Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.
Toda uma noite (Toute une nuit, França, 1982), de Chantal Akerman.
A câmera de Chantal Akerman acompanha vários casais durante uma noite quente do verão de Bruxelas. A narrativa fragmentada tem como tema o romance, encontros que acontecem em bares, restaurantes, quartos, conversas ao telefone. O silêncio e a atmosfera escura da noite ditam o tom do filme, um mosaico de encontros e conflitos que não se desenvolvem, não se resolvem, apenas anunciam aquilo que atormenta os casais: o sexo, o amor, a rejeição.
Saute ma ville (França, 1971) é o primeiro curta-metragem de Chantal Akerman, realizado quando ela tinha 18 anos e estava cursando o primeiro período da faculdade de cinema em Bruxelas (Chantal abandonou o curso logo no primeiro período para seguir na carreira como autodidata).
A própria diretora interpreta uma jovem que chega em seu apartamento com as compras do dia e começa uma série de atividades rebeldes: abre e esvazia gavetas, espalha coisas pelo chão, joga água no piso, expulsa seu gato para a varanda. É um filme silencioso que termina com a jovem vedando todas as frestas de janelas e portas e ligando o gás de cozinha. Impactante e perturbador curta de estreia de Chantal Akerman.
O esqueleto da Sra. Morales (El esqueleto de la señora Morales, México, 1960), de Rogelio A. González.
A obra de Rogelio A. González é cultuada pelos amantes dos filmes de terror, mais precisamente do humor negro. O taxidermista Pablo Morales (Artur de Córdova) é admirado por todos da cidade, pois trata os amigos e as crianças com bondade e respeito. Quando chega em casa, sua vida se transforma: Pablo é tratado com desprezo e crueldade pela mulher que, inclusive, o acusa de agressão física e moral diante do fanático grupo religioso do qual faz parte. Gloria Morales tem ódio do trabalho do marido que mantém no térreo da casa uma coleção de animais empalhados.
Cansado dos maus tratos, Pablo envenena a esposa e disseca seu cadáver, o mantendo em destaque entre sua coleção. O esqueleto da Sra. Morales é muito mais do que bom humor e terror. É uma sátira aos rígidos costumes da sociedade mexicana, colocando a hipócrita classe média, com seus conceitos religiosos e sociais, como a principal vítima do taxidermista. A sequência do julgamento é puro nonsense, a sociedade diante do esqueleto sem saber o que significa tudo aquilo.
Para sempre mulher (Chibusa yo eien nare, Japão, 1955), de Kinuyo Tanaka.
A renomada atriz Kinuyo Tanaka foi uma das primeiras diretoras que se tem notícia no cinema japonês que, assim como várias cinematografias importantes, foi amplamente dominado pelos diretores praticamente até a revolução dos anos 60 (nouvelle vague e demais renascenças). Com mais de duzentas atuações no cinema, ela dirigiu apenas seis filmes.
Para sempre mulher (1955) é seu terceiro longa, baseado na história da poetisa Fumiko Kanaze (Yumeji Tsukioka) que foi vitimada pelo câncer de mama com apenas 32 anos de idade. O filme abre com o cotidiano familiar de Fumiko. Ela é casada com um homem frustrado, dependente de drogas, cuida dos dois filhos pequenos e frequenta um grupo de poetas à noite. O casamento acaba e Fumiko volta para a casa de sua mãe e se apaixona por um dos integrantes do grupo, casado com sua melhor amiga.
Ela descobre o câncer já em estado avançado e o tratamento da doença coincide com a sua consagração como poeta, seus livros são publicados e admirados. A roteirista e diretora Kinuyo Tanaka preenche essa história real com ousados tons de libertação feminina, sexualidade e as questões da mortalidade. O cinema japonês do pós-guerra estava passo a passo se libertando das amarras da censura e a quase obrigatoriedade social de não tocar em assuntos tabus, como a eterna submissão da mulher aos desejos masculinos. Atenção para uma das cenas mais ousadas deste período: já em fase terminal, a jovem e bela Fumiko, pede ao jornalista por quem se apaixonou, “faça amor comigo.” Eles estão no hospital.
A noite de 23 de maio (Mystery street, EUA, 1950), de John Sturges.
O detetive Peter Morales (Ricardo Montalbán) está encarregado de investigar o assassinato de uma jovem, Vivian Heldon (Jan Sterling). A princípio, a vida da vítima, assim como a forma que morreu são desconhecidas. O detetive, então, recorre ao Departamento de Medicina da Universidade de Boston. O Dr. McAdoo passa a ajudá-lo examinando o cadáver e promovendo reconstituições a partir de suas descobertas.
O filme é praticamente o precursor dos famosos seriados de TV, como CSI e Law & Order, que utilizam a ciência forense nas tramas policiais. A investigação do detetive e do médico orientam o caso na direção de um suspeito incomum: um pacato pai de família, casado, com dois filhos, que estava sendo chantageado pela vítima. As viradas de roteiro elevam o tom do thriller, principalmente após a entrada em cena da Senhora Smerrrling (Elsa Lancaster), dona da pensão onde Vivan morou.
Justiça injusta (The sound of fury/Try and get me, EUA, 1950), de Cy Endfield.
Howard Tyler (Frank Lovejoy), um homem de meia idade, está desempregado e sofre com esta condição, principalmente ao chegar em casa e ser “cobrado” pela mulher, pois precisam de dinheiro para o sustento do filho. Uma noite, ele conhece Gil Stanton (Richard Carson), misterioso personagem que o ajuda e, logo depois, faz uma proposta: os dois podem se ajudar, fazendo pequenos assaltos em lojas e casas.
A virada da trama provoca uma transformação surpreendente do protagonista. Os dois comparsas sequestram um jovem rico com a intenção de pedir resgate ao pai, mas Gil Stanton assassina de forma brutal o herdeiro. Começa então uma caçada policial que termina com a prisão dos dois.
O filme é baseado em um evento real, retratado também em Fúria (1936), de Fritz Lang. O clímax da narrativa, julgamento e condenação à morte dos assassinos, é assustador sob dois aspectos: o terror da morte estampado em Gil Stanton e o arrependimento de Howard, pacato cidadão de família que se vê enredado em um círculo criminoso, que aceita a condenação como forma de punição e sacrifício necessários para a redenção.
A taverna do caminho (Road house, EUA, 1948), de Jean Negulesco. Com Ida Lupino (Lily Stevens), Richard Widmark (Jefferson T.), Cornel Wilde (Pete Morgan), Celeste Holm (Susie Smith).
Jefferson T. é o proprietário de uma casa de shows em uma pequena cidade americana. Ele contrata Susie, cantora por quem está apaixonado e com quem pretende se casar. Pete Morgan, o gerente do local e amigo de infância de Jefferson, tenta tirar a cantora da cidade, mas os dois se apaixonam e a trama caminha para um trágico triângulo amoroso.
Ida Lupino é o grande destaque do filme, suas interpretações musicais são encantadoras, revelando um novo talento para a star system e uma das únicas mulheres diretoras do machista sistema de estúdios. O final do filme, quando os quatro personagens principais são levados pelo ciumento Jefferson para uma casa no bosque, é um thriller de tirar o fôlego, com atuação surpreendente de Robert Widmark.
A pequena loja da rua principal (Obchod na korze, República Tcheca, 1966), de Ján Kadá e Elmar Klos.
Tono (Josef Kroner) é carpinteiro em cidadezinha da Tchecoslováquia. Está desempregado e passa os dias sendo atormentado pela mulher. Para escapar, ele vai regularmente à cidade onde, na rua principal, está sendo construído um monumento de madeira em homenagem aos nazistas. Seu cunhado é o representante oficial dos nazistas na cidade e oferece a Tono a administração de uma pequena loja, cuja proprietária é a senhora Lautmann (Ida Kaminska) uma velha judia que sofre de surdez.
“Talvez o mais comovente drama feito sobre o holocausto, o filme de Ján Kadá e Elmar Klos, trata da moralidade individual e da responsabilidade no contexto de uma sociedade ‘total’, tema provocante que não passou despercebido dos censores thecos. Embora trate das complicadas questões humanas levantadas pelo relacionamento entre judeus e gentios em uma Tchecoslováquia ocupadas pelos alemães, o filme descobre uma esperança utópica para a felicidade coletiva no meio do desespero profundo”.
A relação entre Tono e a senhora judia começa agressiva de ambos os lados e, passo a passo, caminha para a aceitação e o respeito. O desejo de ascensão social de Tono e, principalmente de sua ambiciosa mulher, naufraga rápido, pois a loja sequer tem produtos para serem vendidos. Tudo muda quando os nazistas decretam a deportação dos judeus da cidade para os campos de concentração. O bom humor e a sensação de esperança dá lugar à tragédia, o final representa as trevas que cobriam a Europa.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
As pequenas margaridas (República Tcheca, 1966), de Vera Chytilová. Com Ivana Karbanová e Jitka Cerhová
O filme começa com plano fechado em duas jovens, cujos nomes verdadeiros não serão revelados ao longo da trama (ambas são Marie) tomando sol de biquínis. Elas conversam sobre trivialidades e, em determinado momento, dizem a frase que será o cerne da narrativa: “Se o mundo está tão mal, então seremos más também.”
A partir daí, as duas começam uma série de brincadeiras atrevidas, provocando as pessoas em restaurantes, bares e demais ambientes; brincadeira de mau gosto que envolvem uma comilança sem fim. Elas conquistam homens mais velhos dispostos a pagar a conta dos lugares, se empanturram e os dispensam.
Claro, o filme teve diversos problemas com a censura comunista da antiga Tchecoslováquia. As protagonistas representam a anarquia pura de uma proposta de libertação feminina em um mundo dominado pelos autoritários homens do poder.
“Um dos exemplares mais delicosamente piscodélicos e cheios de estilo dos anos 60, As pequenas margaridas, de Vera Chytilová, é uma farsa feminista amalucada e agressiva, que explode em diversas direções. Embora muitos cineastas americanos e europeus se orgulhassem, na época, de sua vocação para a subversão, é possível que o filme mais radical da década – tanto formal quanto ideologicamente – seja proveniente do Leste europeu, do caldeirão que fervia com a preparação para as reformas políticas de 1968: a Primavera de Praga, de tão curta duração.”
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Warren Quimby é um pacato funcionário de farmácia. Admirado pelos seus colegas de trabalho, trata com gentileza todos os clientes e, após o final do expediente, ruma tranquilamente para sua casa, onde espera encontrar Claire (Audrey Totter), sua esposa. Desde o início o espectador sabe que é um casamento praticamente de fachada por parte de Claire que trata o marido com indiferença e agressividade, enquanto se diverte à noite com outros homens.
O casamento termina quando Claire resolve assumir seu amante. Acontece então uma radical mudança de personagem: Warren se disfarça fisicamente e planeja assassinar seu oponente.
A femme fatale vivida por Audrey Totter é o grande destaque da trama. Após o assassinato, ele tenta virar o jogo e voltar para o marido, mas agora é ela quem enfrenta uma oponente: Mary (Cyd Charisse), jovem que se apaixona por Warren e é correspondida. No entanto, a polícia agora está no encalço do farmacêutico, sob acusação de um assassinato que ele planejou mas não cometeu. Ótimo noir de John Berry, responsável por um clássico do gênero: Por amor também se mata (1951).