Uma ilha para Miguel (Una isla para Miguel, Cuba, 1968), de Sara Gómez
Em determinado momento do documentário, a câmera está fixa, em meio primeiro plano, no rosto de um adolescente: “Nossa escola, Antonio Briones Montoto, é um centro de estudos técnicos onde esperamos conseguir resolver as necessidades de nosso país a respeito de especialistas em cítricos. Devemos formar cerca de 400 camaradas nesta função. Através de treinamento abrangente, nós desenvolvemos um trabalho que consiste no seguinte: coordenar o estudo, o trabalho e a defesa. Nesse caso, nós relacionamos estudos acadêmicos a matérias técnicas e às matérias voltadas para elevar o nível cultural do corpo estudantil. A respeito do trabalho, nosso corpo, ou seja, os estudantes, trabalham quatro horas e meia todo dia, de 7h30 a 11h30 da manhã. Nesse período, eles completam as tarefas relacionadas aos estudos.”
O depoimento segue um tom formal de um jovem representante do partido e dos ideais da revolução. As imagens que acompanham este e outros depoimentos refletem a sensibilidade desta proposta, mostrando grupos de jovens, estudantes, trabalhadores, em seus afazeres cotidianos, sempre com leveza e alegria.
O contraste é Miguel, jovem que foi enviado para a Ilha dos Pinos, onde o programa de educação e formação técnica se desenvolve. Ele é um menino rebelde, na infância provocou problemas para sua família formada por nove irmãos e passou por atritos violentos com seu pai. Logo nos primeiros dias na ilha, Miguel comparece ao comitê devido a um gesto rebelde, é julgado e punido.
Uma ilha para Miguel faz parte da trilogia de documentários de Sara Gomes sobre a Ilha dos Pinos. Os outros filmes são Na outra ilha (1968) e A ilha do tesouro (1969). A abordagem são as tentativas de programas comunitários, implantados pelo regime de Fidel Castro, com intenção de formar trabalhadores com bagagem técnica e cultural. O final de Uma ilha para Miguel deixa em aberto o futuro desses jovens. As últimas imagens mostram Miguel olhando de forma inexpressiva para a câmera. Corta para claquete batida em frente ao rosto de seu amigo que diz: “Miguel, sendo meu amigo e um homem, eu sei que ele vai se comportar bem.”
Guanabacoa: crônica de minha família (Guanabacoa: Crónica de mi familia, Cuba, 1966), de Sara Gómez.
A cineasta cubana Sara Gómez, primeira mulher a dirigir filmes na ilha, foi pioneira também, por meio deste curta, no documentário autobiográfico. Guanabacoa é um bairro de classe média em Havana. Sara Gómez resgata a história de sua família, com fotos antigas e depoimentos de familiares, principalmente de Luísa Maria Lopes Y Galainena, chamada de “madrinha”.
A música clássica e popular de Cuba também acompanha a narrativa, com destaque para apresentações de grupos em teatros, nas ruas, em ensaios e escolas dedicadas ao ensino musical. Lettering sobre posto a participantes indicam membros da família de Sara Gómez que se dedicaram à música.
Narrativa em off da própria diretora pontua determinadas imagens. “Somos das famílias Banquecer e Galainena. Eu lembro de visitar as casas de primos velhos, de golas prensadas e gravatas retas, e meus ótimos primos mulatos. Casas onde clarinetes eram guardados em estojos velhos de couros ou capas de tecido amarelo. Casas onde a madrinha agora, com o esforço de oitenta anos de memórias, se lembra.”
O destaque do documentário é a narrativa silenciosa do bairro, reduto histórico e cultural de Havana, formada por imagens de ruas, vielas, moradores, trabalhadores, monumentos (o busto de Ernest Hemingway, que se matou em Cuba em 1961). A sensibilidade estética de Sara Gómez compõe uma obra repleta de memórias e sensações, antes e depois da revolução cubana.
Em frente à casa de Humphrey Bogart, uma multidão consternada faz vigília, à espera do cortejo fúnebre do ator. Famosos atores e atrizes de Hollywood, diretores, produtores, também estão ali. Corta para cenas de filmes de Bogart, com narração em off: “É engraçado, nunca me considerei muito querido. Eu não sabia quantos amigos tinha. Não se pode trapacear para subir na vida. Tem que ser você mesmo.”
Bogart: life comes in flashes (EUA, 2024), de Kathryn Ferguson, segue a estrutura convencional de documentário sobre grandes astros do cinema: cenas e mais cenas de filmes, imagens do ator, depoimentos de amigos, especialistas e profissionais do cinema, lembranças marcantes da quarta esposa, Lauren Bacall, gravações do próprio ator para programas de rádio e de televisão. Os depoimentos de Bogart revelam um profissional que não se escondeu atrás do sucesso, que buscava a autocrítica e não se entregava ao fracasso que o perseguiu durante anos em sua carreira de ator.
“A depressão chegou e eu não fugi. O teatro tinha ido para o inferno e meu salário também. Ensaiei para espetáculos que foram cancelados antes que começassem. Eu fui para Hollywood. A MGM havia conseguido uma mina de ouro com Clark Gable. A Fox precisava reagir a Gable. Esse era eu. Não era bonito, mas me criaram como faziam com os bonitões há anos. Cílios postiços, batom e tal. Eu me sentia um boneco. Fiquei na Fox por um ano e fiz cinco filmes. Não foi surpresa não terem renovado meu contrato. Foi quando fiz as malas e fui à Broadway de novo. Na época, eu estava convencido de que nunca teria sucesso no cinema.”
Na Broadway ele atuou em sete peças consecutivas de sucesso, mas em nenhuma tinha um papel importante. A Warner Bros comprou os direitos para adaptar A floresta petrificada, uma dessas peças, e Bogart acabou conseguindo o papel do assassino na história. “Acho que se eu não tivesse recebido o papel de Duke Mantee, eu estaria fora do cinema. Isso marcou a minha libertação dos engravatados elegantes e impecáveis, aos quais eu parecia estar condenado,”
Entre 1936 e 1937, Humphrey Bogart fez vários filmes para a Warner. O ator era praticamente obrigado a aceitar os papéis impostos pelos produtores, sob o comando de Jack Warner. Caso recusasse, recebia intimações e ameaças dos advogados da empresa. Era o sistema de estúdios de Hollywood.
“Fiz pesos pesados em Hollywood por oito ou nove anos. Fui o alvo de Cagney, Raft, Robinson, de todo mundo. Os gângsteres que interpretei são todos iguais. Quase dá pra fazer um índice das falas deles. Nos meus primeiros 34 filmes, fui baleado em 12, eletrocutado ou enforcado em oito e preso em nove. Sempre acabava morto e nunca ficava com a garota.”
Entre esses filmes, estava A volta do Dr. X (1939), no qual Bogart interpreta um médico trazido de volta à vida que se alimentava de sangue. “Se tivesse sido o sangue de Jack Warner, não me importaria. O problema é que estavam bebendo o meu e eu estava fazendo esse filme horrível. Você percebe que está olhando para um ator que fez mais filmes ruins do que qualquer outro na história?.”
A virada na carreira, depois de cerca de vinte anos de fracassos e um ou outro sucesso, aconteceu devido a amizade de Bogart com um roteirista da Warner. John Huston já havia escrito um filme interpretado pelo ator, Seu último refúgio (1941). Em sua estreia como diretor, Huston levou o detetive Sam Spade, sucesso da literatura pulp-fiction, para o cinema. “A intenção era que George Raft o interpretasse. Mas ele recusou, pois não queria confiar a sua carreira a um diretor jovem. A alguém que nunca tinha dirigido. E Bogart, para meu deleite secreto, foi o substituto. Esse filme deu início a uma carreira nova para Bogie.” – John Huston
O falcão maltês (1941) foi o primeiro filme de detetive particular e um dos filmes marcantes do início de um dos estilos de cinema mais consagrados de Hollywood: o cinema noir. No entanto, Bogart precisou de mais um papel para se tornar um dos maiores e mais queridos astros de todos os tempos:Rick Blaine, dono de um bar no Marrocos durante a Segunda Grande Guerra.
“Casablanca consagra Bogart como astro. Ele recebe a validação que todo verdadeiro astros de destaque precisa ter, que é o protagonismo romântico. As pessoas tinham dúvida se ele conseguiria fazer a transição ao protagonista romântico sonhador.” – Thomas Doherty
Nenhum espectador ou crítico teve dúvidas disso ao ver o filme. Depois de Casablanca (1942), Bogart protagonizou uma série de clássicos: Ter ou não ter (1944), À beira do abismo (1946), O tesouro de Sierra Madre (1948), No silêncio da noite (1950), Uma aventura na África (1951), A condessa descalça (1954), Sabrina (1954).
Humphrey Bogart tinha 43 anos quando protagonizou Casablanca e 52 anos quando conquistou o Oscar de Melhor Ator pelo filme Uma aventura na África. Poderia ser protagonista também da célebre campanha O homem de 40 anos, criada por Washington Olivetto em 1974 – primeira peça publicitária brasileira a ganhar o Leão de Ouro em Cannes. O filme, que combate o etarismo, mostra imagens, acompanhadas por um texto poderoso, de personalidades históricas de várias áreas que fizeram sucesso depois dos 40 anos.
Carta da Sibéria (Letter from Siberia, França, 1958), de Chris Marker.
Em 1907, Liev Trotski é preso como dissidente político e condenado ao exílio na Sibéria. Durante a viagem, o futuro revolucionário russo escreve um diário de viagem. Antes de chegar ao destino final, ele arquiteta e executa uma fuga cinematográfica pelas paisagens desertas e gélidas da região. Seu diário, publicado como Fuga da Sibéria narra a aventureira jornada e descreve, de forma reflexiva, a vida cotidiana dos habitantes destes confins do mundo. Incluindo, as renas:
“As renas são criaturas incríveis: não sentem fome nem cansaço. Não comeram nada por um dia até a nossa partida, e logo fará mais um dia que seguem sem se alimentar. Segundo a explicação de Nikifor, elas acabaram de ‘pegar o ritmo’. Correm regularmente umas oito ou dez verstas por hora, sem se cansar. A cada dez ou quinze verstas, faz-se uma parada de dois, três minutos para que as renas se recuperem; depois, elas continuam. Essa etapa chama-se ‘corrida de renas’, e, como aqui ninguém conta as verstas, a distância é medida em termos de corridas. Cinco corridas equivalem a umas sessenta, setenta verstas.”
Cerca de cinquenta anos depois, o jovem documentarista Chris Marker empreende uma viagem pela Sibéria. Sua câmera registra paisagens campestres e urbanas, habitantes, construções. Narração em off acompanha as imagens:
“Escrevo esta carta de uma terra distante, chamada Sibéria. Para a maioria esse nome só evoca uma ilha congelada e desolada. Para o general czarista Andreyevich, era o maior terreno baldio do mundo. Felizmente, há mais coisas entre o céu e a terra do que qualquer general, siberiano ou não, jamais sonhou. Enquanto escrevo, deslizo o olhar pela margem de um bosque de bétulas, e recordo que em russo, o nome delas é uma palavra de amor: beriozka.”
Letter from Sibéria rompe as fronteiras do documentário, se transformando em uma potente reflexão sobre esse gênero que, impossivelmente, prevê a imparcialidade. Chris Marker trabalha com uma montagem irreverente, entremeando cenas reais com imagens em animação, grafismos, sustentadas pela narração crítica, irônica, subversiva. “Ao deixar a última casa para trás, você volta à floresta da Idade da Pedra: a taiga. Escrevo esta carta da borda do mundo. Segundo um provérbio siberiano, a floresta foi criada pelo demônio. E ele fez um bom trabalho. A floresta é do tamanho dos Estados Unidos. Mas talvez o diabo também tenha feito os Estados Unidos.”
Assim como Trotski, o documentarista registra suas impressões sobre a rena, esse animal quase sagrado para os siberianos, durante séculos, a única forma de locomoção pelos confins gelados e, quando não mais aptos para esse exercício desumano, fornece peles para os habitantes suportarem cerca de quarenta graus abaixo de zero. “Mostraria os dervixes rodopiantes do degelo primaveril e os exércitos derrotados pelo inverno recuando sob insultos, enquanto pagãos inventam a ressurreição. Mostraria renas descendo de encontro à maré crescente de calor. E mais ao norte, os últimos dias de inverno, quando as renas se mostram atléticas, esqueci de mencionar antes.” As imagens mostram as renas em galope desenfreado pela neve, com homens no dorso, outros sentados no trenó, tentando controlar a fúria dos animais que rompem a neve.
O momento mais rebelde e subversivo do filme é documentado em Yakutsk, cidade planejada e que se desenvolvia à época com construções em cada canto. As imagens a seguir são repetidas por três vezes. Um ônibus passa por uma rua. Em direção contrária, passa um velho carro azul. Operários arrastam uma grande peça de madeira, acertando a superfície de uma rua para pavimentação. Um morador passa olhando para a câmera. O texto da narração muda a cada repetição das imagens:
“Não se pode descrever a União Soviética como nada além de um paraíso operário ou como o inferno na terra. Por exemplo, Yakutsk, a capital, é uma cidade moderna, em que ônibus confortáveis feitos para a população dividem a rua com poderosos Zims, o orgulho da indústria automobilística. No espírito alegre da emulação socialista, felizes trabalhadores soviéticos, como este pitoresco habitante do ártico, se dedicam a tornar a cidade um lugar melhor para viver.”
“Ou então, Yakutsk é uma cidade sombria com uma reputação ruim. A população se amontoa em ônibus cor de sangue, enquanto os privilegiados exibem sua luxúria em seus Zims, carros caros e, no mínimo, desconfortáveis. Curvados como escravizados, os miseráveis trabalhadores soviéticos, como esse asiático sinistro, se dedicam ao trabalho primitivo de arar com uma viga de arrasto.”
“Ou só em Yakutsk, onde casas modernas aos poucos substituem velhos bairros sombrios, um ônibus menos lotado do que em Londres ou Nova York no rush, passa por um Zim, um carro excelente, reservado a serviços públicos por sua escassez. Com coragem e tenacidade, em condições extremas, trabalhadores, como este Yakutsk com distúrbio ocular, se dedicam a melhorar a aparência da cidade, que precisa muito.
Chris Marker olha com ternura e carinho essa região desolada enquanto reflete, por meio de um texto poético, sobre a poderosa natureza do documentário, do poder das imagens, que permitem interpretações. Letter from Siberia antecipa o vigor estético e narrativa do cinema dos anos 60 que transitou entre o documentário e a ficção para expor de forma crítica a visão do artista.
El realismo socialista (Chile, 2023), de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento.
Entre 1972 e 1973, o cineasta chileno Raúl Ruiz trabalhava nas filmagens de O realismo socialista, mas foi forçado a abandonar o projeto após o golpe militar que derrubou o governo socialista no país. Cinquenta anos depois, Valeria Sarmiento, esposa de Raúl, lançou a obra, após um processo de restauração que durou cerca de sete anos.
A narrativa acompanha a luta ideológica e partidária de dois grupos ligados à esquerda: trabalhadores que querem ocupar e retomar a produção de uma fábrica e intelectuais que tentam controlar o movimento, buscando apoio para um amplo projeto de socialização no Chile. A discórdia evolui para embates físicos, em determinado momento o que parece ser um documentário se transforma em um filme com ações de violência e de tiroteio.
O realismo socialista em seu estilo doc/fic é um poderoso registro histórico de um dos momentos mais conturbados e violentos da história recente da América Latina, dominada por crueis regimes militares.
Elenco: Jaime Vadeli, Juan Carlos Moraga, Javier Maldonado, Marcial Edwards, Nemesio Antúnez.
Dahomey (França/Senegal, 2024), de Mati Diop, abre com plano fechado em miniaturas de Torres Eiffel piscando as luzes, dispostas em um tecido em alguma calçada de Paris – trabalho de rua de muitos africanos, oriundos talvez de ex-colônias da França no continente. Entra lettering sobre imagem do Rio Sena à noite: “9 de novembro de 2021. 26 tesouros reais do Reino de Daomé devem deixar Paris, retornando à sua terra de origem, a atual República do Benim. Estes artefatos estavam entre os milhares saqueados pelas tropas coloniais francesas durante a invasão de 1892. Para eles, 130 anos de cativeiro estão chegando ao fim.”
O documentário acompanha a trajetória desses artefatos: o empacotamento no museu, o desembarque das peças na República do Benim, o esforço de colocá-las em um lugar que não representasse exatamente um museu, mas sim um local onde os habitantes pudessem transitar entre seus antigos símbolos roubados. Grande parte do documentário abre espaço para um debate entre pesquisadores, estudantes, membros de tribos, sobre o significado do retorno dos artefatos e, sobretudo, sobre a imposição cultural francesa – incluindo a substituição da língua nativa pelo francês – durante o período de colonização/escravidão.
Volto ao início do filme, quando uma voz em off, sobre tela negra, reflete sobre o longo período de cativeiro, de exílio. Em outros momentos, essa voz volta à narrativa: é o lamento de um dos desterrados que viveu mais de um século na escuridão.
“Desde que me conheço por gente, nunca houve uma noite tão profunda e opaca. Aqui, essa é a única realidade possível. O início e o fim. Viajei por tanto tempo, na minha mente, mas esse lugar estranho era tão escuro que me perdi em meus sonhos, unindo-me a essas paredes. Isolado da terra onde nasci, como se estivesse morto. Há milhares de nós nesta noite. Todos temos as nossas cicatrizes. Desenraizados. Arrancados. Espólios do enorme saque. Hoje, é a mim que escolheram, como sua melhor e mais legítima vítima. Eles me chamaram de 26. Não 24. Não 25. Não 30. Só 26.”
Que se faça luz (Let there be light, EUA, 1980), de John Huston.
Durante a Segunda Guerra Mundial, cinco grandes diretores de Hollywood embarcaram para a Europa: John Huston, William Wyler, John Ford, George Stevens e Frank Capra. O objetivo era participar do esforço de guerra, documentando os combates no continente europeu. A série Five came back narra a odisseia dos diretores e traz depoimentos de importantes cineastas contemporâneos sobre o processo e as obras documentais criadas sobre a guerra.
O documentário Que se faça luz, filmado em 1946, se destaca devido à temática e às polêmicas suscitadas. John Huston visitou hospitais psiquiátricos e coletou depoimentos de veteranos da guerra que enfrentavam transtornos psicológicos devido às experiências em frentes de combates. A partir dos anos 70, a doença foi denominada de transtorno do estresse pós-traumático.
John Huston contou com a colaboração de médicos e pacientes, que permitiram que algumas sessões fossem gravadas, incluindo práticas de hipnose. O que se vê nas telas é um retrato doloroso e cruel dos traumas causados pela guerra, não permitindo, às vezes, a reintegração dos soldados à sociedade e à vida familiar.
O governo americano considerou o documentário impróprio para veiculação, alegando que mostrava a condição dos soldados de forma desmoralizante. O filme foi censurado durante mais de 40 anos, ganhando uma restauração em 1980, quando finalmente veio a público como uma contundente denúncia da guerra e seus efeitos permanentes.
Não chore na mesa de jantar (No crying at the dinner table, Canadá, 2019), de Carol Nguyen. Com Thao Nguyen, Ngoc Nguyen, Michelle Nguyen.
O filme abre em plano fechado dos três membros da família de Carol Nguyen em uma pequena mesa de cozinha. A diretora explica a eles em off:, Mamãe, papai e Michelle (sua irmã). Na quinta-feira, cada um de vocês fez entrevistas individuais. Quando vocês concordarem em fazer este projeto, todos sabiam que todos ouviremos as entrevistas da nossa família. Mas hoje quero reproduzir as entrevistas para vocês. Então, vamos ouvir.”
A abertura revela o tom intimista, corajoso e desafiador do documentário. Em uma mesa de jantar, os três vão se defrontar com lembranças, revelações simples de uma família que provocam o emocional.
Neste ano de 2019, Carol Nguyen teve dois filmes incluídos na lista dos dez melhores curtas do Canadá: Nanitic e Não chore na mesa de jantar.
O média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa, foi concebido para ser exibido em sessões duplas com outro média-metragem, Vaga Carne (Brasil, 2019), de Grace Passô. No entanto, o isolamento social decorrente da pandemia abortou o projeto e os dois filmes foram lançados separados no streaming.
O filme de Affonso Uchoa começa com uma encenação de um fato real: o trabalhador Rafael caminha à noite para casa e é abordado por policiais, interpretados por jovens que se vestem de forma caricatural e conversam em tom de brincadeira sobre os artefatos que carregam – armas. Segue-se uma sequência de agressões e tortura, pois Rafael fora confundido com um traficante. Os policiais exigem dinheiro de Rafael. Acuado, o jovem foge para São Paulo, onde vive parte dos sete anos em um processo de degradação social: torna-se viciado em crack, envereda para o tráfico, retorna a Belo Horizonte onde segue seu destino de vício e tráfico. Sua vida fora destroçada pela polícia.
Essa segunda parte da narrativa é revelada pelo próprio Rafael, em uma noite fria diante de uma fogueira. A princípio, o espectador pensa que ele conta sua história para a câmera, em um longo e bem construído plano sequência. Percebe-se que, na verdade, Rafael conversa com outro homem, que também fora vítima de agressão e extorsão policial.
O estilo contemporâneo de documentário/ficção é a marca de Sete anos em maio. O filme é curto e minimalista, explorando a dor de Rafael através de uma fotografia expressionista, planos fechados e longos. A encenação da realidade provoca no filme de Rafael Uchôa um encontro doloroso com as memórias de quem sofreu a violência, a tortura, vivendo sete anos no inferno.
Crônica de um verão (Chronique d’un été, França, 1961), de Edgar Morin e Jean Roch, é considerado o documentário que lançou o cinema vèrité (cinema verdade). Durante o verão de 1960, os dois circularam pelas ruas de Pais com intenção de pesquisar e documentar com a câmera a vida cotidiana dos jovens. As entrevistas partiram de uma pergunta simples: “você é feliz?”.
Na primeira parte, duas jovens perguntam aleatoriamente aos transeuntes, alguns se recusam a responder, outros fazem gestos intuitivos como afastar o microfone, mas um ou outro se confronta com a dificuldade de versar sobre o assunto. Na segunda parte, foram escolhidas pessoas por grupos sociais e profissionais: estudantes, operários, casais, amigos em uma mesa. O sociólogo Edgar Morin e o etnólogo Jean Rouch participavam das entrevistas, às vezes sugerindo um debate.
No final, o documentário foi exibido para os participantes e aberto para comentários e críticas. Em entrevista ao Fronteiras do Pensamento, Edgar Morin comenta: “Então, a cidade, no fundo, é o concentrado de toda a civilização. É aí que se encontram todas as ambivalência e todos os problemas. E, no fundo, o tema, quando fizemos a pergunta ‘Você é feliz’ – era uma pergunta um pouco estimulante, um pouco ingênua -, vê-se muito bem que essa pergunta desconcerta a maioria das pessoas. Ou seja, elas não estão acostumadas a poder falar da felicidade, daquilo que há de mais importante na vida.”