Verão seco

Verão seco (Susuz yaz, Turquia, 1963), de Metin Erksan. Com Erol Tas (Kocabas Osman), Hulya Kocyigit (Bahar), Ulvi Doğan (Hasan),

A narrativa se passa em uma pequena cidade agrícola, castigada por um verão incremente. Os irmãos Osman e Hasan são beneficiados, pois a terra que cultivam é a nascente de um manancial de água. Osman, o irmão mais velho, decide represar a água, cortando o abastecimento para outros agricultores.

Esse ponto de partida é a motivação para fortes críticas sociais. Usando de uma memorável fotografia em preto e branco, o diretor turco Metin Erksan espelha a divisão de classes e a miséria social e econômica que domina a região. Cabe aos moradores da aldeia viver das gotas de água disponíveis ou se rebelarem. 

O conflito acontece também entre os irmãos. Hasan, apesar de passivo e obediente diante do irmão mais velho, não aceita a represa da água. A discordância ganha contornos trágicos por meio da ousadia erótica de um triângulo amoroso: Hasan se casa com a jovem e bela Bahar, objeto de desejo também de Osman. 

Verão seco conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e aguçou o olhar das cinematografias dominantes para um, até então, desconhecido cinema turco. 

We can’t go home

O diretor Nicholas Ray, autor de clássicos como Juventude transviada e Johnny Guitar atuou como professor nos anos 70, na Harpur College, Nova York. We can’t go home again (EUA, 1973) é uma espécie de trabalho acadêmico, filme experimental que realizou com um grupo de alunos.

O filme segue o estilo de um docfic, narrativa fragmentada de um pretenso filme de ficção entremeado pelas intervenções de Nicholas Ray, quando pontua questões sobre linguagem, estética e outros procedimentos narrativos. Nas intervenções e orientações aos seus alunos, o diretor reflete sobre seu cinema e sobre o cinema moderno, trabalhando com arrojadas experimentações narrativas e estéticas. Com o perdão do trocadilho, We can’t go home é uma verdadeira aula de cinema. 

Laura

Alfred Hitchcock se referiu que o amor que Scottie (James Stewart) desenvolve por Madeleine (Kim Novak) em Um corpo que cai (1958) era “necrofilia pura”, afinal, Madeleine já era um cadáver. Apaixonar-se pelo retrato de uma jovem morta pode se aproximar disto em um sentido mais poético. 

Em Laura, clássico do cinema noir, O detetive Mark McPherson está investigando o assassinato de Laura, ocorrido na noite anterior, uma sexta-feira. Ela abriu a porta de seu apartamento e foi alvejada por dois tiros de espingarda. 

O principal suspeito é o playboy Shelby Carpenter, na lista se inclui também o jornalista excêntrico Waldo Lydecker, espécie de tutor de Laura no mundo profissional. Incluindo o detetive e o pintor do quadro, que não participa da trama, são quatro homens fascinados, apaixonados por Laura. A virada acontece quando o detetive adormece em uma cadeira, com o retrato de Laura ao fundo. A porta se abre e Laura entra. 

“Nos cenários claustrofóbicos e de um excêntrico tom onírico pelos quais transitam as personagens – raramente acompanhadas de figurantes, o que dá ainda mais relevância a cada linha de diálogo que sai de suas bocas -, um dos elementos simbólicos mais proeminentes é o retrato de Laura pintado por um de seus admiradores, quase onipresente na mise-en-scène minuciosa de Preminger. Representado na tela está uma figura feminina pela ótica masculina que, segundo Waldo, não é capaz de captar a pulsante chama de vida que resplandece de sua pele. Por essa razão, a indagação sobre quem a matou é abandonada antes da metade do filme, pois o que está em jogo é muito mais a existência de cada um dos homens – e por extensão o próprio público, pleno de convicções – atribui a ela.” – Vinicius Lins Magno

Laura subverte um dos princípios básicos do filme noir: a femme fatale sedutora, fria e calculista que manipula os homens para atingir seus objetivos.  A Laura de Gene Tierney é inocente, em um certo aspecto ingênua de seus encantos, pensa estar apaixonada por Carpenter e quer protegê-lo. Claro, usa de seus encantos joviais para ascender na profissão e na sociedade, se aproveitando do fascínio que o famoso jornalista sente por ela. Mas não é o arquetípico da criminosa do noir. 

“A protagonista, mesmo que completamente inocente no crime e aparentemente alheia ao feitiço que conjura com sua beleza, não precisa apontar um revólver para o rosto de alguém para fazer as vezes de femme fatale. É a curiosidade quase vulgar em torno de sua figura que acende a pólvora no coração dos homens e os projeto à autodestruição, numa trajetória de insanidade.” – Vinicius Lins Magno. 

O destaque do filme, uma das grandes cenas do cinema noir, é quando o detetive interroga Laura em seu gabinete. Laura está sentada diante da luz agressiva usada em interrogatórios. McPherson está em pé do outro lado da mesa. Ela acusa o detetive de estar tentando forçá-la a confessar o crime. A conversa segue, Laura abaixa a cabeça e encobre o rosto com uma das mãos: “Não posso, por favor. Essa luz precisa ficar no meu rosto?” McPherson desliga a luz, Laura levanta a cabeça e olha para o detetive, iluminada pela suave luz noir, seu rosto no esplendor de uma triste beleza. Apaga-se o retrato, McPherson finalmente vê Laura surgir diante de seus olhos apaixonados. 

Laura (EUA, 1944), de Otto Preminger. Com Gene Tierney (Laura Hunt), Dana Andrews (Mark McPherson), Clifton Webb (Waldo Lydecker), Vincent Price (Shelby Carpenter), Judith Anderson (Ann Treadwell). 

Referência: Livreto encartado no bluray da Versátil Home-Vídeo, curadoria de Fernando Brito.

Depois do vendaval

Depois do vendaval (The quiet man, EUA, 1952), de John Ford.

Vamos falar de dois beijos. No primeiro, Sean Thornton (John Wayne) e Mary Kate Danaher (Maureen O’Hara) correm fustigados pelo vento da fria Irlanda e entram na cabana de Sean. Quando abrem a porta, o vento impetuoso impele Mary. Sean a segura pela mão e a puxa de volta, de encontro ao seu peito. O beijo acontece ao sabor do vento e da chuva aconchegando os dois enamorados. 

O segundo beijo. Sean e Mary tentam se esconder da chuva repentina debaixo de um arco de concreto, no cemitério da cidade. Ela olha assustada os relâmpagos, seus cabelos ruivos já respingados pela chuva. John Wayne tira o paletó e encobre os ombros dela. Ele não se importa com a chuva, deixa a água cair pelo seu rosto, encharcar sua camisa branca. Assustada com um relâmpago mais forte, Maureen O’Hara se protege no peito dele. Completamente encharcados, os dois se olham com ternura e se beijam. 

Dois beijos rápidos, como a época impunha, mas nem mesmo o rígido Código Hays que determinava idiotices assim nos filmes (tempo limitado de lábios nos lábios) conseguiu impedir o erotismo dessas cenas. 

John Ford conquistou seu quarto Oscar de melhor diretor (recorde não batido até hoje) por Depois do vendaval. O ex-boxeador Sean Thornton retorna à sua cidade natal, na Irlanda, disposto a comprar a casa onde passou a infância. A motivação será revelada mais à frente, em uma sequência que revela a plenitude visual que acompanhou toda a obra de Ford: durante uma luta de boxe nos EUA, Sean mata acidentalmente seu oponente – toda a sequência é silenciosa, a câmera e a montagem evidenciando a angústia e a dor do protagonista após o ato fatídico. 

Logo após a chegada, Sean vê Mary no belo campo (a paisagem é um dos destaques do filme, emoldurada pela bela fotografia de Winton C. Hoch). Os dois se apaixonam, mas o casamento será impedido pelo irmão de Mary, Danaher (Barry Fitzgerald), um turrão irlandês que não aceita o forasteiro atrevido. 

A narrativa termina com uma sequência apoteótica: Sean e Danaher se enfrentam em uma luta acompanhada por todos da cidade, que se divertem enquanto apostam no vencedor. A contenda se estende por quilômetros, com intervalos para que os dois descansem e bebam. Por fim, bêbados, se abraçam em uma amizade fraterna. 

Depois do vendaval é desses filmes que divertem, enternece, deixa o espectador enlevado em uma bela história de amor. Impossível resistir à paisagem da Irlanda, à beleza contagiante de Mary, à tristeza poética de Sean, vencida pela paixão que motiva o desejo de renascer. O nome por trás disto tudo: John Ford, para muitos, o melhor diretor americano de todos os tempos.  

Os vencidos

Os vencidos (Itália, 1953), de Michelangelo Antonioni. 

O filme abre com narração em off, alertando o espectador para o que vai assistir: 

“Não importa se as histórias que contaremos são verdadeiras ou inventadas. Você pode considerá-las inventadas porque as verá numa tela. Pode considerá-las verdadeiras pois acontecem diariamente. Porque todos os dias aparecem nas manchetes dos jornais. Estas histórias são as façanhas da chamada “Geração perdida”. A geração dos que, na época da guerra, eram crianças e que quando abriram os olhos, só viram um espetáculo no mundo: a mobilização geral da violência. “

O narrador continua sua reflexão sobre essa geração perdida do pós-guerra, jovens sem perspectiva, vivendo apenas o presente do dia, sem se importar com as consequências de seus atos, no caso, a criminalidade sem nenhuma motivação aparente. “Três histórias diferentes, de três países diferentes. Mas, no fundo, parecidas em suas tristes razões. Não vamos floreá-las, ou por um encanto que não lhes pertence. Contaremos sem cor, sem ênfases, para que vejam que a realidade, vista sem encantos, é uma realidade sombria, incapaz de seduzir alguém.” 

Esse realismo de Antonioni é que coloca Os vencidos na categoria de chocante. Na primeira história, um grupo de estudantes do ensino médio mata um de seus colegas, durante um passeio no campo, para roubar seu dinheiro (que na verdade, ele não tem). Na segunda, um estudante universitário se envolve no contrabando de cigarros e é perseguido violentamente pela polícia. Por fim, um poeta fracassado encontra o corpo de uma jovem na rua e tenta vender uma história inventada aos jornais.

O alerta de Antonioni no início surge como um eco dos dias atuais, da fascinação viciante provocada pelas imagens que proliferam nas redes sociais: “Se nossos filhos pudessem ouvir essas três histórias, se livrariam da fascinação mórbida que as falsas imagem causam a eles. (…) Ficou evidente quando a “Geração Perdida” apareceu nas notícias com uma série de impressionantes crimes, que surgia um novo tipo de delinquência, diferente do que surge da miséria, e das desigualdades sociais. Os novos heróis da quarta página, eram de fato, jovens de famílias ricas, que ignoravam carregar tamanhas monstruosidades. Não era a necessidade, nem um complexo de inferioridade social o que os levava ao crime. Era o desejo de realizar atos excepcionais, de emergir, de sentir-se protagonistas das revistas, dos quadrinhos, de filmes de gângster. Guerra, crônicas criminais, quadrinhos e cinema, tudo fundido num único ideal: a celebração da violência como triunfo pessoal. O derramamento de sangue tinha o único propósito de auto-afirmação. Como a luz sinistra de um gesto cruel: o vitorioso culto a si.”

De humani corporis fabrica

De humani corporis fabrica (França, 2022), de Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor. 

Prepare sua mente, seu estômago e todos os sentidos antes de assistir a esse impressionante documentário. Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor acompanham o cotidiano de um grupo de cirurgiões em cinco hospitais da periferia de Paris. A câmera se projeta literalmente dentro das vísceras e órgãos dos pacientes, em uma viagem fantástica povoada pelas partes internas da carne humana de uma forma que só os cirurgiões conhecem. 

Como off, o documentário usa conversas e relatos dos médicos durante os procedimentos, às vezes refletindo sobre o trabalho, outras vezes em conversas triviais enquanto manejam os bisturis e demais instrumentos. O título do filme é tirado do famoso livro de anatomia humana, amplamente ilustrado, escrito por Andreas Vesalius, em 1543. Vesalius era professor da Universidade de Paris e realizou uma série de dissecação de cadáveres. 

O documentário expandiu a polêmica que começou há 500 anos, com cenas de estarrecer até os mais frios cidadãos, com direito a um final apoteótico com música disco e a câmera percorrendo ilustrações eróticas. 

Down by law

Down by law (EUA, 1986), de Jim Jarmusch.

A abertura do filme é fascinante: um travelling lento pelas ruas de um bairro periférico de Nova Orleans, a fotografia em preto e branco emoldurando a paisagem soturna. O travelling é entrecortado por duas cenas de interior, apresentando os protagonistas Zack (Tom Waits), DJ desempregado e o cafetão Jack (John Lurie) em seus quartos. Ambos são envolvidos em uma armação por desafetos e são encarcerados na mesma cela. Bob (Roberto Benigni), um italiano que mal sabe falar inglês, acusado de matar um homem, se junta aos dois. 

O diretor indie americano Jim Jarmusch tece um panorama da América marginal por meio desta tríade de atores em atuações excepcionais. A entrada em cena do italiano muda o panorama da cela, até aquele momento ocupada pela desilusão, pela tristeza agressiva. Um dos mais belos momentos da película é a canção entoada pelos três, uma brincadeira com o inglês atrapalhado de Roberto, que contagia todo o corredor. 

O terceiro ato, em um imenso pântano, traz de volta a paisagem desoladora dessa América marginal, agora um deserto pantanoso. Assim como o bairro do início, também uma espécie de submundo habitado não por criminosos, mas por pessoas opostas ao american way of life que apenas andam em círculos.

O alucinado

Luís Buñuel volta suas lentes para a hipocrisia social no México, contando a história de um aristocrata religioso, admirado pela sociedade e pelos membros da igreja católica. Dom Francisco Galván posa de justo, movido pelos valores cristãos, mas revela pouco a pouco uma personalidade agressiva. 

Após um breve idílio amoroso, Dom Francisco conquista Gloria, que estava de casamento marcado com um engenheiro. O casamento entre os dois é um evento na Cidade do México, mas, durante a viagem de núpcias, o aristocrata passa a ser corroído por um ciúme doentio que cresce assustadoramente. 

A contundente crítica de Buñuel coloca em cheque a conservadora sociedade mexicana: importantes membros da igreja, o círculo social do casal e até mesmo a mãe de Gloria, fazem vistas grossas à violência de Francisco, que passa a agredir fisicamente sua esposa. 

O ponto forte da narrativa é a ousada elipse que acontece após um beijo ardoroso entre o casal de enamorados, antes do casamento. Em uma rua, durante a noite, Gloria encontra seu ex-namorado e relata passo a passo seu tormento durante o casamento. 

O alucinado (El, Mèxico, 1953), de Luis Buñuel. Com Arturo de Córdova (Francisco Galván), Delia Garcês (Gloria Vilalta), Carlos Martínez Baena (Padre Velasco), Manuel Dondé (Pablo), Luis Beristáin (Raúl Conde). 

Revolução na terra dos brinquedos

Hermína Týrlová, aclamada diretora alemã de animação, dirige em parceria essa pequena obra-prima, uma manifesto contra o nazismo e o fascismo. Um fabricante de brinquedos de madeira está trabalhando em sua oficina quando se vê ameaçado por um oficial da Gestado. Ele foge pela janela, o policial invade a oficina e começa a vasculhar o ambiente, tentando destruir os brinquedos. 

Os brinquedos ganham vida e fazem uma resistência coletiva contra o oficial, usando de inventividade, com recursos criativos de guerrilha, bem ao estilo da resistência tcheca durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial. Revolução na terra dos brinquedos, de certa forma, é o antecessor de Toy Story, colocando o universo da fantasia contra os horrores do nazismo. 

Revolução na terra dos brinquedos (República Tcheca, 1946), de Hermína Týrlová e Šádek František.

O testamento do Dr. Mabuse

O filme é a continuação da monumental obra de Fritz Lang, Dr. Mabuse (1922), de quatro horas de duração, dividido em duas partes. Agora, o Dr. Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) está internado há dez anos em um centro psiquiátrico, sem falar, fazendo anotações sem parar em folhas avulsas. 

Do sanatório, ele controla uma rede de criminosos que pratica assaltos a bancos e joalherias, mas seu plano fatal é explodir uma indústria de produtos químicos e contaminar toda a cidade. Usando de seus poderes hipnóticos e, de certa forma, telepáticos, o Dr. Mabuse domina todos ao seu redor e confunde a polícia com intrincados estratagemas. Fritz Lang prenuncia muito do cinema noir, gênero que vai ajudar a consagrar posteriormente nos Estados Unidos.

A película foi realizada no início do cinema falada na Alemanha, mas o diretor preserva sua genialidade visual. A primeira sequência é tomada pelo silêncio, construindo uma narrativa de suspense durante a investigação de um policial em um edifício onde dinheiros falsos são produzidos. O ponto forte da narrativa são as breves aparições do Dr. Mabuse, com seus olhos hipnóticos e assustadores.

O testamento do Dr. Mabuse (Das testament des Dr. Mabuse, Alemanha, 1933), de Fritz Lang. Com Rudolf Klein-Rogge, Otto Wernicke, Thomy Bourdelle, Gustav Diesel, Rudolf Schindler.