Saco de pulgas

Saco de pulgas (Pytel blech, República Tcheca, 1963), de Vera Chytilová. 

O filme começa com a jovem Jana (Helga Cocková) chegando no dormitório da fábrica onde vai trabalhar. Não vemos a personagem, apenas o grupo de garotas que dividem o espaço a tratando de forma jocosa, ironizando seu jeito e sua aparência. Nesse momento, conhecemos Jana pelos comentários que ela faz em off. 

A abertura irreverente pontua o estilo da cineasta Vera Chytilová, uma das mais influentes da renascença do cinema Tcheco nos anos 60. Jana, aos poucos, demonstra sua personalidade combativa, se rebelando contras as regras rígidas do internato e da fábrica, regida por um comitê de homens, membros do partido socialista. Saco de pulgas representa o cinema contestador, feminista, de uma das principais diretoras do cinema theco. 

Laços

Laços (Holdudvar, Hungria, 1969), de Márta Mészáros. Com Mari Torocsik (Edit), Kati Kovács (Kati), Lajos Balázsovits (Istiván). 

O patriarcado e a masculinidade tóxica são o grande tema do filme de Márta Mészáros, cineasta hungara famosa por seu olhar feminista em um país dominado pelos homens do partido, assim como em grande parte dos países do leste europeu. Edit acaba de ficar viúva, seu promissor marido político morre repentinamente. Ela se vê bajulada pelos membros do partido, mas sabe da hipocrisia: seu marido não era bem visto neste meio.

Esses laços familiares tornam-se cada vez mais opressores, a frustração de Edit com seu casamento se repete na maternidade madura. A grande virada do filme acontece com a personagem Kati. Enquanto Edit segue tentando se libertar, o final da narrativa apresenta uma Kati que se rebela, se recusando a seguir o destino da sogra.  A sequência final é simbólica: a jovem caminha resoluta enquanto é assediada por um grupo de jovens. 

Diamantes da noite

Diamantes da noite (República Tcheca, 1964), de Jan Nemec. Com Ladislava Jansky e Antonin Kumbera. 

A abertura do filme já anuncia o estilo livre e rebelde das filmagens, bem sintonizada com o novo cinema dos anos 60. Dois jovens correm por um campo, a partir de uma linha de trem (escaparam do trem em movimento, destinado ao transporte de judeus para os campos de concentração). A câmera treme incessantemente, desfoca, foca novamente, corre e, por vezes, cai junto com os jovens já exaustos.

É um filme praticamente silencioso, com diálogos curtos e esparsos, a estética privilegia a imagem carregada da tensão da fuga dos jovens exaustos e famintos nos campos, bosques, morro de pedras. Flashbacks e flashforwards confundem o espectador sobre o que realmente aconteceu ou acontecerá, nada é definido, são apenas imagens curtas que cortam a ação. 

O final em aberto provoca ainda mais, remetendo a incerteza, a um mundo onde  nada se prevê, nem mesmo a vida ao fim do dia. Atenção para a sequência dos alemães se embebedando em uma taberna enquanto os jovens assistem as cenas grotescas que podem decidir pela sobrevivência dos dois. 

A garota e o eco

A garota e o eco (Lituânia, 1964), de Arūnas Žebriūnas e Regina Vosyliute.

É um prazer se deparar nas plataformas de streaming, no caso a Filmicca, com filmes restaurados de cinematografias que jazem esquecidas na história do cinema. O lituano A garota e o eco acompanha durante um dia o final das férias de verão da pequena Vika (Lina Braknyté) , vivendo um um ingênuo estado de liberdade. 

Ela ajuda o avô com o barco, nada nua no mar, escala as rochas, se diverte em uma cabine telefônica defeituosa. Vika conhece Romas (Valery Zubarev), um garoto local, e os dois exploram os arredores da praia, enquanto são atormentados por um grupo de garotos tóxicos. 

A garota e o eco foi filmado em locação, com poucos personagens, inspirado no estilo neorrealista de fazer cinema, com uma sensibilidade fotográfica e sonora de enlevar os sentidos. Ana conversando com as montanhas, só ela sabe exatamente a posição em que os ecos vão ressoar, representa este dia de verão que todos nós vivemos ou deveríamos ter vivido em algum momento de nossas infâncias. 

O esqueleto da Sra. Morales

O esqueleto da Sra. Morales (El esqueleto de la señora Morales, México, 1960), de Rogelio A. González.

A obra de Rogelio A. González é cultuada pelos amantes dos filmes de terror, mais precisamente do humor negro. O taxidermista Pablo Morales (Artur de Córdova) é admirado por todos da cidade, pois trata os amigos e as crianças com bondade e respeito. Quando chega em casa, sua vida se transforma: Pablo é tratado com desprezo e crueldade pela mulher que, inclusive, o acusa de agressão física e moral diante do fanático grupo religioso do qual faz parte. Gloria Morales tem ódio do trabalho do marido que mantém no térreo da casa uma coleção de animais empalhados. 

Cansado dos maus tratos, Pablo envenena a esposa e disseca seu cadáver, o mantendo em destaque entre sua coleção. O esqueleto da Sra. Morales é muito mais do que bom humor e terror. É uma sátira aos rígidos costumes da sociedade mexicana, colocando a hipócrita classe média, com seus conceitos religiosos e sociais, como a principal vítima do taxidermista. A sequência do julgamento é puro nonsense, a sociedade diante do esqueleto sem saber o que significa tudo aquilo. 

A pequena loja da rua principal

A pequena loja da rua principal (Obchod na korze, República Tcheca, 1966), de Ján Kadá e Elmar Klos. 

Tono (Josef Kroner) é carpinteiro em cidadezinha da Tchecoslováquia. Está desempregado e passa os dias sendo atormentado pela mulher. Para escapar, ele vai regularmente à cidade onde, na rua principal, está sendo construído um monumento de madeira em homenagem aos nazistas. Seu cunhado é o representante oficial dos nazistas na cidade e oferece a Tono a administração de uma pequena loja, cuja proprietária é a senhora Lautmann (Ida Kaminska) uma velha judia que sofre de surdez. 

“Talvez o mais comovente drama feito sobre o holocausto, o filme de Ján Kadá e Elmar Klos, trata da moralidade individual e da responsabilidade no contexto de uma sociedade ‘total’, tema provocante que não passou despercebido dos censores thecos. Embora trate das complicadas questões humanas levantadas pelo relacionamento entre judeus e gentios em uma Tchecoslováquia ocupadas pelos alemães, o filme descobre uma esperança utópica para a felicidade coletiva no meio do desespero profundo”. 

A relação entre Tono e a senhora judia começa agressiva de ambos os lados e, passo a passo, caminha para a aceitação e o respeito. O desejo de ascensão social de Tono e, principalmente de sua ambiciosa mulher, naufraga rápido, pois a loja sequer tem produtos para serem vendidos. Tudo muda quando os nazistas decretam a deportação dos judeus da cidade para os campos de concentração. O bom humor e a sensação de esperança dá lugar à tragédia, o final representa as trevas que cobriam a Europa. 


Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

As pequenas margaridas

As pequenas margaridas (República Tcheca, 1966), de Vera Chytilová. Com Ivana Karbanová e Jitka Cerhová

O filme começa com plano fechado em duas jovens, cujos nomes verdadeiros não serão revelados ao longo da trama (ambas são Marie) tomando sol de biquínis. Elas conversam sobre trivialidades e, em determinado momento, dizem a frase que será o cerne da narrativa: “Se o mundo está tão mal, então seremos más também.”

A partir daí, as duas começam uma série de brincadeiras atrevidas, provocando as pessoas em restaurantes, bares e demais ambientes; brincadeira de mau gosto que envolvem uma comilança sem fim. Elas conquistam homens mais velhos dispostos a pagar a conta dos lugares, se empanturram e os dispensam. 

Claro, o filme teve diversos problemas com a censura comunista da antiga Tchecoslováquia. As protagonistas representam a anarquia pura de uma proposta de libertação feminina em um mundo dominado pelos autoritários homens do poder. 

“Um dos exemplares mais delicosamente piscodélicos e cheios de estilo dos anos 60, As pequenas margaridas, de Vera Chytilová, é uma farsa feminista amalucada e agressiva, que explode em diversas direções. Embora muitos cineastas americanos e europeus se orgulhassem, na época, de sua vocação para a subversão, é possível que o filme mais radical da década – tanto formal quanto ideologicamente – seja proveniente do Leste europeu, do caldeirão que fervia com a preparação para as reformas políticas de 1968: a Primavera de Praga, de tão curta duração.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A lua nasceu

Kinuyo Tanaka trabalhou como atriz em filmes de Yasujiro Ozu. A lua nasceu é seu segundo filme como diretora, cujo roteiro é de Ozu. A trama gira em torno de uma família composta pelo pai viúvo, suas duas filhas, Ayako e Setsuko, e sua nora, Chizuru, também viúva. Ayako está de casamento marcado, matrimônio arranjado pela tia, mas a caçula Setsuko faz de tudo para que ela se enamore de um amigo de infância, que está de passagem pela cidade.

Como recorrente em filmes de Ozu, o tema central são as relações familiares no Japão do pós-guerra, com destaque para os jovens que começam a renegar as tradições do país. O pai assiste às tentativas de namoro das três jovens sob sua tutela com resignação e bom humor, entendendo que as mudanças são inevitáveis. As cenas ao luar são encantadoras, pontuadas por poemas clássicos que embalam os corações dos enamorados.

A lua nasceu (Japão, 1955), de Kinuyo Tanaka. Com Chishu Ryu (Mokichi Asai), Shoji Sano (Takasu), Hisako Yamane (Chizuru), Yoko Sushi (Ayako), Mie Kitahara (Setsuko). 

A festa e os convidados

A festa e os convidados (República Tcheca, 1966), Jan Nemec. Com Helena Pejšková, Jana Prachařová, Zdena Skvorecky, Ivan Vyskocil, (Jan Klusák, Jiri Nemec. 

Sete burgueses estão em um bosque, fazendo um piquenique. Logo depois eles seguem em direção a uma festa, em uma casa de campo. Durante o trajeto, são abordados por um grupo de jovens que começam uma série de brincadeiras com os burgueses e, passo a passo, a situação caminha para uma possível tragédia. 

A virada acontece quando o anfitrião da festa chega, repreende o grupo, dizendo que tudo não passou de um mal entendido. Todos os convidados se encaminham para o banquete servido ao ar livre, à beira de um lago. 

A festa e os convidados é um dos filmes que marca a renascença do cinema theco, conhecida como Nouvelle Vague Tcheca. O filme foi rodado em 1966, mas devido à censura, foi exibido em 1968. Durante a explosão da Primavera de Praga, o filme foi censurado novamente. 

A alegoria não agradou ao regime, pois assim como O baile dos bombeiros (1967) e As pequenas margaridas (1966), a exploração do tema comida em profusão representou o momento de escassez da sociedade, bem como a passividade, a submissão diante de autoridades. Durante o assédio no bosque, ninguém, nem mesmo os agressores, sabem o motivo e, cabe aos agredidos, aceitarem de cabeça baixa as ameaças. 

O gato preto

O gato preto (Japão, 1968), de Kaneto Shindô. Com Kichiemon Nakamura (Gintoki), Nobuko Otowa (Yone), Kei Satô (Raiko). 

O início do filme é desolador. Um grupo de samurais famintos (o Japão está afundado em uma guerra civil), entra em uma cabana onde duas mulheres, a jovem Gintoki e sua sogra Yone, comem. Eles roubam a comida das mulheres, praticam um estupro coletivo e colocam fogo na cabana. É uma cruel sequência de estupro e assassinato, traduzindo esse Japão sem lei, que permitia poder total aos guerreiros

As duas mulheres renascem misteriosamente, encarnadas em um gato preto. Fizeram um pacto para voltar à vida e passam a seduzir e matar os samurais que cruzarem o caminho de um bambuzal. No entanto, elas vão se confrontar com um samurai inesperado: Raiko, o filho de Yone e marido de Gintoki que retorna da guerra como heroi. 

O gato preto começa como um assustador  e simbólico conto de fantasmas. As protagonistas buscam vingança não apenas contra os samurais, mas contra a sociedade patriarcal que marcou a história do Japão, história de sádica exploração feminina. Quando Raiko entra em cena, começa uma sensível e erótica história de amor, com belíssimas cenas de sexo. O desejo masculino e feminino se encontram em plenitude, levando Gintoki a um perigoso jogo entre o seu amor e o pacto que fez.