O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição.
O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.
Los huesos (Chile, 2021), de Cristóbal León e Joaquín Cociña.
No início do século XX, uma jovem invoca a ajuda de espíritos para trazer dois cadáveres de volta à vida. Os ressucitados são Diego Portales, um dos responsáveis pela constituição de 1833 que consolidou o Chile como uma república autoritária, privilegiando as altas classes sociais; e Jaime Guzmán, conselheiro político próximo do ditador Augusto Pinochet. A narrativa mescla humor negro, com fortes críticas políticas e sociais sobre a história e a realidade atual do Chile.
Segundo os realizadores, a ideia do filme partiu como uma crítica às crises sociais chilenas, evoluindo para um filme de animação farsesco, colocando o Chile como um dos inventores da animação em stop motion.
“Um dos pontos de partida foi que estávamos no meio de uma revolta social no Chile em 2019. Chamamos isso de “Estallido Social”, que significa explosão social. Herdamos o sistema político de uma ditadura. A diferença entre pobres e ricos é grande. É um sistema muito injusto. Então, esse foi o contexto em que começamos a pensar sobre esta produção. Pegamos duas figuras da história chilena, uma do século XIX e outra do século XX. Ambas eram defensoras da oligarquia. Queríamos nos livrar desses líderes de alguma forma e libertar o Chile dessa opressão. Não que estejamos nos levando tão a sério. Não é como se achássemos que nosso filme fosse mudar alguma coisa.” – Cristóbal León
Joaquin Cocina comenta que o outro contexto era a história do cinema, principalmente o primeiro cinema, referenciado por Georges Méliès e os Irmãos Lumiére: “Precisamos criar uma mente criativa falsa por trás do filme que não seja a nossa. Isso nos dá mais liberdade e distanciamento. Também nos interessamos pelo cinema antigo. No início do século XX, havia uma criatividade incrível. Havia Georges Méliès, um mágico que fazia filmes de fantasia; depois, havia uma abordagem mais documental, dos irmãos Lumière. Duas correntes diferentes. Estamos tentando abordar projetos pensando naqueles primeiros anos. Com Los Huesos, a ideia é muito crua. Estamos fingindo que estamos criando o primeiro filme de animação. Achamos engraçado imaginar que o Chile foi o berço da animação. Depois, pensamos nos primeiros filmes de [Ladislas] Starewicz, feitos com cadáveres de animais e insetos. Achamos lindos. Então, imaginamos que estávamos animando cadáveres no início do século XXI. Achamos isso engraçado.”
O resultado é um filme deslumbrante, com estética do cinema mudo, remetendo às primeiras experimentações na área da animação. “Nós animamos apenas na câmera. Não usamos nenhum software. Eu adoro aquela sala escura da câmera, onde você nunca sabe como vai ficar. Uma câmera de 16 mm é radical porque você não sabe o que está acontecendo. Gostamos de acidentes, de trazer erros para o processo. Eu gostava do mistério de não saber o que sairia da câmera. Também evitamos apressar os cortes. No cinema antigo, as cenas eram mais longas e muitas vezes se prolongavam.” – Acesse a entrevista completa dos realizadores em Cartoon Brew.
Trailer of the film that will never exist: ‘phony wars’ (França, 2023), de Jean-Luc Godard, começa com uma colagem de pinturas, frases poéticas desenhadas à mão, imagens de cinema, intituladas trailer de filmes de drones. Tudo fica em tela por intermináveis segundos, amparado pelo silêncio. O primeiro som é a narração em off da teórica de cinema Nicole Brenez: “É como uma imagem que vem de longe. São duas lado a lado. Ao lado dela, sou eu. Nunca a vi antes. Eu me reconheço. Mas não me lembro de nada. Deve estar acontecendo longe daqui. Ou mais tarde.” A abertura demarca o cinema experimentalista de Jean-Luc Godard, que nunca deixou de lado o curta-metragem como exercício de filmes abstratos, não estruturais, imagens e sons tomando conta da mente do espectador.
A premissa do filme/trailer é uma adaptação do romance Faux passports, de Charles Plisnier, publicado em 1937: “Eis um cenário (na verdade, uma simples adaptação cinematográfica de um velho romance) que diverge de nomes como Carné ou Palma, ao rejeitar as bilhões de imposições alfabética para libertar as incessantes metamorfoses e metáforas de uma linguagem necessária e verdadeira; retomando aos locais de filmagens passadas, mas levando em contas os tempos modernos.
Trailer of the film… foi lançado após a morte de Godard. O próprio diretor narra o seu processo de construção desse filme/colagem que se transmuta em cinema, artes plásticas, poesia, música, literatura, fotografia, filosofia, política e tudo mais que pautou a vida e o cinema de Jean-Luc Godard, o cineasta mais influente do cinema contemporâneo.
Depois do amanhecer (Après l’aurore, França, 2023), de Yohann Kouam. Com Mexianu Medenou, Chloé Lecerf, Rayan Bourouina.
A narrativa acompanha um dia na vida de três personagens que moram em um conjunto habitacional na periferia da cidade. Yves, um artista, acaba de chegar de Berlim, onde morou por alguns anos. Ele tenta se reconectar com a família e antigos amigos do bairro onde cresceu. Hamza, um adolescente surdo, faz parte de um grupo de marginais e se defronta com desafios que podem levá-lo à criminalidade. Déborah, uma treinadora de basquete, vive solitária até que conhece uma jovem com quem começa um relacionamento.
O filme é marcado por uma fotografia que destaca a noite e, simbolicamente, deixa a luz do início da manhã tomar conta desta periferia e seus personagens que transitam sem rumo, sem propósito definido, a não ser viver a cada dia depois do amanhecer.
Four unloved women, adrift on a purposeless sea, experience the ecstasy of dissection (Candá, 2023), de David Cronenberg.
O curta tem pouco mais de quatro minutos intensos e provocativos. A câmera caminha rende a água do mar, vislumbrando corpos femininos deitados ao sol. Sobe pelas pernas bronzeadas até revelar figuras de cera com as barrigas abertas, órgãos expostos, vísceras se confundindo com a beleza das mulheres de David Cronenberg.
A trilha sonora envolvente acirra ainda mais a sensação mista de erotismo e horror. O diretor canandense faz uma espécie de releitura de seu próprio filme, Crimes do futuro (2023), buscando inspiração nas esculturas renascentistas do século XVIII. A narrativa visual deixa reflexões sobre a exposição de corpos no mundo contemporâneo. Reflexões perigosas.
Sonhos como barcos de papel (Des rêves en bateaux papiers, Haïti, 2024), de Samuel Frantz Suffren.
Edouard mora em Porto Príncipe, Haiti, com a filha Zara. Ele tem uma barraca de sucos naturais e divide seu tempo entre o trabalho e o cuidado carinhoso da filha. Sua esposa emigrou cinco anos atrás para os Estados Unidos, de forma clandestina. Seu único contato com ela, desde então, é uma fita cassete com a narrativa da perigosa travessia.
Sonhos como barcos de papel faz parte da trilogia de curtas de Samuel Frantz Suffren, junto com Agwe (2022) e Coeur bleu (2025), inspirados no sonho de seu pai em migrar para os Estados Unidos. A narrativa é uma delicada história de solidão, dedicação, busca dos sonhos e luta para sobreviver em uma sociedade marcada pela desigualdade e pela miséria.
Terra abençoada (Mot khu dat tot, Vietnã, 2019), de Pham Ngoc Lan. Com Hoàng Hà, Minh Chau, Thuy Anh, Huy Tien.
Uma mulher, junto com seu filho adolescente, visita um antigo cemitério, percorrendo-o em vão em busca do túmulo de seu marido. Um pedaço do cemitério foi demolido para dar lugar a um luxuoso campo de golfe, a outra parte está abandonada: os túmulos em estado de decomposição convivem com pântanos e areais. Um pastor também está no local, aproveitando o terreno para alimentar suas vacas.
A narrativa curta tece críticas sociais sobre a desigualdade social e sobre como o progresso interfere no meio ambiente e nas tradições sociais. Enquanto a mulher e o filho percorrem o terreno abandonado, do outro lado da colina, um homem joga golfe, acompanhado de sua amante bem mais jovem. O conflito entre as classes é demarcado pela forma como se relacionam com o meio-ambiente, com os recursos naturais, com o terreno que serve de moradia para os mortos e, ao mesmo tempo, como deleite para os homens endinheirados.
O verão e todo o resto (L’été et tout le reste, Holanda, 2018), de Sven Bresser.
Marc-Antoine (Marc Antoine Innocenti) e Mickael (Mickael Danguis Fasolo) trabalham em uma ilha que, durante o verão, fica repleta de turistas. Com o fim da temporada, a ilha fica vazia e os jovens planejam rumar para o continente em busca de outro tipo de trabalho. O conflito se anuncia quando Marc, contrariando seu amigo, revela que pretende ficar no local.
A narrativa debate a busca dos anseios da juventude. Michael não hesita em partir e enfrentar os desafios que se apresentam em uma nova sociedade, enquanto Marc hesita, prefere naquele momento continuar com sua rotina solitária. A sequência da aclamada festa na ilha, frequentada por Marc e meia dúzia de amigos, é o sintoma dessa relação conflituosa entre o esplendor das temporadas de verão e o vazio do dia-a-dia dessas cidades que vão se perdendo no tempo.
Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.
É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto.
O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta.
A garota do capim limão (Lemongrass girl, Tailândia, 2021), de Pom Bunsermvicha.
Uma forte chuva ameaça paralisar as filmagens em um set montado na região campestre. O diretor do filme pede a May (Primrin Puarat), uma das jovens da equipe, para plantar uma muda específica de capim-limão. Segundo uma superstição da Tailândia, uma virgem pode impedir a chuva, desde que ela siga algumas condições, como plantar em céu aberto a muda de cabeça para baixo.
Pom Busnsermivicha insere nesta narrativa simples críticas ao conservadorismo, ao sexismo ainda presente na sociedade tailandesa. É também um alerta sobre o domínio masculino no setor audiovisual, onde as mulheres são relegadas à funções de segundo plano. May, a produtora assistente, acata a ordem e se vê enredada em situações que vão desde a procura pela muda até encarar o desafio de seguir a tradição e plantá-la.