O grego Yorgos Lanthimos faz releitura de Ifigênia, tragédia de Eurípides, na qual Agamenon é obrigado a sacrificar um filho por ter matado um cervo sagrado. Steven Murphy é cirurgião cardiologista e tem estranha relação com o filho adolescente de um paciente. As poucos, o espectador desvenda o mistério por trás da relação que envolve cobrança e justiça por erros cometidos no passado.
Steven é casado com a também médica Anna; o casal tem dois filhos. Quando o amigo adolescente de Steven é inserido no seio familiar, a trama caminha para a previsível anunciação estampada no título do filme, com direito a final perturbador que exige controle de nervos do espectador.
Estranheza é o que se pode esperar de O sacrifício do cervo sagrado. Além da inserção de metáforas bíblicas na narrativa, os atores trabalham com a não-interpretação, agindo quase como autômatos entregues ao destino. Barry Keoghan, no papel do adolescente Martin, é a grande surpresa do filme.
O sacrifício do cervo sagrado (The killing of a sacred deer, Inglaterra, 2017), de Yorgos Lanthimos . Com Colin Farrell (Steven Murphy), Nicole Kidman (Anna Murphy), Barry Keoghan (Martin), Raffey Cassidy (Kim Murphy), Sunny Sujic (Bob Murphy), Alicia Silverstone (Mãe de Martin).
Deslembro trata com sensibilidade da história recente do Brasil que o atual governo insiste em negar: a ditadura militar. A adolescente Joana vive em Paris com a mãe e reluta em voltar ao Brasil após a anistia política. No Rio de Janeiro, ela conhece a avô Lucia e passo a passo vai se entregando as memórias de criança, quando o pai vivia na clandestinidade e acabou preso pelos militares. Foi considerado desaparecido, seu corpo nunca foi encontrado. Um fato atesta a crueldade desta condição: a turma escolar de Joana vai participar de excursão a Ouro Preto; a garota precisa da autorização dos pais, mas como não tem o atestado de óbito do pai é impedida de viajar.
A narrativa parte das próprias memórias da diretora Flávia de Castro. Em 1972, seus pais tiveram que deixar o Brasil, história retratada no documentário Diário de uma busca (2011). A fotografia é dos pontos de destaque de Deslembro. Em Paris as cores são vibrantes, no Rio de Janeiro a fotografia ganha um tom frio; o tratamento da imagem também remete ao cinema dos anos 70/80. Jeanne Boudier faz sua estreia como atriz, tratando a personagem com as dubiedades próprias da adolescência: revolta, compreensão; carinho e raiva pelos familiares; deslumbre com o novo país, com a descoberta da sexualidade. O tom político ganha força com o padastro chileno e, principalmente, nas memórias da avó Lúcia sobre o filho desaparecido.
Deslembro (Brasil, 2018), de Flávia Castro. Com Jeanne Boudier (Joana), Sara Antunes (mãe), Eliane Giardini (Lúcia).
A diretora alemã Margarethe von Trotta investe no relacionamento de duas mulheres para compor retrato da sociedade ainda marcada pelo domínio dos homens no destino de ex-esposas. Jade é promissora designer de moda, vive em um luxuoso apartamento em Nova York deixado por Nick quando da separação (ele a trocou por uma jovem beldade). De repente, Maria, a primeira mulher de Nick, exige morar no apartamento, pois também tem direitos. Por fim, Antonia, filha de Maria e Nick, chega ao apartamento em busca de trabalho na metrópole americana.
O convívio diário entre as mulheres rende situações às vezes cômicas, outras vezes dramáticas. Enquanto Jade luta pela ascensão profissional, inserindo Antonia em seu cotidiano de trabalho, Maria aceita sua condição de aposentada, cuidando dos afazeres domésticos, além de trabalhos na área acadêmica. Os conflitos permeiam a trama com direito a final irreverente.
Nosso ex-marido (Forget about Nick, Alemanha, 2017), de Margarethe von Trotta. Com Ingrid Bolso Berdal (Jade), Katja Riemann (Maria), Haluk Bilginer (Nick), Tinta Fursk (Antonia).
A comédia romântica segue os passos de Antônio, após tomar fora da namorada. Ele tenta retomar a vida com naturalidade, mas sofre com a perda e solidão e se entrega a tentativas de se reencontrar e encontrar novos relacionamentos.
O roteirista e diretor Pedro Coutinho insere na trama situações cômicas que trazem também reflexão sobre a busca incessante da juventude. Terapia, antidepressivos, relações pelas redes sociais como Tinder, festinhas regadas a álcool e relacionamentos fortuitos. O tom cômico ganha força nas sessões de terapia de Antônio; a terapeuta diverte com seus dilemos sobre sexo.
Todas as razões para esquecer (Brasil, 2018), de Pedro Coutinho. Com Johnny Massaro (Antônio), Bianca Comparato (Sofia), Regina Braga (Elisa).
No final do filme, lettering anuncia: “Júlio Santana assumiu ter assassinado 492 pessoas. Nunca foi julgado ou condenado por seus crimes. Ele esteve preso uma única vez, mas foi solto no dia seguinte. Atualmente, Júlio e a mulher vivem num sítio no interior do Brasil. Sempre que tem pesadelos, ele reza dez Ave-Marias e vinte Pais-Nossos.”
Baseado no livro O nome da morte, de Klester Cavalcanti, o filme narra a trajetória de Júlio Santana pelo mundo dos assassinos de aluguel. No início, ele vive no interior de Goiás, em pequena propriedade ao lado dos pais e irmãos. Leva vida pacata até que o tio, policial, convence Júlio a entrar para a polícia – na verdade, fachada para uma máfia de assassinos da qual o tio faz parte.
A trama abre espaço para os conflitos do protagonista à medida que se entrega ao seu destino de matador. A relação com a esposa é outro aspecto interessante, pois uma intrigante elipse revela que conforto e dinheiro podem ser decisivos para transformações de personagens.
O nome da morte (Brasil, 2017), de Henrique Goldman. Com Marco Pigossi (Júlio), André Mattos (Cícero), Gillray Coutinho (Santos), Fabíula Nascimento (Maria).
É a tradicional história de sobrevivência, da luta dos humanos contra a natureza incremente. A jornalista Alex e o cirurgião Ben se encontram no aeroporto e são surpreendidos com o cancelamento do voo. Eles precisam chegar ao destino com urgência: a jornalista porque está com casamento marcado e o médico para realizar uma cirurgia de emergência. Os dois decidem fretar um pequeno avião e a nevasca nas montanhas provoca a queda. Alex, Ben e um cachorro labrador sobrevivem, resta ao trio caminhar pela neve, enfrentando os perigos da natureza fria e selvagem.
A trama segue os desafios da jornada e abre espaço para o crescente relacionamento amoroso dos protagonistas. A força do filme está no talento de Kate Winslet e Idris Elba, dois grandes atores que seguram a narrativa.
Depois daquela montanha (The mountain between, EUA, 2017), de Hany Abu-Assad. Com Kate Winslet (Alex), Idris Elba (Ben).
Impossível não se emocionar assistindo à Audrey, documentário que retrata uma das atrizes mais fascinantes, dentro e fora das telas, deste maravilhoso cinema clássico americano. O filme traz depoimentos de familiares e amigos da atriz, como Sean Hepburn-Ferrer, Emma Ferrer, Richard Dreyfuss, Clare Waight Keller, John Loring.
Os depoimentos reconstituem a infância de Audrey, quando ela sofreu com os horrores da ocupação nazista na Holanda, vivendo, inclusive, em estado de desnutrição. Foi abandonada pelo pai que se aliou às fileiras nazistas. A vida pessoal da atriz é pontuada ao longo de sua carreira, passando pelos casamentos desfeitos, pelo reencontro com o pai, com destaque para sua atuação como Embaixadora da Unicef.
Os sofrimentos de Audrey durante a segunda guerra mundial, as frustrações de seus relacionamentos amorosos, seu engajamento fervoroso na luta pelas crianças famintas da África e, finalmente, a batalha contra o câncer que a vitimou, são entrecortados pelas belas imagens da carreira da atriz. Imagens eternas: a princesa que passeia liberta pelas ruas de Roma, a filha de um motorista que se transforma em Paris e seduz dois ricos irmãos, a mendiga que ressurge como a mais bela dama, a garota de programa com seu ar ingênuo diante da joalheria e mais, muito mais – poderíamos ficar descrevendo quase sem fim as aparições luminosas de Audrey Hepburn no cinema e em nossa vidas. Melhor assistir ao documentário e correr para rever os filmes.
Eisenstein começou a produção de Alexander Nevsky no momento em que a Alemanha invadiu a Áustria e a Tchecoslováquia, espécie de encomenda do governo de Stalin contra o projeto nazista. O filme, portanto, se enquadra no “realismo socialista”, marcado por obras acessíveis ao grande público, de forte teor ideológico na propagação dos ideais socialistas. Muitos dos filmes deste período traziam tramas passadas em momentos de conflitos históricos, com mensagens edificantes, esperançosas.
Alexander Nevsky se passa no século 13, quando a Rússia lutava contra cruéis conquistadores. O famoso estrategista Alexander está refugiado em uma aldeia de pescadores, logo após vencer o exército mongol, quando é recrutado para liderar o exército contra os germânicos, que invadiram a Rússia e rumam para a poderosa cidade de Novgorod.
Eisenstein usa a figura mitológica e fascinante de Alexander para tratar dos horrores da guerra, espécie de alerta para o que estava por vir com o crescente poderio nazista. A espetacular sequência de batalha no lago congelado está entre as mais impressionantes da história do cinema, quase uma ópera brutal, embalada pela música arrebatadora de Sergei Prokofiev.
Alexander Nevsky (Rússia, 1938), de Sergei Eisenstein. Com Nicolay Cherkasov (Alexander Nevsky), Nikolai Okhlopkov (Vasili), Andrei Abrikosov (Gabrilo), Aleksandra Danilova (Vasilisa), Valentina Ivashova (Olga).
A trama descosturada do filme se passa em um país africano do qual não sabemos o nome. No entanto, as maquinações ideológicas dos personagens apontam para países que conhecemos da África, da América do Sul, Central e de outros recantos. O país é governado por um homem aparentemente germânico que tem como aliados na exploração da população um agente americano, um comerciante português e Marlene, uma loura idolatrada pela população. Um padre branco transita por todos, oscilando entre a apatia e o ódio brutal. A resistência está personificada no líder rebelde que lembra Che Guevara e no negro chamado Zumbi.
O primeiro filme de Glauber Rocha após o exílio durante a ditadura militar brasileira contou com financiamento francês e apresentou ao mundo a verve rebelde, avessa à narrativa convencional deste que ainda é o maior diretor brasileiro de todos os tempos.
“Deliberadamente esquemática, a intriga mobiliza personagens que encarnam agentes históricos da colonização africana sem ganharem espessura psicológica. Suas sequências quase autônomas se alternam com cenas de dança tradicional dos autóctones que interrompem o fio narrativo e afirma a força das culturas africanas. O filme inteiro se constrói por contraposições entre relato e dança, política e mito, colonizador e colonizado, indivíduo e coletividade. Rocha soube explorar nas filmagens a diversidade do elenco, em que atores de prestígio (Léaud, Rassimov, Carvana) interagem com não profissionais e pessoas comuns do Congo. Se a língua francesa predomina no som, ouvem-se também falas ou cantos em inglês, português, alemão e em língua local. Vários idiomas convivem também no título original ‘Der leone have sept cabeças’, que remete aos países colonizadores da África (Alemanha, Itália, Inglaterra, França, Portugal, Bélgica, Holanda) mas sugere, no desacordo gramatical entre sujeito e verbo, que o Leão da história é plural – designa o colonizador com suas sete vidas, mas também o colonizado, igualmente tenaz.” – Mateus Araújo
O leão de sete cabeças (Der leone have sept cabezas, França/Brasil, 1971), de Glauber Rocha. Com Rada Rassimov (Marlene), Giulio Brogi (Pablo), Hugo Carvana (Português), Jean-Pierre Léaud (Padre), Gabriele Tinti (Agente americano).
Referência: Glauber Rocha. O leão de sete cabeças. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Mateus Araújo Silva e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018
A obra-prima de Jean-Renoir, considerado um dos filmes mais humanistas de todos os tempos, passou por revisões de acordo com o contexto histórico. A trama acontece em dois campos de prisioneiros alemães, durante a primeira guerra mundial, onde estão presos soldados franceses e ingleses. Na primeira parte, em um quartel, na segunda, em um suntuoso castelo. O capitão Pierre Fresnay e o Tenente Marechal guiam os homens em tentativas de fuga. Neste contexto, se desenvolve o grande tema da película: a fraternidade, solidariedade entre soldados de raças e classes distintas, todos irmanados pela tragédia da guerra.
Não há cenas de trincheiras, tiroteios, assassinatos em massa. Prisioneiros e carcereiros interagem com compreensão sobre os papéis de cada um na guerra, cumprindo com seus deveres, servindo nobremente às suas nações, mas solidários no sofrimento e na ilusão de que tudo passará rápido.
O Capitão alemão von Rauffenstein e o Capitão francês Boeldieu se aproximam em respeito mútuo, pois fazem parte da mesma classe social aristocrática. Diferenças raciais também são tema da película. O judeu Rosenthal convive com os soldados ouvindo agressões verbais, mas o companheirismo supera tudo, como na emocionante cena na neve, quando Marechal e Rosenthal estão quase se entregando ao destino. “Renoir aproveita o poder ilusório da arte para demonstrar como os homens poderiam ser. Por isso, seus personagens podem estar em posições distintas, sem que isso implique oposição ou impulso de aniquilar o outro.” – Cássio Starling Carlos.
Lançado em 1937, A grande ilusão arrebatou público e crítica como um libelo contra a guerra, capaz de receber elogios da direita e da esquerda. Nos países fascistas, claro, o filme foi proibido, pois a segunda grande guerra já se avizinhava, justificando de vez o título do filme.
Depois dos horrores nazistas, mesmo na França o filme sofreu cortes, pois já não era possível apelar para a fraternidade entre alemães e franceses. Críticas severas e infundadas acusaram até mesmo Renoir de incentivar o antisemistismo. Em vários momentos, os ataques à Rosenthal refletem a realidade da sociedade francesa, mas Renoir deixa claro que o companheirismo entre os soldados leva a necessidade urgente de integrar os judeus.
Renoir afirmou diversas vezes que o filme é totalmente baseado na realidade, em sua experiência na guerra e em relatos de outros soldados, afirmando seu apego ao cinema realista. Os diálogos são primorosos e foram reescritos durante as filmagens, pois todos já tinham consciência de uma nova tragédia pairando no ar. Renoir também reescrevia no set cenas importantes da trama, contando com a participação de sua secretária François Giroud, que depois se tornaria famosa roteirista, com vigorosa carreira no jornalismo e na política, chegando à Secretaria de Estado da Cultura do governo francês nos anos 70.
Sobre o roteiro, um dos melhores da história do cinema, vale refletir sobre duas outras questões, além da reescrita dos diálogos. Quando Erich von Stroheim foi escolhido para interpretar o capitão alemão, mudanças significativas foram feitas, contando com a participação do ator na reescrita de suas falas e na composição do próprio figurino, trazendo contribuições decisivas para a história. A outra questão é o crescimento do judeu Rosenthal. No roteiro original, ele estaria presente apenas na primeira parte da trama, como um dos prisioneiros do quartel. Renoir decidiu colocá-lo também no castelo o que transformou Rosenthal em um dos personagens mais fortes da narrativa, inclusive fugindo com Marecha e empreendendo a famosa batalha contra o tempo e a paisagem nas andanças rumo à Suíça.
Por fim, vale citar a aparição luminosa da atriz Dita Parla, pequena fazendeira que abriga os fugitivos. O amor que cresce entre Elsa e Marechal faz refletir não apenas sobre o absurdo da guerra, mas também sobre a incomunicabilidade ou sobre a não-necessidade de se comunicar por palavras, apenas por olhares, gestos e ações fraternas. É o apelo final de Renoir ao pacifismo, ao humanismo, não é necessário compreender verbalmente um ao outro, basta nos entregarmos aos sentimentos mais belos que deveriam mover a humanidade: amizade, fraternidade, amor.
A grande ilusão (La grande illusion, França, 1937), de Jean Renoir. Com Jean Gabin (Tenente Marechal), Pierre Fresnay (Capitão Boeldieu), Erich von Stroheim (Capitão von Rauffenstein), Marcel Dalio (Tenente Rosenthal), Dita Parlo (Elsa).
Referência: Jean Renoir. A grande ilusão. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018