Amor bandido

No início do filme, o detetive Galvão está em uma boate de streaptease observando duas jovens dançarinas em uma apresentação lésbica. Chega em casa, pega o telefone e liga para um número de ajuda aos ouvintes. Seu desabafo revela como expulsou de casa sua filha adolescente após descobrir seus casos sexuais.

O diretor Bruno Barreto constrói esse drama social com um olhar na pornochanchada. Sandra, a filha do detetive, é a dançarina da abertura. Se prostitui com os clientes da boate e desenvolve uma relação amorosa com Toninho, jovem que ganha a vida saindo com travestis. Narrativa paralela coloca Galvão e a polícia no encalço de um assassino de taxistas. 

Amor bandido foi realizado logo após o estrondoso sucesso (uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro) de Dona Flor e seus dois maridos, também de Bruno Barreto. A narrativa mescla o erotismo aberto da pornochanchada com thriller policial, cinema noir  e drama social – o cenário é o submundo das noites cariocas, recheado de personagens que vivem à margem da sociedade tradicional. Sandra e Toninho representam esses jovens que entendem que é preciso viver como se não houvesse amanhã. 

Amor bandido (Brasil, 1979), de Bruno Barreto. Com Cristina Aché (Sandra), Paulo Gracindo (Galvão), Paulo Guarnieri (Toninho).

A padeira do bairro

Este curta-metragem abre a série Contos Morais de Éric Rohmer. Um jovem estudante de direito se sente fascinado por Sylvie, uma mulher que cruza com ele em dias seguidos nas ruas do bairro. Quando Sylvie desaparece, ele passa a frequentar uma padaria, desenvolvendo uma atração pela atendente do estabelecimento. 

Érick Rohmer apresenta neste curta as características que vão demarcar seus filmes seguintes, separados por séries temáticas: jovens se encontram nas ruas das cidades, nos bares e cafés, no campo, nas belas praias francesas e desenvolvem relações que oscilam entre a amizade e o romance. Debates, reflexões em primeira pessoa, diálogos, enquanto se movem incessantemente, os personagens de Rohmer conversam, divagam, seguem movidos por questionamentos e relações ao acaso. 

A padeira do bairro (La boulangère de Monceau, França, 1963), de Éric Rohmer. Barbet Schroeder, Claudine Soubrier (Jacqueline), Michèle Girardon (Sylvie). 

Um casamento perfeito

O provérbio que abre a narrativa é “Qual o espírito que não divaga? Quem não constrói castelos na Espanha?” Quem divaga sobre castelos na Espanha é Sabine, estudante de arte, que, logo no início, tem uma desilusão amorosa com seu amante, um pintor casado. Ela decide então se casar, mesmo sem um pretendente. Quando o advogado Edmond, charmoso e livre, entra em cena, Sabine tem certeza de ter encontrado seu noivo. 

O centro da trama é Sabine, personagem que age motivada por seus desejos, mesmo sabendo da impossibilidade de realizá-los plenamente. A comédia dita o tom da narrativa, Sabine oscila entre atitudes ingênuas e impulsivas para conquistar Edmond e entre momentos de tristeza e depressão. É mais uma personagem da galeria de rostos fascinantes de Éric Rohmer, que vivem de encontros fortuitos na vida cotidiana das cidades, se deixando levar de forma despretensiosa, natural, pelos acasos. Em Um casamento perfeito esse acaso se manifesta de forma apaixonante na estrutura circular da narrativa: o início e o final com Sabine dentro de um trem. 

Um casamento perfeito (Le beau mariage, França, 1982), de Éric Rohmer. Com Béatrice Romand (Sabine), André Dussollier (Edmond), Arielle Dombasle (Clarisse), Sophie Renoir (Lise), Féodor Atkine (Simon). 

White building

No início da narrativa, três jovens amigos percorrem a noite de Phnom Penh, apresentando seu número de dança em bares. É a forma de ganhar dinheiro, mantendo o sonho de vencer um concurso de dança. No entanto, um dos amigos abandona o grupo para morar em Paris. 

Esse início, espécie de road movie suave e silencioso de moto pelas ruas da cidade, simboliza o sonho desses jovens, que será desfeito diante da dura realidade. Nag mora no Edifício Branco, cujos moradores são, em sua maioria, artistas desempregados (como o pai de Nang). Um novo empreendimento será erguido no lugar e os moradores devem aceitar a irrisória oferta de indenização. 

White building foi co-produzido pelo icônico diretor chinês Jia Zhangke e segue os preceitos deste novo cinema asiático. A câmera acompanha os personagens pelas ruas e pelos claustrofóbicos interiores das moradias paupérrimas.As imagens dão o tom da narrativa, acompanhadas por um silêncio perturbador, como se a única alternativa que resta aos personagens fosse contemplar a gradativa destruição de seu modo de vida. 

White building (Bodeng sar, Camboja, 2021), de Kavich Neang. Com Piseth Chhun (Nang), Hout Sithorn (Líder), Chinnaro Soem (Ah Kha), Sovann Tho (Tol). 

O joelho de Claire

É, talvez, o filme mais polêmico da antológica série Seis Contos Morais, de Éric Rohmer. Jerôme e Aurora, dois amigos de meia-idade, perto dos 40 anos, se reencontram às margens do belo Lago de Annecy. A adolescente Laura se apaixona por Jerôme e Aurora tenta convencer o amigo a se entregar à experiência (ela é escritora e assim teria inspiração para uma história). No entanto, Jerôme começa um jogo de sedução em torno da também adolescente Claire, após ficar completamente fascinado pela visão de seu joelho.  

Os debates a respeito de sedução e infidelidade entre Jerôme e Aurora ditam os rumos da narrativa. “Por que me prenderia a uma mulher se outras ainda me enteressassem?”. Diz Jérôme, revelando seu estilo de vida, mesmo estando prestes a se casar com a filha de um embaixador. No entanto, é a sedutora presença de Claire quem domina a película. O fetiche de Jérôme em torno de seus joelhos é simbólico, apresenta um desejo arrebatador e proibido.

O joelho de Claire (Le genou de Claire, França, 1970), de Éric Rohmer. Com Jan Claude Brialy (Jérôme), Aurora Cornu (Aurora), Béatrice Romand (Laura), Laurence de Monaghan (Claire). Michèle Montel (Madame Walter). 

Mirch Masala

Na Índia colonial, o exército percorre os povoados cobrando impostos da população. O conflito se instaura em uma pequena aldeia quando o General exige que a bela Sonbai (seu marido está ausente, trabalhando em uma estrada de ferro) se entregue a ele. Além de recusar, ela esbofeteia o General e, em fuga, se refugia, junto com outras mulheres, em uma fábrica de pimenta.

A narrativa de Ketan Mehta revela a face cruel de uma sociedade que se diz protetora dos valores da família. Os homens da aldeia se submetem às exigências do General e, quando confrontados moralmente (é seu dever proteger suas mulheres) abaixam a cabeça em sinal de subserviência e humilhação. A resistência se mostra no ato heróico do guardião da fábrica e na virada final, quando as mulheres se unem em um retumbante gesto de autodefesa e protesto. Um filme relevante, principalmente neste momento, quando os valores conservadores da sociedade patriarcal voltam novamente suas garras contra as mulheres. 

Mirch Masala (Índia, 1986), de Ketan Mehta. Com Smita Patil (Sonbai), Naseeruddin Shah (Subeber), Om Puri (Abu Miya). 

A colecionadora

Três prólogos apresentam os protagonistas. Haydée, uma jovem que vive seus amores de forma liberta, sem amarras, dormindo com os homens que a interessam, a colecionadora do título. Daniel, um pintor centrado em seu próprio mundo arrivista. Adrien, um comerciante de artes pretensioso, arrogante, espécie de bon vivant sem recursos que passa seus dias entre o ócio e a necessidade de ganhar dinheiro. 

Os três se encontram durante as férias de verão em uma casa na Riviera francesa e passam seus dias entre conflitos e entregas amorosas. O primeiro filme a cores de Éric Rohmer (da série Contos Morais) é um retrato da vida dos jovens de St. Tropez, que vivem entre o sexo e o glamour, como se nada importasse a não ser debates banais e noites na cama.

A colecionadora (La collectionneuse, França, 1967), de Éric Rohmer. Com Haydée Politoff (Haydée), Patrick Bauchau (Adrien), Daniel Pommereulle (Daniel), Seymour Hertzberg (Sam). 

A casa e o mundo

Bimala segue os preceitos determinados pela rígida sociedade indiana. É casada com o rico Nikhil e vive reclusa na mansão, na ala destinada às mulheres. Seu marido tem ideias progressistas a respeito da emancipação das mulheres e a incentiva a deixar a reclusão e conhecer seu amigo Sandip, um líder nacionalista que luta conta a colonização britânica na Índia. 

Bimala e Sandip desenvolvem, a princípio, uma relação comum a respeito das ideias nacionalistas. No entanto, essa relação caminha passo a passo para a atração física que ganha contornos irresistíveis e imprevisíveis, diante da conturbada situação política do país. 

A narrativa do aclamado diretor Satyajit Ray tem como contexto a Índia do início do século XX, quando os movimentos nacionalistas ganharam força. Ao mesmo tempo, a trama aponta questões que repercutem ainda hoje, como a divisão de castas indianas, a situação da mulher, oprimida pela cruel dominação masculina. O final trágico deixa pouco espaço para a esperança. 

A casa e o mundo (Ghare-Baire, Índia, 1984), de Satyajit Ray. Com Soumitra Chatterjee (Sandip), Victor Banerjee (Nikhl)), Swatilekha Sengupta (Bimala), Gopa Aich (A irmã). 

Saudações, cubanos!

Em dezembro de 1962, Agnès Varda visitou Cuba a convite do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos. Sua estada de pouco mais de um mês no país de Fidel Castro, logo após a revolução, resultou em cerca de quatro mil fotos tiradas por Varda. As fotos foram expostas em Paris, depois a diretora se debruçou em um trabalho minucioso para fazer esta espécie de documentário animado a partir de fotografias. 

É o retrato vivo da Cuba ainda imberbe da revolução, o próprio título determina o olhar de Agnès Varda: o que interessa são as pessoas, os moradores dessa ilha explorada durante décadas pela ditadura de Fulgencio Batista e pela elite americana. Arte, cultura, com destaque para os movimentos musicais, a vida simples de moradores e trabalhadores, as imagens fascinam, encantam, deixam em cada frame a sensação de um sonho, uma utopia. 

Saudações, cubanos! (Salut les cubains, França, 1963), de Agnès Varda.

The hand

O filme de média-metragem de Wong Kar Wai (cerca de 60 minutos) foi lançado como parte de uma trilogia de contos, Eros, junto com dois outros episódios dirigidos por Antonioni e Steven Soderbergh. A narrativa com forte teor erótico acompanha o jovem alfaiate Zhang que, em linha de sucessão de seu mestre, deve fazer os vestidos da bela Sra. Hu. Logo no primeiro encontro, ele é seduzido por ela, em um jogo que mistura prazer e dominação. 

Este primeiro encontro fascina o espectador pela estética característica de Wong Kar Wai – os planos fechados cobertos de cores quase extravagantes do ambiente, a câmera num misto de sensibilidade e fetiche à medida que as mãos da Sra. Hu provocam o jovem alfaiate. O tema do filme é também o envelhecimento do corpo, não da memória: à medida que a doença consome o corpo da Sra. Hu, os dois vão viver nos desejos daquela primeira noite mágica. 

The hand (China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Gong Li (Miss Hua), Chang Chen (Zhang), Tin Fung (Master Jin).