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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

Umberto D

O filme começa com uma passeata de aposentados italianos, em direção à sede do Governo, reivindicando aumento das pensões. São dispersados pela polícia, correm e se abrigam em prédios ao redor, demonstrando o cansaço natural da idade. 

É hora de seguirmos a vida anônima de um destes aposentados que vivem à margem da sociedade: Umberto D (Carlo Battisti), junto com seu inseparável cãozinho Flike. Quando vai embora da manifestação, tenta vender a outro aposentado seu velho relógio. Depois almoça no balcão de um abrigo para necessitados. Escondendo-se, coloca seu prato no chão para que Flike possa também comer. Finalmente chega na casa onde aluga um pequeno quarto. Ao abrir a porta, descobre que um casal está na sua cama. 

Esse início, marcado por cenas do cotidiano, revela o drama de Umberto D. Sem dinheiro o suficiente para manter sequer suas necessidades básicas, sem uma casa que possa ser chamada de sua, sem família, pressionado pela dona da pensão que aluga seu quarto à tarde para adúlteros e o ameaça de expulsão caso não coloque em dia o aluguel. Resta a Umberto D. seu adorado cão.

“Umberto D. foi filmado nas ruas de Roma e os papéis principais são interpretados por atores não-profissionais, o que dá ao filme maior urgência e autenticidade. Uma das maiores críticas ao neo-realismo é que o tratamento melodramático dispensado à história menor dilui a mensagem social mais ampla e a reivindicação de realismo do próprio filme. Com sua história trágica, contada sem pudor, sobre o desespero de um senhor de idade e o seu amor pelo seu bicho de estimação, e com sua visão incisiva das injustiças sociais, Umberto D oferece a oportunidade perfeita para o espectador refletir sobre essa questão, que diz respeito a um dos movimentos mais influentes da história do cinema.” 

Essa potência narrativa está expressa em cenas inesquecíveis em um filme que recusa os princípios básicos da narrativa. “Umberto D. cumpre o desejo do diretor Vittorio De Sica e do roteirista Cesare Zavattini: levar o neorrealismo a um nível até então nunca visto, ponto que a situação perde espaço para o homem, em que o obstáculo dá lugar ao instante. O tempo não é mais moldado por acontecimentos interdependentes, mas por episódios de aparência aleatória, reais em excesso, que desembocam sempre no homem, nos seus conflitos e contradições.” – Rafael Amaral. 

Para alguns críticos e até mesmo cineastas do calibre de Luis Bunuel e Alfred Hitchcock esses tempos mortos devem ser evitados na narrativa cinematográfica. “Tempos mortos” para os neorrealistas é a vida e a vida é o próprio cinema. Em uma das cenas mais famosos do filme, a empregada Maria (adolescente grávida que namora dois soldados, portanto, não sabe quem é o pai da criança) acorda de manhã, vai para a cozinha, põe fogo no jornal para queimar formigas na parede, coloca café na máquina, senta-se no banco e começa a mover lentamente a manivela da maquininha. Uma lágrima escorre pelo seu rosto. Maria estende o pé e tenta fechar a porta. Cenas assim, ganham dimensões simbólicas nas palavras de André Bazin: “Trata-se ali de tornar espetacular ou dramático o próprio tempo da vida, a duração natural de um ser a quem nada de particular acontece.”

É a vida dessas pessoas marginais, que ninguém nota, que não importam a ninguém. É a vida de Umberto D. que pode ser muito bem a vida de meu pai e inúmeros outros cidadãos que foram enganados pela política previdenciária no Brasil e passaram, depois de décadas de trabalho, de contribuição ao estado, a depender da ajuda dos filhos. Poderia ser a vida do pai de Vittorio De Sica, a quem ele dedica o filme. Diferente de outros, Umberto D não tem ninguém a quem recorrer, caminha sozinho e anônimo pela vida que só ganha sentido em sua relação de amor com Flike. Flike que, ao contrário de uma sociedade inteira, vê, ama e se entrega à Umberto Domenico Ferrari. 

Umberto D (Itália, 1952), de Vittorio De Sica. Com Carlo Battisti, Maria-Pia Casilio, Lina Gennari.

Referências: 

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

Catálogo do bluray Ladrões de Bicicleta/Umberto D. Versátil Digital Filmes. 

Os sete samurais

O final de Os sete samurais (Japão, 1954) é das cenas mais sensíveis do cinema. Kambei, Shichiroji e Katsushiro, os samurais sobreviventes da batalha, observam com reverência as covas de seus quatro companheiros no alto da colina, enquanto os camponeses cantam a alegre canção da colheita do arroz, felizes por finalmente estarem livres dos bandidos. Cenas que representam a essência do cinema clássico que conta histórias repletas de dramas, críticas sociais, heroísmo, sacrifício na defesa pelos mais fracos, amor florescendo em meio a batalhas, enfim, o cinema que todos amamos. 

O processo de criação do filme começou a partir da ideia de Akira Kurosawa de fazer um filme de época sobre samurais, mas que fosse capaz de revisitar o gênero. Shinobu Hashimoto, um dos roteiristas, disse que a primeira ideia de Kurosawa era contar com realismo um dia na vida de um samurai. Após longas pesquisas, a ideia foi descartada devido a falta de material registrado sobre o cotidiano dos samurais. 

Kurosawa propôs então uma trama ambientada em torno de espadachins famosos, cujo ícone no Japão é Miyamoto Musashi. Hashimoto escreveu o roteiro durante três meses e o apresentou ao diretor. Kurosawa descartou a segunda ideia alegando: “Não posso fazer um filme que tem vários clímax ao longo da narrativa.”, frase que comprova o apego de Kurosawa ao classicismo. 

Diretor e roteirista resolveram então conversar com o produtor da Toho, Sojiro Motoki. O relato de Hashimoto sobre a conversa revela essas fascinantes  buscas de ideias para filmes. A conversa era sobre a época dos espadachins. Hashimoto queria saber como eles viajavam pelo Japão para aperfeiçoar sua arte, já que provavelmente tinham pouco dinheiro. Motoki respondeu que, no final das Guerras Civis, lutadores marciais recebiam alojamentos e refeições para uma noite em escolas de Kenjutsu. E se não existissem escolas pelo caminho? Nesse caso, os templos budistas ofereciam abrigo e porções de arroz para a viagem. E se não existissem escolas e nem templos budistas pelo caminho? Motoki respondeu prontamente: no final das Guerras Civis os bandidos estavam em toda parte, se o samurai passasse em um vilarejo e servisse de sentinela durante a noite, receberia uma refeição. Hashimoto e Kurosawa se entreolharam e decidiram ali mesmo que escreveriam uma história sobre camponeses pobres contratando samurais para combater bandidos. O pagamento: comida. “Teremos uma batalha dura que não nos trará nem dinheiro nem glória. E podemos morrer.” – diz Kambei a outro samurai, na primeira parte do filme, tentando convencê-lo a lutar pelos camponeses. O samurai responde com um sorriso. 

A trama de sete samurais que atendem ao chamado dos camponeses e decidem entrar em uma batalha contra 40 bandidos ficou pronta depois que Kurosawa, Hashimoto e Hideo Oguni ficaram enfurnados em um quarto de hotel durante meses, escrevendo o roteiro. Segundo Hashimoto, Kurosawa revisava página por página do roteiro e, se não gostasse, rasgava páginas na mesma hora e mandava reescrever. Hashimoto diz que Kurosawa pensava como diretor, com a sensibilidade exata do que daria certo ou não. E completa: “Quando chegou ao hotel, Kurosawa tirou um caderno e colocou sobre a mesa. Quando vi as anotações do caderno, contendo descrições detalhadas dos portes físicos, comportamentos e aspectos psicológicos dos sete samurais, inclusive como olham quando chamados de formas diferentes, entendi que Kurosawa trabalha exaustivamente nas ideias.” 

No Memorial Akira Kurosawa estão expostos 46 destes cadernos. Sete trazem anotações sobre Os sete samurais. O documentário The Masterworks (extras do blu ray/Versátil), apresenta escritos de Kurosawa que mostram como ele aproveitou os esboços do roteiro descartado sobre os espadachins para compor os personagens do filme. As observações de Kurosawa sobre o líder dos samurais denotam que Kambei lembra um dos famosos espadachins, Koizumi Nobutsuna. Ele é descrito como um homem de quase 50 anos e de cabelos brancos que havia lutado em muitas batalhas, mas nunca do lado vencedor. Isso aparece em pontos importantes do filme. Na primeira parte do filme, Kambei caminha ao lado do jovem aprendiz Katsushiro. Ele diz: “Eu não tenho nada de especial. Eu posso ter visto muitas batalhas, mas sempre do lado dos perdedores.” No final, afirma diante da cova de seus amigos: “Nós perdemos novamente. Quem venceu foram os camponeses.” 

Segundo as anotações, o personagem mais rico de todos é Kikuchiyo e revela interessante abordagem de perfil de personagem a partir do nome escolhido. Nas anotações seu nome é Zembei, um homem de passado terrível, um passado monstruoso das Guerras Civis, um personagem com um lado sombrio. Durante o processo, Zembei virou Kikuchiyo e o personagem sombrio desapareceu, dando lugar a um homem rude, quase primitivo, irascível, bufão que passa o filme tentando se afirmar como samurai apesar de sua origem camponesa. Toshiro Mifune interpreta Kikuchiyo com um magnetismo impressionante, alternando cenas cômicas com cenas que revelam seu passado trágico. Dois momentos marcantes de Mifune no filme. Primeiro, quando ele discursa para os samurais, afirmando que eles são os responsáveis pela miserável época em que vivem, “Quem os transformou em monstros? Foram vocês, samurais.” Depois, em uma das cenas mais fortes da película, quando ele recebe um bebê das mãos da mãe à beira da morte, se ajoelha na água e diz aos prantos, “Esse bebê sou eu, foi isso que aconteceu comigo.”

O resultado deste longo processo de criação é uma das maiores obras-primas do cinema, trama de 3h30 de duração ambientada no Século XVI, período Sengoku (Guerra Civil) quando o Japão começa a perder sua autoridade central. No início, letreiro informa: “Durante as guerras civis, conflitos sem fim deixaram o interior dominado por bandidos. As pessoas viviam sob o terror do som de cascos se aproximando.” Corta para quarenta bandidos no alto da colina. Eles observam um vilarejo e decidem voltar depois da colheita de arroz para o saque. 

A primeira parte do filme narra a viagem de três camponeses em busca dos samurais. Kambei é o primeiro a ser recrutado, após demonstrar seu heroísmo e integridade salvando um bebê das mãos de um bandido. Ele é o guia, admirado pelos outros seis samurais, cada um com sua individualidade bem definida, irmanados pela convicção de proteger os camponeses, mesmo sem “glória e dinheiro.”

A segunda parte é responsável pelas batalhas épicas, memoráveis, principalmente a sequência final de seis minutos na chuva e na lama. “Os sete samurais não foi inovador apenas em sua mistura de narrativa cinematográfica ocidental e oriental, pela primeira vez em sua carreira, Kurosawa usou várias câmeras para filmar uma cena de batalha. Isso permitiu que ele fosse encenado em sequências mais longas, que podiam, assim, ser desenvolvidas e evoluídas. Também proporcionou ao diretor liberdade e continuidade sem paralelos ao fazer os cortes entre os diferentes ângulos de câmera na pós-produção. Seu uso de lentes mais longas do que 150 mm aplanava o espaço em cenas fundamentais.” – Mark Cousins

Entre diversas cenas arrebatadoras, fico com Kikuchiyo recebendo o bebê no riacho, o moinho em chamas ao fundo, seu rosto transfigurado de amargura e dor pela lembrança do passado; a mulher do camponês Rikichi, que fora sequestrada pelos bandidos, saindo da fortaleza incendiada dos bandidos, o olhar desolado no chão, quando levanta os olhos vê seu marido e corre de volta para as chamas. E claro, os três samurais sobreviventes diante da cova de seus amigos, ouvindo a alegre canção dos camponeses, em silêncio, palavras seriam desnecessárias para expressar a descoberta de que já não havia lugar para os samurais neste novo Japão que emergia.

Os sete samurais (Shichinin no samurai, Japão, 1954), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune (Kikuchiyo), Takashi Shimura (Kambei), Yoshio Inaba (Gorobei), Minoru Chiaki (Heihachi), Daisuke Kato (Shichiroji), Isao Kimura (Katsushiro), Seiji Miyaguchi (Kyuzo), Keiko Tsushima (Shino), Yoshio Tsuchiya (Rikichi). 

Referências: 

Extras do blu ray Os 7 samurais. A obra máxima de Akira Kurosawa. Versátil. 

História do cinema. Dos clássicos mudos ao cinema moderno. Mark Cousins. São Paulo: Martins Fontes, 2013 

Os rebeldes

No começo do filme, o garoto Lucius avisa seu amigo Boon que o trem está chegando. Todos correm para a estação e aguardam com suspense os homens tirarem a lona que cobre a carga esperada por Boss, avô de Lucius. Quando cai a lona, olhos extasiados contemplam um automóvel Winton Flyer amarelo.  

Narração em off do velho Lucius guia o espectador durante quatro dias entre o Mississippi e a cidade de Memphis. Baseado no romance de William Faulkner, Os rebeldes não é simplesmente um passeio em flashback por momentos lúdicos da infância, representado por esta invenção que deslumbrou e subjugou os homens. É a busca de memórias doces, irreverentes, pontuadas pelas aventuras durante o road movie. Boon, Ned e Lucius roubam o carro de Boss e passam quatro dias de aventuras, envolvendo uma noite no bordel, a perda do automóvel, confronto com o xerife da cidade, a prisão, e a espetacular corrida de cavalos perto do final do filme.

As memórias trazem também a perda da inocência, no momento em que os olhos de Lucius se abrem para a irracionalidade da legião de homens cruéis que habitam em torno de nós. Quando o xerife branco de Memphis destila seu ódio pelos negros Ned e Tio Possum e seu desprezo doentio pela prostituta Corrie, a voz do velho Lucius revela: “Ele foi embora, mas eu sentia o cheiro dele, seu suor azedando o dia de verão. Eu estava cansado e minha mão estava doendo. Sentia vergonha e medo pelo Tio Possum. Há condições no mundo que não deveriam existir, mas existem. Eu odiei ter que descobri-las. Eu só tinha 11 anos, lembrem-se.”

Os rebeldes (The reivers, EUA, 1969), de Mark Rydell. Com Steve McQueen (Boon), Sharon Farrel (Corrie), Rupert Crosse (Ned), Will Geer (Boss), Mitch Vogel (Lucius). 

A fotografia

O jornalista Michael Block está fazendo pesquisa para uma reportagem em Nova Orleans. Ao entrevistar Isaac, antigo pescador da região, se depara com a fotografia de uma jovem, sentada na mesa da cozinha. Isaac revela a ele que é Christine Eames, namorada de sua juventude. Ela mudou para Nova York em busca de trabalho como fotógrafa. Fascinado pela imagem, Michael pesquisa  e chega até a curadora de arte Mae Morton, filha de Christine, que está trabalhando na preparação de uma exposição sobre os trabalhos da mãe. 

O tema do filme é encantador: fotografia encontrada ao acaso remete às memórias e sentimentos dos personagens, enquanto provoca o entrelaçamento de caminhos. Michael e Mae começam um relacionamento marcado por dúvidas, aparentemente sem pretensões. Mergulham na história da fotógrafa, cujo relacionamento com Isaac é narrado em flashbacks. A trama é simples, resvala para as tradicionais histórias de relacionamentos amorosos separados por escolhas. Assim como uma imagem, paixões podem se diluir na memória, mas basta vasculhar a gaveta que o passado volta perturbador na forma de velhas fotografias.  

A fotografia (The photograph, EUA, 2020), de Stella Meghie. Com Issa Rae (Mae Morton), Lakeith Stanfield (Michael Block), Chanté Adam (Christine Eames), Y’lan Noel (Isaac Jefferson)

Princesa Mononoke

Certos filmes transpõem de imediato a fronteira entre o olhar e o coração. Quando o Príncipe Ashitaka luta selvagemente contra um Javali contaminado, tomado pelos monstros e, ao final, também é contaminado e condenado à morte, sabemos que estamos diante de um destes filmes. 

Princesa Mononoke se passa no Japão medieval, o Período Muromachi (1336 a 1573). Contaminado, o Príncipe deve deixar sua aldeia e rumar para uma floresta misteriosa em busca da morte solitária ou da possível cura, caso encontre o Deus Cervo, protetor da floresta. É a tradicional jornada do herói, viagem rumo ao desconhecido após o chamado. Na trajetória, se defronta com samurais e descobre poderes violentos em seu braço contaminado. Descobre que a causa que transformou o Javali em monstro é uma bala de ferro produzida em uma aldeia distante. 

Na floresta, encontra uma fortaleza denominada Ilha de Ferro, governada pela Srta Eboshi. Mas é seu encontro com uma jovem estranha, que cavalga lobos e se porta como uma guerreira feroz e solitária, que muda o destino de Ashitaka. Quando se olham separados por um rio, sabemos que Ashitaka e a Princesa Mononoke estão marcados uma para o outro e devem enfrentar guerras, tragédias, redenção, escolhas, enfim, tudo que move o cinema e nos move juntos, principalmente em animações de Hayao Miyazaki. 

“Guerreiros míticos e princesas amaldiçoadas, feras arcaicas e demônios industriais, figuras do mal desejáveis e arco-íris mágicos – todos podem correr e esbravejar, lutar e amar, subir até as estrelas e súbita, mas temporariamente desaparecer na reificação do formato infantil dos rostos humanos nas mãos dos desenhistas japoneses. Neste filme, o que é raro em animações, o sangue se refere ao sangue real, amor e morte são representados por tintas coloridas e tudo possui uma presença que pertence ao mundo real. Animais fantásticos e questões ecológicas da atualidade interagem como elementos de uma mesma natureza. Se Miyazaki é bem-sucedido ao criar este singular encontro entre animação e filme tradicional, tem a ver com a energia tanto da narrativa quanto da arte-final, a impressionante tensão que permanece durante todo o filme, da primeira à última imagem. Não diga a Miyazaki que os filmes que ele faz não são de verdade, porque ele está convencido de que são. E ele é tão audaz quanto seus personagens. Só podemos torcer para que continue assim.”

As duas guerreiras, Eboshi e Mononoke, representam mulheres destemidas que lutam cada uma por sua causa. Eboshi traz a modernidade ao Japão, defendendo sua mina de ferro, produzindo armas de fogo, lutando contra os protetores da floresta, pois necessita do minério. Mononoke defende com a própria vida seus amados animais, os deuses deste mundo ancestral formado por divindades que habitam árvores, lagos e recantos inimagináveis deste mundo misterioso que o progresso insiste em destruir. Ashitaka se interpõe entre as duas, buscando o equilíbrio, mas representando também o ponto de ruptura que não deixa a paz se instalar, alguém assim como o Johnny Guitar de Nicholas Ray. 

Não sei se o universo mágico de Miyazaki abre perspectivas esperançosas, afinal no Japão medieval ou nas sociedades modernas, a realidade impera poderosa e o progresso vai ceifando tudo. Sei apenas que após assistir à Princesa Mononoke posso fechar os olhos e enxergar o mundo com o coração.  

Princesa Mononoke (Mononoke Hime, Japão, 1997), de Hayao Miyazaki.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

A mancha

A diretora Lois Weber (1879/1939) tratou de questões ousadas em Hollywood, como aborto

Lois Weber, uma das pioneiras na direção cinematográficas em Hollywood, debate questões sociais importantes nesta película esquecida. O professor Andrew Griggs não ganha o suficiente para custear nem mesmo suas necessidades básicas. Sua mulher não aceita a penúria em que vivem e sente inveja dos vizinhos ricos, a família de Peter Olsen, bem sucedido homem de negócios. 

Estes vizinhos, que dividem a cerca, representa a imensa disparidade de classes dos Estados Unidos pré-depressão. O debate evolui quando Phil West, filho de um milionário e o mais importante conselheiro da Universidade, se apaixona pela filha do professor e passa a conviver com um pastor também muito pobre, com quem compartilha o gosto pelas artes.

Quem move o grande conflito do filme é a esposa do professor quando, em um gesto desesperado, tenta roubar o frango da cozinha de seu vizinho abastado.  Louis Weber não se furta a fazer um discurso panfletário no final do filme, quando o transformado Phil questiona o pai sobre como os professores e clérigos, responsáveis pela formação dos jovens, são forçados e viver em situações de penúria, enquanto os homens de negócios enriquecem livremente. É o olhar feminino de importantes diretoras que, cruelmente, foram expulsas de Hollywood quando os homens de negócios tomaram conta e extirparam, durante décadas, debates fundamentais através do cinema. 

A mancha (The blot, EUA, 1921), de Lois Weber. Com Philip Hubbard, Margaret McWade, Claire Windsor, Louis Calhern.

O pequeno soldado

Bruno Forestier trabalha como repórter fotográfico em Genebra. Ele conhece a modelo Veronica Dreyer, por quem se apaixona de imediato. A relação entre os dois, transitando pela cidade, é o ponto de partida para uma intrincada e confusa trama de espionagem, envolvendo agentes da esquerda e da direita.

Bruno é coagido por agentes de uma facção franco-direitista e é forçado a matar um agente da Frente de Libertação Nacional Argelina. O repórter se recusa, é perseguido, preso e torturado. A longa sequência da tortura em um apartamento é o destaque do filme, levantou polêmicas a ponto da obra ser censurada pelo governo francês. 

“Esse thriller político cujo verdadeiro tema são os poderes miméticos da violência, em que a política se resume a um grande negócio sujo, em que direita e esquerda são rivais miméticos que se reconciliam na tortura, este pequeno filme maldito feito apressadamente, como um bloco de notas, proibido e enxovalhado à esquerda e à direita, talvez tenha sido o maior gesto iconoclasta godardiano, um verdadeiro gesto vanguardista de ruptura simbólica, uma fissura aberta na ordem do simbólico de seu tempo, como prova, aliás, sua imediata interdição – censurado pelo próprio Maulraux, então ministro da Cultura. Nesse ponto seria preciso fazer justiça até mesmo aos censores, pois o filme não foi censurado porque Godard ousou tocar abertamente no tabu da Guerra de Argélia, nem mesmo pela forma irresponsável, quase leviana, com que tratou o tema. A censura se deveu, no fundo, ao fato de Godard ter conseguido chegar à verdade, a uma imagem da Argélia, a tortura. À forma crua e precisa, quase didática, com que filma a tortura.” – Tiago Mata Machado. 

A força de O pequeno soldado está, claro, neste retrato realista, cruel de uma das guerras insanas que perpassaram o século XX. No entanto, impossível não se render também ao olhar de Godard sobre o cinema, representado pela câmera fotográfica de Bruno. Em uma bela sequência, Bruno fotografa sua amada Veronica de forma aleatória no apartamento. Ele professa entre um intervalo das fotos: “Quando fotografamos um rosto, fotografamos a alma que está por trás. A fotografia é a verdade, e o cinema é a verdade 24 vezes por segundo.”

O pequeno soldado (Le petit soldat, França, 1960), de Jean-Luc Godard. Com Michel Subor (Bruno Forestier), Anna Karina (Veronica Dreyer).

Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo. Catálogo da mostra editado pelo Cine Humberto Mauro – Fundação Clóvis Salgado: Belo Horizonte, 2014

A estratégia transmídia no cinema e na TV

No início deste século, o roteirista e produtor Mark Warshaw criou diversos produtos paralelos para a mídia de entretenimento baseados em duas séries de TV. Ele trabalhou em Smallville e depois participou de Heroes, criando filmes para celular, videogames, quis, chats, comunidades virtuais, histórias em quadrinhos e outros subprodutos. A estratégia, denominada transmídia, tem como alvo específico os fãs das séries que movimentam comunidades na internet.

O conceito não é novidade no cinema e na TV. Desde o lançamento de Star Wars, em  1977, a saga de George Lucas é adaptada para quadrinhos, séries animadas, livros, documentários, games, histórias imaginadas a partir de lapsos dos filmes, como as guerras clônicas.

A estratégia é aplicada há mais tempo e encontra exemplos em filmes de sucesso. Em 1900, o escritor Lyman Frank Baum lançou O Maravilhoso mágico de Oz. Motivado pelo sucesso, o autor escreveu livros baseados nos personagens principais que passaram para o rádio, para o cinema mudo, para o teatro. Em 1939, Victor Fleming adaptou o texto e dirigiu um dos mais consagrados filmes de todos os tempos, O mágico de oz, com Judy Garland. As referências passaram então a ser o filme da MGM que motivou cartuns, desenhos animados, musicais da Broadway, peças teatrais, espetáculos de dança no gelo.

O filme é também dos primeiros exemplos de licenciamento de produtos, movimentando indústria de bonecos, jogos e réplicas de situações, cenários e figurinos. O famoso sapatinho vermelho de rubis de Dorothy é ícone cultural imitado por estilistas. 

Outro exemplo vem de James Bond, o mais famoso agente secreto. Os filmes nasceram a partir dos livros de Ian Fleming, escritos entre 1953 e 1966. James Bond é uma franquia e já rendeu quase cinquenta livros sem autoria de Ian Fleming, além de novelas, quadrinhos, programas de rádio e televisão, filmes animados, games, biografia do agente secreto, um James Bond feito em Bollywood e outro asiático.

É também na década de 60 que nasce Star Trek, marca cult do universo televisivo.  A série com Spock, McCoy e Capitão Kirk estreou em 1966 na TV americana e foi exibida durante três temporadas.

Enquanto estava no ar, Jornada nas Estrelas criou legião de fãs, conhecidos como trekkers. A segunda temporada só foi ao ar devido a milhares de cartas de espectadores dos Estados Unidos que foram enviadas à emissora pedindo para não cancelarem a série. Mas nem os trekkers conseguiram impedir o fim após a terceira temporada, ao completar 79 episódios.

No início da década de 70, Star Trek passou a ser reprisada. Paralelamente, os trekkers promoveram convenções com a participação dos atores, criando esse tipo de comunidade comum hoje na internet.

Começaram então as adaptações de Star Trek. Em 1973, foi produzida e exibida na televisão Jornada nas estrelas – a série animada. Em 1979, estreou o primeiro longa-metragem para cinema com os atores da série original. Até agora são seis filmes com a equipe do Capitão Kirk e quatro comandados pelo Capitão Picard, de A nova geração. J. J. Abrams dirigiu mais três longas nos últimos anos, revitalizando a franquia no cinema.

Nos anos 80, começam as revisões de Jornada nas Estrelas para a TV. Star Trek – a nova geração, sete temporadas, 1987 a 1993. Deep space nine, sete temporadas, 1993 a 1999. Voyager, sete temporadas. 1995 a 2001. Enterprise, quatro temporadas, 2001 a 2005. Agora é a vez do streaming: Discovery, produção da Netflix, está na segunda temporada. A Amazon lançou a primeira temporada de Star Trek: Picard.

Para as outras mídias, iniciativas inusitadas como  o dicionário klingon. Foram lançados livros no estilo pulp-fiction aproveitando um conceito que nunca foi desenvolvido durante as séries. Em famoso episódio, o capitão Kirk encontra Khan, espécie de super-homem congelado no espaço. Ele é fruto de experiência genética e tentou, ao lado de outros predestinados, dominar a terra, provocando as guerras eugênicas. A partir desta história, citada em apenas um episódio da TV, livros narraram as guerras eugênicas.

Star trek, James Bond e O mágico de Oz são exemplos da origem do conceito transmídia. Todos se apropriaram das mídias, em variados formatos, para estabelecer contato permanente com o público, com os fãs. A internet criou possibilidades imediatas para a disseminação deste trabalho, principalmente em quesitos como velocidade de propagação, descobertas, interação com o público. Representa, talvez, a famosa epígrafe do ícone cultural intitulado Star Trek: “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”.

Violet Evergarden: eternidade e a boneca de automemória

Após a primeira guerra mundial, a jovem guerreira de mãos mecânicas Violet Evergarden trabalha em uma instituição como redatora de cartas. Ela é uma Boneca de Automemória e é designada como dama de companhia de Isabela York que mora em uma escola de meninas de boas família. “Esta é minha prisão. Uma escola de meninas separada do mundo por muros altos. Todas as alunas vêm de famílias respeitáveis ou se casarão com alguém respeitável.” Reflete Isabela logo na abertura do filme. 

A função de Violet é fazer com que Isabella tenha sucesso como debutante, ensinando durante três meses cultura, conversação, etiqueta e dança. Além de professora, Violet inspira sentimentos e afetos. No entanto, Isabela tem um passado enigmático, está presa em memórias traumáticas.  Ela viveu a vida miserável das ruas, lutando dia a dia em busca de pão para sobreviver. Ela encontra, também nas ruas, Taylor, menina indigente. As duas vão morar juntas e Isabela dedica sua vida a cuidar da irmãzinha. Quando a família nobre de Isabella a descobre e a resgata da miséria, Taylor é enviada para um orfanato. O destino das irmãs separadas se cruza com Violet, que passa a acalentar os sonhos e os corações das jovens, principalmente com as cartas que escreve. 

O longa de animação é baseado no anime de estrondoso sucesso Violet Evergarden. A história é plena de memórias, afetos, gestos simbólicos, cartas emocionantes que perpassam o tempo. “Basta dizer meu nome e nosso vínculo durará para sempre.” “O carteiro entrega felicidade.” Frases que dizem do mundo no qual vivemos, distantes de afetos, sem cartas para recuperar memórias e sentimentos. 

Violet Evergarden: eternidade e a boneca de automemória (Japão, 2019), de Haruka Fujita.

A felicidade não se compra

O filme foi fracasso de bilheteria quando lançado e o diretor Frank Capra recebeu críticas severas por extravasar mais uma vez seu estilo sentimentalista, melodramático e brega. Essas injustiças foram rechaçadas com o tempo. Na década de 70, A felicidade não se compra caiu em domínio público e passou a ser exibido quase à exaustão na TV, principalmente por ocasião das festas natalinas. O filme foi reconhecido pela crítica e pelo público como uma das obras mais sensíveis e tocantes da história do cinema, visto até mesmo como um alívio diante da exacerbação consumista que dominava e ainda domina a mídia. 

George Bailey é um jovem sonhador que mora na pequena Bedford Falls, em Connecticut. Passa o tempo contando os dias para deixar a cidade e viajar pelo mundo. A morte precoce do pai, pequeno banqueiro da cidade, é o primeiro entrave aos seus planos. Ele assume o negócio e, a partir daí, luta contra o capitalismo selvagem, representado pelo milionário Mr. Potter (atuação inesquecível de Lionel Barrymore) que deseja primeiro comprar o pequeno banco e seu proprietário. Quando não consegue, trama para destruir George Bailey. Na véspera da noite de natal, Bailey está falido, sem perspectivas, frustrado por ter renegado seus sonhos. Dirige a esmo pela cidade tomada pela neve, bate em uma árvore, caminha desesperado até uma ponte e decide se matar.  

A virada da história é Clarence, anjo que desce à terra para tentar salvá-lo. Para isso, o anjo leva George a uma viagem por uma nova cidade: Bedford Falls é agora Potterland, cidade corrompida e entregue à selvageria capitalista. O motivo? George Bailey não existiu nesta cidade.

“Somente o idealismo de George e seu auto sacrifício enfrentando essas dificuldades para manter a comunidade unida – apesar do provincianismo -, com pessoas amigáveis, o comércio simples e O sinos de Santa Maria sendo exibido no cinema local. Se ele não estivesse lá, a cidade seria um inferno sombrio, em que a adorável Violet (Gloria Grahame) é presa pela polícia de costumes e a Main Street é uma confusão de letreiros de neon e malandragem; o cinema é um bordel. Convencido de que, apesar de tudo, sua vida vale a pena, George se atém à flor que lhe fora dada por uma filha que ele impensavelmente ignorou a vida toda. Ele é chamado à realidade durante uma emotiva reunião familiar – o banco é salvo por pequenos investidores, o anjo consegue suas asas e George canta, aos prantos, Merry Christimas em coro com todo mundo. É uma cena tão tocante e animadora que o filme pode deixar o dilema da sua trama sem solução: Potter ainda fica com o dinheiro roubado do banco e continua mau.” 

Quanto aos detratores de Frank Capra, espero que todo final de ano o anjo Clarence exiba A felicidade não se compra em sessões exclusivas para estes incrédulos da felicidade humana. Nós, os sonhadores, esperançosos, bregas, guardamos o filme no coração. 

A felicidade não se compra (It’s a wonderful life, EUA, 1946), de Frank Capra. Com James Stewart (George Bailey), Donna Reed (Mary), Lionel Barrymore (Mr. Potter), Henry Travers (Clarence). 

Referência: Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011