Não chorem, lindas

Não chorem, lindas (Egy őszinte szerelem története, Hungria, 1970), de Márta Mészáros.

Juli (Jaroslava Schallarová) é uma jovem operária de uma fábrica de tecidos em Budapeste. Ela está de casamento marcado com um colega de trabalho, jovem que flerta e beija outras mulheres junto com um grupo de amigos. A cidade está sediando um festival de música, misto de rock’n’roll e música folk húngara. A trilha sonora da apresentação das bandas pontua a jornada de Julie em busca de um último momento de liberdade, pois a juventude húngara também está imersa neste importante momento da contracultura na Europa. 

É o terceiro longa-metragem da diretora Márta Mészáros, a obra segue sua marca de trabalhar com personagens que retratam a classe operária da Hungria, principalmente as mulheres que buscam seu espaço na sociedade, renegando a estrutura patriarcal. Julie se envolve com um dos integrantes de uma banda e se entrega ao relacionamento com rebeldia. A trilha sonora é o grande trunfo do filme. 

Postergados

Postergados (Brasil, 2016), de Carolina Markowicz. 

Três pessoas são entrevistadas em diferentes locais: um médico corrupto que será responsável pela morte de um motorista; um homem já morto que foi induzido por sua esposa a tomar um remédio que provocou sua morte;  uma cartomante charlatã que descobre que pode fazer uma única pergunta antes da passagem para a vida após a morte. 

A edição fragmentada, cuja montagem alternada confunde o espectador com as histórias dos personagens que transitam entre a vida, a morte e a pós-morte é o grande trunfo do filme. O curta foi filmado em Porto Alegre, com intérpretes uruguaios de renome nos papéis principais: César Bordon, Mirella Pascual e José Luis Arias.  

O destaque é a história envolvendo a cartomante, que anuncia a Edna, uma cliente,  que ela vai morrer no dia 16 de junho. Durante a consulta, conversando sobre as possibilidades da morte, a cartomante diz a Edna: “Somos cadáveres postergados, como dizia Fernando Pessoa.” Atenção para o belo e sensível conjunto de imagens ao som de Gracias a La Vida.

Namoro à distância

Namoro à distância (Brasil, 2017), de Carolina Markowicz. 

No início da narrativa, voz em off discorre sobre algumas fobias comuns entre as pessoas, como medo de avião, e revela: “Não tenho medo de nada. Não odeio nada. Não tenho grandes ambições. O meu único desejo é poder, um dia, praticar atividade sexual com um extraterrestre.”

O curta, de apenas cinco minutos de duração, acompanha o protagonista, que se muda para Varginha (claro), após se inscrever em um programa de disk sexo com Ets. Carolina Markowicz compõe um universo absurdo e surrealista, por meio de um estilo que transita entre animação, live-action e uma forte referência da estética noir.

Namoro à distância consolida o talento da diretora com uma narrativa curta, potente e provocativa, abordando os inconfessáveis desejos humanos.

Edifício Tatuapé Mahal

Edifício Tatuapé Mahal (Brasil, 2014), de Fernanda Salloum e Carolina Markowicz. 

A premiada Carolina Markowicz estreou na direção com este curta de animação provocador, instigante, realizado em coautoria com Fernanda Salloum. O espectador está diante de uma maquete de um típico show room de lançamento imobiliário. O boneco argentino Javier trabalha como corretor neste empreendimento e sua jornada passa por conflitos com os clientes, com seus patrões e por seus relacionamentos amorosos. 

A animação em stop-motion trata de temas como exploração do trabalhador. Em determinado momento, narração em off de Javier reclama de suas longas jornadas de trabalho, pois é exposto na maquete de sol a sol. Javier relata o sofrimento de um companheiro de trabalho que é obrigado a andar de bicicleta por tempo indefinido na área do prédio.Frustrado com sua realidade, Javier viaja pela Europa e, na Polônia, se entrega a experiências de um grupo de cirurgiões especializados em transformar bonecos de maquete.

Edifício Tatuapé Mahal conquistou 20 prêmios em diversos festivais mundo afora. É mais um reconhecimento da potência dos filmes de animação produzidos no Brasil.

O órfão

O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição. 

O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.

Mimi – O metalúrgico

Mimi – O metalúrgico (Mimi metallurgico, ferito nell’ onore, Itália, 1972), de Lina Wertmuller.

Perto do final do filme, Mimi (Giancarlo Giannini) tenta justificar os atos que cometeu forçado pela máfia siciliana. Ele grita para Fiorenna: “Eles são todos primos.”

Com esse filme, indicado ao prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, Lina Wertmuller ganhou o reconhecimento internacional, demarcando seu estilo de críticas políticas e sociais, ancoradas em narrativas de um humor agressivo, feito para chocar a sociedade. 

Mimi é um operário, recém-casado, que é ameaçado por integrantes da máfia ao se recusar a votar no candidato apoiado por eles. Perde o emprego e vai para Turim, onde conhece Fiorella (Mariangela Melato), uma ativista política. Os dois se apaixonam, passam a viver juntos, têm um filho, Mimi consegue emprego como metalúrgico e adere ao comunismo. No entanto, seu caminho se cruza novamente com os mafiosos e é obrigado a voltar para a Sicília, onde se defronta com sua esposa, que também tem um amante.

A virada da narrativa após a volta para casa tece uma contundente crítica, com desfecho trágico, sobre as tradições italianas que insistem em colocar a família sob a custódia do patriarcado, do machismo exacerbado e agressivo. O protagonista, mesmo com ideais políticos avançados, capaz até mesmo de enfrentar a máfia, sucumbe diante de si  mesmo, incapaz de vencer sua vaidade masculina, colocando, como é típico, a honra do homem acima de tudo.

Amor e anarquia

A italiana Lina Wertmuller, discípula de Fellini, foi a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de Direção pelo filme Pasqualino Sete Belezas (1977).  O cinema anárquico da diretora demarca Amor e anarquia, cujo extenso título original resume a obra: Filme de amor e anarquia, ou: esta manhã às 10, na Via dei Fiori, no famoso bordel.

Tunin (Giancarlo Giannini), um jovem ingênuo da região campestre, chega a esse bordel com uma ideia fixa: assassinar Benito Mussolini. A história é ambientada na Itália dos anos 30, o governo fascista caça e executa anarquistas, o que aconteceu com um grande amigo de Tunin. No bordel, seu contato com o grupo que planeja o assassinato é com a prostituta Salomê (Mariangela Melato). No entanto, Tunin se apaixona por Tripolina (Lina Polito), jovem prostituta que pode mudar o destino da trama. 

O grande trunfo da película é a mistura de gêneros, uma das marcas do cinema dos anos 70. A curta odisseia de Tunin em Roma alterna momentos de drama, comédia, um belo e sensível romance, crítica política e social, cujo clímax é uma tragédia anunciada. O idílio amoroso de dois jovens ingênuos e sonhadores termina de forma brutal, nada surpreendente, afinal são os anos fascistas na Europa. 

Pérolas das profundezas

A cineasta Vera Chytilová

Pérolas das profundezas (Perlicky na dne, República Tcheca, 1965), de Jiri Menzel, Jan Nemec, Evald Schorm, Jaromil, Vera Chytilová. 

Durante a New Wave Tcheca, cinco integrantes do movimento se uniram na realização de Pérolas das profundezas, filme composto por cinco curta-metragens. As narrativas seguem os estilos próprios de cada realizador, em comum, a crítica social e política demarcada na filmografia deste período no país, dominado pelo autoritário e repressor regime comunista.  Os cinco curtas são baseados em contos do escritor Bohumil Hrabal. 

A morte do Sr. Baltazar, de Jiri Menzel. O curta de produção mais elaborada segue um casal em seu carro rumo a uma corrida de estrada. Enquanto o casal assiste à disputa, os personagens se cruzam: pilotos, moradores de beira de estrada, espectadores que se deleitam com possíveis acidentes, o que acontece com Balthazar. 

Impostores, de Jan Nemec. Dois homens idosos dividem o mesmo quarto no hospital, ambos estão próximos da morte. Os dois fazem uma espécie de disputa de criação de personagens, inventando histórias fictícias sobre a vida de cada um. Um deles, afirma que foi um cantor de ópera, o outro, um jornalista de sucesso. Os diálogos determinam a convicção sobre a realidade da vida que inventaram. 

Casa da Alegria, de Evald Schorm. A história de um artista que passa todo o tempo pintando as paredes de sua casa beira o surrealismo. Dois corretores de seguros visitam o pintor, que mora com a mãe, com intenção de vender apólices para eles. Os dois são guiados pelos cômodos. Admirados pela arte expostas em cada canto, se esquecem até mesmo do motivo da visita, enquanto o pintor e a mãe empreendem uma disputa verbal agressiva.

No café do mundo, de Vera Chytilová. O filme é um deslumbrante exercício estético da consagrada diretora tcheca. Uma recepção de casamento acontece na cafeteria e os convidados se entregam ao idílio do momento. A sequência do casal correndo em câmera lenta na chuva e na escuridão é o destaque da narrativa: a fotografia em preto e branco, a chuva, a jovem ainda com seu vestido de noiva. Surrealismo e fantasia se misturam neste deslumbre cinematográfico. 

Romance, de Jaromil Jires. Um jovem da classe operário conhece uma garota cigana que se prostitui. Após o encontro sexual, o jovem se apaixona e os dois começam um intenso relacionamento, aflorando os preconceitos sociais.

Letícia, Monte Bonito, 04

Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.

É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto. 

O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta. 

Algo diferente

Algo diferente (República Tcheca, 1963) é o primeiro filme da premiada diretora Vèra Chytilová, lançado no movimento conhecido como Nouvelle Vague Tcheca. A narrativa, mescla de documentário e ficção, acompanha duas histórias paralelas.

Vera (Vera Uzelacová) é uma dona de casa que vive uma vida comum, cuida do filho, tem um relacionamento estável com seu marido, mas um dia conhece um homem na rua e começa e mantém um caso extraconjugal. Mesmo fascinada, ela não aceita se separar do marido.

A segunda narrativa, um documentário, acompanha o dia-a-dia de treinamento de Eva Bosakova, uma ginasta olímpica medalhista de ouro olímpica. É uma maratona de exercícios que destaca o sofrimento físico e psicológico da atleta, pressionada pelo treinador, Eva se entrega quase à exaustão e segue em frente, quase atingindo os limites do corpo. 

Algo diferente foi sucesso de público e de crítica. Vera Chytilová anuncia de imediato o cinema feminista e contestador que vai marcar a sua carreira, principalmente em dois aclamados filmes: As pequenas margaridas (1966) e Fruto do paraíso (1970) – após esse fllme a cineasta foi banida durante oito anos pelo governo de seu país.