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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

Eu, tu, ele, ela

Eu, tu, ele, ela (Je, tu, il, elle, França, 1974), de Chantal Akerman.

O primeiro longa-metragem de Chantal Akerman é puro cinema experimental. A própria diretora interpreta Julie que, na primeira parte do filme, está sozinha em seu apartamento. Ela escreve longas cartas, consome doses elevadas de açúcar, anda nua pelo apartamento sem se preocupar em ser vista pelos transeuntes. 

Na segunda parte, Julie vai para a estrada  e pega carona com um caminheiros. Os dois vagueiam pelas estradas e lanchonetes, ela praticamente silenciosa, ele cada vez mais se enveredando pelas confidências, principalmente sexuais. 

Na terceira parte, Julie chega ao apartamento de sua ex-namorada. A princípio, Julie é expulsa de casa pela namorada. Deposi, as duas se entregam a um ousado jogo erótico. 

A película é um estudo vigoroso sobre o vazio existencial, sobre o tédio. Chantal Akerman destila ousadia em diversas cenas: a nudez pura de Julie no apartamento, a revelação do motorista que sente desejos pela filha, a entrega sem pudor entre as namoradas no apartamento. O experimento de Chantal Akerman é feito para a entrega contemplativa e reflexiva do espectador.

Trágico aniversário

São apenas cinco personagens em cena, reclusos dentro de um pequeno apartamento. O pianista Stanley mora na pensão do casal Petey e Meg. Não sai de casa e demonstra um comportamento imprevisível, irascível, sujeito a rompantes de violência verbal. A chegada de dois estranhos que se hospedam na pensão pode provocar o trágico aniversário do título. 

O filme é baseado na peça homônima de Harold Pinter que colaborou no roteiro. Os dois estranhos chegam à cidade à procura de Stanley, que precisa ser eliminado. O motivo nunca é revelado, há apenas uma alusão ao IRA (Exército Republicano Irlandês). 

A direção de William Friedkin utiliza do ambiente claustrofóbico, com ângulos e planos exagerados para aumentar gradativamente a tensão entre os personagens. Os diálogos beiram o surreal, elevando o clima de incompreensão da trama. O final é ainda mais enigmático. Destaque para a atuação de Robert Shaw. 

Trágico aniversário (The birthday party, EUA, 1968), de William Friedkin. Com Robert Shaw (Stanley Webber), Dandy Nichols (Meg), Moultrie Kelsall (Petey), Patrick Magee (McCann), Sydney Tafler (Goldberg). 

Jogando as fichas fora

Jogando as fichas fora (Blue chips, EUA, 1994), de William Friedkin. 

Peter Belli (Nick Nolte) é treinador de um time de basquete universitário. Após uma série de derrotas, sua carreira entra em declínio e ele revê alguns de seus princípios de ética e honestidade para conseguir um elenco mais talentoso. 

Jogando as fichas fora trata de forma ousada das artimanhas efetuadas por grupos para burlar as regras do esporte e lucrar no mercado de apostas (tema sempre atual). O elenco é composto por figuras reais do basquete, incluindo Shaquille O’Neal, o célebre treinador Bobby Knight e comentaristas esportivos. As cenas dos jogos são emocionantes, um admirável trabalho da equipe de cinegrafistas e da direção de fotografia. 

Uma curiosidade: a sequência final termina em uma “enterrada” fantástica de Shaquille O’Neal. O cinematógrafo Tom Priestley Jr. conta que Bobby Knight fez de tudo para que seus jogadores impedissem essa jogada, pois não aceitava perder um jogo nem mesmo em uma trama cinematográfica. 

Um golpe muito louco

Um golpe muito louco reconstitui o célebre assalto realizado em 1950 à companhia Brink’s de Boston, considerado na época o maior roubo da história dos EUA. O ítalo-americano Tony Pino (Peter Falk) reúne uma trupe de assaltantes de pequeno porte, meio atabalhoados, para executar o assalto. William Friedkin fez uma rigorosa retratação de época, incluindo estudos minuciosos para reproduzir o local do crime. 

O tom da película é o humor, conferindo aos bandidos uma aura de criminosos desastrados que cai no gosto do público. O destaque da película é o elenco, liderado pela interpretação primorosa de  Peter Falk. 

Um golpe muito louco (The Brink’s job, EUA, 1978), de William Friedkin. Com Peter Falk, Peter Boyle, Warren Oates, Gena Rowlands, Allen Garfield, Paul Sorvino, Gerard Murphy, Kevin O’Connor.

Quando o strip-tease começou

Quando o strip-tease começou (The night they raided Minsky’s, EUA, 1968), de William Friedkin.  

Em 1925, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), uma jovem criada em uma comunidade Amish, chega a Nova York, fugindo da dominação religiosa do pai.  O sonho de Rachel é ser dançarina de palco. Ela logo encontra a trupe que se apresenta no teatro burlesco dirigido por Minsky (Elliot Gould). A trupe oferece a Rachel uma apresentação especial à meia-noite, que, na verdade, seria uma farsa para burlar a vigilância repressiva das ligas de decência da cidade. Durante a apresentação, a jovem acaba inventando, por acaso, o strip-tease. 

No início da carreira, William Friedkin assume o tom libertário, provocador e irreverente da Nova Hollywood. Quando o strip-tease começou é uma junção de esquetes cômicas nonsenses, números musicais fragmentados, fotografia que oscila entre o preto e branco e as cores exuberantes. O início do filme é uma bela homenagem ao cinema mudo.

Jeanne Dielman

Em 2022, a respeitada Revista Sight & Sound atualizou a lista dos 100 melhores filmes da história (publicada de dez em dez anos). Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23 Quai Du Commerce, 1080, Bruxelles, Bélgica/França, 1975), a obra prima de Chantal Akerman assumiu o topo da lista. 

O filme tem mais de três horas de duração e acompanha três dias na vida da protagonista. Jeanne (Delphine Seyrig) mora com o filho adolescente e, para o sustento, recebe homens durante o dia em seu apartamento. Prepare-se para uma imersão na vida cotidiana: a câmera sempre estática, à distância e ligeiramente baixa (a lá Ozu) acompanha as tarefas da dona de casa na cozinha, na mesa de jantar, tomando banho, limpando o banheiro. Tudo em longos planos, quase sem cortes. É um filme silencioso e perturbador pela duração das cenas. No final, um ato inesperado encerra essa trama sem trama, um primor estético e de linguagem do cinema não-narrativo. 

“Por mais difícil que seja o filme, traz recompensas consideráveis que estão, muitas vezes, inexoravelmente ligadas à sua duração. Por um lado, a tese feminista de Akerman é transmitida com urgência por conta de sua decisão de mostrar a vida de Jeanne em seus mínimos detalhes. Não basta para Akerman sugerir o tédio da existência abnegada de sua protagonista – em vez disso, ao apresentar explicitamente sua insípida rotina em tempo real, Akerman habilmente transmite o vazio sufocante que, no final das contas, é o que impulsiona Jeanne em direção a seu trágico ato final.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A amiga de minha amiga

La amiga de mi amiga (Espanha, 2022), de Zaida Carmona, é uma representação do amor livre entre mulheres. Zaida, jovem roteirista, termina com sua namorada e volta para Barcelona. Curtindo uma espécie de ressaca, ela sai com grupos de amigas, conhece uma diretora de cinema em ascensão e acontece uma troca de casais. 

É um filme leve e despretensioso ambientado em apartamentos, bares e cinemas de Barcelona. É também uma homenagem aos filmes de relacionamentos entre jovens, demarcada pelo fascínio de Zaida pelo cinema de Eric Rohmer. Ela frequenta as sessões de uma mostra de Rohmer que acontece na cidade. A trilha sonora, composta pela música eletropop é um dos destaques da película.  

O caso dos irmãos Naves

O caso dos Irmãos Naves (Brasil, 1967), de Luis Sérgio Person, é baseado em um caso verídico que aconteceu em 1937, durante o Estado Novo, ditadura implantada no Brasil por Getúlio Vargas. Em Araguari, interior de Minas Gerais, Benedito Pereira Caetano, um comerciante endividado, foge da cidade com 90 contos de réis. Joaquim Rosa (Raul Cortez) e Sebastião (Juca de Oliveira), os irmãos Naves, procuram a polícia para denunciar o desaparecimento do comerciante. Durante a precária investigação, eles são acusados de assassinar Benedito.  Esse caso é considerado um dos maiores erros judiciais da história do Brasil. Após a prisão, os irmãos são torturados a mando do delegado da cidade (Anselmo Duarte) para que confessem o crime que não cometeram. 

Dois anos antes, Luís Sérgio Person realizou São Paulo Sociedade Anônima, com uma narrativa e estilo mais próximos do Cinema Novo. Em O caso dos Irmãos Naves, o diretor adota um estilo clássico, pois queria fazer um filme denúncia que dialogasse com o grande público. 

“Person mexeu com a arquitetura de seu filme, criando sequências poderosas e incrivelmente bem montadas e fotografadas, como aquela em que o espectador descobre ao longo de um depoimentos forçado que os irmãos já vinham sendo torturados. À medida em que o delegado obriga que a testemunha concorde com a versão que criou para a história, takes rápidos e sem trilha sonora ou áudio ambiente em que os Naves são espancados pela polícia invadem a cena para mostrar para o público o que acontece nos bastidores. Sem fazer juízo de valor, apenas fornecendo a informação, Person traz o espectador para a condição de testemunha da injustiça, permitindo que ele mesmo desenvolva seu sentimentos para com o caso.” – Chico Fireman. 

Referência: 100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 

O idiota

O idiota (Hakuchi, Japão, 1951), de Akira Kurosawa, faz uma releitura do clássico livro de Fiódor Dostoiévski. A trama é adaptada para o Japão pós Segunda Guerra Mundial. Kameda (Masayuki Mori) lutou na guerra e sofre de epilepsia. Sua personalidade é marcada por uma ingenuidade extrema, ele é capaz de atos de bondade e não espera nada em troca de ninguém. Para a sociedade, é quase um idiota. Kameda desperta o interesse de duas mulheres: Taeko Nasu (Setsuko Hara) e Ayako (Yoshiko Kuga).

 Kurosawa ousou ao ambientar a trama em um período carregado de cinismo, corrupção moral, caos social e profundas diferenças de classes. Nesse contexto, Kameda representa a bondade em uma sociedade composta por pessoas más. A linguagem cinematográfica de O idiota é demarca por planos lento e uma fotografia que expressa a melancolia, tristeza e desilusão da sociedade japonesa após a tragédia da guerra.

O sol brilha na imensidão

O sol brilha na imensidão (The sun shines bright, EUA, 1953), de John Ford.

O Juiz Priest (Charles Winninger) apareceu pela primeira vez no filme Judge Priest (1934), do próprio John Ford. O sol brilha na imensidão é uma espécie de continuação, fato raro no cinema clássico americano do período. 

William Priest segue demonstrando sua dignidade, senso de justiça e humanismo. Ele é juiz de uma pequena cidade do Kentucky, sul dos Estados Unidos, região demarcada pelo racismo que atinge níveis de violência extrema. O Juiz Priest agora tem em mãos dois casos que evidenciam o preconceito da sociedade sulista. Uma prostituta retorna à cidade e é rejeitada por todos; após a sua morte, ela não pode nem mesmo ter um enterro digno. Um jovem negro é acusado injustamente de um crime e está prestes a ser linchado pela população. 

Priest está disputando a reeleição para o cargo e sua corajosa atitude na defesa dos dois casos faz com que ele se indisponha com os eleitores. John Ford carrega sua narrativa com o idealismo e humanismo do Juiz, simbolizado em uma sequência emocionante: mesmo arriscando perder a eleição, Priest organiza e segue à frente do enterro da prostituta, encarando com altivez a sociedade.