O tatuado (Saint Jack, EUA, 1979), de Peter Bogdanovich.
O americano Jack Flowers (Ben Gazzara) mora em Singapura, onde administra uma rede de agenciamento de mulheres. Seus clientes são principalmente homens britânicos da classe alta que visitam a cidade a negócios e à noite saem para a prática de turismo sexual. William Leigh (Elliott), contador que está em na cidade a trabalho, se torna amigo de Jack e o acompanha pela noite, mas não se envolve com as mulheres.
O tatuado é uma espécie de retorno de Peter Bogdanovich ao cinema independente – os últimos filmes do diretor, financiados por grandes estúdios, foram fracasso de crítica e público. O filme, produzido por Roger Corman, foi inteiramente filmado em Singapura. Para conseguir autorização do governo, Bogdanovich e Roger Corman apresentaram um falso roteiro de uma comédia romântica.
A narrativa segue os frequentadores da noite agitada da cidade que transitam por bordéis, bares, becos, em busca de prazer, geralmente regados a álcool e drogas. Apesar de ser um “cafetão”, Jack se destaca neste submundo por sua generosidade com as mulheres que agencia, com os nativos que trabalham para ele e com os miseráveis das ruas.
Seu comportamento e seu olhar transmitem humanidade, ele sabe que todos ali são explorados e o verdadeiro inimigo é o sistema. A entrada em cena de Eddie Schumann (Peter Bogdanovich), possível integrante da CIA, evidencia a crueldade desse sistema. A sequência no hotel/bordel montado para satisfazer soldados e oficiais americanos que lutam no Vietnã demarca a ousadia e rebeldia do cinema realizado pelos rebeldes da Nova Hollywood, entre eles Bogdanovich.
Elenco: Ben Gazzara (Jack Flowers), Denholm Elliott (William Leigh), Lisa Lu (Mrs. Yates), Monika Subramaniam (Monika), Peter Bogdanovich (Eddie Schuman).
Hospital (The hospital, EUA, 1971), de Arthur Hiller.
A trama acontece em dois dias, dentro de um hospital abarrotado de pacientes que se aglomeram nos corredores e dividem quartos aleatoriamente, enquanto funcionários, médicos, enfermeiras e residentes tentam trabalhar em meio ao caos. O Dr. Herbert Bock (George C. Scott) é o diretor médico do hospital. Ele é alcoólatra, impotente, sofre com crises de depressão, tem dois filhos problemáticos, foi abandonado pela esposa, e tem pensamentos suicidas.
A história de Paddy Chayefsky conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Original – o roteirista ganharia novamente por Rede de intrigas (1976). O ponto de partida é a estranha morte de um médico residente, após fazer sexo com a enfermeira na cama onde um paciente acabara de morrer. A morte supostamente aconteceu por erro de uma enfermeira, mas outras mortes de médicos acontecem neste curto espaço de tempo e tudo indica um assassino dentro da instituição. Do lado de fora do hospital, manifestantes protestam contra a política de saúde americana, marcada por exclusão e racismo.
George C. Scott, indicado ao Oscar de Melhor Ator, brilha como o médico desiludido com a vida, mas obcecado por seu trabalho. O grande momento do filme é a tensa relação, que termina em sexo, entre o médico e Bárbara (Diana Rigg), filha de um paciente. A longa discussão, dentro do consultório do médico, é regada a álcool, agressões verbais, desabafos estridentes contra a sociedade, tentativa de estupro consentido e declarações de amor.
Elenco: George C. Scott (Dr. Herbert Bock), Diana Rigg (Barbara Drummond), Barnard Hughes (Drummond), Richard Dysart (Dr. Welbeck).
Cada um vive como quer (Five easy pieces, EUA, 1970), de Bob Rafelson.
Robert “Bobby” Dupea (Jack Nicholson) trabalha em uma empresa de prospecção de petróleo. Mora com Rayette Dipesto (Karen Black), garçonete, aspirante a cantora – os dois vivem em conflito permanente. O melhor amigo de Bobby é Elton (Billy Green Bush), seu companheiro de trabalho, com quem divide noitadas de bebedeiras e encontros com garotas de programa.
A primeira parte do filme representa a frustração da classe média americana em um período conturbado social e politicamente. Boby não quer nada da vida a não ser se divertir com amigos e mulheres. Trata Rayette de forma desprezível.
Uma sequência seminal marca a passagem para a segunda parte da trama: em um congestionamento, Bobby caminha de forma irreverente e irresponsável entre os carros, sobe na carroceria de um caminhão de mudanças, descobre um piano e começa a tocar.
Bobby é filho de um músico famoso, sua irmã e irmão também são músicos. Bobby renegou seu talento como pianista e, após uma briga com o pai, saiu de casa para viver de trabalhos esporádicos. Ele é informado pela irmã que o pai tem pouco tempo de vida devido a um derrame e resolve voltar à casa da família para uma breve visita.
O diretor Bob Rafelson e Jack Nicholson foram protagonistas da fase áurea da Nova Hollywood. Amigos, dividiram o crédito em importantes roteiros e fizeram juntos filmes que marcaram o cinema contemporâneo: Cada um vive como quer (1970), O dia dos loucos (1972) e O destino bate à sua porta (1981).
Cada um vive como quer foi indicado aos Oscar de Melhor Filme, Roteiro, Ator e Atriz Coadjuvante. O filme recebeu críticas efusivas de Pauline Kael: “Filme surpreendente, exponencial, eloquente, importante, escrito e improvisado num idioma tipicamente americano, derivado de nenhum outro e descrevendo pela primeira vez, como jamais se viu na tela, a natureza do homem comum americano condicionado a viver mudando porque seu único bem é o ímpeto de poder fazê-lo”.
Na casa do pai, Bobby começa um relacionamento amoroso com a namorada do irmão e a tensão entre os membros da família beira à explosão. A cena mais famosa do filme, quando Jack tenta se reconciliar com o pai, que já não pode entendê-lo devido a doença, representa um dos elementos mais complexos e fascinantes do processo de fazer cinema: a relação entre diretor e ator.
Segundo o diretor Bob Rafelson, Jack Nicholson se recusou a fazer a cena. “Tínhamos conversado sobre a cena do choro. Jack disse que essa era a coisa mais simplista que ele já viu até entre diretores de filmes de motocicleta.”
O depoimento de Bob Rafelson sobre a construção da cena: “O que eu disse a Jack, o que senti que era realmente intrínseco ao filme, era que tínhamos que enxergar o ponto fraco deste personagem, que ele era alguém que tinha emoção, mas que estava tudo bloqueado. Ele se opôs muito a isso, mas eu queria muito ver essa fraqueza e nós escolhemos alguns lugares onde isso poderia acontecer. Mas em particular eu acho que sugeri que fosse diante do pai dele. E Jack disse, ‘Eu não vou fazer isso. Eu não quero fazer isso.’ E eu o mantive acordado durante todo o fim de semana com longas discussões sobre porque isso era importante. Entramos no carro e ele disse, ‘Odeio esse roteiro. Isso é uma merda. Me dê uma caneta.’ Então ele começou a escrever a cena ele mesmo. Eu disse, ‘Eu não me importo com as palavras, contando que eu veja a emoção.’ Eu mandei toda a equipe embora. Posicionei a câmera, segurei o boom, liguei a câmera, olhei para o outro lado e disse ‘ação’. Eu não queria que Jack visse ninguém e apenas ficasse com seus pensamentos e seu pai estava sentado bem ali, o ator. E no final houve um silêncio, uma pausa. ‘Acabou, Jack? Acabou?’ ‘Você está brincando? Você nem viu, nem assistiu? Você está louco? Eu fui lá e fiz uma coisa e você nem sabe se viu ou não? Que se foda então.’”
Depois do sucesso do filme e de sua indicação ao Oscar de Melhor Ator, Jack Nicholson declarou: “Aquele momento naquele filme que quase não existiu teve tanto impacto quanto Sem destino.”
Elenco: Jack Nicholson (Robert Dupea), Karen Black (Rayette ;dipesto), Billy Green Bush (Elton), Lois Smith (Tita Dupea), Susan Anspach (Catherine).
O lugar sem limites (El lugar sin limites, México,1978), de Arturo Ripstein.
O filme abre com a citação da peça A trágico história da vida e da morte do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe: “Primeiro, te interrogaria sobre o inferno. Diga-me: onde fica o lugar que os homens chamam de inferno? Embaixo do céu. Sim, mas onde? Nas entranhas desses elementos. Onde somos torturados e permanecemos sempre. O inferno não tem limites, nem fica circunscrito a um só lugar. Porque o inferno é aqui onde estamos. E aqui, onde é o inferno, temos que permanecer.”
Após os créditos, um velho caminhão, de um vermelho berrante, trafega por uma estrada de terra ressecada. Uma placa indica, El Olivo. Quando chega na cidade, Pancho (Gonzalo Vega), o motorista do caminhão, buzina em frente ao bordel administrado por Manuela (Roberto Cobo) e sua filha Japonesita (Lucha Villa).
El Olivo é uma cidade decrépita, controlada bem ao estilo coronelismo por Don Alejo (Fernando Soler), que corta o fornecimento de energia da cidade para comprar os imóveis a preços baratos e revendê-los para um empreendimento imobiliário. É o inferno, habitado por personagens que vivem entre a miséria e as ilusões da vida.
O filme é baseado no romance de José Donoso. Manuela, uma travesti dançarina que teve seu vestido vermelho rasgado por Pancho, é a grande personagem da trama. Narrativa paralela relata como ela se tornou no passado mãe da Japonesita e dona do bordel.
O lugar sem limites tem uma das cenas mais marcantes do cinema mexicano, e da América Latina como um todo (grande parte dos países estavam sobre controle de sistemas políticos radicais e conservadores): o beijo entre Manuela e Pancho.
A sequência final, o caminhão vermelho de Pancho perseguindo Manuela, com seu vestido vermelho, pelas ruas da deserta El Olivo é muito mais do que simbólica: é um soco na cara dos representantes do sistema patriarcal que, ainda hoje, insistem em dominar tudo e todos com a violência característica de quem deveria, verdadeiramente, habitar o inferno.
Este crime chamado justiça (In nome del popolo italiano, Itália, 1971), de Dino Risi.
Mariano Bonifaz (Ugo Tognazzi)i acaba de ser promovido a juiz. Seu senso de justiça e humanismo o coloca frente a frente com um poderoso empresário, Lorenzo Santenocito (Vittorio Gassman), suspeito de assassinar uma garota de programa. Durante a investigação, Bonifazi se depara com uma intrincada rede de negócios que envolve corrupção e incentivo à prostituição de jovens que são oferecidas a empresários e políticos.
O filme de Dino Risi é uma contundente crítica ao sistema judiciário, político e empresarial da Itália dos anos 70. A narrativa se concentra no embate psicológico entre Bonifazi e Santenocito, que protagonizam verdadeiros duelos verbais. Show de atuação de dois grandes atores do cinema italiano de todos os tempos: Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman.
O final perturbador, quando o juiz descobre a verdade sobre a morte da jovem, expõe os limites da ética judiciária. O dilema de Mariano Bonifazi acontece durante incendiários protestos nas ruas de trabalhadores e estudantes, primor de narrativa visual e psicológica.
No início dos anos 70, Hayao Miyazaki trabalhou em uma série de projetos de animação para a televisão, conciliando os projetos com suas intensas publicações de mangás. O curta-metragem O sol de Yuki foi realizado como um episódio piloto para um desses projetos, no entanto, a série não foi produzida. O curta ficou praticamente esquecido durante décadas, mas no início do século XXI foi resgatado e apontado como um precursor temático e estilístico da carreira de Miyazaki no Studio Ghibli.
A recém-nascida Yuki é abandonada na porta de um orfanato, em Hokkaido. Cresce com um espírito rebelde, livre, se divertindo em meio a natureza, até que é adotada por uma família rica. A partir daí, sua vida se torna uma aventura em busca de seus pais biológicos.
Com apenas cinco minutos de duração, a marca do mestre japonês se mostra: “Os trabalhos de Miyazaki são caracterizados pela recorrência de diversos temas, como a relação da humanidade com a natureza e a tecnologia, a preservação de padrões de vida naturais e tradicionais, a importância da arte e da perícia, e a dificuldade de manter uma ética pacifista em um mundo violento. Suas protagonistas são frequentemente meninas ou jovens mulheres fortes, com muitos de seus trabalhos apresentando antagonistas ambíguos, que possuem qualidades redentoras.” – Studio Ghibli Brasil.
A última ceia (La ultima cena, Cuba, 1976), de Tomás Gutiérrez Alea.
Semana Santa, final do século XVIII. O Conde (Nelson Villagra) visita seu engenho de açúcar e toma uma decisão inusitada: encenar a última ceia, colocando como os apóstolos, doze escravos da propriedade. O ritual começa com o Conde lavando e beijando os pés dos escravos e, a seguir, todos sentam-se à mesa para um fausto banquete.
Grande parte da narrativa se passa durante a ceia, marcada por longos discursos do Conde, histórias contadas pelos escravos e diálogos quase surrealistas. O fervor religioso do Conde revela sua face cruel e manipuladora: ele usa a religião para justificar a escravidão, o domínio racial dos brancos sobre os negros como uma escolha divina.
O mestre cubano Tomás Gutiérrez Alea expõe de forma cômica e trágica a desumana prática da escravidão, da tortura, mantida e incentivada pelas instituições dos países durante o colonialismo, incluindo a igreja. O terceiro ato, após a rebelião dos escravos, transforma a narrativa quase em um filme de terror, pois o Conde ordena: “quero a cabeça dos doze escravos que se sentaram à minha mesa.”
Elenco: Nelson Vilagra, Silvano Rey, Luís Alberto Garcia, José Antonio Rodríguez, Samuel Claxton, Mario Balmaseda, Idelfonso Tamayo, Julio Hernandez, Tito Junco, Andrés Cortina, Mirta Ibarra, Manuel Puig.
Faca na cabeça (Messer im kopf, Alemanha, 1978), de Reinhard Hauff.
O médico geneticista Hoffmann (Bruno Ganz) está em seu laboratório sob uma luz difusa, bem ao estilo cinema noir. Ele disca um número no telefone, não é atendido, desliga. Ele olha para a janela, ouvimos sua voz interior: “Um americano no meu lugar sairia atirando da janela.”
Hoffman sai do prédio, caminha e depois corre pelas ruas de Berlim. Seu destino é um prédio onde um grupo de jovens, incluindo sua esposa, se reúne para promover manifestos contra a ordem política. O clima é tenso, os policiais e os jovens se enfrentam aos gritos e empurrões. Hoffman entra no prédio, um policial o segue. Ouve-se um tiro. Corta para o letreiro: FACA NA CABEÇA.
O diretor Reinhard Hauff declarou que o filme surgiu de uma história vivida pelo roteirista Peter Schneider. Schneider acompanhou um paciente na Itália que, após sofrer um acidente, passou por um longo processo de reabilitação, tentando recuperar a fala e a memória.
Após os créditos do filme, a narrativa acompanha Hoffman, baleado na cabeça pelo policial, no hospital, passando por diversas fases para recuperar os movimentos, a memória e a capacidade de se expressar. O contexto do filme é o tenso clima político do final dos anos 70 na Alemanha. Os policiais acusam Hoffman de ser terrorista, a história ganha a mídia, colocando um suposto e pacato geneticista como um perigo para a nação. A perda da memória impede Hoffman de se defender: ele não se lembra de nada da noite do atentado.
“Essa foi uma das abordagens. De alguém que sofreu um acidente ou o que quer que fosse, tentando começar do zero ao lado de seus amigos, tendo que reaprender e desenvolver tudo de novo com uma nova lógica e uma nova intensidade para reencontrar a verdade. Foram também os efeitos dos acontecimentos políticos que nos moveram. Mas a questão era: quem é essa pessoa, esse personagem principal do filme? Alguns dizem ser um terrorista, outros tiram vantagem dele para seus interesses políticos. E ele está sozinho tentando descobrir a verdade com essa energia e intensidade recém-descobertas.” – Reinhard Jauff
O clímax do final é o tenso confronto em busca da verdade. Hoffmann visita o policial autor do tiro e os dois começam um perigoso jogo verbal e de atitudes – simulando o acontecimento da noite. O inesperado final em aberto é provocativo em questões pessoais e políticas.
Elenco: Bruno Ganz, Angela Winkler, Hans Christian Blech, Heinz Hoenig, Hans Brenner, Udo Samel.
As praias de Orouet (Du côté d’Orouet, França, 1971), de Jacques Rozier.
Caroline, Joelle e Kareen chegam a Orouet, sul da França, para passar as férias de verão. Elas ficam na casa da família de Kareen, um velho sobrado de frente para o mar. Pouco depois, Gilbert, colega de trabalho de Joelle, se junta ao grupo.
A narrativa é demarcada por inserts que anunciam os dias e as horas do mês de setembro. As jovens se aventuram diariamente pelas praias, fazendas da região, um cassino que mais parece uma vila de pescadores. A virada amorosa acontece quando elas conhecem Patrick, um velejador da região (atenção para a espetacular sequência de Patrick, Caroline e Joelle velejando, o vento fustigando o barco e as velas – um primor de filmagem em mar aberto).
O diretor Jacques Rozier experimentara esse tipo de narrativa, jovens que se deliciam ao mar e ao sol, no curta Blue Jeans (1958). Em As praias de Orouet, o diretor se consagra com um estilo de filmagens livres, improvisadas, quase como se a câmera também se deixasse levar pelos dias de verão. “Rozier começava a filmar as jovens na praia à tarde, continuava até ao anoitecer e terminava com algumas sequências à luz dos faróis dos carros. Um filme dele é um mosaico, uma invenção permanente, algo muito raro no cinema – Jean-François Stévenin, ator e realizador.
Nada de surpreendente acontece nas quase três horas de duração do filme. Cada sequência acompanha momentos do grupo marcados pela extroversão, pelas brincadeiras em casa e nas praias, pelas refeições, por momentos de melancolia. São as férias de verão em que tudo, ou nada, pode acontecer.
Elenco: Caroline Cartier (Caroline), Daniele Croisy (Joelle), Françoise Guégan (Kareen), Patrick Verde (Patrick), Bernard Menez (Gilbert).
Tiro de misericórdia (Der fangschulft, Alemanha, 1976), de Volker Schlondorff.
Erich von Lhomond (Matthias Habich) é um oficial do exército alemão que, após a Primeira Guerra Mundial, comanda suas tropas na luta contra o Exército Vermelho, nos Países Bálticos. Grande parte da trama se passa na Letônia, na propriedade da família de Konrad von Reval (Rüdiger Kirschstein), soldado e amigo de Erich. Sophie von Reval (Margarethe von Trotta), irmã de Konrad, administra a propriedade e sua simpatia pelos comunistas vai provocar a virada trágica da narrativa.
O diretor Volker Schlondorff, na época casado com Margarethe von Trotta, adaptou o romance homônimo de Marguerite Yourcenar. O filme tem como tema central um sugestivo triângulo amoroso: Sophie se apaixona por Erich, que a rechaça de forma agressiva – a sugestão é sobre a relação entre Erich e Konrad. Em uma cena, Volkmar, soldado apaixonado por Sophie, declara: “Ele (Erich) é esperto, conquista a irmã para tentar conquistar o irmão.”
O título do filme alude a um dos finais mais tristes e frios do cinema de todos os tempos. Sophie, grande personagem da narrativa, passa por um processo de degradação moral, motivada pela frieza com que é tratada por Erich, cuja verdadeira paixão é a guerra. Segundo a própria Sophie, “onde ele pode provar sua virilidade masculina”.
Sophie abandona a propriedade e se junta aos comunistas, sendo considerada traidora. Ela é capturada pelas tropas de Erich e ouve com dignidade a sentença: “nenhum dos lados está fazendo prisioneiros.” Diante de seu amor, no gesto final, Sophie revela sua admirável força social, política e humana.