Um gato tem nove vidas

A diretora Ula Sotckl, uma das precursoras do novo cinema alemão, compõe uma obra multifacetada, acompanhando o cotidiano de algumas mulheres com um olhar rebelde, feminista, inovador – as protagonistas são todas femininas e suas múltiplas facetas (as nove vidas de um gato) exploradas com sensibilidade. 

No verão de 1967, a jornalista Katharina recebe a visita de sua amiga francesa Anne em Munique. Elas fazem excursões, visitam cafés, participam de reuniões e festas. As conversas giram sempre em torno da condição feminina e das possibilidades de emancipação da mulher nesta sociedade secularmente dominada pelo machismo. 

 A narrativa transcorre no formato episódico, acompanha cinco mulheres e seus anseios, frustrações, desafios emocionais e físicos diante da sociedade misógina. Esteticamente, Um gato tem nove vidas prima pelas cores vibrantes e ousadas composições visuais, bem ao estilo do novo cinema dos anos 60 que demarcava a consolidação do cinema moderno.

Um gato tem nove vidas (Neuen leben hat die katze, Alemanha, 1968), de Ula Stockl. Com Liane Helscher (Katharina), Kristine de Loup (Anne), Jurgen Arndt (Stefan), Elke Kummer (Ehefrau von Stefan), Alexander kaempfe (Sascha).  

Verão seco

Verão seco (Susuz yaz, Turquia, 1963), de Metin Erksan. Com Erol Tas (Kocabas Osman), Hulya Kocyigit (Bahar), Ulvi Doğan (Hasan),

A narrativa se passa em uma pequena cidade agrícola, castigada por um verão incremente. Os irmãos Osman e Hasan são beneficiados, pois a terra que cultivam é a nascente de um manancial de água. Osman, o irmão mais velho, decide represar a água, cortando o abastecimento para outros agricultores.

Esse ponto de partida é a motivação para fortes críticas sociais. Usando de uma memorável fotografia em preto e branco, o diretor turco Metin Erksan espelha a divisão de classes e a miséria social e econômica que domina a região. Cabe aos moradores da aldeia viver das gotas de água disponíveis ou se rebelarem. 

O conflito acontece também entre os irmãos. Hasan, apesar de passivo e obediente diante do irmão mais velho, não aceita a represa da água. A discordância ganha contornos trágicos por meio da ousadia erótica de um triângulo amoroso: Hasan se casa com a jovem e bela Bahar, objeto de desejo também de Osman. 

Verão seco conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e aguçou o olhar das cinematografias dominantes para um, até então, desconhecido cinema turco. 

We can’t go home

O diretor Nicholas Ray, autor de clássicos como Juventude transviada e Johnny Guitar atuou como professor nos anos 70, na Harpur College, Nova York. We can’t go home again (EUA, 1973) é uma espécie de trabalho acadêmico, filme experimental que realizou com um grupo de alunos.

O filme segue o estilo de um docfic, narrativa fragmentada de um pretenso filme de ficção entremeado pelas intervenções de Nicholas Ray, quando pontua questões sobre linguagem, estética e outros procedimentos narrativos. Nas intervenções e orientações aos seus alunos, o diretor reflete sobre seu cinema e sobre o cinema moderno, trabalhando com arrojadas experimentações narrativas e estéticas. Com o perdão do trocadilho, We can’t go home é uma verdadeira aula de cinema.