É noite na América

É noite na América (Itália/França, 2022), o primeiro longa-metragem de Ana Vaz, lança um olhar assustador sobre a paisagem do distrito federal. Dominada pelo silêncio, a narrativa fragmentada traz imagens de animais vagando desorientados: jiboia, tamanduá, raposas, rondam as ruas e estradas da cidade. No zoológico, onde residem animais que deveriam estar na natureza, as espécies olham desoladas para os humanos. 

O documentário é um libelo político e humanista, alertando para a ação do homem sobre a natureza, ação destruidora e desprovida de esperanças de que alguma coisa pode mudar. É noite na América é um profundo convite à reflexão sobre o presente e a possível ausência de futuro de nosso planeta. 

Antena da raça

Antena da raça (Brasil, 2020), de Paloma Rocha e Luís Abramo.

A filha de Glauber Rocha dirige, ao lado de Luís Abramo, esse contundente documentário sobre o maior cineasta do Brasil. A base é o programa Abertura, que Glauber realizou para a TV Tupi no final dos anos 70. O próprio diretor ia para as ruas com sua câmera entrevistar pessoas comuns com sua famosa verborragia repleta de críticas e ironias. 

Trechos dos filmes de cineastas entremeiam cenas do programa em uma narrativa não linear, provocando associações entre o Brasil dos anos 60, 70 com a atualidade, principalmente em questões políticas. Entrevistados célebres, como o teatrólogo José Celso Martinez e Caetanos Veloso relembram momentos vividos com Glauber Rocha, destacando a rebeldia inerente do artista tanto na vida pessoal como em suas obras fílmicas.  

A felicidade das coisas

A felicidade das coisas (Brasil, 2021), de Thais Fujinaga, foi feito em parceria com a cultuada produtora Filmes de Plástico e foi escolhido como o melhor longa de estreia na Mostra de Cinema de São Paulo. Paula (Patricia Savay) está passando a temporada de férias com sua mãe e seus dois filhos (ela está grávida do terceiro filho) em uma cidade litorânea de São Paulo. Ela aproveita a estada para terminar a piscina da casa praiana, um sonho da família ou melhor, um sonho de Paula. 

Esse pequeno e complexo desejo de muitas famílias de classe média e classe média baixa brasileiras é o mote que deflagra uma série de conflitos familiares. A piscina, claro, nunca fica pronta por questões econômicas, o pai ausente não cobre os cheques e atrasa o pagamento dos trabalhadores. 

O grande conflito gira em torno das relações entre Paula e seus filhos, principalmente o adolescente Gustavo (Messias Góis) que está em sua fase rebelde, em busca de libertação das amarras, e se envolve com um grupo de adolescentes da cidade.  

A felicidade das coisas traz muito das memórias afetivas da diretora Thaís Fujinaga. A locação é em Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, no Morro do Algodão (bairro formado por casas de praia e um clube de classe média alta), onde a diretora passou vários verões durante os anos 80 e 90. Segundo Thaís “Era uma dinâmica de certa segregação: quem se hospedava no clube não se relacionava com a cidade e muito menos com o bairro. Ao longo dos anos, fiquei circulando dentro e fora daquele lugar e veio daí minha primeira inspiração. Queria explorar esse espaço e a relação de ter ou não acesso a certas coisas.” – Mulher no Cinema

A praga

José Mojica Marins, o Zé do Caixão, filmou A praga em 1980, mas não terminou o filme. Era o início de uma década praticamente perdida para o cinema brasileiro, quando muitos cineastas, sem condições de financiamento, incerraram a carreira. 

Em 2007, foram encontrados rolos de filmes super-8 com o material bruto de A praga. O material foi digitalizado, cenas adicionais foram gravadas, mas novamente tudo foi arquivado. Finalmente, em 2021 o filme passou pelo processo de restauração em alta resolução, com tratamento de som e imagem. 

A narrativa é simples e provocativa: um fotógrafo é alvo de uma praga de uma senhora durante um final de semana, quando tenta tirar fotos dela em seu sítio. A bruxa passa a atormentar o fotógrafo de forma escabrosa, torturando-o com visões macabras que o fazem consumir carne crua por uma chaga aberta no ventre. 

O próprio José Mojica Marins narra a história, pontuada por suas aparições também tenebrosas. A praga é o único filme inédito do cultuado mestre do terror brasileiro. 

A praga (Brasil, 1980/2023), de José Mojica Marins. Com Felipe Von Reno, Wanda Kosmo, Sílvia Gless. 

Aos nossos filhos

Vera coordena uma ONG que acolhe e encaminha para adoção crianças de uma comunidade carioca, inclusive crianças soropositivas. Sua filha Tânia e a namorada, Vanessa, tentam ter um filho através de inseminação artificial. O passado de Vera nas prisões da ditadura militar, quando foi torturada, vem à tona quando ela é entrevistada por Sérgio, um jovem que está escrevendo um livro sobre sua mãe, companheira de cela de Vera. 

A trama desenvolve dois núcleos fortes: a relação conflituosa entre Tânia e Vera, angustiada e incerta diante do desgastante processo de inseminação; e as lembranças dolorosas de Vera no submundo dos porões militares. Destaque para a sequência do cemitério, quando Vera se vê finalmente diante de seu maior tormento, revelador da cruel e desumana prática de tortura no Brasil dos generais, que muitos ainda insistem em negar. Outros, também criminosos, prestam homenagens oficiais a torturadores. 

Aos nossos filhos (Brasil, 2019), de Maria de Medeiros. Com Marieta Severo (Vera), Laura Castro (Tânia), Cláudio Lins (Sérgio), José de Abreu (Fernando), Marta Nobrega (Vanessa).  

Pérola

Depois de O beijo no asfalto, O ator/diretor Murilo Benício se debruça mais uma vez sobre uma peça teatral em sua segunda direção cinematográfica. Pérola é baseado na obra de Mauro Rasi que transpôs para os palcos as memórias de suas relações familiares em Bauru, centradas na personalidade forte, divertida e briguenta de sua mãe. 

O filme alterna momentos de pura comédia, retratando o cotidiano dessa família de classe média dos anos 70 aos 90, lideradas por Pérola, cujo sonho é ter uma piscina em sua casa. Entre caipirinhas, caipivodkas e diversos outros drinks, a família se diverte e briga. O olhar de Mauro em sua família é carregado de ternura e, muitas vezes, agressividade, pois suas escolhas profissionais no mundo da escrita são combatidas com veemência pela mãe. 

O filme, claro, é de Drica Moraes. Mas uma vez a atriz destila talento em um papel carregado de irreverência, humor e melodrama. O final é enternecedor, nos faz lembrar com saudades dos bons momentos em família (sem o excesso de caipirinha, claro). 

Pérola (Brasil, 2023), de Murilo Benício. Com Drica Moraes (Pérola), Leonardo Fernandes (Mauro), Cláudia Missura (Tia Norma), Rodolfo Vaz (Vado). 

Foro íntimo

O diretor Ricardo Mehedff inspirou-se em fatos reais para compor um retrato claustrofóbico da justiça brasileira. O Juiz Gustavo Ferreira está  trancafiado no Fórum de Belo Horizonte, protegido por agentes de segurança. Sua esposa e filho se mudaram para Buenos Aires. O juiz é o responsável por um caso judicial que envolve um senador da república. Por questões de segurança, a escolta policial do juiz não deixa que ele saia do Fórum e controla até mesmo os casos que ele vai analisar em seus dias de trabalho. 

O suspense da trama se evidencia em detalhes como o apagar de luzes dos ambientes, passos que se escutam, o bater de portas, um cruzamento de olhares nos corredores do tribunal. O ponto forte do filme é a claustrofobia que transparece no juiz, sentenciado à reclusão, dormindo, comendo, vivendo em seu minúsculo gabinete. As opções estéticas e de linguagem durante a trama evidenciam o medo e o desespero do juiz ao se sentir como muitos daqueles que cumprem penas em prisões, após serem julgados por ele. 

Foro íntimo (Brasil, 2017), de Ricardo Mehedff. Com Gustavo Werneck (Juiz Gustavo Ferreira), Jefferson da Fonseca (Agente Fontes), Beatriz França (Bia), Léo Quintão (Promotor Donato).

A torre

O diretor mineiro Sérgio Borges faz uma fascinante incursão pelos mistérios do tarô, inspirado no romance Coiote, do psiquiatra Roberto Freire. André, recém-separado, vive isolado em um bosque, transitando entre os meandros da natureza, forças também místicas. Entre encontros nas comunidades, sua ex-mulher que o visita, André se depara com um jovem que evoca o seu passado. A partir daí, sonho, realidade, fantasia, tudo se mistura, caminhando em direção à torre, carta do tarô que evoca um grande acontecimento, maior do que a realidade. 

“Toda a atmosfera construída representa o universo emocional do personagem, andando pelas sombras e tentando reencontrar a luz de alguma forma. O filme deixa margem para interpretação, ele sugere mais do que afirma. Vi um ritual de passagem entre idades, com o mais velho abandonando a sua juventude inocente e sedutora. É um acerto de contas: o jovem continua ali, provocando o homem mais velho. Tem uma ideia de morte e renascimento.” – Sérgio Borges (papo de cinema)

A torre (Brasil, 2019), de Sérgio Borges. Com Enrique Diaz (André), Caio Horowicz (Coiote), Maeve Jinkings (ex-esposa de André). 

A mesma parte de um homem

Existem ótimas referências para entender o cinema brasileiro que combina escassez de recursos com histórias intimistas, marcadas pela beleza estética. A mesma parte de um homem traz estes elementos, acrescidos com as ótimas interpretações do elenco. 

Renata e Miguel vivem isolados em uma cabana, junto com a filha adolescente. Trabalham a terra, agricultura de subsistência no interior do Brasil. Logo na primeira sequência, Miguel morre em um acidente de carro, mas o inesperado acontece: um homem ferido, desmemoriado, bate à porta da cabana e assume o lugar de Miguel. 

O filme está à beira de um gênero que tem feito sucesso no cinema contemporâneo nacional: o suspense. O passado de Lui pode trazer revelações imprevisíveis e violentas, mas é a personalidade conflituosa de Renata, oscilando entre o medo e o desejo, que domina a trama. O sensível final na estrada úmida deixa em aberto muito do que esconde a alma humana.  

A mesma parte de um homem (Brasil, 2021), de Ana Johann. Com Clarissa Kiste (Renata), Irandhir Santos (Lui), Laís Cristina (Luana), Otavio Linhares (Miguel).

Estradeiros

O documentário segue a jornada de artistas de rua que perambulam pelo Peru, Buenos Aires, São Tomé das Letras, Recife e São Paulo. É um  road-movie de pessoas que se consideram livres, sem as amarras do mundo capitalista, vivendo de sua produção artesanal, vendida nas ruas. 

Os depoimentos transitam por reflexões sobre as cidades, as ruas, a sociedade que insiste em rotular. Estradeiros demonstra que histórias verdadeiras,  comoventes, divertidas, que provocam reflexões, são a base dessa vida nômade. Viajar sem destino, muitas vezes sem dinheiro, é a verdadeira essência da liberdade?

Estradeiros (Brasil, 2011), de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro.