EO

EO (Polônia, 2022), de Jerzy Skolimowski, acompanha a jornada de um burro cujo olhar triste enternece os espectadores. O veterano diretor polonês se inspirou abertamente no clássico A grande testemunha (1966), de Robert Bresson. 

EO começa a trama como animal de um circo, amado e cuidado com carinho por sua jovem treinadora. Quando  o burro é confiscador por agentes da lei, devido à proibições sobre o uso de animais em circo, começa a sua peregrinação pelo interior da Polônia e pela Itália. Essa jornada é pontuada por gestos de carinho, tentativas de resgate, brutalidade, retratando as diversas facetas do relacionamento dos humanos com seus animais. EO é um burro de carga que deve suportar os sofrimentos físicos inerentes ao trabalho a que é destinado. 

O destaque é a narrativa visual, quase desprovida de diálogos, com um trabalho sonoro, incluindo a trilha, marcante. O mundo passa diante dos olhos tristes de EO, testemunha silenciosa e sensível. De cortar o coração.

A idade da pedra

A idade da pedra (França/Brasil, 2013), curta-metragem de Ana Vaz, foi filmado nos arredores de Brasília, focando em uma estrutura monumental, petrificado no meio da paisagem do cerrado. Em torno do monumento, trabalhadores da construção civil buscam o seu sustento sob o sol incremente. 

A ausência de narração é uma marca nos filmes de Ana Vaz. Em A idade da pedra, o som é responsável por pontuar de forma estridente, outras vezes suave, esta interação desprovida de harmonia entre o homem e a natureza. As imagens e sons levam o espectador a um estado contemplativo, motivando um olhar sensorial nesta intervenção cruel e suicida dos humanos sobre a natureza.

É noite na América

É noite na América (Itália/França, 2022), o primeiro longa-metragem de Ana Vaz, lança um olhar assustador sobre a paisagem do distrito federal. Dominada pelo silêncio, a narrativa fragmentada traz imagens de animais vagando desorientados: jiboia, tamanduá, raposas, rondam as ruas e estradas da cidade. No zoológico, onde residem animais que deveriam estar na natureza, as espécies olham desoladas para os humanos. 

O documentário é um libelo político e humanista, alertando para a ação do homem sobre a natureza, ação destruidora e desprovida de esperanças de que alguma coisa pode mudar. É noite na América é um profundo convite à reflexão sobre o presente e a possível ausência de futuro de nosso planeta. 

Duelo

Duelo (França, 1976), de Jacques Rivette, é um dos filmes mais experimentais do aclamado diretor da nouvelle-vague francesa. A narrativa acompanha a batalha de dois seres místicos: A Rainha do Sol, Viva (Bulle Ogier) contra a Rainha da Noite, Leni (Juliet Berto). O centro da disputa é um diamante mágico, mas no caminho das duas se interpõe a jovem Lucie (Hermine Karagheuz) e seu irmão Pierre (Jean Babilée), que se torna objeto de desejo das rainhas. 

O filme é um desfile extravagante de figurinos e cenários, transformando a clássica Paris em um virtuosismo de cores e cenas oníricas. A cidade ganha contornos esótericos como palco, quase sempre noturno, do duelo das rainhas. 

O filme faz parte do ciclo criado por Jacques Rivette Scènes de la vie parallèle, projeto que seria composto por quatro filmes interconectados, cujas temáticas seriam místicas e míticas, espécie de narrativas paralelas ou realidades alternativas. No entanto, apenas Duelo foi concebido de acordo com a ideia original. 

Butterfly vision

Butterfly vision (Ucrânia/Croácia, 2022), de Maksym Nakonechnyj. Lilya (Rita Burkovska) é especialista ucraniana em reconhecimento aéreo. Ela volta para casa depois de passar vários meses na prisão em Donbas, onde sofreu abusos e tortura. Traumatizada, Lilya passa um tempo em centros de reabilitação, seu passado sempre volta em forma de alucinações. 

O diretor e roteirista ucraniano Maksym Nakonechnyj desnuda de forma contundente, cruel (atenção para a explosão no apartamento) as cicatrizes, os traumas, as consequência no corpo e na mente da Guerra da Ucrânia. Escolher uma protagonista feminina é um destaque da trama, pois as guerras modernas colocaram as mulheres na linha de frente dos combates. 

O título “visão de borboleta” é uma alusão ao fenômeno psicológico conhecido como “visão de túnel”, uma metáfora sobre os traumas, em forma de alucinações, para pessoas que passaram por experiências extremas.  O estilo da narrativa é quase documental, com cenas impactantes das visões de Lilya, cuja interpretação naturalista, apesar de carregada de dor, evita o melodrama. 

Blue jeans

Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure). 

O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental. 

Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias. 

Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos. 

Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans

Aribada

O curta Aribada (Colômbia, 2022), de Simon(e) Jaikiriuma Paetau e Natalia Escobar,  filmado na região cafeeira da Colômbia, encantou em festivais, incluindo o prestigiado Festival de Cannes, com suas imagens oníricas, provocativas na união do real, o mágico e o espiritual. 

A narrativa acompanha Karmen, uma jovem indígena trans, que retorna a sua comunidade no meio da selva colombiana. Aribada, o monstro ressuscitado, conhece um grupo de mulheres trans indígenas do povo Emberá. O grupo se autodenomina Las Traviesas e as mulheres ganham a vida colhendo café.

O curta, mescla de documentário e ficção, acompanha a dualidade da vida de Karmen, dividida entre o mundo urbano e sua herança indígena. É um reflexivo relato sobre a sexualidade e as questões de gênero dentro do povo indígena Emberá. As imagens induzem a contemplação, com frames que refletem a beleza da região e levam o espectador a se encantar com a leveza espiritual dos indígenas. Sensível, delicado, provocativo, Aribada é uma viagem entre a natureza e as emoções dos personagens. 

Antena da raça

Antena da raça (Brasil, 2020), de Paloma Rocha e Luís Abramo.

A filha de Glauber Rocha dirige, ao lado de Luís Abramo, esse contundente documentário sobre o maior cineasta do Brasil. A base é o programa Abertura, que Glauber realizou para a TV Tupi no final dos anos 70. O próprio diretor ia para as ruas com sua câmera entrevistar pessoas comuns com sua famosa verborragia repleta de críticas e ironias. 

Trechos dos filmes de cineastas entremeiam cenas do programa em uma narrativa não linear, provocando associações entre o Brasil dos anos 60, 70 com a atualidade, principalmente em questões políticas. Entrevistados célebres, como o teatrólogo José Celso Martinez e Caetanos Veloso relembram momentos vividos com Glauber Rocha, destacando a rebeldia inerente do artista tanto na vida pessoal como em suas obras fílmicas.  

A menina santa

A adolescente Amália participa de um grupo de jovens católicos. Helena, sua mãe, é proprietária de um hotel onde acontece um congresso médico. Dr. Jano, um dos congressistas, faz carícias na adolescente quando os dois estão espremidos em grupos de rua ou no próprio hotel. 

O filme de Lucrecia Martel é um estudo sobre fé, misticismo e sexualidade. Amália se aproxima do médico, casado e pai de dois filhos, insinuando-se e aceitando os abusos, pois se sente investida de uma missão divina que pode curar o médico desses desejos. Ao mesmo tempo, Helena se sente atraída pelo Dr. Jano, com a trama resvalando para um intrigante triângulo amoroso repleto de desejo, culpa e condenação. 

Grande parte da narrativa acontece nos ambientes fechados do hotel, com algumas cenas de rua. A câmera quase claustofócia de Lucrecia Martel percorre quartos, corredores, salões e a piscina, sempre cheios: médicos, funcionários, familiares, se cruzam e interagem em momentos divertidos, tensos, regados à comida e álcool, a sensação é de uma efervescência prestes a explodir. O som é outro ponto de destaque de A menina santa, formado por ruídos, sons que ultrapassam paredes, diálogos insinuantes e metafóricos. 

A menina santa (La Ninã Santa, Argentina, 2004), de Lucrecia Martel. Com Mercedes Morán (Helena), Carlos Belloso (Dr. Jano), Alejandro Urdapilleta (Freddy), Maria Alché (Amalia), Julieta Zylberberg (Josefina).