Down by law

Down by law (EUA, 1986), de Jim Jarmusch.

A abertura do filme é fascinante: um travelling lento pelas ruas de um bairro periférico de Nova Orleans, a fotografia em preto e branco emoldurando a paisagem soturna. O travelling é entrecortado por duas cenas de interior, apresentando os protagonistas Zack (Tom Waits), DJ desempregado e o cafetão Jack (John Lurie) em seus quartos. Ambos são envolvidos em uma armação por desafetos e são encarcerados na mesma cela. Bob (Roberto Benigni), um italiano que mal sabe falar inglês, acusado de matar um homem, se junta aos dois. 

O diretor indie americano Jim Jarmusch tece um panorama da América marginal por meio desta tríade de atores em atuações excepcionais. A entrada em cena do italiano muda o panorama da cela, até aquele momento ocupada pela desilusão, pela tristeza agressiva. Um dos mais belos momentos da película é a canção entoada pelos três, uma brincadeira com o inglês atrapalhado de Roberto, que contagia todo o corredor. 

O terceiro ato, em um imenso pântano, traz de volta a paisagem desoladora dessa América marginal, agora um deserto pantanoso. Assim como o bairro do início, também uma espécie de submundo habitado não por criminosos, mas por pessoas opostas ao american way of life que apenas andam em círculos.

O alucinado

Luís Buñuel volta suas lentes para a hipocrisia social no México, contando a história de um aristocrata religioso, admirado pela sociedade e pelos membros da igreja católica. Dom Francisco Galván posa de justo, movido pelos valores cristãos, mas revela pouco a pouco uma personalidade agressiva. 

Após um breve idílio amoroso, Dom Francisco conquista Gloria, que estava de casamento marcado com um engenheiro. O casamento entre os dois é um evento na Cidade do México, mas, durante a viagem de núpcias, o aristocrata passa a ser corroído por um ciúme doentio que cresce assustadoramente. 

A contundente crítica de Buñuel coloca em cheque a conservadora sociedade mexicana: importantes membros da igreja, o círculo social do casal e até mesmo a mãe de Gloria, fazem vistas grossas à violência de Francisco, que passa a agredir fisicamente sua esposa. 

O ponto forte da narrativa é a ousada elipse que acontece após um beijo ardoroso entre o casal de enamorados, antes do casamento. Em uma rua, durante a noite, Gloria encontra seu ex-namorado e relata passo a passo seu tormento durante o casamento. 

O alucinado (El, Mèxico, 1953), de Luis Buñuel. Com Arturo de Córdova (Francisco Galván), Delia Garcês (Gloria Vilalta), Carlos Martínez Baena (Padre Velasco), Manuel Dondé (Pablo), Luis Beristáin (Raúl Conde). 

Revolução na terra dos brinquedos

Hermína Týrlová, aclamada diretora alemã de animação, dirige em parceria essa pequena obra-prima, uma manifesto contra o nazismo e o fascismo. Um fabricante de brinquedos de madeira está trabalhando em sua oficina quando se vê ameaçado por um oficial da Gestado. Ele foge pela janela, o policial invade a oficina e começa a vasculhar o ambiente, tentando destruir os brinquedos. 

Os brinquedos ganham vida e fazem uma resistência coletiva contra o oficial, usando de inventividade, com recursos criativos de guerrilha, bem ao estilo da resistência tcheca durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial. Revolução na terra dos brinquedos, de certa forma, é o antecessor de Toy Story, colocando o universo da fantasia contra os horrores do nazismo. 

Revolução na terra dos brinquedos (República Tcheca, 1946), de Hermína Týrlová e Šádek František.

O testamento do Dr. Mabuse

O filme é a continuação da monumental obra de Fritz Lang, Dr. Mabuse (1922), de quatro horas de duração, dividido em duas partes. Agora, o Dr. Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) está internado há dez anos em um centro psiquiátrico, sem falar, fazendo anotações sem parar em folhas avulsas. 

Do sanatório, ele controla uma rede de criminosos que pratica assaltos a bancos e joalherias, mas seu plano fatal é explodir uma indústria de produtos químicos e contaminar toda a cidade. Usando de seus poderes hipnóticos e, de certa forma, telepáticos, o Dr. Mabuse domina todos ao seu redor e confunde a polícia com intrincados estratagemas. Fritz Lang prenuncia muito do cinema noir, gênero que vai ajudar a consagrar posteriormente nos Estados Unidos.

A película foi realizada no início do cinema falada na Alemanha, mas o diretor preserva sua genialidade visual. A primeira sequência é tomada pelo silêncio, construindo uma narrativa de suspense durante a investigação de um policial em um edifício onde dinheiros falsos são produzidos. O ponto forte da narrativa são as breves aparições do Dr. Mabuse, com seus olhos hipnóticos e assustadores.

O testamento do Dr. Mabuse (Das testament des Dr. Mabuse, Alemanha, 1933), de Fritz Lang. Com Rudolf Klein-Rogge, Otto Wernicke, Thomy Bourdelle, Gustav Diesel, Rudolf Schindler. 

A adolescente

A trama começa acompanhando a fuga de Traver, jovem negro, músico de jazz, pelas ruas de uma pequena cidade. Ele foi acusado de estupro por uma mulher branca. Traver rouba um bote e chega a uma ilha particular, reserva de caça, com apenas três habitantes: a adolescente Evelyn, seu avô (que morre logo no início) e Miller, protetor da ilha.  

Luis Buñuel realiza um filme denso, com fortes cenas de racismo e e pedofilia para compor uma crítica severa à sociedade sulista americana. Evelyn desenvolve uma amizade ingênua por Traver, livre de preconceitos e julgamentos. Ao contrário, Miller e Traver partem para um relacionamento ostensivo, espécie de jogo de gato e rato, movido apenas pelas diferenças raciais, que pode terminar em tragédia.   

A adolescente é uma coprodução entre EUA e México, ambientando em uma ilha da Carolina do Sul. A ousadia de Luis Buñuel é tratar destes temas, racismo e pedofilia, em 1960, em um estado sulista. Com apenas cinco personagens em cena, Buñuel escancara o horror: Traver já está condenado apenas por ser negro, enquanto Miller, um homem branco, está isento por sua cruel pedofilia. 

A adolescente (The young woman, México/EUA, 1960), de Luís Buñuel. Com Key Meersman (Evelyn), Zachary Scott (Miler), Bernie Hamilton (Traver), Crahan Denton (Jackson), Claudio Brook (Rev. Fleetwood). 

O rio e a morte

Luís Buñuel se rendeu ao cinema comercial em sua temporada vivida no México, atendendo a pedidos dos produtores. O rio e a morte é a incursão do diretor surrealista pelo western, gênero também importante para o cinema mexicano. 

Gerardo Anguiano é um jovem médico que vive na cidade do México. Ele é atormentado pela insistência de sua mãe, Mercedes, que exige que ele volte à sua vila natal para resolver uma antiga pendência da família. Seu pai foi assassinado em um duelo com o patriarca da família Menchaca, que também morreu no tiroteio. Pela tradição do vilarejo, Gerardo tem que enfrentar Rômulo, herdeiro da família Menchaca.

A história de vingança e reconquista da honra é tradicional no faroeste. Buñuel usa este mote para criticar a sociedade patriarcal mexicana e o costume dos homens, assim como os americanos, de ostentarem revólveres na cintura, mesmo que não tenham dinheiro sequer para comprar comida. O final, otimista, vai na contramão do estilo do aclamado diretor espanhol e demonstra que nesta fase de sua carreira ele estava disposto a fazer concessões ao cinema de entretenimento. 

O rio e a morte (El río y la muerte, México, 1954), de Luis Buñuel. Com Miguel Torruco (Felipe Anguiano), Joaquín Cordero (Gerardo Anguiano), Jaime Fernández (Romulo Menchaca), Columba Domínguez (Mercedes).  

O amigo americano

O restaurador e artesão de molduras Jonathan Zimmermann é diagnosticado com leucemia e tem pouco tempo de vida. Raoul Minot, espécie de gangster moderno, descobre isso através de Tom Ripley, um negociante de obras de arte falsificadas. A trama é adaptada do romance Ripley’s game, de Patricía Highsmith, cujo protagonista já foi vista em algumas dezenas de adaptações cinematográficas. 

Perto da morte, Jonathan recebe uma proposta tentadora de Raoul Minot: assassinar dois homens em troca de muito dinheiro, garantindo independência financeira para sua mulher e filho. O amigo americano é a experimentação de Wim Wenders pelo cinema noir, afinal, é uma trama policial ambientada nas ruas das cidades (atenção para a sequência de perseguição e assassinato nas estações do metrô). No entanto, o título do filme simboliza o grande tema da narrativa: a amizade velada que cresce entre Jonathan e Tom Ripley. Destaque também para a estética do filme, como aponta o ótimo texto de Fernando JG: 

“Se há problemas da ordem de um roteiro que não é pleno em suas motivações, nada tenho a dizer de negativo a respeito da fotografia. Poucas imagens da Alemanha serão tão lindas quanto as de Wim Wenders, que traduzem, nas cores adotadas para representá-la, um tom de melancolia e nostalgia numa beleza incomensurável. As imagens escurecidas, soturnas e barrocas combinam tanto com o drama de Zimmerman, quanto com a estética policial; no entanto, o que é mais excelente em termos técnicos são os enquadramentos feitos ao longo de cada instante do filme. Cada frame é tão geometricamente perfeito que nos dá a impressão de estarmos sempre diante de um quadro muito bem modelado. Bem conduzida, a câmera faz giros impecáveis ao redor dos personagens e nos faz perceber que ela está sempre em movimento, buscando cercar o seu objeto – e quando ele não se situa num local apropriado, ela mesma faz o papel de enquadrá-lo numa posição ideal, entregando shots fotográficos arrebatadores por meio de close-ups inesquecíveis.” – Plano Crítico

O amigo americano (The american friend, Alemanha, 1977), de Wim Wenders. Com Dennis Hooper (Tom Ripley), Bruno Ganz (Jonathan Zimmermann), Lisa Kreuzer (Marianne Zimmermann), Gérard Blain (Raoul Minot). 

Ervas flutuantes

Ervas flutuantes (Ukigusa, Japão, 1959), de Yasujiro Ozu. O segundo filme colorido de Ozu, com direção de fotografia de Kazuo Miyagawa, é um primor estético, uma profusão de cores que traduz a temática da narrativa: um grupo teatral, denominado Ervas flutuantes, chega a uma pequena ilha para apresentações. Os figurinos, a maquiagem, a cenografia teatral, ilustram esse mundo colorido de artistas mambembes que fazem de sua arte celebrações à vida. 

O conflito acontece quando Komajuro Arashi (Ganjiro Nakamura), mestre do grupo, passa a visitar com frequência sua ex-amante, com quem tem um filho. A crise familiar, tema recorrente da obra de Ozu, provoca conflitos também no grupo teatral que, convivendo com teatros vazios e a monotonia dos dias, caminha para o esfacelamento. 

“Embora os filmes de Ozu geralmente contenham um número surpreendentemente grande de planos e façam, muitas vezes, experiências com a construção do espaço cinematográfico, a impressão predominante que temos de Ervas flutuantes é que ele se trata de uma série de naturezas mortas interligadas e que seu ritmo está em harmonia com a repetição tranquilizante da vida cotidiana. O plano de abertura do filme – contrastando e comparando o volume, o formato e a cor de uma garrafas com os de um farol – sugere uma ausência de movimento, o ruído de um motor de barco ao fundo reforçando a ‘completude’ e a ‘plenitude’ da imagem à mostra. Nesses momentos, o filme alcança uma espécie de quietude, uma serenidade estrutural resignada, que acompanha até mesmo as obras mais trágicas de Ozu, como Era uma vez em Tóquio.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Duelo silencioso

Duelo silencioso (Shizukanaru ketto, Japão, 1949), de Akira Kurosawa, é adaptado de uma peça teatral de Kazuo Kikuta. Durante a Segunda Guerra Mundial, o jovem médico Kyoji (Toshiro Mifune) contrai sífilis de um paciente durante uma operação. 

Após o fim da guerra, o médico esconde a doença de todos. Ele estava de casamento marcado com um amor de infância, mas cancela o casamento sem explicações. Grande parte da trama se passa em um pequeno núcleo, dentro do hospital onde Kyoji trabalha, junto com seu pai. Cada vez mais dedicado ao trabalho, Kyoji se isola das relações sociais, convivendo amargurado com sua doença. 

O ponto de destaque do filme é um longo e ousado monólogo do Dr.Kyoji, quando ele revela a sua jovem assistente a luta diária que empreende contra seus desejos masculinos. Toshiro Mifune, parceiro habitual de Kurosawa, oscila entre a amargura complacente e a raiva, um grande e inesquecível momento da interpretação no cinema. 

Fim de verão

O título original do filme pode ser traduzido como “O outono da família Kohayagawa”, representando com mais clareza a temática do filme: a família comandada pelo patriarca Kohayagawa se defronta com os conflitos inerentes à velhice, ao fim da vida. A família administra uma pequena fábrica de saquê. Duas das filhas, uma viúva e outra solteira, estão diante da pressão inerente da sociedade para se casarem, mas preferem fazer suas próprias escolhas, casar não é uma opção para a viúva. O pai, adoentado, foge quase diariamente para se encontrar com sua amante, a contra gosto dos filhos. 

Em seu penúltimo filme, Ozu se debruça mais uma vez sobre questões familiares, centrando seu olhar nas mulheres da família, debatendo o papel delas na nova sociedade japonesa. Devem ser independentes para decidir sozinhas o caminho a seguir. 

A política dos autores, ou teoria do autor, se aplica de forma contundente no cinema de Ozu: os planos estáticos com a câmera ligeiramente baixa, a falta de movimentação da câmera, as elipses demarcadas por “fotografias” do cotidiano, a quase ausência de interpretação dos atores, renegando o sentimentalismo ou o melodrama e, principalmente, a repetição temática. Assistir a um filme de Ozu é como assistir a variações do mesmo tema, no entanto, em cada filme o encanto e o fascínio surgem da direção de fotografia e do enquadramentos que levam o espectador a indefiníveis sensações de beleza poética diante da imagem. 

Fim de verão (Kohayagawa-ke no aki, Japão, 1961), de Yasujiro Ozu. Com Ganjirô Nakamura (kohayagawa Manbei), Setsuko Hara (Akiko), Yôko Tsukasa (Noriko), Michiyo Aratama (Fumiko), Keijo Kobayashi (Hisao).