Baxter, Vera Baxter

A escritora, roteirista e diretora Marguerite Duras experimenta a transposição puramente literária para o cinema em Baxter, Vera Baxter. A narrativa coloca em cena praticamente duas personagens em longos diálogos, com estilo literário, sobre as angústias e frustrações dos relacionamentos amorosos.

Vera Baxter mora em uma luxuosa casa de campo alugada por seu marido. Ela recebe a visita de uma mulher que deve acompanhá-la ao encontro de seu amante, Michel Cayre. Vera passa o filme quase todo sentada no sofá, entabulado conversas frias e ao mesmo tempo plenas de significados com essa mulher desconhecida. A música de uma festa na casa vizinha invade o ambiente repetidamente. Inserts de Vera nua na cama compõem a trama dessa mulher reservada e enigmática, que, possivelmente, foi cedida como dívida de jogo por seu marido ao amante Michel Cayre. A película exige a entrega do espectador às reflexões literárias provocadas pelos densos diálogos.

Baxter, Vera Baxter (França, 1977), de Marguerite Duras. Com Claudine Gabay (Vera Baxter), Delphine Seyrig (a desconhecida), Gérard Depardieu (Michel Cayre).. 

Num ano de 13 luas

O filme tem uma das sequências mais difíceis de assistir do cinema. Elvira guia Zora por um frigorífico, lembrando de sua antiga profissão, quando ainda era Erwin. O diálogo em off é acompanhado por uma sucessão de bois sendo executados, as cabeças cortadas, sangue jorrando pelo chão, os funcionários descamando as vítimas. Aterrador. 

A narrativa acompanha cerca de trinta dias na vida de Elvira, em 1978, começando quando ela é agredida por um grupo de homens em um parque e, logo depois, sendo abandonada por seu namorado. A reconstituição da vida da protagonista é feita através de longas narrações, entrecortadas por seus encontros com pessoas que marcaram sua vida: sua ex-esposa e filha, sua amiga Zora, Anton Saitz, um antigo amigo que foi decisivo na transformação de Elvira. 

As imagens de Fassbinder beiram o surrealismo, retratando os personagens de forma caricata, com comportamentos entre alegóricos e deprimentes. Num ano de 13 luas foi inspirado no ex-amante de Fassbinder que se suicidou antes da produção do filme. Fique com a narrativa do diretor que abre a película, pontuando o nome e o tema desta obra ousada e polêmica. 

“A cada sete anos chega um Ano da Lua. Aqueles que deixam suas emoções influenciar suas vidas sofrem depressões ainda mais intensas nesses anos. Em menor medida, o mesmo pode ser dito dos anos com 13 luas novas. Quando um Ano da Lua também tem 13 luas, podem acontecer tragédias pessoais inevitáveis. No século XX, essa perigosa constelação ocorre num total de seis vezes. Uma delas em 1978. Antes disso, ocorreu em 1908, 1929, 1943 e 1957. 1992 também será um ano em que as vidas de muitas pessoas estarão ameaçadas.”

Num ano de 13 luas (In einem jahr mit 13 monden, Alemanha, 1978), de Rainer Werner Fassbinder. Com Volker Spengler (Elvira), Ingrid Caven (Zora), Gottfried John (Anton Saitz), Elisabeth Trissenaar (Irene). 

O império da paixão

Após o aclamado e polêmico O império dos sentidos, Nagisa Oshima fez essa obra centrada em um triângulo amoroso movido pela paixão, crime e culpa. É também uma história de fantasmas.

Em uma vila japonesa do final do século XIX, a bela e desejada Seki é casada com Gisaburo, um condutor de riquixá. Toyo, um jovem rebelde e inconsequente, seduz Seki e os dois começam um tórrido relacionamento sexual (atenção para a cena em que Toyo pede que a amante raspe suas partes íntimas). 

 Não é spoiler: em histórias assim, o marido sempre é assassinado. Essa virada no roteiro provoca a ruína dos amantes, cada vez mais entregues à paixão e à culpa. Seki começa a ser assombrada pelo fantasma do marido que implora para que o tirem do poço onde seu cadáver foi jogado. A partir daí, o destino trágico dos amantes está traçado. Mais uma vez, o erotismo do cinema de Nagisa Oshima provoca o espectador com violência. 

O império da paixão (Ai no borei I, Japão, 1978), de Nagisa Oshima. Com Kazuko Yoshiyuki (Seki), Tatsuya Fugi (Toyoji), Takahiro Tamura (Gisaburo).

Planeta fantástico

A obra cult de René Laloux usa a fascinante animação de recortes, criada por Roland Topor , e uma fascinante trilha sonora de jazz psicodélico. A narrativa se passa no planeta Ygam, habitado pelos gigantes Draags, cuja pele tem coloração azul. Os Draags vivem em processo de meditação constante, mas, apesar deste avanço psicológico, têm seu lado cruel: eles escravizam humanos, adotando-os como animais de estimação. No entanto, humanos “selvagens”, que vivem escondidos, planejam uma rebelião. 

Planeta fantástico segue uma tendência narrativa comum a partir do final dos anos 60, iniciada com o clássico Planeta dos macacos: os humanos é que são tratados como animais, como escravos. Logo na primeira sequência da animação, a crítica severa dá o tom da narrativa: um grupo de crianças Draags mata, como uma brincadeira, uma humana que foge com seu bebê nos braços. Esse menino, narrador da história, será o líder da rebelião.  

Planeta Fantástico (La Planète Sauvage, França, 1973), de René Laloux.

Mimetismo

A trama se passa em uma grande casa de campo, durante um congresso universitário de apresentação de artigos científicos. O jovem professor Jakub é o responsável pela organização do evento, tendo que prestar contas sempre a Jaroslaw, seu antigo professor. 

Os longos embates entre os dois professores, de posições intelectuais conflitantes, dominam a narrativa. Outro conflito acontece entre um grupo de alunos, insatisfeitos com os rumos das apresentações, e os organizadores. 

O diretor Krzysztof Zanussi retrata neste pequeno microcosmo burguês intelectual a situação da Polônia durante o regime comunista, marcada por conflitos de classes, por embates entre os velhos representantes do partido e os jovens ansiosos por mudanças. É o eterno conflito de gerações, radicalizado em uma sociedade que insiste em preservar os valores sociais, políticos e culturais do regime dominante. 

Mimetismo (Barway ochronne, Polônia, 1977), de Krzysztof Zanussi. Com Piotr Garlicki (Jaroslaw Kruszyński), Zbigniew Zapasiewicz (Jakub Szelestowski), Christine Paul (Nelly). 

Os palhaços

O início do filme dá o tom deste documentário, misturado com ficção: um menino observa deslumbrado da janela de seu quarto a montagem de um circo. Na noite de estreia, ele está presente, mas ao se ver cara a cara com um palhaço, corre assustado para casa. O menino, claro, é Fellini, o circo é o seu cinema. 

De início, a narrativa abre espaço para o picadeiro do circo com suas atrações, Depois, concentra-se em diversos palhaços que interpretam seus números, cantam, dançam, revelam a arte circense desses anônimos que tomaram conta do imaginário de crianças mundo afora. É a homenagem de Fellini aos palhaços que ele tanto amou e copiou: personagens mascarados, espécies de super-heróis ao avesso, espontâneos, atrapalhados, impudicos, quase sem limites em suas reverberações corporais. 

Os palhaços (I clowns, Itália, 1970), de Federico Fellini. 

Iluminação

O filme abre com o Professor Wladyslaw Tatarkiewicz discursando para o espectador sobre o conceito de iluminação, definido por Santo Agostinho. A seguir, uma série de cenas do jovem Franciszek Reitman passando por provas físicas e psicológicas, visando sua aprovação em uma conceituada universidade polonesa para estudar física. 

A narrativa acompanha os conflitos psicológicos de Franciszek durante seus estudos e sua convivência social. É um embate entre a razão e a fé, entre o racionalismo e a emotividade. Tudo se transforma para o jovem estudante quando ele se apaixona, casa e tem um filho. 

Ao acompanhar dez anos na vida de Franciszek, o diretor Krzysztof Zanussi tece uma profunda reflexão sobre a juventude polonesa do pós-guerra que busca sentido para a vida na sociedade regida pelo comunismo. Promessas que não se cumprem, amores que devem sobreviver ou não às dificuldades cotidianas, a busca pelo trabalho, pelos estudos, o essencial contraponto entre a fé e a razão, é a Polônia refletida em um cinema poderoso e poético. 

Iluminação (Iluminacja, Polônia, 1973), de Krzysztof Zanussi. Com Stanislaw Latallo (Franciszek Retman), Monika Dzienisiewicz (Agnieszka), Małgorzata Pritulak (Małgorzata). 

O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin

O historiador Mark Cousins disse que o cinema dos anos 70 trouxe aquilo que sempre quisemos ver nas telas. Está se referindo a nudez, sexo, violência. Sergio Grieco, diretor italiano do movimento conhecido por nunsploitation, faz parte desta galeria de realizadores que invadiram o cinema da época com filmes ousados, polêmicos, recheados de erotismo, sem se preocupar com o bom gosto. 

As excomungadas de São Valentin narra uma história de amor baseada em Romeu e Julieta. Esteban, da nobre família Albornoz, é apaixonado por Lucita Fuentes, cujo pai, Alfonso Fuentes, não aceita esse namoro, pois as duas famílias são rivais eternas. Como punição, Lucita é enclausurada em um convento Para completar, Alfonso acusa falsamente Esteban de um homicídio, tornando-o foragido da justiça. Perseguido pelos guardas, Esteban, ferido, se refugia no convento onde Elisa está. 

O filme se passa inteiramente dentro do convento. Elisa é asseadiada por Josefa, sua colega de quarto lésbica (atenção para a cena em que Josefa se acaricia nua na cama de Elisa). Logo depois, Josefa é assassinada e mistérios começam a ser investigados, revelando o sadismo sexual da Madre Superiora. 

A película é recheada de cenas de nudismo (seios das freiras aparecem em profusão), tortura praticada pela inquisição e uma sequência aterradora de amparedamento das freiras. Depois de tanto atrevimento, abusando do gosto duvidoso, Sergio Grieco brinda o espectador com uma virada na história de Romeu e Julieta. 

O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin (Le scomunicate de San Valentino, Itália, 1974), de Sergio Grieco. Com Françoise Prévost (Madre Superiora), Jenny Tamburi (Lucieta Fuentes), Paolo Malco (Esteban Albornoz), Franco Ressel (Alfonse Fuentes), Gino Rocchetti (Joaquim), Bruna Beani (Josefa).

Expresso para Bordeaux

Expresso para Bordeaux é o último filme do consagrado Jean-Pierre Melville, diretor que se destacou pelas suas ambições técnicas e narrativas, se aproximando do chamado “cinema de qualidade” francês. A narrativa acompanha um triângulo amoroso entre os amigos Edouard e Simon, ambos apaixonados por Cathy. É um filme policial com as características do cinema noir (Melville queria homenagear o gênero do cinema que mais amava, o americano). 

Simon lidera uma quadrilha de assaltantes. A longa e silenciosa primeira sequência é o assalto ao banco em uma cidade próxima a Paris. É a marca de Melville, presente em quase toda a progressão narrativa da pelicula: grandes silêncios, planos longos, muitas vezes em plano sequência. O caminho dos dois amigos se cruzam tragicamente durante a investigação desse e de outros crimes, colocando, principalmente Edouard, diante de seus princípios. 

O destaque da trama é a sequência do assalto ao trem, quando Simon e seus dois comparsas usam um helicóptero à noite. De novo, a marca de Melville: uma sequência longa e silenciosa, quase toda centrada em Simon, que desce do helicóptero para o teto do trem e depois para o interior. Expresso para Bordeaux é um clássico que exige do espectador aquilo que o cinema tem de potente: a necessidade da contemplação. 

Expresso para Bordeaux (Un flic, França, 1972), de Jean-Pierre Melville. Com Alain Delon (Comissário Edouard), Catherine Deneuve (Cathy). Richard Crenna (Simon), Riccardo Cucciolla (Paul Weber).

A noite americana

François Truffaut sempre afirmou como o cinema americano foi importante em sua formação de cineasta. Ele disse que assistiu mais de 1.500 filmes estadunidenses, escreveu críticas poderosas a respeito do cinema clássico e publicou um dos livros mais importantes sobre cinema da história: Hitchcock/Truffaut – Entrevistas

A noite americana é sua grande homenagem ao cinema que amava e por extensão ao cinema do mundo inteiro. É um filme sobre o processo de fazer filmes, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

O próprio Truffaut interpreta Ferrand, um diretor de cinema durante a realização de um filme de gênero. Sua estrela é a bela Julie Baker que faz par romântico com Alexandre. Durante as filmagens, as relações entre a equipe apresentam as nuances típicas das relações de trabalho: conflitos, agressividades, afetuosidade, relações amorosas, sexuais… Cabe a Ferrand apaziguar tudo isto, pois tudo que ele deseja é terminar seu filme. 

“Truffaut realça a transitoriedade, a fragilidade e a irrealidade da vida em uma locação de filmagem – deixando até mesmo, em uma cena hilária e surpreendente, que um intruso solte o verbo para criticar essa gente de cinema por sua imoralidade desenfreada. A noite americana expõe de forma carinhosa muitas ilusões do processo de filmagem – como podemos constatar quando o sentido de seu título é revelado – mas mantém a nossa admiração diante da magia dos filmes. Como ocorre em outras obras de Truffaut, as cenas de montagem rápida – dedicadas ao frenesi da sala de edição, ou a complicada cena filmada com neve artificial – exprimem afeto profundo e apreço pelas coisas práticas de seu ofício.”

A noite americana (La nuit américaine, França, 1973), de François Truffaut. Com François Truffaut (Ferrand), Jacqueline Bisset (Julie Baker), Jean-Pierre Léaud (Alphonse), Valentina Cortese (Séverine). Jean-Pierre Aumont (Alexandre).  

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.