A princesa das ostras

A princesa das ostras (Die austernprinzessin, Alemanha, 1919), de Ernst Lubitsch, é uma comédia absurda, caótica, cuja base é a troca de papéis. A abertura do filme apresenta o Sr. Quaker (Victor Jansen) que enriqueceu com o comércio de ostras. Ele está cercado de empregados que executam as tarifas mais triviais, como limpar os lábios do patrão enquanto ele come. Em outro ambiente, sua filha Ossi (Ossi Oswalda) quebra móveis e objetos da casa, revoltada por ainda não ter um marido. Indiferente a isso, como se fosse corriqueiro mandar comprar novos móveis, o Sr. Quaker resolve comprar também um marido para a filha. 

Essa trama recheada de gags bem ao estilo comédia pastelão tece fortes críticas à sociedade alemã do pós guerra, mostrando a disparidade econômica e social que imperou na República de Weimar. Lubitsch aborda também a decadência aristocrática da Europa: o noivo comprado para Ossi é o Príncipe Nucki (Harry Liedtke), que mora em um quarto miserável, com um serviçal que a exemplo dos empregados da mansão Quaker, também executa todas as tarefas para o Príncipe. Uma cena hilária mostra o empregado empilhando móveis decrépitos e colocando uma cadeira no alto onde o Príncipe se senta para receber seus amigos. 

Lubitsch, com uma sequência de “comédias críticas” na Alemanha, tomado por inspirações artísticas impressionantes, desenvolveu um estilo que se consagrou como o “toque Lubitsch”. A repercussão de seus filmes dessa fase atingiu os EUA e Mary Pickford, uma das maiores estrelas do sistema de estúdio da época, convidou o diretor para trabalhar em Hollywood. A partir daí, a história do cinema clássico americano foi fortemente marcado por Ernst Lubitsch, seu toque passou a ser referência para gerações de cineastas. 

Não matarás

Não matarás (Broken Lullaby, EUA, 1932), é um filme atípico de Ernst Lubitsch, famoso por suas comédias. O melodrama, com forte teor humanista, acompanha a jornada de Paul Renard, músico que lutou na primeira guerra mundial. Em uma trincheira, Paul mata um soldado alemão, Walger Holderlin, e lê a carta da vítima que seria enviada para sua noiva, Elsa. 

Atormentado pelo assassinato, Paul parte para a Alemanha disposto a pedir perdão aos pais de Walger. É 1919 e os resquícios da guerra ainda pairam assustadoramente no ar, o ódio mútuo entre alemães e franceses impede relacionamentos. Isto fica claro logo no primeiro encontro entre Paul e o Dr. Holderlin, pai de Walger. 

O filme, feito em 1932, é um forte manifesto de Lubitsch contra a ascensão do fascismo na Europa e os indícios de um novo conflito. Atenção para o desabafo humanista do Dr. Holderlin, em atuação magistral de Lionel Barrymore, em um bar repleto de “homens velhos” que destilam ódio, motivado pelas perdas de filhos na guerra: “Éramos velhos demais para lutar, mas não velhos demais para odiar e mandar nossos filhos para a guerra” 

Elenco: Lionel Barrymore (Dr. H. Holderlin), Nancy Carroll (Elsa), Phillips Holmes (Paul Renard), Louise Carter (Madame Holderlin), Tom Douglas (Walger Holderlin).

A boneca do amor

A boneca do amor (The doll, Alemanha, 1919), de Ernst Lubitsch, foi produzido no mesmo ano do clássico O gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, que praticamente definiu os preceitos conceituais e estéticos do expressionismo alemão.

Forçado a se casar pelo tio, um rico aristocrata que deseja um herdeiro, o jovem Lancelot foge e se refugia em um mosteiro. Os monges passam a cobiçar o dote de Lancelot e o convencem a procurar um famoso fabricante de bonecas, idênticas às mulheres, e forjar o casamento. 

A história é baseada em texto de E. T. A. Hoffman e pode ser vista como um conto de fadas, a partir do momento em que a filha do fabricante toma o lugar da boneca. Lubitsch constroi a narrativa fortemente influenciado pelo expressionismo: cenários feitos a partir de papelão, linhas distorcidas, interpretação caricatural, com destaque para Ossi Oswalda no papel da boneca.

Segundo o crítico Luiz Santiago, Lubitsch, ainda em sua fase alemã, homenageia de forma metafórica o cinema: “Ernst Lubitsch Faz de A Boneca do Amor (Die Puppe) um exercício que sintetiza a Sétima Arte como ilusão e artefato, envolvendo-nos num universo onírico já influenciado pelo Expressionismo Alemão. Desde os momentos iniciais, quando o cineasta se apresenta e, literalmente, constrói uma maquete cênica diante dos nossos olhos, somos transportados para um mundo que abraça a artificialidade e celebra a criação como o coração da experiência cinematográfica. Essa abertura é uma declaração de intenções artísticas que posiciona o filme como metáfora do próprio cinema, onde tudo é construído para encantar, provocar e envolver.” – Plano Crítico

Elenco: Ossi Oswalda (Ossi), Hermann Thimmig (Lancelot), Victor Janson (Hilário). 

O diabo disse não

O diabo disse não (Heaven can wait, EUA, 1943), de Ernst Lubitsch.

O rico e aristocrático Henry Van Cleve (Don Ameche) morre aos 70 anos. Em seu caminho para a eternidade ele é recebido por Sua Excelência O Diabo, Henry tem certeza que deve pagar por seus pecados de forma cruel.

O diabo disse não é uma deliciosa comédia de Ernst Lubitsch, o mestre do gênero no cinema clássico hollywoodiano. Lubitsch conseguia tratar com leveza e bom humor as situações mais dramáticas, como nesta história marcada por abandono dos pais, adultério, frustrações nos relacionamentos amorosos e morte. 

O próprio Henry conta sua história ao diabo, tentando mostrar que não merece ir para o reino dos céus. Foi um jovem relapso na escola, só se interessando pelas meninas, passou a juventude em noitadas, aproveitando o dinheiro dos país sem se preocupar com trabalho. A vida de Henry muda quando conhece Martha (Gene Tierney), noiva de seu primo. Os dois se apaixonam e, nessa mesma noite, durante a festa de noivado, fogem, provocando um escândalo na família. 

Durante cerca de 30 anos, o relacionamento do casal é marcado pelas idas e vindas, frustrações e incertezas diante do relacionamento que se esperava para a vida inteira. A abordagem revela muito da ideologia de Hollywood, cujos filmes, amparados pelo Código Hays, aceitavam e perdoavam atitudes machistas e dominadoras dos homens, enquanto às mulheres cabia perdoar e voltar para os braços dos maridos. Atenção para a cena no início do filme quando o diabo abre o alçapão, jogando uma senhora no inferno porque ela não tem mais pernas bonitas.

O pecado de Cluny Brown

O pecado de Cluny Brown (Cluny Brown, EUA, 1946) é o último filme dirigido por Ernst Lubitsch. O diretor marcou o cinema clássico americano com suas comédias e se consagrou por uma marca conhecida por “toque Lubitsch” que influenciou outros grandes nomes do cinema, principalmente Billy Wilder.

Cluny Brown (Jennifer Jones) é uma jovem de classe baixa, irreverente, ingênua e atrevida que, após protagonizar uma hilária intervenção em uma aristocrática festa londrina, é enviada por seu tio para trabalhar em uma suntuosa casa de campo no interior da Inglaterra. Como empregada, ela reencontra o refugiado escritor theco Adam Belinski (Charles Boyer) – a narrativa se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Os dois passam por um relacionamento marcado pela irreverência de ambos e por situações de confronto com a conservadora e preconceituosa sociedade inglesa. 

Um dos grandes momentos do filme é quando Cluny Brown é apresentado ao casal Carmel, donos da residência. Confundida com uma ilustre visitante, Cluny é tratada com regalias durante o chá até que se anuncia como a nova empregada. A reação do casal, evidenciada pela sutileza visual do “toque Lubitsch”, demarca o grande tema dessa comédia recheada de críticas sociais. 

A história de Adèle H.

O diretor François Truffaut disse que fazia filmes sobre dois temas: crianças e histórias de amor. A história de Adèle H. (L’histoire d’Adèle H., França, 1975) é verídica, contando a juventude de Adèle (Isabelle Adjani), filha do escritor Victor Hugo. Em 1863, ela chega a Halifax, na Nova Escócia (EUA), em busca do jovem oficial britânico Albert Pinson (Bruce Robinson). Os dois viveram um amor intenso e enfrentaram objeções da família do escritor. No novo mundo, Adèle, rejeitada por Albert, passa a persegui-lo com uma obsessão perigosa, confrontando os limites entre amor, sanidade e loucura. 

A interpretação de Isabelle Adjani, com apenas 19 anos, é o grande destaque do filme. Ela compõe uma personagem que se entrega de corpo e alma a uma paixão platônica, vivendo quase na miséria apenas para estar perto do tenente. Outro destaque é a fotografia de Nestor Almendros, principalmente na parte final do filme, quando a narrativa se passa em Barbados.  As cores naturalistas evidenciam a miséria da região, contrastando com o exuberante figurino da aristocracia do império britânico. Atenção para Adèle H. caminhando com seu vestido, outrora deslumbrante, em farrapos pelas ruelas pobres da cidade.  

O garoto selvagem

O garoto selvagem (L’enfant sauvage, França, 1970), de François Truffaut. 

A abertura do filme é assustadora. Um garoto (Jean-Pierre Cargol) que vive em um bosque no interior da França, em 1798, é perseguido por homens armados e por cães. O menino tenta se esconder em uma toca, os cães ladram na entrada, os homens ateiam fogo e jogam no interior para forçar o garoto selvagem a sair. Preso, ele passa por maus tratos, acorrentado, tratado como uma fera enjaulada. 

O filme, baseado em relatos sociológicos do Doutor Jean Itard, conta uma história real. François Truffaut se interessou pelo projeto a ponto de interpretar o papel do  Dr. Jean Itard, que adota o garoto (nomeado como Victor) e o leva para morar em sua casa de campo. A partir daí, a relação passa a ser de professor e aluno, pois a obsessão de Jean é ensinar Victor a falar e a se comportar em sociedade.

É mais um forma de opressão, pois após doze anos vivendo solitário na natureza, Victor tem dificuldades quase incontornáveis, além de se recusar a obedecer, com comportamentos às vezes violentos.  O garoto selvagem é um estudo social e psicológico que aborda esse contraste violento que marcou os conflitos entre os homens civilizados, dominadores, e os ditos selvagens. 

O quarto verde

O quarto verde (La chambre verte, França, 1978), de François Truffaut. 

A abertura concilia imagens da primeira guerra mundial com o rosto de Julien Davenne (François Truffaut) sobreposto. Corta para dez anos depois, Julien é um jornalista especializado em escrever obituários para o jornal local. Ele dedica sua vida a não deixar apagar a memória de sua esposa, falecida pouco depois da guerra, em um quarto verde, na casa onde mora. Com o tempo, o jornalista fica mais e mais obcecado por reverenciar os mortos: ele restaura uma velha capela no cemitério e constrói ali um grande altar aos mortos. 

O quarto verde é o terceiro filme protagonizado pelo próprio cineasta. Os outros são O garoto selvagem (1970) e A noite americana (1973). O filme é inspirado em contos de Henry James, principalmente O altar dos mortos

“A fotografia de Néstor Almendros é um espetáculo à parte. Utilizando-se da escuridão e de uma paleta de cores cinza-azul-preta que literalmente nos passa visualmente os sentimentos de Davenne, o diretor de fotografia e Truffaut conseguem enquadramentos antológicos, como a visão de Davenne, deformado, por trás de uma porta de vidro fosco e a fantástica sequência do que apenas posso classificar como um “casamento macabro” na capela/templo do protagonista.” – Ritter Fan (Plano Crítico)

A noiva estava de preto

A noiva estava de preto (La mariée était en noir, França, 1968), de François Truffaut. 

No início do filme, Julie (Jeanne Moreau) tenta pular da janela do edifício onde mora. A tentativa de suícidio é impedida pela mãe da jovem. Pouco depois, Julie deixa sua casa e, por meio de diversos disfarces, começa a eliminar os cinco homens que ela julga serem responsáveis pela morte do marido, na porta da igreja, logo após o casamento. 

O fascínio de Truffaut por Alfred Hitchcock ganha contornos nesta clara homenagem. A noiva estava de preto é um thriller de suspense, com boas doses de bom humor, humor negro, claro, além de manter a irreverência comum à nouvelle-vague francesa. 

O filme foi produzido logo depois da série de entrevistas que Truffaut realizou com Hitchcock, cujo resultado é um dos melhores livros sobre cinema já escritos: Hitchcock Truffaut. Entrevistas. Para completar, o cineasta francês usou como base para o filme o romance A noiva estava de preto, de Cornell Woolrich, mesmo autor de Janela indiscreta, que deu origem a uma das obras-primas de Hitchcock. 

Elenco: Jeanne Moreau (Julie), Claude Rich (Bliss), MIchel Bouquet (Robert), Michael Sonsdale (Clement), Charles Denner (Fergus), Daniel Boulanger (Delvaux).

Dahomey

Dahomey (França/Senegal, 2024), de Mati Diop, abre com plano fechado em miniaturas de Torres Eiffel piscando as luzes, dispostas em um tecido em alguma calçada de Paris – trabalho de rua de muitos africanos, oriundos talvez de ex-colônias da França no continente. Entra lettering sobre imagem do Rio Sena à noite: “9 de novembro de 2021. 26 tesouros reais do Reino de Daomé devem deixar Paris, retornando à sua terra de origem, a atual República do Benim. Estes artefatos estavam entre os milhares saqueados pelas tropas coloniais francesas durante a invasão de 1892. Para eles, 130 anos de cativeiro estão chegando ao fim.”

O documentário acompanha a trajetória desses artefatos: o empacotamento no museu, o desembarque das peças na República do Benim, o esforço de colocá-las em um lugar que não representasse exatamente um museu, mas sim um local onde os habitantes pudessem transitar entre seus antigos símbolos roubados. Grande parte do documentário abre espaço para um debate entre pesquisadores, estudantes, membros de tribos, sobre o significado do retorno dos artefatos e, sobretudo, sobre a imposição cultural francesa – incluindo a substituição da língua nativa pelo francês – durante o período de colonização/escravidão. 

Volto ao início do filme, quando uma voz em off, sobre tela negra, reflete sobre o longo período de cativeiro, de exílio. Em outros momentos, essa voz volta à narrativa: é o lamento de um dos desterrados que viveu mais de um século na escuridão. 

“Desde que me conheço por gente, nunca houve uma noite tão profunda e opaca. Aqui, essa é a única realidade possível. O início e o fim. Viajei por tanto tempo, na minha mente, mas esse lugar estranho era tão escuro que me perdi em meus sonhos, unindo-me a essas paredes. Isolado da terra onde nasci, como se estivesse morto. Há milhares de nós nesta noite. Todos temos as nossas cicatrizes. Desenraizados. Arrancados. Espólios do enorme saque. Hoje, é a mim que escolheram, como sua melhor e mais legítima vítima. Eles me chamaram de 26. Não 24. Não 25. Não 30. Só 26.”