Excursão a Vueltabajo

Vueltabajo, localizada no oeste de Cuba, província de Pinar del Rio, é famosa mundialmente por ser a principal fonte do tabaco utilizado na produção dos famosos charutos cubanos de alta qualidade. O documentário Excursão a Vueltabajo (Excursión a Vueltabajo, Cuba, 1965), de Sara Gómez, é composto por fotos de arquivos dos primeiros colonizadores, ilustrações e cenas dos campos agrícolas, das ruas no centro urbano, de trabalhadores cultivando as terras. 

A breve história do desenvolvimento da indústria do tabaco promove também uma reflexão sobre o conflito entre as técnicas rudimentares de agricultura, como o arado, e a maquinização adotada a partir da revolução cubana. “Pensando em todas essas coisas, em Pinar del Rio e no tabaco, cheguei a uma fazenda em Vueltabajo. Eu vi os campos de tabaco, a décima e o guajiro de origem nas Ilhas Canárias. Mas também uma máquina que faz o arado, fertiliza, molha e semeia, enquanto poupa o trabalho de 30 homens.” 

E… nós temos sabor

E… nós temos sabor (Y… nos tenemos sabor, Cuba, 1967), de Sara Gómez.

O filme abre com uma informação em lettering sobre a impossibilidade de mostrar todos os instrumentos cubanos no documentário. “Nós nos limitamos aos de danças populares.” O guia da narrativa é Alberto Zayas, compositor e cantor cubano de rumba, considerado um dos mais importantes músicos deste gênero peculiar da ilha. 

Os depoimentos de Zaya, mostrando e explicando a origem e funcionalidade dos instrumentos musicais, alternam-se com cenas de músicos em diversas manifestações: durante gravações em estúdios, em festas populares nas ruas, apresentando-se em palcos, nos quintais das casa… Narração em off de Sara Gomez também acompanha as imagens: “Os trovadores, acompanhados de violões, a herança espanhola que aparece em toda a nossa música tradicional, utilizam a clave como um elemento rítmico e às vezes como uma dupla de percussão com claves e colheres.”

A importância histórica e cultural do documentário está na estrutura que alterna as sensíveis cenas de músicos, a maioria desconhecidos, em comoventes interpretações, com os depoimentos, quase didáticos, de Alberto Zaya: “As claves, dois pedaços de cabo de vassoura. Mas, dão um sabor delicioso. Essas claves se tornaram muito boas. Elas são usadas desde o século nove. Mas depois vieram as melhores, para o tipo de guaracha que eles usam no oriente. Depois usaram elas para son. Para o son e guaguancó. Mas perceba, todos os instrumentos cubanos, os primitivos, os instrumentos mulatos, todos eles são em pares, fêmea e macho. Duas claves, duas maracas, um par de bongôs…”

Uma ilha para Miguel

Uma ilha para Miguel (Una isla para Miguel, Cuba, 1968), de Sara Gómez

Em determinado momento do documentário, a câmera está fixa, em meio primeiro plano, no rosto de um adolescente: “Nossa escola, Antonio Briones Montoto, é um centro de estudos técnicos onde esperamos conseguir resolver as necessidades de nosso país a respeito de especialistas em cítricos. Devemos formar cerca de 400 camaradas nesta função. Através de treinamento abrangente, nós desenvolvemos um trabalho que consiste no seguinte: coordenar o estudo, o trabalho e a defesa. Nesse caso, nós relacionamos estudos acadêmicos a matérias técnicas e às matérias voltadas para elevar o nível cultural do corpo estudantil. A respeito do trabalho, nosso corpo, ou seja, os estudantes, trabalham quatro horas e meia todo dia, de 7h30 a 11h30 da manhã. Nesse período, eles completam as tarefas relacionadas aos estudos.”  

O depoimento segue um tom formal de um jovem representante do partido e dos ideais da revolução. As imagens que acompanham este e outros depoimentos refletem a sensibilidade desta proposta, mostrando grupos de jovens, estudantes, trabalhadores, em seus afazeres cotidianos, sempre com leveza e alegria. 

O contraste é Miguel, jovem que foi enviado para a Ilha dos Pinos, onde o programa de educação e formação técnica se desenvolve. Ele é um menino rebelde, na infância provocou problemas para sua família formada por nove irmãos e passou por atritos violentos com seu pai. Logo nos primeiros dias na ilha, Miguel comparece ao comitê devido a um gesto rebelde, é julgado e punido. 

Uma ilha para Miguel faz parte da trilogia de documentários de Sara Gomes sobre a Ilha dos Pinos. Os outros filmes são Na outra ilha (1968) e A ilha do tesouro (1969). A abordagem são as tentativas de programas comunitários, implantados pelo regime de Fidel Castro, com intenção de formar trabalhadores com bagagem técnica e cultural. O final de Uma ilha para Miguel deixa em aberto o futuro desses jovens. As últimas imagens mostram Miguel olhando de forma inexpressiva para a câmera. Corta para claquete batida em frente ao rosto de seu amigo que diz: “Miguel, sendo meu amigo e um homem, eu sei que ele vai se comportar bem.” 

Guanabacoa: crônica de minha família

Guanabacoa: crônica de minha família (Guanabacoa: Crónica de mi familia, Cuba, 1966), de Sara Gómez.

A cineasta cubana Sara Gómez, primeira mulher a dirigir filmes na ilha, foi pioneira também, por meio deste curta, no documentário autobiográfico. Guanabacoa é um bairro de classe média em Havana. Sara Gómez resgata a história de sua família, com fotos antigas e depoimentos de familiares, principalmente de Luísa Maria Lopes Y Galainena,  chamada de “madrinha”. 

A música clássica e popular de Cuba também acompanha a narrativa, com destaque para apresentações de grupos em teatros, nas ruas, em ensaios e escolas dedicadas ao ensino musical. Lettering sobre posto a participantes indicam membros da família de Sara Gómez que se dedicaram à música. 

Narrativa em off da própria diretora pontua determinadas imagens. “Somos das famílias Banquecer e Galainena. Eu lembro de visitar as casas de primos velhos, de golas prensadas e gravatas retas, e meus ótimos primos mulatos. Casas onde clarinetes eram guardados em estojos velhos de couros ou capas de tecido amarelo. Casas onde a madrinha agora, com o esforço de oitenta anos de memórias, se lembra.”    

O destaque do documentário é a narrativa silenciosa do bairro, reduto histórico e cultural de Havana, formada por imagens de ruas, vielas, moradores, trabalhadores, monumentos (o busto de Ernest Hemingway, que se matou em Cuba em 1961). A sensibilidade estética de Sara Gómez compõe uma obra repleta de memórias e sensações, antes e depois da revolução cubana. 

Batimentos por Mizu

Batimentos por Mizu (Japão, 2019), de Miki Tomita.  

Sumiko (Ruka Ishikawa) está no último ano da universidade, mas se apresenta como caloura. Ela tem um dom: ouve e consegue mensurar os batimentos cardíacos por minuto de quem está por perto. Durante um show de uma banda pop, ela conhece Mizu (Endo Fumiya)  e passa a ouvir e contar os seus próprios BPM.

A direção de fotografia e a direção de arte são o destaque do curta. As cores, as ambientações, a fotografia se aproveitando do tom azulado dos dias e da piscina, transmitem um ar de jovialidade estética. A jovem Sumiko não só ouve, mas vê e sente os batimentos cardíacos que mudam de acordo com os encontros, as relações – as sensação da juventude. 

Home

Home (Coreia do Sul, 2023), de Jeong Jae-hee. Com Yang Mal-bok.

Uma jovem abre a porta do quarto e vê sua mãe estendida no chão. Ela faz compressões no coração da vítima mas é tarde. A mãe morrera por falta do remédio, pois sozinha não conseguia tomá-lo. 

Em um processo de luto, a jovem separa pertences e cartas da mãe e começa a ter visões repentinas e sutis da mãe. A imagem do corpo caído no quarto volta outras vezes, em uma montagem que sugere fatos não revelados sobre a morte, talvez a pressão psicológica da morte desejada. 

A fotografia noir domina a narrativa. Planos, ângulos, cortes, elipses, o curta se apropria sem pudor dos elementos do gênero terror para sugerir traumas passados. A montagem invertida sugere ao espectador fragmentos de memória ou de sonhos assustadores. Difícil lidar com a culpa quando se está só em casa à noite, pensando no que assombra o quarto ao lado.

O que são as nuvens?

O que são as nuvens (Che cosa sono le nuvole?, Itália, 1968), de Pier Paolo Pasolini. 

Um homem recolhe o lixo na casa onde um artesão constrói marionetes em tamanho natural. Ele canta: “Que eu possa me danar se não a amar. E se assim não fosse, eu não entenderia mais nada, todo o meu louco amor é um sopro do céu, é um sopro do céu. Ah, a erva suavemente delicada de um perfume que dá espasmo…” Durante a canção, os marionetes são apoiados em uma parede e conversam entre eles. Vão participar de uma peça de teatro de marionetes, adaptação de Otelo, de Shakespeare. 

O curta-metragem de Pasolini é a última interpretação do maior comediante italiano: Totó. Ele interpreta Iago, Otelo fica por conta de Ninetto Davoli e Laura Betti é Desdêmona.  O surrealismo poético é a grande marca desta alegoria que, através do texto shakespeariano, leva os bonecos a questionarem a existência, a beleza da vida e a morte. 

Os bonecos seguem o enredo da tragédia, mas, em alguns momentos se mostram contra os rumos que devem tomar por meio dos atos de traição e assassínio. No final do filme acontece uma inversão fascinante: a plateia que assiste à peca invade o teatro e mata Otelo e Iago antes do assassinato de Desdêmona. 

Os dois bonecos são descartados, carregados pelo lixeiro que continua a canção melancólica – composta e interpretada por Domenico Modugno. No lixão, Otelo e Iago, olhando para o céu, conversam: 

Othelo: O que é isso? 

Iago: “sso são nuvens.

Othelo: E o que são nuvens?

Iago: Quem sabe?

Othelo: Como são lindas. Lindas. Como são lindas. 

Iago: Dilacerante e maravilhosa beleza da criação. 

Pasolini. Filósofo e poeta, dos textos e das imagens. 

Elenco: Totó (Iago), Ninetto Davoli (Otello), Franco Franchi (Cássio), Laura Betti (Desdemona). 

Um dia de cada vez

Um dia de cada vez (Day by day, Taiwan, 2024), de Wang Yan-ping. 

Os curtas da diretora Wang Yan-ping retratam instigantes momentos do cotidiano dos taiwaneses, na maioria jovens em busca de suas identidades. Em Um dia de cada vez, o pai busca integrantes de sua família em seu carro novo. Primeiro a filha, que demonstra desinteresse pela novidade. A seguir o filho caçula, que grita e protesta no banco de trás. Por fim, a esposa e o terceiro filho, que sofre com deficiências cognitivas. 

O trajeto para casa, quando vão se despedir do carro antigo, apelidado de amarelinho, é marcado por embates, rupturas e reconciliações, cada um envolto com seus próprios conflitos. A exceção do pai, o carro novo, com teto solar e dispositivos modernos, parece não encantar ninguém. O final, quando  a família se despede do amarelinho é um breve momento de ternura entre eles. 

Elenco: Com Duan Chun-hao, Tiffany Anais Lin, Wei-Che Tu, Yun-Chen She, Deng Chiu Yun.

Florescer

Florescer (Blossom, Taiwan, 2022), de Wang Yan-Ping. Com Chloe Lin, Wei-Chieh Hsu, Po-Yen Huang, Daphne Jen. 

Este curta de apenas seis minutos de duração provoca o espectador com toques surrealistas. Duas adolescentes trabalham na quadra de tênis de um resort. Elas recolhem as bolas durante o jogo dos tenistas. 

No início da trama, enquanto colocam dezenas de bolas em uma cesta, conversam sobre as possibilidades da viagem que farão durante o verão até que uma delas diz: “Ontem a cabeça dele caiu. Acho que desta vez ele está morto.”

Na segunda parte da narrativa, as duas estão em lados opostos da quadra, recolhendo as bolas durante o jogo  de um casal de jovens. Até que a bola, em uma jogada mais forte da jovem, acerta em cheio a cabeça do oponente e o inusitado acontece. Desde Um cão andaluz (1929), de Luís Buñuel, o cinema de curtas é o verdadeiro espaço do experimento surrealista. 

Um dia de verão

Um dia de verão (Taiwan, 2020), de Wang Yan-ping. Com Min-Hsien Jen (Hsuan), Ting-Yi Lin (Chi), Chien-yu Chou (Yei). . 

O filme de graduação da diretora Wang Yan-ping se passa durante o verão. Três jovens dividem seu tempo entre os estudos, um parque de diversão e a piscina da cidade. Os irmãos Hsuan e Yei trabalham no parque, passam por pequenos conflitos, principalmente em relação à amiga deles, Chi. 

O foco central da trama é a amizade entre as duas jovens, até o momento em que Hsuan não consegue mais esconder sua paixão por Chi. A delicadeza, os olhares e gestos sutis, conduzem as revelações que provocam conflitos, como em todas as descobertas adolescentes.