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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

Terra sem pão

Terra sem pão (Las Hurdes, Espanha, 1933) foi o terceiro filme de Luis Buñuel, um curta-metragem documental que retrata a vida miserável dos habitantes de Las Hurdes, aldeia localizada no norte da Espanha. Assim como outros documentários, como o clássico Nanook – O esquimó (1922), o diretor espanhol encenou, com a colaboração dos habitantes, grande parte das situações retratadas.

O fato triste e totalmente reprovável dessa estratégia é que a equipe de filmagem provocou as mortes de dois animais – um burro foi lambuzado de mel para que as abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. As cenas estão no filme. 

O curta é uma experiência terrível de se assistir pois retrata a miséria total de homens, mulheres e crianças, muitos com doenças mentais devido à desnutrição (Buñuel filma essas crianças). Mesmo encenado, o retrato é verdadeiro, o documentário foi baseado no estudo etnográfico Las Hurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), de Maurice Legendre. Terra sem pão foi banido da Espanha fascista e praticamente não foi exibido no resto do mundo, seguindo a sina do filme anterior de Luis Buñuel, A idade do ouro (1931), que também foi censurado. 

Playback

Agustina Comedi monta Playback (Argentina, 2019) com imagens de arquivo, registros pessoais, entrevistas, para documentar a trajetória de um grupo de travestis e transformistas que atuaram na noite de Córdoba, entre 1980 e 1990. La Delpi funciona como um elo de ligação, pois é a única sobrevivente do grupo, muitos vitimados pela AIDS. 

O documentário é um potente registro da Argentina ainda marcada pela repressora e violenta ditadura militar. A noite underground e queer de Córdoba reserva momentos alegres, rebeldes, uma intensa luta pela liberdade rodeada pelo terror imposto pela conservadora sociedade e pela epidemia da AIDS.

A narrativa fragmentada, não-linear, ajuda o espectador a transitar pelas memórias das personagens, recheadas de sensibilidade, afeto e fraternidade. Playback é um curta-metragem sensível sobre um momento ao mesmo tempo vibrante e trágico da sociedade argentina.  

Amores na cidade

A ideia partiu de Cesare Zavattini, grande roteirista do neorrealismo italiano: seis importantes diretores foram convidados a contar uma história relacionada a relacionamentos amorosos, passadas em Roma, seguindo o estilo do movimento. As tramas de Amores na cidade (L’amore in città, Itália, 1953) exploram temas diversos, por vezes trágicos, como a prostituição nas ruas da cidade (Antonioni), mulheres que recorreram à tentativa de suicídio devido a desiluções amorosas (Cesare Zavattini); os desafios de uma mãe solteira na conservadora sociedade italiana (Francesco Maselli). 

Fellini recorre ao bom humor para contar uma triste história, centrada em um jornalista que faz uma reportagem investigativa em uma agência de casamentos. Dino Risi dirige o episódio mais leve e bem humorado: em um salão de baile, jovens tentam encontrar parceiros e parceiras, um retrato vibrante da noite romana que geralmente termina em desilusões. Alberto Lattuada segue um estilo documental, recheado de situações bem-humoradas ao mostrar uma sucessão de tentativas de homens de abordar belas mulheres nas ruas de Roma. 

Amores na cidade (L’amore in città, Itália, 1953), de MIchelangelo Antonioni, Federico Fellini, Alberto Lattuada, Dino Risi, Cesare Zavattini,  Francesco Maselli.

Sobre café e cigarros

O consagrado diretor indie Jim Jarmusch filmou Sobre café e cigarros (Coffee and Cigarettes, EUA, 2003) ao longo de 15 anos. A série de 11 curtas-metragens independentes tem como coesão narrativa o simples acaso: encontros de artistas diversos, incluindo atores, músicos, rappers, em locais minimalistas, as conversas são acompanhadas por café e cigarros. 

Os temas refletem muito da sociedade, das relações pessoais, compostos por diálogos bem humorados, reflexivos, tensos, mas sempre com o tom despretensioso de quem acaba de se encontrar para um bom bate papo regado a café e cigarros. Os destaques ficam por conta da participação engraçada de Bill Murray como um garçom que é reconhecido pela dupla de rappers RZA e GZA; do papel duplo desempenhado por Cate Blanchett, conversando com ela mesma; da conversa nonsense entre Roberto Benigni e Steven Wright. A fotografia em preto e branco, outra marca de Jim Jarmusch, é deslumbrante, reforça o tom minimalista.   

Sinais de identificação: nenhum

Sinais de identificação: nenhum (Identification marks: none, Polônia, 1965), de Jerzy Skolimowski.

O filme de estreia do diretor polonês Jerzy Skolimowski é exemplar como referência ao novo cinema dos anos 60 que dominou a cinematografia mundial, na Polônia, conhecido como Nova Onda Polonesa. Andrzej (interpretado pelo próprio Skolimowski) é um estudante em crise que vaga durante um dia (tempo da narrativa) pela cidade. Nesse curto espaço de tempo, ele termina seu relacionamento com a namorada, desiste dos estudos, decide entrar para o exército e encontra uma mulher que considera ser o amor de sua vida. 

A narrativa segue o formato não-linear, fragmentado, filmado com uso de câmera portátil, inovando no aspecto intimista. A fragmentação e a montagem repercutem o momento confuso e ansioso pelo qual o protagonista passa nesse dia. Sinais de identificação…  lançou o diretor polonês como um nome promissor no mercado internacional, promessa que se concretizou com seus aclamados filmes posteriores. 

Stereo

Stereo (Canadá, 1969), de David Cronenberg.

Em um futuro indefinido, sete voluntários passam por procedimentos cirúrgicos que eliminam a capacidade da fala, mas incentivam a comunicação telepática. A trama acontece na Academia Canadense para Investigação Erótica, com cenário minimalista e fotografia em preto e branco. A Academia determina um dos temas favoritos de David Cronenberg: mutações do corpo humano que afloram a sexualidade. 

A história praticamente não tem diálogos, ouvem-se apenas fragmentos de narrações em off, como se fossem extraídos da mente dos jovens durante suas experimentações. O estilo documental é outra marca do filme e funciona como uma espécie de imersão visual e psicológica nos procedimentos, nos experimentos, nas viagens surrealistas de David Cronenberg. 

Tempo de amar

Tempo de amar (Sevmek Zamani, Turquia, 1965), de Metin Erksan.

O pintor de paredes Halil (Musfik Kenter) trabalha em casas luxuosas Nas Ilhas dos Príncipes, próximo a Istambul. Durante um trabalho, ele se defronta com o retrato de uma bela mulher. A partir daí, todos os dias, ele invade a mansão e fica sentado durante horas diante do retrato. Até que Meral (Sema Ozcan), a mulher do quadro, chega para uma temporada na casa e o surpreende. O clima bucólico e chuvoso da ilha parece atingir diretamente o pintor, que se sente muito mais atraído pelo amor idealizado do retrato do que pela própria Meral. 

Tempo de amar passou despercebido pela crítica da época, talvez por não se enquadrar no inovador cinema dos anos 60 que corria mundo. A história de amor entre Halil e Meral segue o tradicional conflito de classes, mas transcende o melodrama pela abordagem poética, recheada de simbolismos. A obra de Metin Erksan é aclamada hoje como uma das joias raras do cinema turco, reverenciado pelo seu estilo visual triste e encantador.

Casamento ou luxo

Charles Chaplin busca uma espécie de alternativa em sua carreira ao dirigir Casamento ou luxo (1923), um drama ambientado em Paris. O diretor tomou o cuidado de alertar o público, inserindo uma cartela nos créditos: “Para evitar qualquer mal-entendido, gostaria de precisar que não apareço neste filme.”

A trama acompanha Marie, jovem da província enamorada de um pobre artista. O acaso impede que os dois embarquem para Paris. Sozinha na cidade, Marie se torna amante de um playboy rico, bem ao estilo de um bon vivant da aristocracia parisiense. 

Com forte apelo melodramático, o filme foi um fracasso de público e crítica, deixando Chaplin ressentido. “Meu filme Casamento ou Luxo não teve sucesso na América porque o final não dava margem à esperança e, ainda, porque descrevia a vida tal como ela é. Ao público, ao contrário, agrada que o protagonista escape da morte inevitável, que a mulher volte finalmente para ele, para uma vida feliz. No entanto, Casamento ou Luxo é quase uma tragédia. A tragédia me agrada, e agrada porque sobre sua base há sempre qualquer coisa de belo. E, para mim, o belo é o que há de mais precioso na arte e na vida. É conveniente ocupar-se da comédia quando ali se encontra esse motivo de beleza, mas isso é tão raro.” – Charles Chaplin. 

Casamento ou luxo (A woman of Paris, EUA, 1923), de Charles Chaplin. Com Edna Purviance (Marie St. Clair), Carl Miller (Jean Millet), Adolphe Menjou (Pierre Revel). 

Referência: Coleção Folha Charles Chaplin. Casamento ou Luxo. Um filme dirigido por Charles Chaplin. Cássio Starling e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2012.

Europa

O americano Leopold Kessler chega a Frankfurt logo após o término de Segunda Guerra para trabalhar como condutor de uma grande empresa ferroviária. A Zentropa está nos planos dos americanos para reconstruírem o sistema de transporte alemão. No entanto, os trens são atacados por um grupo de nazistas, conhecidos como Lobisomens. 

Europa fecha a trilogia de Lars von Trier de tramas ambientadas no continente, os outros são Elemento de um crime (1984) e Epidemia (1987). Kessler é um jovem idealista que sonha em ajudar na reconstrução da Alemanha. Ele se envolve com a bela e sedutora Katharina, filha do dono da Zentropa, que o envolve num perigoso jogo entre os americanos e os simpatizantes nazistas. 

A enigmática narração em off guia Kessler e, consequentemente, o espectador na trama. A narração é quase um transe hipnótico, misteriosa e envolvente.  A claustrofobia das cenas noturnas durante as viagens dos trens remetem a uma Europa sem rumo, reforçada pela exuberante fotografia em preto e branco, que em alguns momentos se mescla com cores (atenção para a montagem da sequência do casamento) claramente com referências do cinema noir. O filme conquistou três prêmios no Festival de Cannes, incluindo o Prêmio do Júri, e colocou Lars von Trier no foco internacional. 

Europa (Dinamarca, 1991), de Lars von Trier. Com Jean-Marc Barr (Leopold Kessler), Barbara Sukowa (Katharina Hartmann), Udo Kier (Lawrence Hartmann), Jorgen Reenberg (Marx Hartmann).

Crimes do futuro (1970)

Crimes do futuro (Crimes of the future, Canadá, 1970), de David Cronenberg. 

A narrativa se passa em um futuro indefinido, distópico, como se determina em tantas obras de ficção contemporâneas. Adrian Tripod, narrador do filme, é um dermatologista que vive à sombra de seu mentor desaparecido, Antoine Rouge. Rouge ficou famoso por experimentos dermatológicos em mulheres, mas uma catástrofe química resultou na morte de todas as mulheres adultas. 

Em questões narrativas e estéticas, a película é uma experimentação minimalista, com imagens fragmentadas e diálogos pontuais. Os ambientes claros, longos, vazios, provocam a imaginação do espectador, bem ao estllo do provocativo diretor canandense. 

Com apenas 60 minutos de duração, Crimes do futuro antecipa muito da obra de Cronenberg, tratando de temas recorrentes em sua filmografia: a mutação física e repulsiva do corpo humano, associada às perversões sexuais. Basta citar Videodrome – A síndrome do vídeo (1983), A mosca (1986), Crash – Estranhos prazeres (1996) e a refilmagem Crimes do futuro (2022).