Fazendo um bebê (Faire un enfant, Canadá, 2023), de Eric K. Boulianne.
O filme abre com uma ousada e divertida cena de sexo. Depois de ejacular, Lui (Éric K. Boulianne), pede a sua jovem esposa Elle (Florence Blain Mbaye) que fique com as pernas esticadas para cima. Ela pergunta “até quando vou ficar assim” e ouve a resposta: “não sei, até quando engravidar.”
O casal resolveu ter um filho e passa os dias praticando sexo, às vezes até a exaustão, e de diversas formas diferentes. A gravidez não acontece e as tentativas acabam minando o relacionamento de Lui e Elle.
O tom de humor e erotismo percorre a narrativa neste curta realizado pelo ator, roteirista e diretor canadense Eric K. Boulianne. O final inusitado reforça o bom humor desta obra também dramática.
Les patins (Canadá, 2023), de Halima Ouardiri. Com Sophie Cadieux (a mãe), Ines Feghouli (Mina), Mani Solymanlou (o pai).
A adolescente Mina sonha em ser patinadora artística. No dia em que se passa a narrativa, o pai de Mina a observa durante a aula de patinação. Na volta para casa, ele esquece de propósito os patins dentro do ônibus, deflagrando o conflito: ele acusa a jovem de ter perdido os patins, revelando seu caráter vingativo contra a ex-esposa, incentivadora da filha no esporte.
A diretora Halima Ouardiri, nascida em Genebra (filha de mãe suiça e pai marroquino) explora com sensibilidade o drama familiar. A troca de olhares entre o ex-casal, no final do filme – o do pai irônico, da mãe, rancoroso (enquanto MIna está quieta, envergonhada) – diz mais do que todas as palavras possíveis.
Tara, Skye e Em, três adolescentes de férias, chegam a uma badalada ilha grega em busca de diversão. O clima de euforia entre as amigas é contagiante, deixando claro desde o início o principal motivo da viagem, expresso no título da película.
A narrativa acompanha esse rito de passagem, tratando com sensibilidade e um olhar amoral a procura das jovens, principalmente da protagonista Tara, cuja sensibilidade vai se confrontar com as indecisões da entrega.
How to have sex conquistou a categoria Un Certain Regard no Festival de Cannes, ajudando a revelar a jovem diretora Molly Manning. O que parece ser uma comédia de verão, leve e descontraída, envereda por questões perturbadoras, como o uso de álcool e drogas pela juventude e, principalmente, os limites da não-permissão, do abuso sob os efeitos químicos.
A narrativa é movida a música, álcool, drogas e brincadeiras extremas sob a praia e sol escaldante da Grécia. A interpretação de Mia McKenna Bruce é o ponto de destaque da trama: a princípio leve, passo a passo melancólica, até se transformar em um pesadelo psíquico.
How to have sex (Inglaterra, 2023), de Molly Manning. Com Mia McKenna Bruce (Tara), Lara Peake (Skye), Enva Lewis (Em), Samuel Bottomley (Paddy), Laura Ambler (Paige).
Folhas de outono (Kuolleet lehdet, Finlândia, 2023), de Aki Kaurismaki.
O gênero conhecido como comédia romântica ou drama romântico é impregnado dos clichês narrativos que permeiam os encontros entre personagens que, naturalmente, caminham para o romance e os obstáculos que se interpõem a viver esse amor. Folhas de outono respeita esses elementos, mas é uma agradável surpresa, pois esses encontros e desencontros são vividos de maneira natural e terna pelos protagonistas.
Ansa (Alma Poysti) trabalha como caixa em um supermercado até ser demitida por levar alimentos vencidos, que deveriam ser descartados, para casa. Holappa (Jussi Vatanen) trabalha na construção civil e também é demitido após ser apanhado bebendo em serviço. Duas pessoas e almas solitárias que lutam para sobreviver. O casal se encontra em Helsinque e o envolvimento passa por telefones perdidos, impossibilidade de contato físico e, o mais importante: o quase irremediável alcoolismo de Holappa.
O filme conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e concorreu à indicação ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro pela Finlândia. O diretor Aki Kaurismaki narra a relação entre Ansa e Holappa por meio de um estilo minimalista, fotografia desbotada e luz suave, diálogos rápidos e cortantes. A solidão do casal nas ruas frias e úmidas de Helsinque é carregada de melancolia, porém com um leve bom humor, algo como a dizer: os dias passam assim.
Estranha forma de vida (Espanha, 2023). Só mesmo o espanhol Pedro Almodóvar conseguiria homenagear o clássico filme de faroeste, respeitando os elementos narrativos e estéticos do gênero, mas subvertendo de forma ousada as relações entre dois ícones do velho oeste: o xerife e o pistoleiro.
Silva (Pedro Pascal) entra na cidade à procura de Jacke (Ethan Hawke), atual xerife. É um reencontro após 25 anos, os dois foram amigos e amantes na juventude. A paixão reacende, os dois passam a noite juntos, mas no dia seguinte a verdade sobre o reencontro vêm à tona: Jacke está na caça de um assassino – o jovem é filho de Silva.
Estranha forma de vida foi produzido pela grife de luxo Yves Saint Laurent, tornando o curta-metragem também uma estratégia de storytelling. Almodóvar, claro, teve liberdade para compor uma trama que oscila entre a paixão queer, a rusticidade e a violência do oeste americano. Ethan Hawke e Pedro Pascal estão perfeitos, assumindo com naturalidade e tristeza o belo caso de amor que vivem no filme.
No final, Pedro Almodóvar não desaponta o espectador amante dos faroestes: o duelo acontece, de forma brutal, porém terna.
Thelonious “Monk” Ellison (Jeffrey Wright) é professor universitário e autor de livros desprezados pela crítica e pelo público. Após uma crise no trabalho, ele vai visitar a família em Boston e se vê obrigado a cuidar da mãe que sofre de Alzheimer. Frequentando circuitos literários ele se defronta com autores que considera sem talento algum, mas cujos livros viram best-sellers por retratar a cruel vida dos afrodescendentes nos EUA, explorando o melodrama e a violência.
Ficção americana foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado . A virada de roteiro promove uma forte crítica à indústria editorial americana e à sociedade que se deleita com histórias regadas a violência. Monk escreve um livro sensacionalista, com o pseudônimo de Stagg R. Leigh, uma espécie de piada, segundo ele mesmo, que nunca seria levada a sério. No entanto, o livro é comprado por uma editora e dispara na lista dos mais vendidos.
O intrigante final eleva a crítica também ao modelo comercial do cinema de Hollywood, colocando em discussão um tema comum no universo editorial e cinematográfico: a luta pela autoria, o conflito entre sucesso comercial e integridade artística. Com leveza e bom humor, Ficção americana é uma surpresa no cinema independente.
Ficção americana (American fiction, EUA, 2023), de Cord Jefferson. Com Jeffrey Wright, Tracee Ellis Ross, John Ortiz, Erika Alexander, Leslie Uggams, Sterling K. Brown.
O ano é 2010. Em uma colônia agrícola, moram homens e mulheres regidos pela ortodoxia religiosa que coloca os homens no poder e as mulheres em posições subalternas e subservientes – não podem nem mesmo aprender a ler. Durante um período, jovens da comunidade são drogadas e estupradas, algumas engravidando dos agressores.
Alguns desses homens são identificados e levados para a delegacia. Mas os anciões da aldeia avisam: todos os homens vão voltar em 48 horas e as mulheres devem perdoar os agressores.
A diretora Sarah Polley adaptou o livro de Miriam Toews que recria os crimes que ocorreram contra as mulheres em um colônia menonita, na Bolívia, em 2009. Grande parte da trama se passa dentro de um celeiro. As mulheres devem votar em três opções: perdoar os agressores, fugir, ficar e lutar. Após empate entre as duas últimas opções, oito mulheres são escolhidas para analisar e decidir.
A direção de fotografia espelha, nas cenas externas, a beleza agreste da colônia, com seus campos floridos, o entardecer inebriante, como se fosse um lugar idílico, belo de se viver. Nas cenas internas, particularmente dentro do celeiro, onde acontecem os longos debates entre as mulheres (women talking) a fotografia carrega no ar claustrofóbico, de pura angústia, medo e tristeza – em ambientes assim, as mulheres são espancadas e estupradas.
Entre mulheres concorreu a dois Oscars: Melhor filme e Roteiro Adaptado. Vale destacar as atuações de Rooney Mara, Claire Foy e Jessie Buckley. O embate verbal entre as três personagens é sensível, sofrido, quase como um grito de desespero. É um filme de uma brutalidade ensurdecedora, mesmo sem mostrar nenhuma agressão física.
Entre mulheres (Women talking, EUA, 2023), de Sarah Polley. Com Rooney Mara (Ona), Claire Foy (Salome), Jessie Buckley (Mariche), Judith Ivey (Agata), Emily Mitchell (Miep), Ben Whishaw (August).
O jovem Oliver Quick chega a Oxford para um período de residência. É o início dos anos 2000 e a juventude da renomada universidade segue os padrões rotineiros: estudos, baladas, álcool, sexo. Oliver, cuja narração em off acompanha a trama, se apaixona pelo belo milionário Felix, “não estou apaixonado por Feliz, eu o amo”, destaca Oliver.
Nas férias de verão, Oliver é convidado por Felix para passar a temporada na mansão de sua família. Saltburn é uma espécie de castelo de contos de fadas, habitado por Sir James Catton, sua esposa Elspeth e Annabell, irmã de Félix. E, claro, uma legião de estranhos empregados.
A fotografia do filme é um dos destaques, evidenciando a beleza interna e externa da propriedade, assim como os corpos dos jovens neste verão reluzente, pleno de devaneios eróticos. Oliver, a princípio tímido (ou aparenta) passa a ser o pivô de um sensual jogo de manipulação entre a família e convidados. Um dos méritos da diretora Emerald Fennell é tratar de todo o erotismo através de insinuações tensas, sem usar de cenas de sexo ousadas. Félix é o centro do desejo, sua beleza atrai naturalmente os anseios de todos, inclusive dos espectadores. O ponto negativo do filme é a reviravolta final, expressa em confusos flashbacks que exploram a verdadeira personalidade de Oliver.
Saltburn (EUA, 2023), de Emerald Fennell. Com Barry Keoghan (Oliver Quick), Jacob Elord (Felix Catton), Rosamund Pike (Elspeth Catton), Richard E. Grant (Sir James Catton), Archi Madekwe (Fernleigh), Sadie Soverall (Annabel Catton).
José Mojica Marins, o Zé do Caixão, filmou A praga em 1980, mas não terminou o filme. Era o início de uma década praticamente perdida para o cinema brasileiro, quando muitos cineastas, sem condições de financiamento, incerraram a carreira.
Em 2007, foram encontrados rolos de filmes super-8 com o material bruto de A praga. O material foi digitalizado, cenas adicionais foram gravadas, mas novamente tudo foi arquivado. Finalmente, em 2021 o filme passou pelo processo de restauração em alta resolução, com tratamento de som e imagem.
A narrativa é simples e provocativa: um fotógrafo é alvo de uma praga de uma senhora durante um final de semana, quando tenta tirar fotos dela em seu sítio. A bruxa passa a atormentar o fotógrafo de forma escabrosa, torturando-o com visões macabras que o fazem consumir carne crua por uma chaga aberta no ventre.
O próprio José Mojica Marins narra a história, pontuada por suas aparições também tenebrosas. A praga é o único filme inédito do cultuado mestre do terror brasileiro.
A praga (Brasil, 1980/2023), de José Mojica Marins. Com Felipe Von Reno, Wanda Kosmo, Sílvia Gless.
Depois de O beijo no asfalto, O ator/diretor Murilo Benício se debruça mais uma vez sobre uma peça teatral em sua segunda direção cinematográfica. Pérola é baseado na obra de Mauro Rasi que transpôs para os palcos as memórias de suas relações familiares em Bauru, centradas na personalidade forte, divertida e briguenta de sua mãe.
O filme alterna momentos de pura comédia, retratando o cotidiano dessa família de classe média dos anos 70 aos 90, lideradas por Pérola, cujo sonho é ter uma piscina em sua casa. Entre caipirinhas, caipivodkas e diversos outros drinks, a família se diverte e briga. O olhar de Mauro em sua família é carregado de ternura e, muitas vezes, agressividade, pois suas escolhas profissionais no mundo da escrita são combatidas com veemência pela mãe.
O filme, claro, é de Drica Moraes. Mas uma vez a atriz destila talento em um papel carregado de irreverência, humor e melodrama. O final é enternecedor, nos faz lembrar com saudades dos bons momentos em família (sem o excesso de caipirinha, claro).
Pérola (Brasil, 2023), de Murilo Benício. Com Drica Moraes (Pérola), Leonardo Fernandes (Mauro), Cláudia Missura (Tia Norma), Rodolfo Vaz (Vado).