Sete anos em maio

O média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa, foi concebido para ser exibido em sessões duplas com outro média-metragem, Vaga Carne (Brasil, 2019), de Grace Passô.  No entanto,  o isolamento social decorrente da pandemia abortou o projeto e os dois filmes foram lançados separados no streaming.

O filme de Affonso Uchoa começa com uma encenação de um fato real: o trabalhador Rafael caminha à noite para casa e é abordado por policiais, interpretados por jovens que se vestem de forma caricatural e conversam em tom de brincadeira sobre os artefatos que carregam – armas. Segue-se uma sequência de agressões e tortura, pois Rafael fora confundido com um traficante. Os policiais exigem dinheiro de Rafael. Acuado, o jovem foge para São Paulo, onde vive parte dos sete anos em um processo de degradação social: torna-se viciado em crack, envereda para o tráfico, retorna a Belo Horizonte onde segue seu destino de vício e tráfico. Sua vida fora destroçada pela polícia. 

Essa segunda parte da narrativa é revelada pelo próprio Rafael, em uma noite fria diante de uma fogueira. A princípio, o espectador pensa que ele conta sua história para a câmera, em um longo e bem construído plano sequência. Percebe-se que, na verdade, Rafael conversa com outro homem, que também fora vítima de agressão e extorsão policial. 

O estilo contemporâneo de documentário/ficção é a marca de Sete anos em maio. O filme é curto e minimalista, explorando a dor de Rafael através de uma fotografia expressionista, planos fechados e longos. A encenação da realidade provoca no filme de Rafael Uchôa um encontro doloroso com as memórias de quem sofreu a violência, a tortura, vivendo sete anos no inferno.

Seguinte

Christopher Nolan sempre deixou evidente sua paixão pelo cinema noir, inclusive participando de documentários onde analisa os principais elementos estéticos e narrativos do gênero. Em Seguinte (Following, Inglaterra, 1998), o diretor se apropria dessas referências para compor uma narrativa instigante, de complexas camadas psicológicas. 

Jeremy Theobald interpreta um jovem escritor que segue aleatoriamente pessoas pelas ruas da cidade, em busca de inspiração para um livro. Durante suas andanças, um ladrão o seduz e o escritor passa a segui-lo em seus crimes, geralmente invadindo domicílios e roubando pertences. 

A trama se complica quando os dois invadem a casa de uma mulher loira (Lucy Russel) – a femme fatale do cinema noir. O escritor fica fascinado e começa um estranho relacionamento oscilando entre o voyeurismo e a sedução.

Seguinte foi realizado durante um ano, gravado nos finais de semana, pois Christopher Nolan trabalhava em tempo integral em Londres. O custo do filme foi de apenas seis mil dólares e despertou o interesse pelo trabalho do jovem diretor que, na sequência, realizou o aclamado Amnésia (2000). Dois filmes independentes que evidenciaram o talento de Christopher Nolan que se consagraria definitivamente com a trilogia do homem morcego. 

Estranhos prazeres

Estranhos prazeres (EUA, 1995), de Kathryn Bigelow, é ambientado em uma Los Angeles distópica, com cenários sujos, cuja fotografia neo-noir privilegia a vida noturna de marginalizados em clubes, apartamentos, ruelas e becos da cidade – claramente inspirado em Blade Runner – O caçador de androides (1982). 

O roteiro tem co-autoria de James Cameron, na época casado com a diretora.  O ex-policial Lenny Nero (Ralph Fiennes) vende pequenos discos contendo experiências vividas por pessoas, incluindo práticas sexuais. O dispositivo permite ao usuário vivenciar as experiências dentro de sua própria mente, como projeções de realidade virtual. A virada acontece quando Lenny recebe um disco com a gravação de uma amiga sua, uma prostituta que registrou seu próprio assassinato. 

O destaque da película é a estética cyberpunk que marcou importantes obras a partir dos anos 80, entre elas Blade Runner, Akira, Ghost in the Shell, Matrix e O Vingador do futuro. Kathryn Bigelow trabalha em seu ambiente de thriller psicológico, com sequências empolgantes e assustadoras, sustentadas por um elenco que se consagraria: Ralph Fiennes, Angela Basset e Juliette Lewis, principalmente. 

Demência 13

Francis Ford Coppola tinha apenas 24 anos quando realizou Demência 13 (Dementia 13, EUA, 1963), seu primeiro filme como diretor. A obra é produzida por Roger Corman, grande mentor de Coppola em seus primeiros anos no cinema, como um filme B de baixo orçamento. A influência de Alfred Hitchcock, principalmente de Psicose (1961) é clara no roteiro e no estilo de direção. 

A trama simples se torna complexa pelas nuances de thriller psicológico impostas pelo diretor. O marido de Louise, John Haloran, morre de infarto e ela se livra do cadáver, pois ficara sabendo que não estava no testamento de Lady Haloran, rica proprietária de um castelo na Irlanda. Louise esconde da família a morte do marido e chega ao castelo, disposta a convencer a sogra a mudar o testamento. 

O castelo de estilo gótico é um grande personagem do filme, supõe-se que ele seja assombrado pelo fantasma da caçula da família, que morrera criança afogada no lago em frente. Com toda a família presente, um homem misterioso começa a praticar assassinatos com um macabro machado, sempre precedido da aparição da criança. 

A narrativa curta, cerca de 75 minutos de filme, se resolve sem muitas surpresas. É uma obra referencial muito mais por lançar a carreira de um dos mais renomados diretores do cinema, autor de obras-primas como a trilogia O poderoso chefão, A conversação e Apocalypse now

Elenco: William Campbell (William Haloran), Luana Anders (Louise Haloran), Bart Patton (Billy Haloran), Mary Mitchell (Kane), Patrick Magee (Justin Caleb), Eithne Dunne (Lady Haloran).

Em nome da lei

Em nome da lei (Itália, 1949), de Pietro Germi.

O diretor Pietro Germi, nome menos referenciado do aclamado cinema neorrealista italiano, faz uma incursão pelo gênero do faroeste (as influências de John Ford estão presentes na obra), ambientando a trama na Sicília do início do século XX. O juiz Guido Schiavi chega a uma pequena cidade controlada pelo Barão Vasto e pela máfia. Os mafiosos substituem a justiça, cobrando para proteger os nobres da cidade. O juiz, de apenas 26 anos, tem ideais humanistas e justos e tenta impor a lei, se defrontando de forma perigosa com os poderosos que controlam a região com violência, praticando assassinatos impiedosos.  

O estilo neorrealista de Em nome da lei é demarcado por algumas características comuns ao movimento: a forte crítica social, retratando uma população miserável e faminta subjugada de forma violenta pelo barão e pela máfia; a narrativa linear, demarcada pela bela fotografia em preto e branco que destaca a aridez e a miséria da ilha; o sentimentalismo, quase melodramático do drama social, com direito a uma história de amor entre os protagonistas Guido e Teresa. O final, após um assassinato triste e doloroso, imprime uma certa esperança pela continuidade da luta por justiça social. 

Elenco: Massimo Girotti (Guido Schiavi), Charles Vanel (Massaro Turi), Jone Salinas (Baronesa Teresa), Camillo Mastrocinque (Barão Vasto), Bernardo Indelicato (Paolino). 

Escândalos noturnos

Escândalos noturnos (Tapage nocturne, França, 1979), de Catherine Breillat.

Solange (Dominique Laffin) é considerada uma das jovens cineastas francesas mais talentosas. Enquanto termina seu novo filme, ela se relaciona compulsivamente com diversos homens, inclusive seu marido, que a incentiva em seus casos e gosta de ouvir os detalhes das transas. As mais recentes paixões de Solange incluem um ator bissexual e Bruno (Bertrand Bonvoisin) , também diretor de cinema, por quem fica obcecada.  O segundo filme de Catherine Breillat é uma ousada incursão pela sexualidade feminina, colocando Solange em uma posição libertária mas que sofre com a necessidade de buscar sempre paixões e interrogar os seus desejos.

Mamma Roma

Mamma Roma (Itália, 1962), de Pier Paolo Pasolini.

Mamma Roma (Anna Magnani) é uma prostituta de meia idade que luta para criar seu filho Ettore (Ettore Garofalo) de forma digna, tentando afastá-lo da má influência da marginalidade adolescente. Os dois se mudam para a periferia de Roma, bairro marcado por construções populares modernistas em meio às ruínas da Roma antiga, onde Mamma monta uma barraca de frutas na feira. Ettore, no entanto, insiste em vadiar, sem trabalhar ou estudar, aventurando-se cada vez mais no caminho da criminalidade. 

O segundo filme de Pier Paolo Pasolini preserva o estilo neorrealista de seu filme anterior, Accattone e mostra a evolução do diretor em direção ao cinema de poesia que defendia. “No cinema de poesia, a história tende a desaparecer, o autor escreve poemas cinematográficos e não mais histórias cinematográficas. No cinema de poesia, o protagonista é o estilo, mais do que as coisas ou os fatos. Meus filmes pertencem a essa categoria.” – Pasolini

A história de Mamma Roma é pontuada por simbologias pictóricas e a busca da forma cinematográfica como representação dos desejos, anseios e frustrações da protagonista. Na abertura do filme, o diretor de fotografia dispõe os personagens, durante o casamento do antigo cafetão de Mamma, de forma similar ao quadro Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. No final, retratando o martírio de Ettore na prisão, a imagem evoca o quadro Lamentação sobre o Cristo morto, de Andrea Mantegna. 

Pasolini: “Meu gosto cinematográfico não é de origem cinematográfica e sim pictórica. As imagens, os campos visuais que eu tenho na cabeça, são os afrescos de Masaccio, de Giotto, de Pontormo. Não consigo imaginar imagens, paisagens e composições de figuras fora da minha paixão fundamental por essa pintura do século 14, que coloca o homem no centro de toda perspectiva.” 

Anna Magnani, uma das grandes atrizes e divas do cinema italiano, destila seu talento no papel da prostituta e da grande mãe – seu nome no filme simboliza outra marca do cinema intelectual de Pasolini: a cidade como definidor de personalidades e comportamentos de seus moradores (a Roma que prostitui seus cidadãos nas beiras boêmias de avenidas e pontos turísticos, durante a escuridão da noite). 

Dois planos sequências de cinco minutos de duração cada são exemplos dessa simbologia, aliados à técnica cinematográfica como representante da poesia do cinema de Pasolini. Nos dois planos, Mamma Roma caminha pelo local onde convive esse universo marginal da cidade. É noite, as luzes ao lado e ao fundo são apenas pontos na escuridão. Durante a caminhada, Mamma reflete sobre sua posição na sociedade, sobre sua vida, sobre a esperança, em diálogos, que mais parecem um monólogo, com outras prostitutas, clientes, que entram e saem de quadro durante a jornada da prostituta. Anna Magnani em seu esplendor visual e artístico domina não só esses planos sequências, mas o filme inteiro. 

Referência: Coleção Folha Cine Europeu. Pier Paolo Pasolini: Mamma Roma. Carlos Cássio Starling, Pedro Maciel Guimarães e Marcus Mello. São Paulo: Moderna, 2011

Angelina, a deputada

Quando Luigi Zampa realizou Angelina, a deputada (L’onorevole Angelina, Itália, 1947), o neorrealismo italiano estava em sua melhor fase e comprova que trabalhar com atores não-profissionais não era uma marca do movimento. Anna Magnani interpreta Angelina, moradora de uma favela de Roma que passa a liderar as mulheres em uma cruzada contra a fome e a falta de habitação. Sua liderança ganha as manchetes dos jornais e incomoda os magnatas imobiliários quando os moradores da favela ocupam um prédio em construção. 

A luta de classes e a miséria, incluindo crianças famintas, é o tema do filme. As moradoras da favela formam um partido e tentam convencer Angelina a se lançar deputada. A narrativa tem um forte teor feminista, as mulheres é que vão à luta, enquanto seus maridos são retratados como ociosos, com sugestões inclusive de violência doméstica. 

O final do filme resvala para a esperança, sugerindo uma união entre um dos magnatas imobiliários e os membros da favela. No entanto, a sequência final, que em estrutura circular, recria o movimento da abertura derruba esse sentimento. No início, a câmera entra na casa de Angelina, percorrendo os cômodos onde dormem os cinco filhos até enquadrar Angelina e seu marido na cama, discutindo sobre as precariedades econômicas que levam à incerteza de alimentação da família no dia seguinte. No final, a câmera enquadra o casal discutindo o mesmo assunto do início e a câmera, em movimento contrário, percorre os ambientes até sair da casa.  

O segundo rosto

O segundo rosto (Seconds, EUA, 1966), de John Frankenheimer.

Arthur Hamilton é um pacato bancário que aspira a ser presidente do banco. Leva a rotineira vida de um homem casado, com uma filha que já saiu de casa. Um dia, recebe a ligação de um amigo que morrera há alguns anos. Sem acreditar, se recusa a conversar, mas as ligações se sucedem, e a voz incute uma ideia em sua cabeça: e se você pudesse renascer como outro homem. Arthur não resiste e visita o local sugerido por seu amigo. 

“Arthur Hamilton (John Randolph) ganha a chance de deixar seu isolamento emocional de classe média e partir para uma nova vida desde que passe por uma cirurgia radical e esqueça seu passado. Esse milagre lhe é oferecido por uma organização sinistra conhecida simplesmente como ‘a companhia’, composta por atores que haviam caído na lista negra do macarthismo e estão ali para roubar o filme, com Will Greer no papel do velho com todas as respostas e destacando Jeff Corey, um vendedor do inferno que explica com habilidade como Hamilton será convertido no talentoso pintor, o bonitão Tony Wilson (Rock Hudson). Logo que a transformação é efetuada, o segundo rosto se transforma em um pesadelo de Kafka, enquanto nosso protagonista renascido tem dificuldades para se ajustar ao estilo de vida boêmio, providenciado pela ‘companhia’.” 

O segundo rosto foi desconsiderado pela crítica na época e, com o tempo, se tornou um cult. Quando assume sua nova vida, Arthur se entrega, como Tony Wilson, à vida fútil, regada de festas e bebidas da classe a qual se torna parte. A sequência de nu coletivo, quando várias pessoas entram em um barril para esmagar as uvas, ao som de canções do Deus Baco, é uma ousadia que prenuncia o nascimento da Nova Hollywood. Destaque também para a direção de fotografia de James Wong Howe que retrata o pesadelo de Tony Wilson dentro da companhia com ângulos inusitados (principalmente em contre-plongée, refletindo o estado mental do protagonista naquele momento), closes perturbadores e profundidades de campo distorcidas.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A inocente face do terror

A inocente face do terror (The other, EUA, 1972), de Robert Mulligan, compõe o painel de filmes de thriller psicológico com nuances de terror que dominou o cinema americano dos anos 70. Outra marca recorrente neste gênero é uma criança adorável como pivô de atos de assssinato e terror. 

Em uma pequena cidade do interior, vivem os irmãos gêmeos idênticos, Niles e Holland. Niles é dócil e encantador, mas seu irmão apresenta uma personalidade agressiva, doentia, provocando uma série de mortes na fazenda onde vivem e nos arredores. Desde o início, é possível antecipar a reviravolta da trama, o que torna A inocente face do terror ainda mais assustador. 

O roteiro foi escrito por Tom Tryon, adaptando seu próprio romance. O diretor trabalha com elipses nas principais sequências de morte, não poupando nem mesmo crianças dos atos brutais de Holland. Perto do final, acontece uma das cenas mais aterradoras do cinema, mesmo que não mostrada, invade a mente do espectador. O que se segue também é um ato brutal de punição e tentativa de dar fim ao horror. Mas, como é marca do gênero, a última imagem deixa o final em aberto. 

Elenco: Uta Hagen (Ada), Diana Muldaur (Alexandra), Chris Udvarnoky (Niles Perry), Martin Udvarnoky (Holland Perry).