Tudo que o céu permite

A viúva Cary Scott vive sua vida de aparências na pequena cidade próxima a Nova York. Frequenta o clube de amigas, as festas em sociedade, cuida de sua bela casa, é cortejada por um velho amigo. Certo dia, ela convida seu jardineiro, Ron Kirby, para um café. Os dois se apaixonam e, a partir daí, devem lutar contra as convenções sociais, pois, além de pobre, Ron tem idade para ser filho de Cary.

Douglas Sirk passou para a história do cinema como o grande diretor de melodramas, venerado por cineastas como Jean Luc-Godard e Rainer Werner Fassbinder. Tudo que o céu permite segue os preceitos do gênero, com a força de elementos que Douglas Sirk valorizava no cinema: fotografia e luz, atores, montagem clássica, crítica social. “Uma história menor é o melhor material cinematográfico. Mesmo no teatro, não é a história que conta acima de tudo. É a linguagem que conta. A linguagem no cinema é substituída pela câmera e pela montagem. É preciso escrever com a câmera.” – Douglas Sirk.

O rigor com o qual o diretor trabalhava a linguagem, legou ao público alguns dos momentos mais belos e emocionantes do cinema. Para muitos, Douglas Sirk foi apenas diretor de melodramas, para os verdadeiros amantes do cinema, dos mais sensíveis conhecedores da alma de seus personagens e do espectador.

Tudo que o céu permite (All that heaven allows, EUA, 1955), de Douglas Sirk. Com Jane Wyman (Cary Scott), Rock Hudson (Ron Kirby), Agnes Moorehead (Sara Warren), Conrad Nagel (Harvey).

Referência: Coleção Folha Grandes Clássicos do Cinema. Rock Hudson (em) Tudo que o céu permite. Cássio Starling Carlos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.

A cruz da minha vida

O filme abre com Lora Delaney apresentando a casa para Marie, jovem estudante de artes que deseja alugar um quarto próximo à universidade. Doc Delaney chega em casa e, a princípio, é contra o aluguel, mas quando conhece a moça muda de ideia.

Doc participa de um grupo de ex-alcoólatras, tentando se manter longe do vício. Sua mulher Shirley vive solitária em casa, com as lembranças do vício do marido que o transformava em uma pessoa violenta e perigosa. A jovialidade da estudante Marie, envolta em seus anseios pela arte, pelo namoro com jovens colegas, provoca as lembranças e desejos reprimidos do casal.

A cruz da minha vida, baseado na peça teatral Come back, little Sheba, trata com força de temas obscuros da mente humana, como desejo, culpa, escolhas. As lembranças do passado atormentam o casal de protagonistas e a perda se reflete no sugestivo título original: Lora Delaney clama e espera pela volta de sua pequena cadela Sheba.   

A cruz da minha vida (Come back, little Sheba, EUA, 1952), de Daniel Mann. Com Shirley Boot (Lora Delaney), Burt Lancaster (Doc Delaney), Terry Moore (Marie).

Sublime obsessão

O playboy Bob Merrick (Rock Hudson) está extrapolando os limites da velocidade em seu barco no lago. Acima dos 290 km/h, ele sofre acidente. O grupo de salvamento pede emprestado o ressuscitador do famoso médico que mora nas margens do lago. Enquanto Bob é atendido, o médico sofre um ataque cardíaco e, sem o equipamento, morre. Médico altruísta, herói para centenas de pacientes, morre porque um ricaço estava se divertindo perigosamente. É o ponto de partida para um dos mais famosos melodramas da história do cinema, que se completa com outro acidente: Bob se apaixona pela viúva do médico, Helen (Jane Wyman). Certa tarde, fugindo do cortejo de Bob, Helen é atropelada e fica cega.  A partir daí, Bob fará tudo para conquistar o amor de Helen e salvá-la, se redimindo de suas culpas e de sua vida pregressa.

É dos melhores filmes do diretor Douglas Sirk, com o primor narrativo que acompanha suas produções. “Uma história menor é o melhor material cinematográfico. Mesmo no teatro, não é a história que conta acima de tudo. É a linguagem que conta. A linguagem no cinema é substituída pela câmera e pela montagem. É preciso escrever com a câmera.” – Douglas Sirk.

As cores em Sublime obsessão tornam o filme grandioso, jogo cromático evidenciando o espetáculo visual da natureza. O contraponto é Helen, cega para este esplendor, cega para o amor que sente por Bob. Os cortes precisos evitam a pieguice. Em momentos cruciais da narrativa, Douglas Sirk joga o espectador no fascinante universo das elipses cinematográficas, deixando espaço para a imaginação do público. Trabalho de um diretor que entende que o cinema não existe sem a participação do espectador.

Sublime obsessão (Magnificent obsession, EUA, 1954), de Douglas Sirk. Com Rock Hudson, Jane Wyman.

A trapaça

Augusto, Picasso e Roberto percorrem o interior da Itália aplicando golpes em camponeses. O trio enterra ossos e caixa com bugigangas debaixo de uma árvore dizendo se tratar de tesouro. Augusto, travestido de Monsenhor, diz que podem ficar com o tesouro se pagarem por missas. Em Roma, vão em uma favela se fazendo de agentes imobiliários do governo para recolherem a primeira prestação de casa populares.

Federico Fellini volta seu olhar neo-realista para a falta de escrúpulos de bandidos que exploram a miséria alheia. O conflito psicológico dos golpistas aflora em Picasso, confrontado por sua esposa Iris, e em Augusto, quando reencontra a filha nas ruas de Roma. Diferente de outros filmes de Fellini, quando os boas-vidas terminam na noite despretensiosa, Augusto, atormentado pela consciência, descobre que não há redenção para este tipo de crueldade.

A trapaça (Il bidone, Itália, 1955), de Federico Fellini. Com Broderick Crawford (Augusto), Richard Basehart (Picasso), Franco Fabrizi (Roberto), Giulietta Masina (Iris).

Torrentes de paixão

O filme começa com plano aberto das cataratas do Niágara. As águas caem com barulho ensurdecedor. George Loomis (Joseph Cotten) está nas pedras, ao lado das cataratas. Ele se pergunta: “porque as cataratas me arrastariam aqui às cinco horas da manhã. Para me mostrar como são poderosas e eu não?”.

Ele volta caminhando pela cidade até chegar ao conjunto de cabanas onde está hospedado. Em frente à cabana, procura pelas chaves. Corta para close de Rose Loomis (Marilyn Monroe), sua mulher, deitada na cama. Ela respira forte, tem um cigarro nas mãos e batom vermelho nos lábios. Está nua, os lençóis cobrindo seus seios. Quando ouve o barulho da porta se abrindo, Rose se vira, deixando as costas à mostra.

Torrentes de Paixão (Niagara, EUA, 1953), dirigido por Henry Hathaway, é o primeiro filme no qual Marilyn Monroe atua como protagonista. Feito na época em que o cinema era rico em simbolismos, as primeiras cenas já deixam claro o que vem por aí. As cataratas do Niágara, um perturbado personagem masculino, Marilyn Monroe nua, sugerem a torrente de paixões do título em português.

O quadro se completa com a chegada do jovem casal em lua de mel, Polly Cutler (Jean Peters) e seu marido. Eles dividem com os Loomis um aconchegante conjunto de cabanas à beira das cataratas. A história tem todas as características do cinema noir e já foi contada diversas vezes no cinema: Rose tem um amante e planeja a morte de seu marido.

A diferença é que tudo nesse filme parece planejado para criar o mito Marilyn Monroe. Ela caminha pela cidade. Para conseguir o famoso rebolado da cena, a atriz serrou um dos saltos do sapato. Em outro momento, ela é flagrada à beira do Niágara em ardente beijo com o amante. Os dois estão molhados pelo vapor das águas. Mais à frente, ela está à porta da cabana trajando exuberante vestido vermelho. Ao ver Rosie deste jeito fatal, o marido pergunta à sua jovem mulher Polly:

– Porque você não usa um vestido assim?

– Para me vestir assim, eu teria que começar a vida aos 13 anos. – responde Polly.

Na mesma sequência, vitrola no pátio das cabanas toca a música favorita de Rosie,  Kiss, uma balada romântica. Close no rosto de Rosie, ela tem a cabeça levemente inclinada, ventos suaves balançam seus cabelos, batom combinando com o vestido. De olhos fechados, ela acompanha a música: “take me, take me in your arms / and make my life / perfection / take me darling, don’t forsake me / kiss me, hold me tight / love me, love me tonight”.

Em Torrentes de paixão, a história e a câmera servem a Marilyn Monroe e ao Niágara, duas belezas irresistíveis. As cataratas estão presentes em quase todas as cenas do filme, como ameaça no destino dos personagens. George Loomis está em seu quarto com Polly. Apaga as luzes para ver a beleza das águas através das persianas. Ele diz:

– Você é jovem, está apaixonada. Mas lhe dou um conselho. Não perca o controle como essas cataratas. Já viu o rio acima das cataratas? É calmo e pacífico. Se joga uma tora, ela flutua. Um pouco mais abaixo, a velocidade aumenta. Passa por algumas rochas e em um minuto está nas corredeiras e nada no mundo, nem Deus, pode impedir que caia no abismo. Simplesmente cai.

No quarto ao lado, Rose se olha no espelho. Limpa o batom vermelho dos dentes enquanto telefona para o amante. Ela combina o assassinato: “Tem que ser amanhã.” Nas cataratas. Ninguém resiste às forças da natureza.

A roda da fortuna

O número musical Dancing in the dark é o bastante para colocar a Roda da fortuna (The band wagon, EUA, 1953), de Vincente Minnelli, entre os grandes filmes do cinema. Tony Hunter (Fred Astaire) é o famoso, porém decadente, ator-dançarino da era de ouro dos musicais do cinema. Gabrielle Gerard (Cyd Charisse) é a jovem bailarina clássica. Os dois são convidados a participar de peça de teatro escrita sob a direção de um diretor  megalomaníaco (Jack Buchanan). A peça, a princípio divertida história musical, é transformada pelo diretor numa pesada e fracassada adaptação de Fausto.

Durante os ensaios, acontece o conflito entre os estilos antagônicos do velho dançarino e da jovem bailarina. Tony e Gabrielle desprezam o estilo do outro e decidem não trabalhar juntos. A reconciliação acontece na famosa sequência Dancing in the dark. No documentário Santiago (2006), João Moreira Salles inseriu a sequência da dança, com narração em off.

“Só muito mais tarde assisti ao filme predileto de Santiago.  Se o mostro aqui é porque ele me ajudou a entender que algumas transformações da minha vida aconteceram sem que eu percebesse. No filme, Fred Astaire faz o papel de um dançarino de vaudeville e Cyd Charisse, o de uma bailarina clássica. Os dois são convidados para estrelar a mesma peça e, claro, não se dão bem. Quando tudo parece perdido, Astaire convida Charisse para um passeio no parque. Meio sem jeito, eles caminham lado a lado, não se falam, nem se olham. E então acontece uma coisa linda e gratuita. Já assisti esta cena algumas vezes, sempre achei bonita a transição entre a caminhada e a dança. É uma transformação sutil e sem alarde.”

A naturalidade desta cena é uma das marcas de Vincente Minnelli, um dos responsáveis pela redefinição do gênero musical, criando filmes mais realistas. Em Gigi (1958), ganhador de nove oscars, Minnelli coloca Paris como fundo de uma história de sedução. Os protagonistas, em situações comuns, cantam quase como se estivessem conversando.

Este estilo, que coloca pessoas comuns cantando canções simples e coloquiais, verdadeiros diálogos, se consagraria nos anos 60 em filmes como: Amor, sublime amor (1961) e A noviça rebelde (1965), ambos de Robert Wise; Os guarda-chuvas do amor (1964), de Jacques Demy; Minha bela dama (1964), de George Cukor. Não eram mais os grandes musicais do cinema, protagonizados por dançarinos espetaculares. Era a possibilidade de atores se transformarem em cantores e dançarinos, transportando esta possibilidade para o imaginário do público.

A ironia de A roda da fortuna neste processo é exatamente o protagonista da história. Fred Astaire era um destes dançarinos espetaculares da fase de ouro de Hollywood. Ao interpretar o decadente Tony Hunter, Astaire promove a mudança do gênero dentro do próprio filme. A roda da fortuna começa com a imagem de símbolos da nobreza dos musicais, o chapéu coco e a bengala, usados em filmes de Astaire e marca registrada de sua interpretação em O picolino (1935). Quando a história da produção do musical dentro do filme envereda pela tentativa de espetacularidade do diretor déspota (transformar um musical na grandiosa analogia a Fausto) os conflitos se sucedem até o fracasso na estreia.

Tony Hunter decide assumir a peça e volta ao script original, recriando os números musicais para situações do cotidiano. Em um destes números, Tony e o diretor (que aceita participar da nova peça) estão cantando e dançando com o chapéu coco e bengala do início do filme, mas os adereços caem no chão durante a coreografia. Os dois se entreolham sutilmente e continuam a dançar, como se estes símbolos não fossem mais importantes.

A roda da fortuna termina com uma ininterrupta sequência de números musicais até o clímax. Fred Astaire e Cyd Charisse encenam uma história musical de onze minutos de duração, paródia do cinema de detetive e dos filmes noir.

“Kidd (Michael Kidd, coreógrafo do filme) (…) ensaiou e dirigiu, sob o controle de Minnelli e sensível também às sugestões de Astaire, todos os números de dança do filme, dois dos quais devem ser incluídos entre os melhores que o cinema e Astaire já apresentaram: 1) ‘Shine on your shoes’, dentro do mais puro espírito astaireano (…) – um número simples, mas extraordinariamente dinâmico, que Astaire executa em volta de uma cadeira de engraxate na rua 42 com incomparável leveza estilística; 2) ‘The girl hunt, a murder mystery in jazz’, mais ambicioso, pois constitui o clímax da fita. (…) A cenografia emprega um mínimo de cores e, na coreografia de Michael Kidd, um instante, pelo menos, é genial: a entrada dos capangas, precedendo Astaire, no Dem Bones Café.” – Antonio Moniz Vianna

São momentos fascinantes, representantes do gênero que conheceu o apogeu entre os anos 30 e 60, com filmes que, segundo Ruy Castro, provocavam no espectador o irresistível impulso de sair à rua dançando. Impossível, pois a genialidade de coreógrafos, diretores e intérpretes era exatamente criar coreografias grandiosas com aparente simplicidade. Ao ver o gesto fortuito de Fred Astaire e Cyd Charisse caminhando para a dança no Central Park, o espectador talvez tenha vontade de sair por aí ensaiando passos, mas se contenta em seguir com os olhos e a alma cada movimento dos dançarinos e, assim, entrar verdadeiramente no filme.

Referências:

Saudades do século 20. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Um filme por dia. Crítica de choque (1946-73). Antônio Moniz Vianna. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Santiago (2006), documentário de João Moreira Salles

Extras do DVD: A roda da fortuna.

A verdadeira história

Dois aspectos chamam a atenção na trilogia da guerra do diretor polonês Andrzej Wajda, composta pelos filmes Geração (1954), Kanal (1957) e Cinzas e Diamantes (1958).

O primeiro é a certa irresponsabilidade romântica de uma geração de jovens cineastas recém saídos da escola polonesa de cinema. Andrzej Wajda decidiu cortar do roteiro de Kanal uma cena noturna de batalha porque era impossível ver os tiros de festim sendo disparados. A equipe de produção então isolou a área e a cena foi gravada com munição. O que se vê na tela são lampejos, pequenos raios cortando a noite, tiros de verdade.

O segundo aspecto é esse cinema carregado de simbolismo político. Kanal conta a história de um pequeno batalhão do exército polonês, cerca de 40 combatentes, durante o levante de Varsóvia, no final da Segunda Guerra Mundial. Para escapar dos nazistas, os soldados se refugiam nos esgotos da cidade. No início do filme, os personagens passam enfileirados pela câmera e narração em off antecipa que estamos vendo as últimas horas da vida daqueles soldados.

Em outra sequência, no final do filme, Bússola, jovem soldado, está mortalmente ferido e é amparado por Margarida, sua namorada, dentro dos esgotos. Eles se arrastam, a cena é escura. Avistam um clarão de luz. A saída. Margarida sorri, levanta Bússola e o beija: “nós vamos viver”. Corta para imagem de uma grade de ferro, impedindo a fuga para o Rio Vístula. Ao se dar conta da situação, Margarida diz: “não abra os olhos, está muito claro”. Ela segura as grades com as duas mãos, um close mostra seu olhar perdido. Andrzej Wajda comenta a cena.

Os dois heróis no Kanal, Margarida e seu amigo, alcançam as grades de ferro do esgoto onde esperam alcançar a liberdade, mas não podem se beneficiar daquela liberdade porque o esgoto está gradeado. Bússola morre e Margarida permanece com seu olhar perdido na distância . Bem, as audiências na Polônia sabiam o que estava ao longe porque o Rio Vístula estava ali. Em um dos lados estava o levante e do outro lado estava o exército soviético. Aquele sinal, que poderia ser obscuro para qualquer outra pessoa, foi compreendido por todos os poloneses. Os seus amigos estavam do outro lado então porque não podiam atravessar para este lado? É claro que não podíamos mostrar claramente que o Exército Vermelho estava do outro lado do Rio Vístula esperando o fim do levante.”

A verdade não podia ser mostrada porque o filme foi realizado em 1957, com a Polônia já sob o regime comunista soviético. A censura não permitiria a realidade nas telas.

O levante de Varsóvia, em 1944, provocou a morte de cerca de 250.000 poloneses. Os moradores da cidade resolveram combater os ocupantes nazistas porque imaginaram que o exército soviético estava se aproximando para ajudá-los. Uma decisão política determinou que os soldados soviéticos esperassem o fim do levante, próximos à cidade. O crítico de cinema Jerzy Plaszewski  explica o motivo.

“Do outro lado estavam aqueles que poderiam salvar o levante, que podiam avançar e atacar, mas eles estavam esperando que os poloneses sangrassem até a morte de maneira que se tornasse mais fácil impor o governo soviético na Polônia. Sabemos que o levante fracassou, que objetivamente foi uma derrota.”

Wajda completa“No fim temos que levar em consideração que a capital foi destruída, a inteligência foi destruída. Em resumo, isso facilitou que Stálin capturasse a Polônia.”Essa é a guerra. Milhares morreram para satisfazer a fome de poder de políticos e generais genocidas. Andrzej Wajda recorreu ao cinema, a uma poesia triste, para escrever a verdadeira história.

Referência: extras do DVD.

A princesa e o plebeu

Audrey Hepburn era desconhecida, atriz de pontas esquecíveis, quando protagonizou A princesa e o plebeu (Roman holiday, EUA, 1953), de William Wyler. O filme recebeu dez indicações ao Oscar, foi sucesso de bilheteria e Miss Hepburn ganhou o Oscar de melhor atriz.

A princesa Ann (Audrey Hepburn) está entediada com suas obrigações da realeza: cerimônias oficiais, recepções, festas, falar aos jornalistas sobre temas previamente ensaiados, a vigia permanente, a clausura. Durante visita a Roma, ela sai por um dia para passear sozinha pela cidade eterna. O passeio sai do controle, a princesa acaba acidentalmente na casa do jornalista Joe Bradley (Gregory Peck). Quando o jornalista descobre a identidade de sua inquilina, decide fazer uma matéria e publicar o grande furo de sua carreira. A partir daí, acontecem situações divertidas, românticas, aventureiras, tudo passado nas ruas de uma mais belas cidades do mundo.

“Peck e Hepburn estão excelentes como o casal improvável e Eddie Albert está perfeito como o entusiasmado cinegrafista de Peck levado a reboque. Wyler, um dos cineastas mais confiáveis de Hollywood, filmou em locações em Roma e os pontos turísticos da cidade ajudam a realçar a já mágica história. Outro ponto alto é o roteiro divertido, que foi alvo de controvérsias por ter sido escrito por Dalton Trumbo, que estava na lista negra. Passaram-se literalmente décadas antes de Trumbo finalmente receber o crédito que merecia por ter ajudado a fazer este filme maravilhoso.”

É um conto de fadas, filme ingênuo como tantos outros desta era mágica de Hollywood. Em Los Angeles habitavam estrelas do mais puro talento e charme, roteiristas que implantavam sonhos em mundos reais, diretores que ostentavam o título de mestres, produtores controladores, mas com sensibilidade para investir em histórias que atingiam o coração dos espectadores. Deste, então, nem se fala: o final de A princesa e o plebeu está com espaço reservado em algum canto da alma.

A princesa e o plebeu (Roman holiday, EUA, 1953), de William Wyler. Com Gregory Peck, Audrey Hepburn, Eddie Albert, Hartley Power.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Uma aventura na África

Katharine Hepburn foi acometida de grave disenteria durante as filmagens. Ela disse que grande parte da equipe técnica e elenco sofreram deste mal devido a ingestão de água contaminada. “A exceção de John Huston e Humphrey Bogart, que só bebiam uísque” – completa a atriz. É uma das histórias sobre Uma aventura na África (1951). Outra: John Huston exigiu que o filme fosse realizado em locações na África devido a sua obsessão em caçar elefante. Assim que o batedor africano avisava o diretor de uma manada de elefantes estava nas proximidades, Huston abandonava tudo, pegava seu rifle e corria ao encontro do animal. É o tema do filme Coração de caçador (1990), de Clint Eastwood.

No entanto, a grande história é mesmo a do filme. Charlie Allnut é um beberrão inveterado, dono do African Queen, barco que carrega provisões pelo Rio Congo. Rose Sayer, irmão de um missionário inglês, tem o caráter tímido e o fervor religioso que a faz instintivamente se afastar de Charlie. Ela vive com o irmão em uma aldeia, quando estoura a primeira guerra mundial. O irmão morre e a única salvação para Rose é aceitar a “carona” de Charlie rio abaixo.

road movie pelo rio é repleto de aventuras e perigos, entre eles uma fortificação alemã nas margens e corredeiras intransponíveis. “Eu nunca sonhei que uma experiência física poderia ser estimulante assim.” – diz Rose após transpor uma das corredeiras. É a metáfora para a repulsa de Rose por Charlie passar da atração ao desejo até o casal formar um dos pares mais incomuns e menos românticos da história do cinema.

“Ela é meiga, porém indócil. Ele é rude, sem ser selvagem. O par se forma de modo involuntário e se reúne a partir da relação de sobrevivência que eles são forçados a construir frente a um terceiro personagem essencial da história, a natureza.” – Cássio Starling Carlos.

Com muito humor e ação, Uma aventura na África é “uma das aventuras mais impressionantes, divertidas e cativantes de Hollywood.” Resultado da parceria perfeita dos amigos de uísque John Huston e Humphrey Bogart. E como estamos no terreno das substâncias, a química entre Katharine Hepburn e Bogart é o grande trunfo do filme. A relação entre eles está longe do glamour romântico e do sex appeal comum entre casais na Hollywood destes anos. Ninguém sente falta disso, é a certeza que fica ao final da aventura do African Queen.

Uma aventura na África (The African Queen, EUA, 1951), de John Huston. Com Humphrey Bogart (Charlie Allnut), Katharine Hepburn (Rose Sayer), Robert Morley (Rev. Samuel Sayer).

Referências:

Coleção Folha Grandes Astros do Cinema. Humphrey Bogart. Uma aventura na África.Vol. 4. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Sissi

Romy Schneider renegaria até o fim da vida a trilogia sobre a Princesa Sissi, filmes que a lançaram ao estrelato. “Desembaraçar-me da imagem de Sissi me custou muito. Ela me perseguia (…). Eu tinha a impressão de ser um pastel que todos querem comer. As pessoas pareciam convencidas que eu levava no meu bolso a coroa de imperatriz e que a qualquer momento poderia voar, como nos contos de fada.”

É indiscutível o charme e o deslumbramento dos filmes, resultado do carisma, do talento, da beleza da adolescente Romy Schneider. Sissi, o primeiro filme, aborda os anos felizes que a filha do Duque Max da Baviera passava na propriedade rural da família. Suas diversões eram andar a cavalo e conversar com os bichos de estimação. É o retrato de uma nobre família campesina, sem nada a fazer senão aproveitar os dias, ao sabor das estações, regados a comida farta, bebida, jogos e conversas com os amigos.

Essa felicidade está prestes a acabar para Sissi, pois sua mãe, a Duquesa Ludovika, planeja uma viagem à Viena para casar Helene, a filha mais velha, com o Imperador Franz Joseph. Casamento arranjado, como tantos da realeza, que fracassa quando o Imperador e Sissi se apaixonam.

O filme encantou multidões, arrecadando mais em bilheteria na Áustria do que E o vento levou (1939). “O diretor Ernst Marischka, também autor do roteiro, viu na história da vida da princesa Sissi um romance com grande potencial cinematográfico. Afinal de contas, a maneira pela qual Sissi reencontra o primo Franz Joseph anos depois de brincarem juntos e se apaixonam, mesmo o rapaz estando ‘prometido’ para a irmã dela, possui verdadeiro manancial melodramático – o que o filme, no entanto, evita, deixando o drama romântico para as outras partes da trilogia. No lugar, a comédia de erros se instala quando os dois se encontram na beira de uma pescaria e Sissi parece mais uma tirolesa perdida na natureza do que uma prendada aristocrata”. – Pedro Maciel Guimarães.

Infelizmente, estes anos ingênuos não encontram espaço fora das telas, onde parece não haver lugar para happy-end. A princesa Elisabeth da Áustria-Hungria foi assassinada aos 61 anos por um fanático religioso. Romy Schneider, após anos de depressão, doença agravada após a morte trágica do filho adolescente, foi encontrada morta, em 1982, vítima de uma combinação de álcool e remédios. Tinha apenas 44 anos.

Sissi (Áustria, 1955), de Ernst Marischka. Com Romy Schneider (Sissi), Karlheinz Bohm (Imperador Franz Joseph), Magda Schneider (Duquesa Ludovika), Uta Franz (Princesa Helene), Gustav Knuth (Duque Max).

Referência: Coleção Folha Grandes Astros do Cinema. Romy Schneider. Cássio Starling Carlos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.