Mishima: uma vida em quatro tempos

Mishima: uma vida em quatro tempos (Mishima: a life in four chapters, EUA, 1985), de Paul Schrader.

Considerado um dos maiores escritores do japão, Yukio Mishima teve uma vida controversa, com tentativas de conciliação entre sua arte e sua vida pessoal. A filmografia de Paul Schrader é um experimento narrativo e estético que entrelaça as diversas facetas, máscaras, do diretor. 

O filme começa no último dia de vida de Mishima (Ken Ogata), quando ele e quatro jovens vestem seus trajes militares e se encaminham ao quartel do exército para um ato rebelde. Flashbacks alternados e fragmentados retratam a infância e juventude do  escritor, com fotografia em preto e branco, e encenações de três de suas famosas obras: O templo do pavilhão dourado, A casa de Kyoto e Cavalos em fuga. As encenações acontecem em cenários minimalistas e suntuosos em termos de cores e direção de arte. 

A narrativa, dividida em quatro atos, passa por importantes momentos do Japão pós-guerra, quando o país assumia a modernidade em detrimento de suas tradições. Paul Schrader apresenta a personalidade conflituosa de Mishima por meio de um roteiro engenhoso, arte e vida se misturando, se entrelaçando, completando uma à outra. O gesto final de Mishima, encenado de duas maneiras, demarca o conflito do artista/pessoa de forma perturbadora. 

A morte de um burocrata

A morte de um burocrata (La muerte de un burocrata, Cuba, 1966), de Tomás Gutiérrez Alea.

O filme abre com o enterro de Paco, que passou a vida se dedicando ao trabalho, se transformando em exemplo nacional. Ele inventou uma máquina capaz de produzir bustos, estátuas, em série. A máquina apresenta um defeito, Paco tenta consertá-la e acaba sugado pelas engrenagens – a morte do operário é encenada em uma divertida sequência de animação. 

A comédia pastelão, com toques de surrealismo, é uma crítica severa à burocracia estatal. A viúva de Paco recorre ao funcionalismo público para receber a pensão, mas não consegue devido a um fato: os sindicalistas, como forma de homenagem, enterraram Paco junto com sua carteira de trabalho. O sobrinho da viúva começa um périplo sem fim por instituições até que resolve desenterrar o cadáver à noite para recuperar o documento.  A partir daí, a trama ganha os contornos do absurdo, bem ao estilo Luís Buñuel e das comédias pastelões do cinema mudo.

Segundo Tomás Gutierrez Alea, a ideia do filme surgiu de suas experiências pessoais, pois ele teve que resolver problemas domésticos e passou a conviver com a burocracia.

“Cheguei a um ponto em que me senti tão agoniado que tinha ânsias de ‘justiçar’ um burocrata. Tinha acumulado muitas situações de violência reprimida. Os problemas do cotidiano aumentavam e eu vivia irritado. A decisão de fazer esse filme foi uma psicoterapia incrível: me permitiu desviar a violência que estava sentindo e jogá-la no filme. Continuava com minhas dificuldades domésticas – ia aos escritórios, enfrentava funcionários burocratas e perdia muito tempo – mas de algum modo me enriquecia: levava um caderno de apontamentos onde anotava situações, comportamentos, dados. Meus esforços se converteram num trabalho de pesquisa que acabou sendo interessantíssimo e comecei a enfrentar a situação com grande senso de humor. “

Elenco:  Salvador Wood, Silvia Planas, Manuel Estanilo, Omar Alfonso. 

Referência: Gutierrez Alea: Os filmes que não filmei. Silvia Oroz.