Entre amigas

O estudo de Claude Chabrol sobre a juventude parisiense, entregue aos prazeres mundanos da noite, tem um final misterioso e perturbador. Quatro amigas trabalham em uma loja de eletrodomésticos, contando as horas para o final do expediente, quando saem em busca de diversão. Rita é noiva de um jovem da alta sociedade. Ginette esconde das amigas sua vida dupla na noite. Jane namora um militar mas se entrega a outros homens, como se vivesse cada noite ao extremo. Jacqueline, cujo olhar traduz sonhos, está sozinha e nutre fascínio por um motociclista que a segue pelas noites.

Claude Chabrol traça um retrato da futilidade dessas procuras, muito bem representado em uma dupla de amigos que beiram o ridículo em seus comportamentos – a sequência de piscina provoca a mais pura repulsa a homens dessa estirpe. Outro ponto em destaque na trama é o constante assédio masculino às jovens, seja no trabalho ou nos bares pelas noites. O final surpreendente, seguido de uma misteriosa aparição, faz de Jacqueline uma das grandes personagens desta intrigante e misteriosa nouvelle-vague francesa.

Entre amigas (Les bonnes femmes, França, 1960), de Claude Chabrol. Com Bernadette Lafont (Jane), Clotilde Joano (Jacqueline), Stéphane Audran (Ginette), Lucile Saint-Simon (Rita).

O raio verde

Delphine está a duas semanas de suas férias de verão e não consegue decidir o destino da viagem. Acabou de romper com o namorado, a amiga com quem tinha combinado as férias desistiu da viagem. Delphine então, indecisa, empreende uma série de estadias curtas, entre o campo, as montanhas e as praias. 

O raio verde faz parte da série Comédias e Provérbios de Éric Rohmer, anunciado logo no início da narrativa: “Que chegue o tempo quando os corações estão apaixonados.” – Rimbaud. A peregrinação de Delphine coloca em tema a solidão, a dificuldade de se adaptar a novos relacionamentos, a necessidade de conhecer e, ao mesmo tempo, o receio de se entregar a esse conhecer, com todo o despojamento que isso exige. 

O título do filme remete ao último raio de sol poente, quando um possível raio verde toma conta dos corações. Delphine descobre sobre isso ao ouvir, casualmente, um grupo de intelectuais conversando sobre o livro que Júlio Verne escreveu sobre o fenômeno. O final do filme, bem, é desses finais que evocam a magia do olhar, assim como o cinema de Rohmer, repleto de descobertas.  

O raio verde(Le rayon vert, França, 1986), de Éric Rohmer. Com Marie Rivère (Delphine), María Luisa Garcia (Manuella), Vincent Gauthier (Jacques).