Tensão

Tensão (Tension, EUA, 1949), de John Berry.

Warren Quimby é um pacato funcionário de farmácia. Admirado pelos seus colegas de trabalho, trata com gentileza todos os clientes e, após o final do expediente, ruma tranquilamente para sua casa, onde espera encontrar Claire (Audrey Totter), sua esposa. Desde o início o espectador sabe que é um casamento praticamente de fachada por parte de Claire que trata o marido com indiferença e agressividade, enquanto se diverte à noite com outros homens. 

O casamento termina quando Claire resolve assumir seu amante. Acontece então uma radical mudança de personagem: Warren se disfarça fisicamente e planeja assassinar seu oponente. 

A femme fatale vivida por Audrey Totter é o grande destaque da trama. Após o assassinato, ele tenta virar o jogo e voltar para o marido, mas agora é ela quem enfrenta uma oponente: Mary (Cyd Charisse), jovem que se apaixona por Warren e é correspondida. No entanto, a polícia agora está no encalço do farmacêutico, sob acusação de um assassinato que ele planejou mas não cometeu. Ótimo noir de John Berry, responsável por um clássico do gênero: Por amor também se mata (1951). 

Almas perversas

Almas perversas (Scarlet street, EUA, 1945), de Fritz Lang.

Christopher Cross (Edward G. Robinson) é um homem passivo, dominado pela forte personalidade de sua esposa, uma viúva que ainda mantém, quase como uma ameaça, o retrato de seu primeiro marido na sala de estar. É um casamento de conveniência, cabendo a Chris abaixar a cabeça e seguir em frente com suas frustrações. Tudo muda quando ele conhece Kitty (Joan Bennet), uma prostituta, a tradicional e irresistível femme fatalle dos fimes noir. 

Almas perversas é um remake de A cadela (1931), de Jean Renoir. A temática dos dois filmes é a mesma: a opressão que o sistema capitalista, burguês, impõe a seus servos, que caminham resignados enquanto sonham com uma vida diferente, talvez pela arte, talvez vivendo uma paixão. Chris é pintor em suas horas livres, mas não faz nada para seguir nessa carreira, deixa até mesmo roubarem a autoria de seus quadros. Tem admiração por seu chefe, que tem uma amante muito mais nova. Kitty entra em sua vida e a transformação do protagonista é impactante: ele pratica um assassinato e não se importa em ver um inocente pagar pelo seu crime. 

“A mudança no local em que se passam os dois filmes serve como parâmetro para a mudança de gênero deles. Em Paris, desejo é poesia; em Nova Iorque, é dinheiro. Chris Cross desliga-se da esposa, é demitido do trabalho, assassina uma mulher, incrimina um homem, transforma-se em um mendigo, mas, ao contrário de Simon, não alcança liberdade alguma. Lang vai, assim, além de Renoir. Os atos do protagonista agora não são contrários ao mundo onde vive, mas impulsionados por ele, pois esse mundo é regido pelo desejo, e desejo, repito, é capital. Desde o início, esta relação fica clara. Na primeira vez em que aparecem juntos, um longo plano mostra Chris, sentado, de costas, enquanto seu chefe, em pé, de frente para a tela, discursa. Pouco depois, Chris comenta que gostaria de ter alguma amante jovem e bonita apaixonada por ele, como tem seu chefe, e como nunca, em sua vida, teve. Quando se apaixona por Kitty, o desejo que sente é apenas fruto daquilo que gostaria de ser: seu chefe, portanto. Mas Lang não deixa dúvidas; a paixão custa caro, em qualquer sentido, e não é qualquer um que tem o direito de desejar. Se para o patrão a questão moral não se coloca (e seria um tanto hipócrita pensar que Chris tem mau destino porque “peca”, quando o chefe também o faz, e mais naturalmente) é porque ele tem dinheiro e poder para comprá-la, como afirma a cena em que assegura a liberdade de seu funcionário subornando os guardas com uma caixa de charutos cubanos.” – Leonardo Levis – Contracampo

Cinzas que queimam

Cinzas que queimam (On dangerous ground, EUA, 1951), de Nicholas Ray, começa como um tradicional filme noir. Jim Wilson (Robert Ryan) é um policial solitário e amargurado. Trafega por becos e bares marginais da noite à caça de seus bandidos, despreza as mulheres, seus amigos são os policiais que o acompanham jornada noite à dentro. Seu jeito taciturno sugere uma obsessão em resolver os casos a que é designado usando de brutalidade e violência.  

A virada do roteiro e do estilo do filme acontece quando o chefe de polícia o adverte por mais uma noite de violência e o encarrega de investigar o assassinato de uma jovem em uma região rural. É como se o filme saísse da noite e entrasse na claridade da neve e do gelo. Durante a investigação, Wilson encontra Mary Malden (Ida Lupino), irmã do assassino. Ela é cega e tenta proteger o irmão a todo custo e vai motivar a transformação do policial. 

“‘Enxergar’ é o conceito chave em Cinzas que Queimam, pois é a partir do encontro com a cega Mary Malden (a espetacular Ida Lupino), em uma das maiores atuações femininas da história), irmã do assassino, que Wilson muda para sempre. Voltando à questão da ‘readaptação’, é curioso como até o próprio “gênero” do filme parece se alterar, saindo do noir urbano para uma mistura entre realismo poético francês à Renoir e um melodrama. Se o detetive rejeitava a aproximação com as outras mulheres da cidade e consegue se abrir para Mary é justamente porque ela carrega a pureza que as outras não tinham. Em um movimento que lembra muito o encontro de Frankenstein com a cega em A noiva de Frankenstein (1935), o fato dela não enxergar sua aparência exterior, mas sentir quem ele é, deixa aquele personagem vulnerável.” –  Michel Gutwilen (Plano Crítico)

O segredo das joias

Com O segredo das jóias (1950\) John Huston praticamente definiu o subgênero de filmes de assalto, influenciando diversos clássicos na sequência: Rififi (1955), O grande golpe (1956), Os eternos desconhecidos (1958), Onze homens e um segredo (1960).  

A trama, roteiro e direção de John Huston, adaptada de romance de W. R. Burnett, tem como princípio a preparação de um grande assalto a uma joalheria, planejado pelo notório “Doc”, que acaba de sair da cadeia. Ele reúne seus comparsas, cada um com uma especialidade: Ciavelli, Gus, Emmerich (financiador do plano) e Dix, protagonista da história, um ladrão de segunda categoria amargurado que transita pela noite em busca de dinheiro para pagar suas dívidas. 

O roubo na joalheria é um primor narrativo e estético, planejado em cada detalhe, mas sujeito aos incidentes, que acontece quando um guarda noturno desconfia e entra pela porta de escape. A partir daí, cada um dos personagens vive um drama e são vencidos, afinal, por suas próprias ambições e fraquezas humanas. 

“O filme se divide no planejamento e na captação dos recursos humanos e financeiros para o golpe, no golpe em si e, finalmente, na derrocada de seus componentes, vítimas de seus próprios vícios e fraquezas. ‘De uma forma ou de outra, todos nós trabalhamos em função de nossos vícios’, diz Doc, a certa altura, ele mesmo condenado por sua fixação por ninfetas. Da mesma forma, além da ganância, a fraqueza da personagem de Calhern é sua ‘sobrinha’ (uma iniciante e já insinuante Marilyn Monroe), enquanto o ‘caipira’ Hayden sonha com seu Rosebud, um potro indomado reminiscente de sua infância no interior do Kentucky.” – Carlos Quintão. 

A escapada de Hayden, ao lado de sua namorada Doll, dirigindo ferido em alta velocidade pela estrada, é um desses grandes momentos de desejo e frustração do cinema. A caminhada final de Hayden em direção à casa que foi de seu pai, em direção aos cavalos é dolorosa, sem esperanças, carregada dos sonhos que o cinema clássico americano tornou impossível em alguns belos finais de filmes. 

O segredo das joias (The asphalt jungle, EUA, 1950), de John Huston. Com Sterling Hayden (Dix Handley), Sam Jaffe (Doc Erwin Riedenschneider), James Whitmore (Gus Minissi), Jean Hagen (Doll Conovan), Marilyn Monroe (Angela Phinlay).

Referência: Livreto encartado no bluray da Versátil Home-Vídeo, curadoria de Fernando Brito.

Laura

Alfred Hitchcock se referiu que o amor que Scottie (James Stewart) desenvolve por Madeleine (Kim Novak) em Um corpo que cai (1958) era “necrofilia pura”, afinal, Madeleine já era um cadáver. Apaixonar-se pelo retrato de uma jovem morta pode se aproximar disto em um sentido mais poético. 

Em Laura, clássico do cinema noir, O detetive Mark McPherson está investigando o assassinato de Laura, ocorrido na noite anterior, uma sexta-feira. Ela abriu a porta de seu apartamento e foi alvejada por dois tiros de espingarda. 

O principal suspeito é o playboy Shelby Carpenter, na lista se inclui também o jornalista excêntrico Waldo Lydecker, espécie de tutor de Laura no mundo profissional. Incluindo o detetive e o pintor do quadro, que não participa da trama, são quatro homens fascinados, apaixonados por Laura. A virada acontece quando o detetive adormece em uma cadeira, com o retrato de Laura ao fundo. A porta se abre e Laura entra. 

“Nos cenários claustrofóbicos e de um excêntrico tom onírico pelos quais transitam as personagens – raramente acompanhadas de figurantes, o que dá ainda mais relevância a cada linha de diálogo que sai de suas bocas -, um dos elementos simbólicos mais proeminentes é o retrato de Laura pintado por um de seus admiradores, quase onipresente na mise-en-scène minuciosa de Preminger. Representado na tela está uma figura feminina pela ótica masculina que, segundo Waldo, não é capaz de captar a pulsante chama de vida que resplandece de sua pele. Por essa razão, a indagação sobre quem a matou é abandonada antes da metade do filme, pois o que está em jogo é muito mais a existência de cada um dos homens – e por extensão o próprio público, pleno de convicções – atribui a ela.” – Vinicius Lins Magno

Laura subverte um dos princípios básicos do filme noir: a femme fatale sedutora, fria e calculista que manipula os homens para atingir seus objetivos.  A Laura de Gene Tierney é inocente, em um certo aspecto ingênua de seus encantos, pensa estar apaixonada por Carpenter e quer protegê-lo. Claro, usa de seus encantos joviais para ascender na profissão e na sociedade, se aproveitando do fascínio que o famoso jornalista sente por ela. Mas não é o arquetípico da criminosa do noir. 

“A protagonista, mesmo que completamente inocente no crime e aparentemente alheia ao feitiço que conjura com sua beleza, não precisa apontar um revólver para o rosto de alguém para fazer as vezes de femme fatale. É a curiosidade quase vulgar em torno de sua figura que acende a pólvora no coração dos homens e os projeto à autodestruição, numa trajetória de insanidade.” – Vinicius Lins Magno. 

O destaque do filme, uma das grandes cenas do cinema noir, é quando o detetive interroga Laura em seu gabinete. Laura está sentada diante da luz agressiva usada em interrogatórios. McPherson está em pé do outro lado da mesa. Ela acusa o detetive de estar tentando forçá-la a confessar o crime. A conversa segue, Laura abaixa a cabeça e encobre o rosto com uma das mãos: “Não posso, por favor. Essa luz precisa ficar no meu rosto?” McPherson desliga a luz, Laura levanta a cabeça e olha para o detetive, iluminada pela suave luz noir, seu rosto no esplendor de uma triste beleza. Apaga-se o retrato, McPherson finalmente vê Laura surgir diante de seus olhos apaixonados. 

Laura (EUA, 1944), de Otto Preminger. Com Gene Tierney (Laura Hunt), Dana Andrews (Mark McPherson), Clifton Webb (Waldo Lydecker), Vincent Price (Shelby Carpenter), Judith Anderson (Ann Treadwell). 

Referência: Livreto encartado no bluray da Versátil Home-Vídeo, curadoria de Fernando Brito.

Cão danado

Em Cão danado, Kurosawa faz uma incursão pelo gênero policial, com referências ao cinema noir. Na abertura do filme, Murakami (Toshiro Mifune), jovem policial do departamento de homicídios, tem seu revólver roubado dentro de um ônibus lotado. Envergonhado, ele entrega seu distintivo ao chefe. O chefe recusa. Murakami então empreende uma busca desesperada pelo submundo de Tóquio em busca do revólver. 

O tom noir é marcante, na fotografia em preto e branco, nas ruelas, becos, bares e prostíbulos que o policial passa a frequentar e, principalmente, na composição das personagens. Em sua busca obsessiva, Murakami se defronta com uma série de marginais do mercado negro, contrabandistas de armas no Japão do pós-guerra que vêem no crime a única alternativa de vida. O olhar de Murakami sobre esses marginais se torna cada vez mais e mais compassivo, mesmo quando vinga o atentado contra seu companheiro de investigação, o policial sente tristeza e resignação diante deste mundo sem esperanças. 

Atenção para a longa sequência silenciosa do policial caminhando pelos bairros decrépitos do mercado negro, afundados no calor e na lama, apinhados de crianças, jovens, adultos e idosos que tentam sobreviver nas ruas. 

Cão danado (Nora inu, Japão, 1949), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Keiko Awaji.

O caminho da tentação

John Forbes vive uma tranquila vida de casado. É corretor de seguros de uma grande empresa, sua rotina se divide entre casa e trabalho, deixando transparecer o tédio que sente no dia-a-dia. Ele se vê envolvido em um caso de fraude à segurada, quando o responsável, Smiley, é preso. John Forbes precisa recuperar os bens que foram doados por Smiley à sua namorada, Mona Stevens.

Esse encontro encaminha a trama para a tradicional entrada em cena da femme fatale, marca registrada dos filmes noir. No entanto, a grande vítima da narrativa acaba sendo Mona. John Forbes se apaixona por ela, os dois começam um perigoso caso extraconjugal, pois MacDonald, um investigador particular que trabalha para a corretora, também está apaixonado por Mona. Ele usa de todos os meios para conquistá-la, incluindo chantagem, armando uma complexa armadilha para Forbes no final do filme.  

O final, triste e doloroso, revela como homens cruéis, MacDonald, e os pretensamente íntegros, Forbes, podem destruir a vida das mulheres com quem se relacionam. 

O caminho da tentação (Pitfall, EUA, 1948), de André De Toth. Com Dick Powell (John Forbes), Lizabeth Scott (Mona Stevens), Raymond Burr (MacDonald). 

No silêncio da noite

Nas primeiras sequências do filme, o roteirista Dix Steele está em um bar. Ele conhece uma jovem e a convida para sua casa. Os dois ficam juntos até o início da madrugada. Dix leva a jovem até o jardim, nesse momento Laurel Gray, sua vizinha do condomínio, passa por eles. Dix se despede da jovem e observa Laurel entrando em casa. Corta para a manhã seguinte. Dois policiais batem na porta do roteirista. A jovem com quem ele se encontrara na noite anterior foi assassinada na madrugada. Durante o depoimento na delegacia, Dix descobre que é o suspeito número 1 do crime. 

No silêncio da noite é considerado a obra-prima do aclamado diretor Nicholas Ray. É um noir tenso e amargo, com interpretações primorosas de Gloria Grahame e Humphrey Bogart. É também um dos grandes filmes feitos sobre o próprio cinema, retratando a era de ouro de Hollywood, revelando como o sistema de estúdio forçava seus criativos a trabalhar com as regras impostas para que os filmes tivessem apelo comercial. Dix está trabalhando em uma adaptação literária, mas não pode escrever o filme que deseja artisticamente. 

O grande destaque deste noir repleto de diálogos cortantes, prestem atenção nos depoimentos de Dix Steele e Laurel Gray na delegacia, é a complexidade psicológica que se instaura entre o casal de protagonistas.

“Dix Steele (Bogart), um roteirista de pavio-curto, é suspeito de um assassanto especialmente cruel, porém sua vizinha de porta, Laurel Gray (Grahame), pode lhe servir de álibi. Isso leva a dupla a um caso passional que é minado quando Laurel se apavora com as tendências violentas de Dix e começa a se perguntar se ele não teria cometido de fato o assassinato. Depois de anos interpretando sujeitos durões, porém românticos, aqui Bogart mergulha mais fundo na sua própria persona, revelando um viés neurótico que poderia ter feito Sam Spade ou Rick Blaine personagens instáveis e absolutamente assustadores nas sequências em que Dix explode, aplicando surras em quem merece e em quem não merece.”

O início do filme deixa claro para o espectador que Dix não é o assassino. No entanto, até mesmo esse espectador se vê em dúvida durante a narrativa. O crescente descontrole do personagem assusta a todos, principalmente a Laurel Gray. Os dois estão apaixonados, mas Dix se mostra cada vez mais violento, colocando na cabeça de Laurel, que depôs na delegacia sobre a sua inocência, a dúvida, o medo. 

O filme tem uma sequência antológica, quando a mente criativa, talvez doentia, do Dix roteirista, acostumado a criar cenas de assassinato em seus filmes, se revela. Em frente a um dos policiais, seu amigo, e da mulher dele, Dix reencena como teria acontecido o assassinato dentro do carro, chegando a simular o estrangulamento no pescoço da esposa do policial. Puro terror psicológico. 

No silêncio da noite (In a lonely place, EUA, 1950), de Nicholas Ray. Com Humphrey Bogart (Dix Steele), Gloria Grahame (Laurel Gray), Frank Lovejoy.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

O bígamo

O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

Johnny Gunman

Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios. 

A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes;  a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults. 

Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy).