Machorka-Muff (Alemanha, 1963), de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub
O curta-metragem abre com a voz interior de Machorka (Heiner Braun), antigo coronel nazista. Corta para o sonho do coronel visualizando estátuas cobertas por lençois brancos. Os lençois caem e revelam Machorka, com seu uniforme militar, nos três pedestais. Deslumbrado, o coronel vê seu nome gravado no pedestal: Erick von Machorka-Muff.
O filme satírico dos franceses Jean-Marie Straub e Danièle Huillet é considerado uma das grandes influências para os jovens cineastas que criaram o novo cinema alemão. O coronel, apesar dos crimes praticados a serviço do regime nazista, vai ser condecorado e assumirá um cargo importante no novo exército alemão, cujo principal objetivo é presarvar as memórias do exército.
Durante um encontro com um aliado, Machorka é convidado para uma visita. A voz interior do coronel representa a ousadia do filme na crítica aos militares e a própria burguesia que fechou os olhos para o horror perpetrado pelo regime. “Prometi visitá-lo, talvez resultasse em uma pequena aventura com sua esposa. Às vezes fico com um apetite para o erotismo bruto das classes mais baixas.”
Fausto (Alemanha, 1926) é o último filme de F. W. Murnau na Alemanha. Logo depois, ele partiu para os Estados Unidos onde realizou apenas dois filmes (o diretor faleceu em um acidente de carro em 1931, aos 43 anos): Aurora (1930), considerado por muitos críticos e teóricos o melhor filme realizado na era muda, e Tabu (1931).
Fausto é baseado na lenda alemã eternizada no teatro por Goethe. No início do filme, um anjo e Mephisto (Emil Jannings) fazem uma aposta: se o demônio conseguir seduzir o alquimista Fausto (Gosta Ekman), a terra ficará sob o domínio do mal.
A primeira parte da película é um deslumbre estético, marcada pelas principais características do expressionismo alemão. A sequência na encruzilhada à noite, quando Fausto invoca o demônio, é uma combinação de fotografia estilizada entre o escuro da noite aterrorizante e o branco pontuando aparições, rostos e sentimentos, com efeitos visuais inovadores para a época. O gigantesco Mephisto observando a cidade assolada pela peste é uma das imagens marcantes da história do cinema. Após o pacto com o demônio, Fausto ganha de volta a juventude e se entrega a dias de vício e prazer.
A segunda parte do filme segue a paixão entre Fausto e a jovem Gretchen (Camilla Horn). O melodrama toma conta da narrativa, com o trágico final previsível. O embate na cena final entre o anjo e Mephisto destoa dos princípios expressionistas, pois apresenta uma mensagem de fé e otimismo. O cinema expressionista sempre foi o reduto do pessimismo, com finais em aberto que deixam o espectador a refletir sobre a sociedade da época, dominada pelo mal que, no caso da Alemanha, representa um vislumbre do nazismo.
O soldado americano (Der amerikanische soldat, Alemanha, 1970), de Rainer Werner Fassbinder.
O filme abre com um claustrofóbico jogo de cartas (o verso das cartas traz imagens pornográficas) num pequeno cômodo, onde estão três policiais e uma prostituta. A fotografia em preto e branco, marcada pela fumaça dos cigarros e pelo suor dos jogadores anuncia a estética noir do filme de Fassbinder.
Os policiais são informados da chegada de Ricky, assassino profissional contratado para eliminar importantes nomes do submundo do crime em Munique. Ricky é filho de pai americano e sua mãe, alemã, mora na cidade.
Frio e sedutor, o assassino, como é chamado, se envolve com a prostituta Rosa, seduz a camareira do hotel (atenção para a surrealista sequência do suicídio da camareira no corredor do hotel). O encontro entre Rick e sua mãe vai selar o desfecho trágico, antológica sequência em câmera lenta dentro da estação de trem. Um balé de violência ao som da belíssima canção So Much Tenderness, cantada por Günther Kaufmann.
Elenco: Karl Scheydt (Ricky), Elga Sorbas (Rosa von Praunheim), Jan George (Jan), Hark Bohm (Doc).
Deuses da peste (Gotter der pest, Alemanha, 1970), de Rainer Werner Fassbinder.
No início da carreira, Fassbinder compôs uma trilogia em homenagem aos filmes de gângsters e ao cinema noir americano: O amor é mais frio do que a morte (1969), Deuses da peste (1970) e O soldado americano (1970). Os três filmes têm um personagem cujo nome é Franz Walsch, referência ao diretor Raoul Walsh.
Em Deuses da peste, o jovem Franz Walsch sai da prisão e deseja encontrar seu irmão. Franz parece aceitar seu destino com resignação, se envolvendo novamente no mundo do crime, junto com Gorilla, ex-parceiro de assaltos.
A narrativa é profundamente marcada pela melancolia dos personagens cujas relações são marcadas pelo interesse. A cantora de cabaré Johanna, namorada de Franz, se envolve com a polícia, anunciando a traição. Carla, informante que se disfarça de vendedora de revistas pornô, não mede escrúpulos, entrega a todos em troca de dinheiro. A esperança fica por conta de Margarethe, jovem trabalhadora que se apaixona por Franz e tenta tirá-lo deste vicioso e trágico círculo do crime. Atenção para o final melancólico da vendedora de revistas pornô.
Elenco: Hanna Schygulla (Johanna), Margarethe von Trotta (Margarethe), Harry Baer (Franz Walsch), Gunther Kaufmann (Gorilla), Carla Egerer (Carla).
Eu só quero que vocês me amem (Ich will doch nur, dass ihr mich liebt, Alemanha, 1976), de Rainer Werner Fassbinder.
No começo do filme, Peter Trepper (Vitus Zeplichal) está construindo uma casa para seus pais. Seu pai, um próspero negociante, considera isso normal e é incapaz de agradecer ou mesmo um gesto de afeto para o filho. Peter casa-se com Erika (Eike Aberle) e se muda para Munique, onde trabalha como pedreiro na emergente indústria da construção civil.
Eu só quero que vocês me amem foi feito para a televisão alemã. Baseado em um fato real, Fassbinder gravou o filme em apenas 25 dias (a rapidez nos projetos é uma marca do diretor). Quando se muda para Munique, Peter começa um ciclo vicioso de consumo, se endividando cada vez mais e mais até não ter mais condições de pagar suas dívidas. A crítica de Fassbinder à sociedade de consumo dos anos 70, que incentivava quase como uma obrigação a compra de bens, como eletrodomésticos, é mordaz.
A falta de afeto dos pais e a própria incapacidade de Peter de expressar seus sentimentos é determinante para a sua instabilidade emocional. A montagem é ponto de destaque da trama: uma jornalista/escritora cria o mistério entrevistando Peter, e flashes de eventos futuros anunciam o trágico destino do personagem.
O direito do mais forte é a liberdade (Faustrecht der freiheit, Alemanha, 1975), de Rainer Werner Fassbinder.
Franz Biberkopf (Fassbinder) é um jovem trabalhador que logo no início da trama ganha na loteria. Com dinheiro, ele entra no círculo social mais elevado, conhece e se apaixona por Eugen Thiess (Peter Chatel), filho do dono de uma empresa gráfica.
A relação amorosa entre os dois é marcada pelo interesse financeiro, Eugen se aproveita do dinheiro de Franz para investir na empresa falida do pai, comprar um apartamento e mobiliá-lo de forma extravagante. Passo a passo, Franz se sente desprezado pelo círculo social de Eugen, que não aceita a ingenuidade e falta de traquejos sociais do jovem.
O direito do mais forte é a liberdade é uma ácida crítica ao capitalismo moderno, marcado pelo consumismo, e sua devastadora interferência nas relações amorosas. A abordagem crua e direta das relações homossexuais, que exploram-se mutuamente, é um dos pontos polêmicos do filme. Eugen tenta moldar Franz em termos de etiqueta e cultura que orientam as elites, enquanto usurpa o dinheiro de seu amante. Atenção para o final triste, melancólico e profundamente pessimista.
Elenco: Rainer Werner Fassbinder (Franz Biberkopf), Peter Chatel (Eugen Thiess), Karlheinz Bohm (Max), Christiane Maybach (Hedwig).
O medo consome a alma (Angst essen seele auf, Alemanha, 1974 ) é a releitura de Rainer Werner Fassbinder do filme Tudo que o céu permite (1955), consagrado melodrama de Douglas Sirk.
Emmi (Brigitte Mira), uma viúva de 60 anos, trabalha como faxineira. Ela mora sozinha, seus três filhos já constituíram família. Uma noite, ela entra em um pub para se esconder da chuva e conhece Ali (El Hedi ben Salem), imigrante marroquino bem mais jovem. Os dois começam um relacionamento amoroso e, contrariando todos os familiares e amigos de Emmi, se casam.
Enquanto os dois namoram e moram juntos, o relacionamento não incomoda, como se fosse uma espécie de contrato sexual entre uma mulher mais velha e seu jovem amante. Quando Emmi e Ali se casam, o preconceito e a xenofobia irrompem entre as pessoas próximas, desencadeando agressões verbais e provocando o isolamento do casal. Mais tarde, os filhos e amigos descobrem que podem tirar proveito da união e passam a aceitar o casamento.
No filme original de Douglas Sirk, uma cena famosa é quando os filhos dão uma televisão de presente para a mãe, como uma forma de tentar confiná-la dentro de casa. Na releitura de Fassbinder, quando fica sabendo do casamento, um dos filhos de Emmi chuta a televisão da sala até quebrá-la.
O filme foi rodado em apenas 15 dias, com baixo orçamento, estratégia que acompanhou a carreira de Fassbinder. O diretor alemão trabalhava compulsivamente, chegando a escrever e dirigir até três filmes por ano.
As lágrimas amargas de Petra von Kant (Die bitteren tranen der Petra von Kant, Alemanha, 1972), de Rainer Werner Fassbinder, é adaptado de uma peça de teatro escrita pelo próprio diretor. A trama acontece inteiramente dentro do apartamento de Petra von Kant (Margit Carstensen), uma estilista famosa que convive com a depressão e o alcoolismo.
No apartamento, moram Petra e sua discípula Marlene (Irm Hermann), que também executa as tarefas domésticas e se relaciona com a sua mestre com inteira servidão – ela não emite uma palavra durante todo o filme. O conflito central acontece quando Karin (Hanna Schygulla), jovem aspirante a modelo, vai morar com Petra. As duas começam uma relação amorosa marcada pelo interesse financeiro, profissional e pelas disputas de dominação e submissão.
As lágrimas amargas de Petro von Kant demarca a ousadia do cinema dos anos 70 e do novo cinema alemão. O romance entre as protagonistas e a estética extravagante do apartamento provocam em termos sexuais, comportamentais e psicológicos: as três protagonistas, confinadas neste ambiente claustrofóbico, vivem em um relacionamento dominado pela crueldade e pelo sadomasoquismo.
Faca na cabeça (Messer im kopf, Alemanha, 1978), de Reinhard Hauff.
O médico geneticista Hoffmann (Bruno Ganz) está em seu laboratório sob uma luz difusa, bem ao estilo cinema noir. Ele disca um número no telefone, não é atendido, desliga. Ele olha para a janela, ouvimos sua voz interior: “Um americano no meu lugar sairia atirando da janela.”
Hoffman sai do prédio, caminha e depois corre pelas ruas de Berlim. Seu destino é um prédio onde um grupo de jovens, incluindo sua esposa, se reúne para promover manifestos contra a ordem política. O clima é tenso, os policiais e os jovens se enfrentam aos gritos e empurrões. Hoffman entra no prédio, um policial o segue. Ouve-se um tiro. Corta para o letreiro: FACA NA CABEÇA.
O diretor Reinhard Hauff declarou que o filme surgiu de uma história vivida pelo roteirista Peter Schneider. Schneider acompanhou um paciente na Itália que, após sofrer um acidente, passou por um longo processo de reabilitação, tentando recuperar a fala e a memória.
Após os créditos do filme, a narrativa acompanha Hoffman, baleado na cabeça pelo policial, no hospital, passando por diversas fases para recuperar os movimentos, a memória e a capacidade de se expressar. O contexto do filme é o tenso clima político do final dos anos 70 na Alemanha. Os policiais acusam Hoffman de ser terrorista, a história ganha a mídia, colocando um suposto e pacato geneticista como um perigo para a nação. A perda da memória impede Hoffman de se defender: ele não se lembra de nada da noite do atentado.
“Essa foi uma das abordagens. De alguém que sofreu um acidente ou o que quer que fosse, tentando começar do zero ao lado de seus amigos, tendo que reaprender e desenvolver tudo de novo com uma nova lógica e uma nova intensidade para reencontrar a verdade. Foram também os efeitos dos acontecimentos políticos que nos moveram. Mas a questão era: quem é essa pessoa, esse personagem principal do filme? Alguns dizem ser um terrorista, outros tiram vantagem dele para seus interesses políticos. E ele está sozinho tentando descobrir a verdade com essa energia e intensidade recém-descobertas.” – Reinhard Jauff
O clímax do final é o tenso confronto em busca da verdade. Hoffmann visita o policial autor do tiro e os dois começam um perigoso jogo verbal e de atitudes – simulando o acontecimento da noite. O inesperado final em aberto é provocativo em questões pessoais e políticas.
Elenco: Bruno Ganz, Angela Winkler, Hans Christian Blech, Heinz Hoenig, Hans Brenner, Udo Samel.
A caminho da loucura (Heller wahn, Alemanha, 1983), de Margarethe von Trotta.
Olga (Hanna Schygulla) é uma professora universitária de bem com a vida, vive sua liberdade, incluindo um relacionamento amoroso tranquilo, sem as amarras das convenções ou sociais. Ruth (Angela Winkler), ao contrário, vive em conflito interno, sofrendo com um marido possessivo. Ela tenta vencer a depressão se dedicando à pintura, sempre solitária. O relacionamento entre as duas começa quando, numa casa de campo, Olga impede Ruth de cometer suicídio.
A diretora e atriz Margarethe von Trotta, uma das expoentes do novo cinema alemão, trata com delicadeza e sensibilidade, bem ao estilo de seu olhar feminino e feminista, a intensa relação entre Olga e Ruth. É um filme sobre amizade, sobre mulheres que lutam para se libertar das convenções impostas, sobre a depressão e possibilidades de fuga.