Dez

O filme abre com longo plano surpreendente, visceral. O garoto Amin (Amin Maher) entra no carro e enquanto a motorista, sua mãe (Mania Akbari) dirige pelas ruas da cidade segue-se um diálogo tenso e raivoso, cerca de 15 minutos com a câmera centrada no garoto. O diálogo, apenas ouvimos a voz da mãe/motorista, é sobre o divórcio dos pais, Amin não aceita a separação e culpa a mãe. 

Quando Amin desce do carro, a narrativa ganha seus contornos: mais nove passageiros, alguns repetidos, como o próprio Amin, entram e a trama se concentra nos diálogos da motorista com os passageiros. A marca neo-realista de Kiarostami, aliada à sua profunda crítica social dos costumes do Irã, está presente em cada conversa, a maioria sobre a situação das mulheres no país regido por leis conservadoras.

Os planos se alternam a cada mudança de personagem, ora fixo no passageiro, em outra conversa, fixo na motorista, em outra alternando plano e contra plano. Os momentos mais fortes ficam por conta do garoto Amin, retratado três vezes, e do longo diálogo da motorista com uma garota de programa – não vemos o rosto da passageira, é noite, a bela fotografia reflete luzes de faróis, o escuro das ruas, oscilações de iluminação, no rosto da motorista. Foi o primeiro filme de Abbas Kiarostami feito com tecnologia digital, pequenas câmeras acopladas ao painel do carro retratam de forma pungente conflitos íntimos de cidadãs subjugadas por leis e costumes severos. 

Dez (Ten, Irã, 2002), de Abbas Kiarostami.

UP – Altas aventuras

Se Charlie Chaplin assistisse a UP – altas aventuras (UP, EUA, 2009), de Peter Docter, iria proclamar mais uma vez o poder do cinema mudo. Diria, mesmo com as mais avançadas tecnologias digitais, capazes de fazer personagens e objetos voarem tela afora, o cinema não precisa falar.

O começo do filme narra visualmente a história do casal Carl e Ellie, do dia em que se conheceram na infância até a morte da esposa na velhice. Humor, romantismo, tristezas, alegrias, sonhos, desejos, a dor da separação, tudo se passa na tela sem diálogos, com pequenas inserções sonoras. É uma grande e bela demonstração da capacidade do cinema encantar, sugestionar, provocar emoções sem a necessidade de palavras. Como no maravilhoso cinema mudo.

O manifesto em favor do cinema mudo, escrito em 1928 pelos cineastas soviéticos Eisenstein, Pudovkin e Alexandrov defende: “Atualmente, o cinema, trabalhando com imagens visuais, tem um efeito poderoso sobre as pessoas e com todo o direito assumiu um dos primeiros lugares entre as artes.” Mas nem os mais puristas foram capazes de renegar o acelerado desenvolvimento tecnológico do cinema. Som, cor, formatos panorâmicos, cinema em terceira dimensão, avançados efeitos especiais chegando ao ápice da tecnologia digital. Todo este desenvolvimento converge no objetivo de transformar o cinema na mais espetacular experiência visual.

UP tem momentos admiráveis ao conjugar som e imagem, como o estouro do balão associado ao som de flash fotográfico para demarcar passagem de tempo de uma década. Remete a soluções antológicas do som no cinema, como em Cidadão Kane (1944). O pequeno Kane recebe um trenó de presente e ouve de seu tutor “Bem Charles, feliz natal”, corta para imagem do tutor cerca de 15 anos mais velho que diz “E feliz ano novo.”

O fascínio das imagens digitais é outro destaque em UP. A viagem de Carl ao mundo perdido é uma sequência de ousadas imagens de ação e aventura, com as mais belas paisagens digitais do cinema de animação contemporâneo; tudo conjugado com altas doses de emoção.

A animação digital traz para o cinema a possibilidade de mostrar batalhas aéreas tridimensionais, como a dos cães-pilotos contra o escoteiro Russel, ao mesmo tempo em que Carl e o explorador Charles Muntz se confrontam no teto do dirigível, tudo a alguns mil pés de altura. É a tradicional batalha entre o bem e o mal que enobrece um bom filme de animação da Disney/Pixar.

Na surrealista procura pelo mundo perdido, o velho e a princípio imutável Carl se defronta com grandes dilemas da humanidade moderna: o limite entre a espiritualidade e os bens materiais, a vaidade, o egoísmo. A frase “É apenas uma casa” resume o sentimento que se revela para o velho Carl no exato momento em que ele abre mão do sonho de uma vida. Frase que todos sabemos necessária mas poucos têm coragem de assumir nesta sociedade dominada inexoravelmente pelo consumo.

O final do filme volta ao poder da imagem, reforçando a transformação de Carl em poucas e rápidas cenas. Nestes imagéticos minutos de filme está a beleza maior de UP. Como a história de Carl e Ellie, uma vida inteira pode passar assim, em pouco mais de dez minutos. São nossas lembranças, resta-nos fazer delas sequências emocionantes, como imagens ternas de cinema.