonar as armas, encontra abrigo na família de rancheiros formada por Joe Starrett, sua mulher Marion e seu filho Joey. Ele chega à comunidade no auge do conflito dos criadores de gado contra os agricultores. O líder dos criadores de gado, disposto a expulsar os colonos, contrata um pistoleiro chamado Wilson. Joe Starrett decide enfrentar Wilson em um duelo. Shane substitui o amigo e se rende ao destino, protagonizando um duelo antológico.

Assisti a Os brutos também amam ainda criança, naquelas sessões da madrugada na TV. A partir daí, esperava com ansiedade as reprises do filme. É difícil definir em que momento você se sente apaixonado por um filme. Os brutos também amam tem série de cenas que levam a isso. Shane chegando ao rancho. Marion acompanhando com os olhos o pistoleiro pelas janelas de sua casa. Os dois amigos tentando cortar o enorme toco de árvore. Montanha sendo alvejado na lama. O baile dos agricultores. O duelo final no saloon. Joey gritando e ouvindo seu próprio eco “Shane, come back”.

Mas há uma cena além de todas as cenas. Shane derruba Joe para que ele não vá ao duelo. Marion, ao perceber que Shane vai ao encontro do pistoleiro Wilson, pergunta a ele: “você está fazendo isso por mim?”. É um filme de muitos olhares.

Os brutos também amam (Shane, EUA, 1953), de George Stevens. Com Alan Ladd (Shane), Brandon De Wilde (Joe), Van Heflin (Joe Starrett), Jean Arthur (Marion), Jack Palance, (Wilson). 

Moby Dick

“Chamai-me Ismael”. Essa frase direta dá início a mais impressionante narrativa de aventura da literatura moderna, clássico escrito por Herman Melville. O filme de John Huston segue o mesmo princípio. O marinheiro Ismael embarca no Pequod, navio baleeiro sob o comando do misterioso Capitão Ahab. Pouco antes, escuta a previsão de um desconhecido chamado Elias. “No dia em que vocês sentirem cheiro de terra onde não há terra, Ahab vai morrer. Depois vai acenar e todos, menos um, vão segui-lo.”

John Huston concentra o filme na perseguição à baleia branca empreendida pelo Capitão Ahab (no livro, a parte final). Ahab teve a perna arrancada por Moby Dick e nutre desejo mortal e sanguinário de vingança. A obsessão é marcada por sinais de maldição, da ira divina, anunciadas em momentos do filme. O discurso metafórico do Pastor, (Orson Welles em magistral participação). A previsão de Elias. O jogo de ossos do índio Queequeg.. O fogo verde nos mastros do navio em uma noite de tempestade. As diabólicas expressões de Ahab quando se refere à Moby Dick. O Capitão em vigília na proa do navio durante sete dias e sete noites.

Os destinos do Capitão Ahab e de Moby Dick estão traçados, não há como fugir. O homem contra a força bruta da natureza, cada um em busca de saciar seu desejo sanguinário, sina de mortais que habitam a terra e os mares. O filme é narrado na primeira pessoa, portanto, não há mistério. Ismael, o sobrevivente da fúria, vai narrar a todos esta saga bíblica.

Moby Dick (EUA, 1956), de John Huston. Com Gregory Peck (Capitão Ahab), Richard Basehart (Ismael), Orson Welles (O pastor). 

Os amores de Pandora

Os amores de Pandora (1951) é o retrato fiel destas produções feitas sob medida para glamourizar o star system de Hollywood. Cada cena de Ava Gardner é planejada para evidenciar a beleza da atriz. O diretor Albert Lewin abusa dos closes, como se o filme se resumisse à  interação de Ava Gardner com a câmera.

A fotografia é exuberante. O diretor de fotografia Jack Cardiff era “considerado um mestre em sua especialidade, o uso do technicolor nos anos 1940 e 1950.”

“Em ‘Os amores de Pandora’ vêem-se menos explosões de cor e muito uso expressivo de contrastes, com cenas noturnas de tirar o fôlego e sombreadas pelas quais vagueia a figura semidivina de Pandora Reynolds na pele e no corpo de Ava Gardner. O trabalho de Cardiff também põe em evidência os figurinos multi cor de Gardner, que em seu primeiro filme colorido desfila em vestidos azuis, amarelos, pratas e verde feitos para transformar suas aparições em espetáculos fatais.” – Pedro Maciel Guimarães.

Deusa da mitologia, mulher fatal, ou “O mais belo animal do mundo”, segundo Jean Cocteau, Ava Gardner domina Os amores de Pandora desde a primeira aparição. Não é um grande filme, é mais uma da histórias fantasiosas de Hollywood baseada no mito de Pandora e do Holandês Voador, capitão dos mares que vagueia pela eternidade tentando romper com sua maldição. Ele deve encontrar uma mulher que o ama a ponto de dar sua vida por ele. Esta mulher é Pandora. Na vida real, sabe-se do contrário. Muitos homens foram capazes de arriscar a vida por Ava, como Frank Sinatra que, dizem, esteve à beira de cometer suicídio por esta mulher fatal.

Os amores de Pandora (Pandora and the Flying Dutchman, EUA, 1951), de Albert Lewin. Com Ava Gardner (Pandora Reynolds), James Mason (Hendrik van der Zee), Nigel Patrick (Stephen Cameron), Sheila Sim (Janet), Harold Warrender (Geoffrey Fielding), Mario Cabré (Juan Montalvo).

Referência: Ava Gardner. Os amores de Pandora. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Thiago Stivaletti. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.

Os amantes

Jeanne sai de casa em uma noite de calor. Encontra seu hóspede Bernard. O branco da bela casa, rodeada de jardins e riachos, se destaca na fotografia enevoada. Jeanne e Bernard começam um jogo de sedução enquanto caminham pela noite, as imagens entre o onírico e o erotismo. Terminam a noite no quarto da jovem rebelde.

Os amantes provocou polêmica quando foi lançado, asperamente criticado por setores conservadores da França, incluindo a igreja católica. Jeanne é casada com Henry Tournier, proprietário de um jornal no interior do país. Preocupado apenas com seu trabalho, ele faz vistas grossas aos casos de sua mulher. Jeanne faz viagens constantes para Paris para encontrar Raoul Flores, aristocrata praticante de polo. Ela se hospeda na casa de Maggy que acoberta e instiga os casos da amiga.

Os personagens transitam pela vida despretensiosos, voltados para o prazer. A jovem e bela Jeanne é o destaque: monólogos interiores revelam para o espectador seus anseios, conflitos, como se buscasse sentido para a vida através das atitudes. Os amantes é de uma beleza enigmática, assim como a própria Jeanne Moreau.  

Os amantes (Les amants, França, 1958), de Louis Malle. Com Jeanne Moreau (Jeanne Tournier), Jean-Marc Bory (Bernard), Alain Cuny (Henry Tournier), Judith Magre (Maggy), José Luis de Vilallonga (Raoul Flores).

Meu reino por um amor

A Rainha Elizabeth (1533/1603) foi das mais longevas monarcas da Inglaterra. Conhecida como a Rainha Virgem, nunca se casou, seu reinado é “descrito como a idade de ouro que levou a Inglaterra a um desenvolvimento econômico e cultural impressionante.”

O filme de Michael Curtiz romantiza a relação entre Elizabeth, na época com 63 anos, e o jovem Conde de Essex, guerreiro destemido, porém sedento de poder. 1939 é um ano mágico na história do cinema americano, basta citar E o vento levou O Mágico de Oz. A estrela em ascensão Bette Davis perdeu o papel de Scarlett O’Hara para Vivien Leigh. A Warner Bros apostou então em uma adaptação grandiosa da vida de Elizabeth, colocando  Bette Davis ao lado do galã Errol Flynn.

A narrativa segue a açucarada fórmula de filmes românticos, com duetos dos atores em encenações apaixonadas e diálogos que beiram a pieguice amorosa. O charme de Errol Flynn e o talento de Bette Davis conferem a Meu reino por um amor glamour indiscutível, valorizado pela primorosa direção de arte e a fotografia em technicolor.   

“As soluções do diretor de arte, Anton Grot, reverenciam e colocam em evidência a natureza emocional de cada cena. Na corte de Elizabeth, as paredes cinza e os espaços imensos intensificam seu isolamento. As portas adornadas com entalhes pesados de madeira adicionam monumentalidade. A residência de Essex é mais quente, com cores vivas e muito mais aconchegante, em contraste com a impessoalidade da corte. Ao longo do filme, as paredes lisas são cobertas com padrões abstratos de luz colorida e com silhuetas dos personagens. As portas de entrada, janelas e espelhos são utilizados para enquadrar os personagens na composição da cena. No cenário do calabouço, são impressionantes os arcos maciços que parecem pesar sobre a rainha a escada no meio do espaço, da qual emerge não só o conde de Essex, mas também os últimos raios de luz quente antes que Elizabeth seja encerrada definitivamente em seu mundo de isolamento e desconfiança.” – James Stellen.

Meu reino por um amor (The private lives of Elizabeth and Essex, EUA, 1939), de Michael Curtiz. Com Bette Davis (Rainha Elizabeth), Errol Flynn (Conde de Essex), Olivia de Havilland (Penelope Gray), Vincent Price (Walter Raleigh).

Referência: Meu reino por um amor, um filme inspirado na vida de Elizabeth 1ₐ. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Mario Bresighello. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.

Onze homens e um segredo

A capacidade de Hollywood em gerar histórias divertidas e sedutoras é imbatível, mesmo que sejam lendas.

“Em meados dos anos 50, Lauren Bacall passava por um parque em Las Vegas quando se deparou com um grupo de amigos acabados, depois de 24 horas de farra. Diante dessa visão, lhes disse: ‘Parecem um bando de ratos (rat pack)’. Os amigos em questão eram Frank Sinatra, Dean Martin, Peter Lawford, Sammy Davis Jr. e Joey Bishop.” – Ana Luisa Astiz.

Ninguém sabe se a história é verdadeira, mas estes famosos amigos criaram o clã que passou a ser conhecido por rat pack. Transformar essas lendas em imagens míticas é outro segredo de Hollywood. No final de Onze homens e um segredo (Ocean’s eleven, EUA, 1960), onze assaltantes caminham pela calçada de Las Vegas. Cinco desses atores eram membros do rat pack (Quentin Tarantino  homenageou esta cena em Cães de aluguel).

Onze homens e um segredo é um delicioso desfile de charme pelas telas. Nada mais do que isso. O filme foi feito para reunir a trupe de amigos. Durante a primeira hora de projeção, os personagens são apresentados ao espectador em uma sucessão de acontecimentos ingênuos e despretensiosos, incluindo números musicais de Dean Martin e Sammy Davis Jr. Tudo culmina com a reunião do grupo na casa de um mafioso para planejar o assalto simultâneo a cinco cassinos de Las Vegas. O roteiro, baseado no romance Ocean’s Eleven, serve como pretexto para as elegantes e charmosas aparições de Sinatra, Dean Martin e companhia. O audacioso e inteligente assalto aos cassinos, ponto alto do filme, é narrado de forma sucinta e rápida, quase como trama paralela da história.

Imperfeições do roteiro? da direção de Lewis Milestone? De forma alguma. A película é retrato da fascinante era do cinema americano que termina com a década de 50. Cinema feito por estrelas que dominavam o imaginário do espectador. Às vezes, bastava o ator/atriz entrar em cena para o filme acontecer. 

Esse cinema charmoso e elegante foi atropelado pelos agressivos estilos de direção do cinema de autor dos anos 60. Foi vitimado pela montagem desenfreada dos anos 70 – os atores sequer tinham tempo de parar em frente a câmera. E enterrado definitivamente pela inesgotável tecnologia da era digital.

A famosa cena final de Onze homens e um segredo, os personagens caminhando lentamente pela calçada de Las Vegas, abatidos e frustrados, mas mantendo o charme e a elegância ao passar diante da câmera, é a doce despedida desse cinema romântico.

Referência: Coleção Folha Clássicos do Cinema. Onze homens e um segredo. Ana Luisa Astiz (org.) São Paulo: Moderna, 2009

Onde fica a casa do meu amigo?

Não é por acaso que Abbas Kiarostami é dos grandes do cinema contemporâneo. Ele resgata em seus filmes a simplicidade de filmar com o toque do belo, próprio dos ímpares da sétima arte. O espaço em seus filmes ganha conotações fascinantes, cada ambiente diz mais ao espectador do que palavras.

A trama de Onde fica a casa do meu amigo? é tão simples que se chega a duvidar que daria um filme. Ahmad, menino de um pequeno vilarejo, leva para casa, por engano, o caderno de seu amigo. O professor é rigoroso com os deveres de casa, Ahmad sabe que o amigo será punido por não ter executado as tarefas. Resolve ir ao vilarejo próximo procurar o amigo.

A saga do menino pelas ruelas do vilarejo, batendo nas portas à procura do amigo, nos remete a este mundo desconhecido do Oriente Médio. Povoado por pessoas simples, que vivem em ladeiras mal iluminadas, casas sombrias, alguns espreitam às janelas. É um mundo que se esconde, a câmera de Kiarostami o revela aos poucos através de nuances, usando da iluminação difusa quando o dia escurece. O filme oscila entre o neo-realismo e o expressionismo, as expressões de Ahmed não denunciam fascínio ou medo, ele é apenas um garoto percorrendo labirintos. O que conta é a solidariedade, a amizade, em um país que, aos nossos olhos acostumados ao noticiário internacional, é marcado apenas intolerância.

Onde fica a casa do meu amigo? (Khane-ye doust kodjast, Irã, 1987).

Madame Curie

A primeira sequência apresenta a personagem e a sociedade que a espera: a jovem Maria Sklodowska está assistindo a uma aula de física na Sorbonne, rodeada de homens. É a única mulher no auditório. Ela desmaia, é atendida no gabinete do professor que a indica para ser estagiária do físico Pierre Curie. Antes dela chegar para o primeiro dia de trabalho, ele murmura para seu assistente: “A mulher e a ciência são incompatíveis. A mulher genial é rara. Um cientista não pode ter qualquer coisa com mulheres.”

A cinebiografia de Marie Curie retrata a luta da mulher pela afirmação no mundo dominado pelos homens: a ciência. Física e matemática (ganhadora de dois prêmios Nobel), Marie Curie foi responsável, ao lado do marido Pierre Curie, pela descoberta de dois elementos químicos, o polônio e o rádio. O filme está centrado na obstinação de Madame Curie em suas pesquisas, abrindo espaço também para o romance entre Marie e Pierre.

“Da primeira à última cena, o filme destaca a obstinação dessa física que fissurou com suas descobertas revolucionárias o monolítico universo masculino da pesquisa científica. A princípio solitária, Marie avança quando encontra Pierre. O filme, contudo, evita representá-lo como uma figura tutelar. Além de marido, Pierre é parceiro e interlocutor, nele o filme representa que o saber não se constrói numa relação solitária do cientista com os instrumentos e que toda observação passa por pares.” – Cássio Starling Carlos.

Como Madame Curie, a atriz inglesa Greer Garson obteve sua terceira indicação consecutiva ao Oscar de melhor atriz (havia ganho um ano antes pelo desempenho em Rosa da Esperança).

Madame Curie (EUA, 1943), de Mervyn LeRoy. Com Greer Garson (Marie Curie), Walter Pidgeon (Pierre Curie), Henry Travers (Eugene Curie), Albert Bassermann (Prof. Jean Perot), Robert Walker (David Le Gros), Reginald Owen (Dr. Becquerel).

Referência: Madame Curie. Um filme inspirado na vida de Marie Curie. Coleção Folha Grandes Biografias no Cinema. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Reinaldo José Lopes. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.

Oharu – A vida de uma cortesã

A prostituta Oharu (Kinuyo Tanaka) caminha à noite na zona de meretrício onde mora e trabalha. Está entregue à miséria. As companheiras perguntam se ela conseguiu um cliente. Ela diz que ninguém se interessa por uma mulher de 50 anos. Oharu entra em um templo. Olha para as centenas de estátuas de santos dispostas na parede. A câmera centra em uma delas que se funde com o rosto de Katsunosuke (Toshiro Mifune), seu grande amor do passado. Close no rosto triste da prostituta. A narrativa volta no tempo. É hora de conhecer os motivos que levaram a jovem e bela cortesã da corte imperial para as ruas do meretrício de Kyoto.

Kenji Mizoguchi era conhecido como o cineasta das mulheres. O crítico Sérgio Alpendre, em depoimento ao DVD da Versátil, atribui isto ao acaso. Quando o diretor foi contratado pela produtora, ainda no cinema mudo, outro diretor fazia filmes com heróis masculinos. O produtor determinou, então, que Mizoguchi fizesse filmes sobre mulheres. Depoimentos de colegas de trabalho de Mizoguchi dão tons mais ilustrativos à história. O jovem Mizoguchi se apaixonou por uma prostituta e, após uma briga, foi esfaqueado por ela nas costas. “Para fazer filmes sobre mulheres, você precisa de uma cicatriz como esta”, disse o diretor a amigos.

Oharu é um relato melancólico da situação da mulher no Japão. A história acontece por volta da metade do século XVII. Os pais criam a filha como objeto de comércio. Ela pode ser uma cortesã, ser comprada por um bom marido, servir como reprodutora a um lorde. Mas se ela se relacionar por amor com um servo a desgraça cai sobre a família.

Duas sequências determinam o olhar de Mizoguchi sobre esta posição secular. O servo de um lorde chega a Kyoto para comprar uma mulher. A escolhida deve parir um filho para o lorde, pois sua esposa está incapaz. Dezenas de mulheres são enfileiradas. De posse das determinações do nobre, o servo tenta achar a mulher ideal. Os pés devem ter menos de 20 cm, ela não pode ter sequer uma verruga no corpo, são alguns dos itens da lista que excluem as candidatas.

Viajante chega em uma casa de prostituição e reúne várias mulheres ao seu redor. Ele abre o saco de dinheiro e joga moedas para as mulheres. Elas se atiram de cócoras aos pés do viajante como animais famintos, recolhendo o dinheiro, engalfinhando-se umas com as outras.

O filme é melancólico, marcado por tons sombrios da fotografia. A câmera, às vezes, enquadra o sofrimento resignado de Oharu. Outras vezes, a personagem se esconde atrás de tecidos, das portas de correr das casas japonesas, atrás de biombos, deixando o espectador vislumbrar sombras da nudez. Oharu caminha para a decadência e destruição das ruas com complacência, filmada com a delicadeza própria do cinema de Mizoguchi. O dever de Oharu  é dar prazer ao homem e esperar pela dádiva. São as tristes mulheres de Mizoguchi.

Oharu – A vida de uma cortesã (Saikaku ichidai onna, Japão, 1952), de Kenji Mizoguchi.

Obsessão

Obsessão (Ossessione, Itália, 1943), primeiro filme de Luchino Visconti, lançou as bases do neo-realismo italiano. Inspirado no romance O destino bate à sua porta, de James M. Cain, o filme foi rodado na cidade de Ferrara, contando com locações reais e os moradores atuando como figurantes.

O andarilho Gino Costa (Massimo Girotti) arranja emprego como mecânico em um restaurante à beira de estrada. A atração entre o vagabundo e Giovanna (Clara Calamai), mulher de seu patrão, é imediata . O encontro entre os dois é explosivo nas telas, química de corpos ardentes que não poupou o espectador de um erotismo perigoso na Itália fascista.

A história envereda para um crime passional, com os amantes arquitetando o assassinato do marido de Giovanna. No entanto, Obsessão é muito mais do que isto: o retrato frio e realista da Itália miserável, às voltas com o fascismo, com a hipocrisia religiosa, a alta voltagem erótica, fazem da obra não só um prenúncio do neo-realismo, mas do próprio cinema moderno.

Ao ver o filme, o ditador Benito Mussolini mandou retirá-lo de cartaz, afirmando: “Esta não é a Itália.” Nos Estados Unidos, Obsessão só foi liberado em 1976, pois como Visconti não pagou pela adaptação do livro, o escritor e os editores impediram a exibição em terras americanas. Tudo isto prejudicou o filme, mas abriu as portas do cinema para Luchino Visconti, um dos grandes diretores de todos os tempos.