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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

How do have sex

Tara, Skye e Em,  três adolescentes de férias, chegam a uma badalada ilha grega em busca de diversão. O clima de euforia entre as amigas é contagiante, deixando claro desde o início o principal motivo da viagem, expresso  no título da película. 

A narrativa acompanha esse rito de passagem, tratando com sensibilidade e um olhar amoral a procura das jovens, principalmente da protagonista Tara, cuja sensibilidade vai se confrontar com as indecisões da entrega. 

How to have sex conquistou a categoria Un Certain Regard no Festival de Cannes, ajudando a revelar a jovem diretora Molly Manning. O que parece ser uma comédia de verão, leve e descontraída, envereda por questões perturbadoras, como o uso de álcool e drogas pela juventude e, principalmente, os limites da não-permissão, do abuso sob os efeitos químicos.

A narrativa é movida a música, álcool, drogas e brincadeiras extremas sob a praia e sol escaldante da Grécia. A interpretação  de Mia McKenna Bruce é o ponto de destaque da trama: a princípio leve, passo a passo melancólica, até se transformar em um pesadelo psíquico. 

How to have sex (Inglaterra, 2023), de Molly Manning. Com Mia McKenna Bruce (Tara), Lara Peake (Skye), Enva Lewis (Em), Samuel Bottomley (Paddy), Laura Ambler (Paige).

Folhas de outono

Folhas de outono (Kuolleet lehdet, Finlândia, 2023), de Aki Kaurismaki.

 O gênero conhecido como comédia romântica ou drama romântico é impregnado dos clichês narrativos que permeiam os encontros entre personagens que, naturalmente, caminham para o romance e os obstáculos que se interpõem a viver esse amor. Folhas de outono respeita esses elementos, mas é uma agradável surpresa, pois esses encontros e desencontros são vividos de maneira natural e terna pelos protagonistas. 

Ansa (Alma Poysti) trabalha como caixa em um supermercado até ser demitida por levar alimentos vencidos, que deveriam ser descartados, para casa. Holappa (Jussi Vatanen) trabalha na construção civil e também é demitido após ser apanhado bebendo em serviço. Duas pessoas e almas solitárias que lutam para sobreviver. O casal se encontra em Helsinque e o envolvimento passa por telefones perdidos, impossibilidade de contato físico e, o mais importante: o quase irremediável alcoolismo de Holappa. 

O filme conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e concorreu à indicação ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro pela Finlândia. O diretor Aki Kaurismaki narra a relação entre Ansa e Holappa por meio de um estilo minimalista, fotografia desbotada e luz suave, diálogos rápidos e cortantes. A solidão do casal nas ruas frias e úmidas de Helsinque é carregada de melancolia, porém com um leve bom humor, algo como a dizer: os dias passam assim. 

A voz humana

A voz humana (The human voice, Espanha, 2020), de Pedro Almodóvar. Uma mulher (Tilda Swinton) está sozinha em seu apartamento, observando as malas de seu namorado que nunca retorna. Com ela, está o cão do homem, que não sabe que também foi abandonado. 

O curta minimalista de Almodóvar  se passa dentro deste apartamento, ancorando a narrativa em um longo monólogo da mulher enquanto transita pelo ambiente vazio, de cores extravagantes (bem ao estilo Almodóvar). Tilda Swinton é o filme, sua interpretação da mulher obcecada, desesperada, vulnerável e sem destino, transforma o monólogo em uma intensa exposição da intimidade. 

É o primeiro filme de Almodóvar falado em língua inglesa, baseado na peça de Jean Cocteau. Assim como em Estranha forma de vida, o diretor espanhol trabalha com as características principais dos filmes de curta-metragem: poucos personagens em cena, cenários minimalistas, tempo de narrativa concentrado, conflitos intimistas. A força dos dois filmes, acima de tudo, está na complexidade das relações humanas, da intimidade entre as pessoas.

Estranha forma de vida

Estranha forma de vida (Espanha, 2023). Só mesmo o espanhol Pedro Almodóvar conseguiria homenagear o clássico filme de faroeste, respeitando os elementos narrativos e estéticos do gênero, mas subvertendo de forma ousada as relações entre dois ícones do velho oeste: o xerife e o pistoleiro. 

Silva (Pedro Pascal) entra na cidade à procura de Jacke (Ethan Hawke), atual xerife. É um reencontro após 25 anos, os dois foram amigos e amantes na juventude. A paixão reacende, os dois passam a noite juntos, mas no dia seguinte a verdade sobre o reencontro vêm à tona: Jacke está na caça de um assassino – o jovem é filho de Silva. 

Estranha forma de vida foi produzido pela grife de luxo Yves Saint Laurent, tornando o curta-metragem também uma estratégia de storytelling. Almodóvar, claro, teve liberdade para compor uma trama que oscila entre a paixão queer, a rusticidade e a violência do oeste americano. Ethan Hawke e Pedro Pascal estão perfeitos, assumindo com naturalidade e tristeza o belo caso de amor que vivem no filme. 

No final, Pedro Almodóvar não desaponta o espectador amante dos faroestes: o duelo acontece, de forma brutal, porém terna. 

EO

EO (Polônia, 2022), de Jerzy Skolimowski, acompanha a jornada de um burro cujo olhar triste enternece os espectadores. O veterano diretor polonês se inspirou abertamente no clássico A grande testemunha (1966), de Robert Bresson. 

EO começa a trama como animal de um circo, amado e cuidado com carinho por sua jovem treinadora. Quando  o burro é confiscador por agentes da lei, devido à proibições sobre o uso de animais em circo, começa a sua peregrinação pelo interior da Polônia e pela Itália. Essa jornada é pontuada por gestos de carinho, tentativas de resgate, brutalidade, retratando as diversas facetas do relacionamento dos humanos com seus animais. EO é um burro de carga que deve suportar os sofrimentos físicos inerentes ao trabalho a que é destinado. 

O destaque é a narrativa visual, quase desprovida de diálogos, com um trabalho sonoro, incluindo a trilha, marcante. O mundo passa diante dos olhos tristes de EO, testemunha silenciosa e sensível. De cortar o coração.

A idade da pedra

A idade da pedra (França/Brasil, 2013), curta-metragem de Ana Vaz, foi filmado nos arredores de Brasília, focando em uma estrutura monumental, petrificado no meio da paisagem do cerrado. Em torno do monumento, trabalhadores da construção civil buscam o seu sustento sob o sol incremente. 

A ausência de narração é uma marca nos filmes de Ana Vaz. Em A idade da pedra, o som é responsável por pontuar de forma estridente, outras vezes suave, esta interação desprovida de harmonia entre o homem e a natureza. As imagens e sons levam o espectador a um estado contemplativo, motivando um olhar sensorial nesta intervenção cruel e suicida dos humanos sobre a natureza.

É noite na América

É noite na América (Itália/França, 2022), o primeiro longa-metragem de Ana Vaz, lança um olhar assustador sobre a paisagem do distrito federal. Dominada pelo silêncio, a narrativa fragmentada traz imagens de animais vagando desorientados: jiboia, tamanduá, raposas, rondam as ruas e estradas da cidade. No zoológico, onde residem animais que deveriam estar na natureza, as espécies olham desoladas para os humanos. 

O documentário é um libelo político e humanista, alertando para a ação do homem sobre a natureza, ação destruidora e desprovida de esperanças de que alguma coisa pode mudar. É noite na América é um profundo convite à reflexão sobre o presente e a possível ausência de futuro de nosso planeta. 

Duelo

Duelo (França, 1976), de Jacques Rivette, é um dos filmes mais experimentais do aclamado diretor da nouvelle-vague francesa. A narrativa acompanha a batalha de dois seres místicos: A Rainha do Sol, Viva (Bulle Ogier) contra a Rainha da Noite, Leni (Juliet Berto). O centro da disputa é um diamante mágico, mas no caminho das duas se interpõe a jovem Lucie (Hermine Karagheuz) e seu irmão Pierre (Jean Babilée), que se torna objeto de desejo das rainhas. 

O filme é um desfile extravagante de figurinos e cenários, transformando a clássica Paris em um virtuosismo de cores e cenas oníricas. A cidade ganha contornos esótericos como palco, quase sempre noturno, do duelo das rainhas. 

O filme faz parte do ciclo criado por Jacques Rivette Scènes de la vie parallèle, projeto que seria composto por quatro filmes interconectados, cujas temáticas seriam místicas e míticas, espécie de narrativas paralelas ou realidades alternativas. No entanto, apenas Duelo foi concebido de acordo com a ideia original. 

Butterfly vision

Butterfly vision (Ucrânia/Croácia, 2022), de Maksym Nakonechnyj. Lilya (Rita Burkovska) é especialista ucraniana em reconhecimento aéreo. Ela volta para casa depois de passar vários meses na prisão em Donbas, onde sofreu abusos e tortura. Traumatizada, Lilya passa um tempo em centros de reabilitação, seu passado sempre volta em forma de alucinações. 

O diretor e roteirista ucraniano Maksym Nakonechnyj desnuda de forma contundente, cruel (atenção para a explosão no apartamento) as cicatrizes, os traumas, as consequência no corpo e na mente da Guerra da Ucrânia. Escolher uma protagonista feminina é um destaque da trama, pois as guerras modernas colocaram as mulheres na linha de frente dos combates. 

O título “visão de borboleta” é uma alusão ao fenômeno psicológico conhecido como “visão de túnel”, uma metáfora sobre os traumas, em forma de alucinações, para pessoas que passaram por experiências extremas.  O estilo da narrativa é quase documental, com cenas impactantes das visões de Lilya, cuja interpretação naturalista, apesar de carregada de dor, evita o melodrama. 

Blue jeans

Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure). 

O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental. 

Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias. 

Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos. 

Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans