Eu só quero que vocês me amem

Eu só quero que vocês me amem (Ich will doch nur, dass ihr mich liebt, Alemanha, 1976), de Rainer Werner Fassbinder.  

No começo do filme, Peter Trepper (Vitus Zeplichal) está construindo uma casa para seus pais. Seu pai, um próspero negociante, considera isso normal e é incapaz de agradecer ou mesmo um gesto de afeto para o filho. Peter casa-se com Erika (Eike Aberle) e se muda para Munique, onde trabalha como pedreiro na emergente indústria da construção civil. 

Eu só quero que vocês me amem foi feito para a televisão alemã. Baseado em um fato real, Fassbinder gravou o filme em apenas 25 dias (a rapidez nos projetos é uma marca do diretor). Quando se muda para Munique, Peter começa um ciclo vicioso de consumo, se endividando cada vez mais e mais até não ter mais condições de pagar suas dívidas. A crítica de Fassbinder à sociedade de consumo dos anos 70, que incentivava quase como uma obrigação a compra de bens, como eletrodomésticos, é mordaz. 

A falta de afeto dos pais e a própria incapacidade de Peter de expressar seus sentimentos é determinante para a sua instabilidade emocional. A montagem é ponto de destaque da trama: uma jornalista/escritora cria o mistério entrevistando Peter, e flashes de eventos futuros anunciam o trágico destino do personagem. 

Elenco: Vitus Zeplichal (Peter Trepper), Eike Aberle (Erika), Alexander Allerson (Vater Ernst Trepper), Erni Mangold (Mutter Edith Trepper). Erika Runge (Entrevistadora). 

O direito do mais forte é a liberdade

O direito do mais forte é a liberdade (Faustrecht der freiheit, Alemanha, 1975), de Rainer Werner Fassbinder. 

Franz Biberkopf (Fassbinder) é um jovem trabalhador que logo no início da trama ganha na loteria. Com dinheiro, ele entra no círculo social mais elevado, conhece e se apaixona por Eugen Thiess (Peter Chatel), filho do dono de uma empresa gráfica. 

A relação amorosa entre os dois é marcada pelo interesse financeiro, Eugen se aproveita do dinheiro de Franz para investir na empresa falida do pai, comprar um apartamento e mobiliá-lo de forma extravagante. Passo a passo, Franz se sente desprezado pelo círculo social de Eugen, que não aceita a ingenuidade e falta de traquejos sociais do jovem. 

O direito do mais forte é a liberdade é uma ácida crítica ao capitalismo moderno, marcado pelo consumismo, e sua devastadora interferência nas relações amorosas. A abordagem crua e direta das relações homossexuais, que exploram-se mutuamente, é um dos pontos polêmicos do filme. Eugen tenta moldar Franz em termos de etiqueta e cultura que orientam as elites, enquanto usurpa o dinheiro de seu amante. Atenção para o final triste, melancólico e profundamente pessimista. 

Elenco: Rainer Werner Fassbinder (Franz Biberkopf), Peter Chatel (Eugen Thiess), Karlheinz Bohm (Max), Christiane Maybach (Hedwig). 

O medo consome a alma

O medo consome a alma (Angst essen seele auf, Alemanha, 1974 ) é a releitura de Rainer Werner Fassbinder do filme Tudo que o céu permite (1955), consagrado melodrama de Douglas Sirk.

Emmi (Brigitte Mira), uma viúva de 60 anos, trabalha como faxineira. Ela mora sozinha, seus três filhos já constituíram família.  Uma noite, ela entra em um pub para se esconder da chuva e conhece Ali (El Hedi ben Salem), imigrante marroquino bem mais jovem. Os dois começam um relacionamento amoroso e, contrariando todos os familiares e amigos de Emmi, se casam. 

Enquanto os dois namoram e moram juntos, o relacionamento não incomoda, como se fosse uma espécie de contrato sexual entre uma mulher mais velha e seu jovem amante. Quando Emmi e Ali se casam, o preconceito e a xenofobia irrompem entre as pessoas próximas, desencadeando agressões verbais e provocando o isolamento do casal. Mais tarde, os filhos e amigos descobrem que podem tirar proveito da união e passam a aceitar o casamento. 

No filme original de Douglas Sirk, uma cena famosa é quando os filhos dão uma televisão de presente para a mãe, como uma forma de tentar confiná-la dentro de casa. Na releitura de Fassbinder, quando fica sabendo do casamento, um dos filhos de Emmi chuta a televisão da sala até quebrá-la. 

O filme foi rodado em apenas 15 dias, com baixo orçamento, estratégia que acompanhou a carreira de Fassbinder. O diretor alemão trabalhava compulsivamente, chegando a escrever e dirigir até três filmes por ano. 

As lágrimas amargas de Petra von Kant

As lágrimas amargas de Petra von Kant (Die bitteren tranen der Petra von Kant, Alemanha, 1972), de Rainer Werner Fassbinder, é adaptado de uma peça de teatro escrita pelo próprio diretor. A trama acontece inteiramente dentro do apartamento de Petra von Kant (Margit Carstensen), uma estilista famosa que convive com a depressão e o alcoolismo. 

No apartamento, moram Petra e sua discípula Marlene (Irm Hermann), que também executa as tarefas domésticas e se relaciona com a sua mestre com inteira servidão – ela não emite uma palavra durante todo o filme. O conflito central acontece quando Karin (Hanna Schygulla), jovem aspirante a modelo, vai morar com Petra. As duas começam uma relação amorosa marcada pelo interesse financeiro, profissional e pelas disputas de dominação e submissão. 

As lágrimas amargas de Petro von Kant demarca a ousadia do cinema dos anos 70 e do novo cinema alemão. O romance entre as protagonistas e a estética extravagante do apartamento provocam em termos sexuais, comportamentais e psicológicos: as três protagonistas, confinadas neste ambiente claustrofóbico, vivem em um relacionamento dominado pela crueldade e pelo sadomasoquismo. 

O medo do medo

O medo do medo (Angst vor der angst, Alemanha, 1975), de Rainer Werner Fassbinder, foi realizado para ser exibido na televisão alemã. Fassbinder usou como base as memórias da escritora Asta Scheib, que publicou um livro com relatos pessoais sobre a sua luta contra a depressão. Asta foi convidada por Fassbinder para participar dos sets de filmagem e percebeu que o diretor usou apenas a ideia do livro. Segundo Asta, Fassbinder usou muito de sua própria experiência com a doença para narrar o martírio da protagonista Margot.

Margot está grávida de seu segundo filho e começa a sentir sintomas de medo e insegurança. Quando a criança nasce, tudo se intensifica e ela começa a agir de forma estranha, cada vez mais dominada por sentimentos que não compreende. Fassbinder usa a técnica de ondular levemente os ambientes do apartamento em que ela mora para denotar o gradativo estado depressivo. Margot se torna dependente de remédios e, depois, do álcool. 

O medo do medo é um estudo sensível e perturbador dessa doença que atinge milhões de pessoas e age de forma invisível e, quando se manifesta, é rotulada de forma degradante até mesmo pelos familiares. A sequência do adultério de Margot, motivada pela dependência de remédios, é triste, pois aponta a crueldade de pessoas ao redor que se aproveitam ao invés de ajudar. 

Elenco: Margit Carstensen (Margot), Ulrich Faulhaber (Kurt), Brigitte Mira (mãe de Kurt), Ir Herman (Lores), Armin Meier (Karl), Adrian Hoven (Dr. Merck). 

Precauções diante de uma prostituta santa

Precauções diante de uma prostituta santa (Warnung vor einer heiligen nutte, Alemanha, 1970), de Rainer Werner Fassbinder, faz parte da antologia de filmes que refletem sobre o próprio cinema. A lista de classicos inclui Crepúsculo dos deuses (1950, Billy Wilder), Assim estava escrito (1952, Vincente Minnelli), No silêncio da noite (1950, Nicholas Ray), Cantando na chuva (!953, Gene Kelly e Stanley Donen) O desprezo (1963, Jean-Luc Godard), Oito e meio (1963, Federico Fellini), A noite americana (1973, François Truffaut). 

Na obra de Fassbinder, uma equipe de profissionais do cinema está reunida em um palacete na Espanha durante os preparativos de um filme intitulado Pátria e Muerte. Atores e atrizes, produtores, diretor de fotografia, continuístas, técnicos e o diretor que se recusa a fazer o filme. O tédio e a insegurança da espera, dos preparativos, são permeados por tensões sexuais e amorosas, conflitos profissionais, desilusão diante da arte,  frustração com o próprio trabalho, não-reconhecimento do talento, desespero diante da falta de dinheiro para o prosseguimento da produção, enfim, um set de cinema? Ou um set de cinema de Fassbinder?

Fassbinder interpreta Sascha, o produtor executivo que deve contornar  os problemas e tentar dosar o insano, irascível e agressivo Jeff Castel, diretor do filme. Jeff trabalha aos gritos aleatórios com a equipe chegando, inclusive, a agressões físicas. Nos intervalos, ele se relaciona sexualmente com homens e mulheres da equipe. 

Essa prostituta santa, o cinema, espalha o terror e o desejo, exaspera os sentimentos de toda a equipe, incentiva o confronto, quase destroi emocionalmente um ou outro. Mas ninguém consegue deixar o set, ninguém resiste ao processo quase apocalíptico de fazer cinema. 

Elenco: Lou Castel (Jeff Regisseur), Eddie Constantine (Eddie), Marquard Bohm (Rickey), Hanna Schygulla (Hanna), Rainer Werner Fassbinder (Sascha), Margarethe von Trotta (Babs), Ulli Lommel (Korbinian). 

Por que deu a louca no Sr. R.?

Por que deu a louca no Sr. R.? (Warum läuft Herr R. Amok, Alemanha, 1970), de Rainer Werner Fassbinder e Michael Fengler. 

O Sr. R (Kurt Raab) vive uma vida de aparência com sua esposa, a Sr. R (Lilith Ungerer). São de classe média, têm um filho, passam os dias apáticos em seu relacionamento: bebendo, fumando, recebendo amigos em casa, fazem tudo juntos, mas sem a menor intimidade ou sinal de sentimentos, são como dois estranhos que resolveram viver juntos. No trabalho, Ele é um solitário metódico, retraído, temeroso de atos mais atrevidos. Ele é um observador distante da vida. 

Tudo muda quando, em uma festa da empresa, bêbado, ele faz um discurso ofensivo a vários de seus colegas. A loucura do título que passo a passo caminha para um trágico ato final em família. 

Fassbinder dirigiu a película em parceria com Michael Fengler. Os planos longos aplicados a uma narrativa por vezes monótona evidencia a placidez do casal, simbolizando a rotina sem atrativos da classe média alemã, um dos temas favoritos de Fassbinder. Entre a casa e o trabalho, a vida do Sr. R. caminha sem motivações, talvez uma promoção que nunca acontece. O surpreendente gesto final, inesperado e violento, poderia ser visto como um gesto de liberdade, de tentativa de finalmente se fazer notar por todos ao seu redor, mas nada mais é do que a perigosa explosão do subconsciente de pessoas que vivem em um mundo apático. l

O comerciante das quatro estações

Quando volta do serviço prestado à Legião Estrangeira, no Marrocos, em 1947, Hans Epp começa a trabalhar como feirante, junto com a esposa, Irmgard Epp. Para aumentar os rendimentos, ele percorre as ruas de bairros com um carrinho de frutas, anunciando para as janelas suas ameixas e peras. 

Com este personagem singular, Fassbinder compõe a metáfora das quatro estações. Hans vê seus dias passarem de forma repetitiva, quase um espectador passivo de sua própria vida sem sentido. Ele é o protótipo do homem fracassado, cuja profissão é humilhante para sua família burguesa. Em casa, ele agride a esposa e despreza a filha única.  

O comerciante das quatro estações surgiu após Fassbinder ficar fascinado pelo cinema de Douglas Sirk. As referências ao melodrama são claras durante a trama, com o protagonista entregando-se ao sofrimento sem possibilidades de redenção, caminhando de forma irreversível para um abrupto ato final, quando bebe atá a morte sob os olhares dos amigos. Fassbinder não poupa o espectador, filmando o ato de forma seca, quase como se fosse natural o auto sacrifício do personagem. Preste atenção no final pós morte, no comportamento indiferente, frio e desprezível da família de Hans, da esposa e de seu amante. 

O comerciante das quatro estações (Handler der vier jahreszeiten, Alemanha, 1971), de Rainer Werner Fassbinder. Com Hans Hirschmüller, (Hans Epp) Irm Hermann (Irmgard Epp), Hanna Schygulla (Anna Epp). 

Alemanha no outono

Em 1977, a Alemanha foi abalada por uma série de acontecimentos políticos de caráter violento, extremista: o sequestro e assassinato de Hann-Martin Schleyer, presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidentel; o sequestro do avião da Lufthansa; o suicídio na prisão de três membros da RAF – Fração do Exército Vermelho. 

Em Alemanha no outono, onze aclamados cineastas, integrantes do Novo Cinema Alemão, se debruçaram sobre o clima terrorista que se instaurou no país, debatendo as questões da extrema direita e da extrema esquerda. O filme foi realizado em estilo episódico, curtas-metragens ligados pelo tema comum que ficou conhecido como Outono alemão. Destaque para o primeiro episódio, escrito, dirigido e interpretado por Rainer Werner Fassbinder, no qual ele se expõe de forma visceral, desnudando-se diante da câmera física e ideologicamente.

“Quando nos reunimos, no início, um dos motivos que nos levaram a concluir pela necessidade de fazer o filme era enfrentar o medo. Era necessário que as pessoas que não tinham nenhum meio de produção e estavam, talvez, ainda mais amedrontadas do que nós, não se deixassem intimidar pelo sentimento que reinava então na Alemanha, de que a crítica era inoportuna em qualquer de suas manifestações e deveria ser calada.” – Fassbinder (Plano Critico)

Alemanha no outono (Deutschland im herbst, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Alexander Kluge, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Hans Peter Cloos, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff.

O desespero de Veronika Voss

Fassbinder conquistou o Urso de Ouro em Berlim com seu penúltimo filme, três meses antes de sua morte. Veronika Voss é uma estrela de sucesso na Alemanha dos anos 50. Ela se torna dependente de drogas e sua carreira entra em decadência. Ela conhece Robert Krohn, num bosque, em uma noite de chuva. A partir daí, Verônica tenta retomar seu lugar no cinema, assim como na própria vida, mas ela se entrega cada vez mais ao vício.

O desespero de Veronika Voss compõe a trilogia de Fassbinder sobre a Alemanha do pós-guerra (os outros são Lola e O casamento de Maria Braun). É um melodrama, gênero que o diretor tanto amou, que aborda as cicatrizes quase incuráveis dessa nação que praticamente se auto destruiu ao assumir o nazismo. Veronika Voss e a Dra. Marianne Katz simbolizam esse país doente, enquanto Robert tenta buscar uma saída para essa degradação generalizada.  

O desespero de Veronika Voss (Die sehnsucht der Veronika Voss, Alemanha, 1982), de Rainer Werner Fassbinder. Com Rosel Zech (Veronika Voss), Hilmar Thate (Robert Krohn), Annemarie Duringer (Mariane Katz).