Saute ma ville

Saute ma ville (França, 1971) é o primeiro curta-metragem de Chantal Akerman, realizado quando ela tinha 18 anos e estava cursando o primeiro período da faculdade de cinema em Bruxelas (Chantal abandonou o curso logo no primeiro período para seguir na carreira como autodidata).

A própria diretora interpreta uma jovem que chega em seu apartamento com as compras do dia e começa uma série de atividades rebeldes: abre e esvazia gavetas, espalha coisas pelo chão, joga água no piso, expulsa seu gato para a varanda. É um filme silencioso que termina com a jovem vedando todas as frestas de janelas e portas e ligando o gás de cozinha. Impactante e perturbador curta de estreia de Chantal Akerman.

Anos dourados

Anos dourados (Golden eighties, França, 1986), de Chantal Akerman.

A experimentalista Chantal Akerman faz uma incursão pelo filme de gênero, sem abrir mão de suas ousadas críticas sociais e morais. A narrativa se passa em um shopping, com cenário estilizado, caricatural, cores exuberantes, assim com os personagens que desfilam figurinos, maquiagens e cabelos em estilos extravagantes, bem anos 80. 

A trama principal, misto de musical, comédia e drama, segue um triângulo amoroso formado pelos jovens Pascale e Mado. Ele, filho dos proprietários de uma loja de roupas, ela, cabeleireira no irreverente salão de Lili, que integra o triângulo. Os personagens secundários também narram suas desventuras amorosas do passado e do presente, sempre com o tom de desilusão e solidão da consagrada diretora belga, (cujo filme Jeanne Dielman, hoje lidera a lista de melhor de todos os tempo da Revista Sight & Sound). 

Eu, tu, ele, ela

Eu, tu, ele, ela (Je, tu, il, elle, França, 1974), de Chantal Akerman.

O primeiro longa-metragem de Chantal Akerman é puro cinema experimental. A própria diretora interpreta Julie que, na primeira parte do filme, está sozinha em seu apartamento. Ela escreve longas cartas, consome doses elevadas de açúcar, anda nua pelo apartamento sem se preocupar em ser vista pelos transeuntes. 

Na segunda parte, Julie vai para a estrada  e pega carona com um caminheiros. Os dois vagueiam pelas estradas e lanchonetes, ela praticamente silenciosa, ele cada vez mais se enveredando pelas confidências, principalmente sexuais. 

Na terceira parte, Julie chega ao apartamento de sua ex-namorada. A princípio, Julie é expulsa de casa pela namorada. Deposi, as duas se entregam a um ousado jogo erótico. 

A película é um estudo vigoroso sobre o vazio existencial, sobre o tédio. Chantal Akerman destila ousadia em diversas cenas: a nudez pura de Julie no apartamento, a revelação do motorista que sente desejos pela filha, a entrega sem pudor entre as namoradas no apartamento. O experimento de Chantal Akerman é feito para a entrega contemplativa e reflexiva do espectador.

Duelo

Duelo (França, 1976), de Jacques Rivette, é um dos filmes mais experimentais do aclamado diretor da nouvelle-vague francesa. A narrativa acompanha a batalha de dois seres místicos: A Rainha do Sol, Viva (Bulle Ogier) contra a Rainha da Noite, Leni (Juliet Berto). O centro da disputa é um diamante mágico, mas no caminho das duas se interpõe a jovem Lucie (Hermine Karagheuz) e seu irmão Pierre (Jean Babilée), que se torna objeto de desejo das rainhas. 

O filme é um desfile extravagante de figurinos e cenários, transformando a clássica Paris em um virtuosismo de cores e cenas oníricas. A cidade ganha contornos esótericos como palco, quase sempre noturno, do duelo das rainhas. 

O filme faz parte do ciclo criado por Jacques Rivette Scènes de la vie parallèle, projeto que seria composto por quatro filmes interconectados, cujas temáticas seriam místicas e míticas, espécie de narrativas paralelas ou realidades alternativas. No entanto, apenas Duelo foi concebido de acordo com a ideia original. 

Blue jeans

Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure). 

O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental. 

Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias. 

Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos. 

Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans

A carruagem de ouro

A carruagem de ouro (Le carrosse d’or, França, 1952), de Jean Renoir.

Um grupo italiano de Commedia Dell’Arte chega a uma colônia espanhola na América do Sul, no século XVIII. O grupo é surpreendido pela rusticidade do local que não tem sequer um teatro para apresentações. Camilla (Anna Magnani), estrela do grupo, se revolta com as condições, mas vai ter que vencer sua frustração pelo amor à sua arte. 

O filme é uma comédia satírica fortemente marcada pela estética, cores exuberantes, com claras referências às artes plásticas, e pela interseção entre o cinema e o teatro, entre a vida real e a ilusão provocada pelas encenações artísticas. 

Anna Magnani é o destaque da trama com sua exuberância, seu espontâneo comportamento tanto em em meio à plebe rude quanto  em meio à realeza. Assediada pela paixão de três homens, o vice-rei, um toureiro famoso e um oficial espanhol, Camilla oscila entre suas paixões pessoais, incluindo sua ambição material (o título se refere a uma carruagem de ouro que ela ganha de presente do rei) e seu amor incondicional pela interpretação, pelo teatro. Não é difícil imaginar quem vencerá, em se tratando de um papel interpretado pela majestosa Anna Magnani.

Imagem e palavra

Imagem e palavra (Le livre d’imagem, França, 2018) estreou no Festival de Cannes e foi o propulsor para uma Palma de Ouro Especial, premiando a carreira de Jean-Luc Godard. O filme é uma colagem audiovisual, misturando trechos de filmes, programas de TV, reportagens jornalísticas e as famosas inserções de textos literários, citações filosóficas e comentários políticos que permeiam a obra do célebre diretor da nouvelle-vague francesa. 

Godard classificou a película como “a história dos últimos cem anos”, dividindo a narrativa fragmentada em cinco partes. “Em Imagem e Palavra, Godard traça este cruzamento entre palavras, hoje multiplicadas, e, ao mesmo tempo, ausentes na fala. Dedica-se a refletir sobre as exaltações de nosso tempo em seis fôlegos – na realidade cinco segmentos ensaísticos, claramente indicados, e mais uma ficção final. Em declarações sobre a obra e no filme, Godard nos diz que os cinco segmentos equivalem aos cinco dedos da mão. Sua voz explica, logo na abertura, que ‘a verdadeira condição do homem é de pensar com suas mãos’, em citação tirada de Denis de Rougemont: ‘Existem os cinco dedos, os cinco sentidos, as cinco partes do mundo, sim, os cinco dedos da fada. Mas todos juntos, eles compõem a mão e a verdadeira condição do homem é pensar com suas mãos’.” –  Fernão Pessoa Ramos

Adeus à linguagem

Adeus à linguagem (Adieu au langage, França, 2014), de Jean-Luc Godard.

Godard foi mais uma vez reverenciado no Festival de Cannes com sua ousada incursão pelo cinema em terceira dimensão, mantendo sua tradicional experimentação narrativa e estética. A trama fragmentada acompanha de forma descontinuada a separação de um casal, que encontra um cachorro de rua, em espécie de recortes das memórias, entremeados por referências à literatura, cinema e filosofia.

“Trata-se de um filme raro justamente por entrelaçar o engajamento cultural (o reconhecimento de uma certa linguagem) a uma experiência extraordinariamente física de sua existência. Vê-lo e ouvi-lo em condições ideais – projetado em 3D numa sala de cinema equipada com som surround cristalino o suficiente para preservar toda a expressividade das saturações – é abrir-se a uma relação que mexe diretamente com o corpo e com a percepção, efetivando-se tanto na atração quanto na opacidade. Não à toa, as câmeras usadas na filmagem e seus respectivos frame rates aparecem nos créditos finais junto a outros célebres citado, como Arnold Schoenberg e Samuel Beckett: a força de Adeus à linguagem reside na percepção de que o cinema se dá tanto na profundidade do que se mostra quanto na superfície do que é mostrado. Novamente, matéria e linguagem. ‘Em vez de sentirmos com os personagens, sentimos com o filme’, escreveu David Bordwell em sua meticulosa análise da obra, e esse sentimento se dá tanto pela engajamento intelectual (um filme de entretenimento, no sentido literal do termo, pois mantém o cérebro permanentemente empenhado com suas conexões) quanto pela explosão sensorial que provoca, produz e coloca em crise em sua própria pele.. Daí a saturação, que por vezes torna tanto a imagem quanto o som, reforçando o parentesco do cinema com a pintura, mas também com a arte sonora.” – Fábio Andrade.  

Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

O diário de uma camareira

O diário de uma camareira (França, 1964), de Luis Bunuel.

Céléstine (Jeanne Moreau) chega ao campo para trabalhar como camareira da rica, porém decadente, família Monteil.  Ela ganha a confiança do patriarca da família, velho mulherengo com fetiche por botas, é assediada pelo filho e se envolve com Joseph (Georges Géret), o jardineiro da propriedade. Joseph vai ser o principal suspeito do estupro, seguido de assassinato de uma criança da região. 

A virada acontece quando Célestine decide investigar o crime e se envolve de forma sedutora, usando sua sofisticação e beleza para se aproveitar da família cheia de “podres” para quem trabalha. O final é revelador do imenso desprezo que Luis Buñuel tratou a burguesia em grande parte de sua obra. 

O diretor espanhol, contando com a colaboração do consagrado roteirista Jean-Claude Carriere, tentou ser fiel ao livro homônimo de Octave Mirbeau. O tema, a decadência da burguesia e os conflitos de classe, é um dos favoritos de Buñuel. Destaque para a fascinante atuação de Jeanne Moreau cuja transformação é trabalhada com sutileza, deixando à mostra uma ambição que se constrói à medida que ela conhece, e não julga, o deplorável estilo de vida da família Monteil. 

Deixe a luz do sol entrar

Isabelle é uma bem sucedida artista plástica. É independente, separada, tem uma filha (que pouco aparece na trama, pois está passando uma temporada com o pai). O contraponto de sua vida profissional e artística de sucesso são as constantes desilusões amorosas: seus namorados são sempre homens casados, um rico banqueiro, um ator de teatro em crise, até mesmo seu ex-marido frequenta vez por outra sua casa. 

Deixe a luz do sol entrar é um filme feito sob medida para Juliette Binoche destilar seu charme e talento em tela. Sua insegurança é por vezes hilária, outras vezes triste, outras apenas apática. A narrativa, repleta de diálogos, muitas vezes reflexivos, tematizam a esperança, o afeto, a sensualidade e o contrário de tudo isso que permeia o caminho de Isabelle. Atenção para o longo diálogo final, com participação especial de Gérard Depardieu (que não deveria estar em um filme tão sensível sobre a feminilidade). 

Deixe a luz do sol entrar (Un beau soleil intérieur, França, 2017), de Claire Denis. Com Juliette Binoche (Isabelle), Xavier Beauvois (Vincent), Philippe Katerine (Mathieu), Josiane Balasko (Maxime).