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Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

Amor à flor da pele

Impossível não entregar todos os sentidos a esta bela história de amor não-concretizado. Chow (Tony Leung) e sua esposa se mudam para uma pequena pensão em Hong Kong no mesmo dia que Li-Zhen (Maggie Cheung) e seu marido. Os dois ocupam quartos vizinhos e se cruzam a todo instante na cozinha, nos corredores, nas ruas molhadas em frente à pensão. Desenvolvem uma fascinante atração mútua a partir de olhares e frases curtas, mas resistem em se entregar, mesmo após desconfiar que seus cônjuges estão tendo um caso. Detalhe: o marido de Li-Zhen e a esposa de Chow nunca aparecem, são vistos de costas, ou em ângulos sinuosos de câmara que não permite ao espectador identificá-los. 

O estilo de Wong Kar Wai, que deixa a improvisação e a câmera traduzirem de forma livre a história, está arrebatador em Amor à flor da pele. Corpos transitam pelos espaços minúsculos como  em uma dança sutil e elegante, a câmera lenta associada à música, à direção de arte, aos figurinos – destaque para os vestidos belos, simples e sedutores de Li-Zhen, tudo colabora para que o espectador se entregue a esses momentos sensoriais de indescritível beleza. 

Amor à flor da pele (I fa yeung nin wa, China, 2000), de Wong Kar Wai. Com Maggie Cheung, Tony Leung, Chiu Wai, Ping Lam Siu. 

A professora de piano

Erika é professora de piano no Conservatório de Viena. Ela vive em um pequeno apartamento com a mãe repressora, que controla sua vida e sua carreira de maneira autoritária e conservadora. As duas vivem em conflito permanente, chegando a agressões físicas. A solidão de Erika é marcada por incursões à cabines onde vê filmes pornográficos e comportamento sadomasoquista, incluindo mutilações.

O aclamado filme de Michael Haneke conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, além dos prêmios de melhor atriz para Isabelle Huppert e melhor ator para Benoit Magimel. A relação de dominação e subserviência sexual que Erika vive com seu aluno Walter Klemmer proporciona algumas das cenas de sexo mais deprimentes do cinema.  

A professora de piano (La pianiste, Áustria, 2001), de Michael Haneke. Com Isabelle Huppert (Erika Kohut), Annie Girardot (a mãe), Benoit Magimel (Walter Klemmer), Suzanne Lothar (Madame Schober (Anna Sigalevitch (Anna Scober. 

A crônica francesa

O filme começa com uma belíssima homenagem a Jacques Tati: câmera filma do lado de fora um garçom subindo por um prédio, o espectador acompanha a subida pelas janelas, exatamente como a clássica cena de Meu tio (1958). A outra homenagem é também saudosista, pois a narrativa acompanha quatro histórias narradas por jornalistas, de um tempo em que o romantismo, a ousadia, a liberdade de expressão ainda eram tônicas deste fascinante mundo dos contadores de histórias reais. 

Arthur Howitzer Jr. investe o dinheiro do pai para fundar uma revista, A crônica Francesa, recheada de reportagens de estilo literário. As quatro histórias traduzem o jornalismo investigativo, os repórteres acompanham e investigam os fatos narrados. Um ciclista/jornalista percorre as ruas da cidade contando as histórias de seus moradores; uma crítica de arte narra a fascinante saga de um artista que está preso por assassinato e se torna um expoente da arte moderna; um jornalista capaz das maiores frases literárias da revista se envolve com o mundo do crime para retratar os perfis dos mafiosos; uma jornalista tem um caso com um jovem revolucionário quando cobre os manifestos estudantis nas ruas da cidade. 

O estilo extravagante na direção de arte e, principalmente, cenografia, está presente em todas as histórias. A narração de Anjelica Huston colabora com o charme deste filme para ser visto e ouvido com os sentidos abertos à sensibilidade artística de Wes Anderson. 

A crônica francesa (The French Dispatch, EUA, 2021), de Wes Anderson. Com Benicio Del Toro (Moses Rosenthaler), Adrien Brody (Julian Brody), Tilda Swinton (J.K.L. Berensen), Léa Seydoux (Simone), Frances McDormand (Lucinda Krementz), Timothée Chalamet (Zeffirelli), Lyna Khoudri (Juliette), Jeffrey Wright (Roebuck Wright), Mathieu Amalric (The commissaire), Stephen Park (Nescaffier), Bill Murray (Arthur Howitzer, Jr.)

2046 – Os segredos do amor

A narrativa começa com exuberantes imagens futuristas de um trem em alta velocidade. Narração indica que o expresso leva a 2046, de onde ninguém nunca regressou, apenas um jovem que demonstra imenso sofrimento dentro de um dos vagões, sem saber há quanto tempo está ali. 

Corta para a década de 60, o espectador descobre que 2046 é um livro escrito por Chow Mo-Wan (Tony Leung), o mesmo personagem de Amor à flor da pele. É a sua forma de tentar resgatar suas memórias de amor, principalmente de Li-Zhen. O filme retrata uma sucessão de casos amorosos, a maioria tristes e sem perspectivas, envolvendo Chow, que se entrega às mulheres quase por compulsão. Ele mora em um hotel, é fascinado pelo quarto 2046 e as mulheres que passam pelos seus dias entram em suas histórias. 

2046 – Os segredos do amor faz parte da trilogia de dramas românticos, ou melodramas, de Wong Kar Wai. Completam a série Dias selvagens (1990) e Amor à flor da pele (2000). 

2046 – Os segredos do amor (2046, China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Tony Leung Chiu-Wai, Gong Li, Takuya Kimura.

Noite e neblina

O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

“A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008

O sádico selvagem

Prepare-se para uma das sequências mais aterrorizantes do gênero noir. Depois de enganar mãe e filha em um parque aquático, Dancer (Eli Wallach) e seu comparsa as acompanham até em casa. Os dois estão incumbidos por um cartel de traficantes de drogas de resgatar um pacote de cocaína que foi plantado em uma boneca, transportada inadvertidamente pela criança para São Francisco. Dancer brinca com a criança, com um ar amável, enternecedor, no entanto, o espectador já sabe que ele é um frio assassino. Quando descobre que a criança usou a cocaína como maquiagem para a boneca, Dancer começa a pôr calmamente o silenciador no revólver, sinal de que vai matar a criança e a mãe. 

O filme, dirigido por Don Siegel, tem uma espetacular sequência de perseguição de carro nesta cidade que parece ter sido construída especialmente para diretores e técnicos do cinema desfilaram seu talento em sequências de ações envolvendo automóveis pela ladeiras – veja Bullit (1968) e O corpo que cai (1958). A narrativa acompanha os dois bandidos durante um dia, buscando pacotes de cocaína implantados em bagagens de moradores da cidade. 

Eli Wallach domina o filme com uma interpretação que revela todas as nuances de uma mente doentia que habita um psicopata assassino. Ele está conversando amigavelmente com suas vítimas, um segundo depois… bem, a mais pura essência do terror. 

O sádico selvagem (The lineup, EUA, 1958), de Don Siegel. Com Eli Wallach, Robert Keith, Richard Jaeckel.

Réquiem para Sra. J

O filme abre com Jelena (Mirjana Karanovic) preparando cuidadosamente a arma que pertenceu ao seu marido. É segunda-feira, com esse gesto anuncia-se a decisão da Sra. J: na sexta-feira, aniversário da morte do marido, ela se matará. 

A narrativa é dividida em espécies de capítulos, seguindo os dias da semana. Jelena está desempregada, sua família desestruturada, o peso do sustento econômico recai sobre a filha mais velha que não suporta mais tal obrigação. O diretor Bojan Vuletic é mais um cineasta europeu a se debruçar com sensibilidade sobre a crise trabalhista na Europa e suas consequências na vida das pessoas e na família. Dessa leva recente, vale citar Dois dias uma noite (2014), O valor de um homem (2015), Eu, Daniel Blake (2016), Colo (2017), Você não estava aqui (2018).

A narrativa alterna momentos de bom humor, destaque para o conselho oferecido a Jelena por um vendedor de armas e as propostas do agente funerário, com momentos depressivos e tensos. resultados da desintegração familiar, das burocracias do estado em relação à assistência de seus cidadãos, da tragédia anunciada ao espectador pela protagonista. Jelena acompanha e assiste a esses momentos com a serenidade silenciosa de quem já tomou sua decisão. Os longos planos em sua caminhada pela cidade, os planos estáticos em sua resignação dentro de casa, ajudam a entender o tratamento sensível tanto em termos de narrativa quanto em propostas audiovisuais deste filme terno. 

Réquiem para Sra. J (Rekviem Za Gospodja J., Sérvia, 2017), de Bojan Vuletic, com Mirjana Karanovic, Jovana Gabrilovich, Danica Nedeljkovic.

A infância de Ivan

O filme começa na interseção que marca a narrativa: sonhos e/ou memórias. Ivan está feliz, em um ambiente campestre repleto de lirismo. Ele olha fascinado para uma teia de aranha, ouve o som de um cuco, sua mãe está ao seu lado, feliz com esse momento. A sensação de idílio é tão perfeita que Ivan começa a voar pelo campo, como em uma metaformose que transcende corpo e alma. É um sonho, sabemos logo a seguir. 

A ruptura é brutal. Ivan é um adolescente que luta na Segunda Guerra Mundial. Ele atua em missões de espionagem e se infiltra no front de batalha em arriscadas missões. Seu desejo de vingança está estampado em seu rosto e em suas atividades destemidas: sua mãe foi assassinada pelos nazistas. 

O recém formado cineasta Tarkovski foi chamado pela Mosfilm, órgão de cinema estatal soviético, para assumir o posto de diretor no filme quando as filmagens já haviam iniciado. Tarkovski fez diversas alterações no roteiro, baseado em um conto de guerra de Vladimir Bogomolov. 

“Bogomolov descreve os cenários com a invejável precisão de uma testemunha ocular dos acontecimentos que constituem a base da história. O princípio pelo qual o autor se deixou conduzir foi o da minuciosa reconstituição de todos os lugares, como se ele os houvesse visto com os próprios olhos. O resultado pareceu-me fragmentado. (…) Todos esses lugares são descritos com grande precisão, mas não apenas foram incapazes de provocar em mim qualquer emoção estética, como, de resto, eram também um tanto quanto destoantes. Esta ambientação não tinha condições de despertar as emoções apropriadas às circunstâncias de toda a história de Ivan, da forma como a concebi. Senti, o tempo todo, que para o filme ser bem-sucedido a textura do cenário e das paisagens devia ser capaz de provocar em mim recordações precisas e associações poéticas.” – Tarkovski. 

As mudanças não significaram apenas questões estéticas envolvidas entre a transposição da literatura para o cinema. Em busca da poesia, o diretor estruturou o filme a partir de quatro sonhos de Ivan. As cenas de guerra e as incursões de Ivan no front inimigo permaneceram, mas sempre como um contraponto agressivo, desumano, aos momentos de idílio da infância de Ivan. As imagens da guerra soam como um choque abusivo, cruel, desumano, frente às memórias da infância que Ivan carrega. 

“Apesar de tudo o que vemos durante o filme, apesar, enfim, do ‘enforcamento’ da infância, da paz, enfim, do humanismo, ao happy beginning corresponderá o happy ending, pois, não obstante a guerra, a morte e a miséria, a única coisa que Ivan – como todos nós – consegue manter inalterada, intocada, indestrutível, é isso: a memória, as imagens de felicidade e das pessoas amadas que conserva consigo para a eternidade. Eis o que nenhuma metralhadora ou bomba apaga: o reduto da memória, esse resistente dínamo que, como o projetor de cinema, recupera imagens do passado, de uma realidade que já não é atual, mas que nos ajuda a compreender e a viver um pouco melhor no mundo.” – Francisco Noronha

Ingmar Bergman expressou sua profunda admiração pelo cineasta soviético: “Tarkovski é o maior de todos, pois se move, sem dúvida, no espaço do sonho; não explica, o que explicaria afinal de contas? Ele é um sonhador que conseguiu pôr em cena suas visões, no mais pesado mas também mais dúctil de todos os meios.”

Em A infância de Ivan enxergamos, ou melhor, sentimos, com plenitude, esse cineasta sonhador, poeta, mago das imagens, capaz de provocar no espectador aquilo que ele mesmo tanto buscou: recordações e associações poéticas. 

A infância de Ivan (Ivanovo detstvo, Rússia, 1963), de Andrei Tarkovski. Com Nikolai Burlyayev, Valentin Zubkov, Nikolai Grinko. 

Referências: 

Esculpir o tempo. Andrei Tarkovski. São Paulo: Martins Fontes, 1998. Tarkovski. Eterno retorno. Phillipe Ratton (organização). Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2017

Torre. Um dia brilhante

O filme abre com uma referência a um clássico do gênero terror: O iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Visão aérea mostra um carro trafegando por uma bela estrada campestre. No carro estão um casal e Kaja, no banco de trás. 

Eles chegam a uma casa no interior para uma reunião familiar. Mula, a proprietária, é irmã de Kaja e do motorista. A mãe deles sofre de alzheimer e está sob os cuidados de Mula. O centro da trama é a criança Nina, filha de Kaja, mas que foi entregue aos cuidados de Mula seis anos atrás. 

Mistérios do passado rondam a reunião familiar, marcada por situações surpreendentes, como a cura repentina da mãe. A trama trabalha com insinuações ao gênero sobrenatural, que não se concretizam, são muito mais imagens encobertas por mistério, sombras que se dissipam deixando a sensação de paranóia e medo que ronda os segredos da família. O filme de estreia da diretora polonesa Jagoda Szelc é completamente aberto aos caminhos que o passado remete, como na lenta caminhada coletiva no final do filme. 

Torre. Um dia brilhante (Wieża. Jasny Dzień, Polônia, 2017), de Jagoda Szelc. Com Anna Krotoska (Mula), Małgorzata Szczerbowska (Kaja), Anna Zubrzycki (Ada), Dorota Łukasiewicz-Kwietniewska (Anna), Rafał Kwietniewski (Andrzej), Michał Rafal Cieluch (Michał), Laila Hennessy (Nina).

O castelo Cagliostro

É a primeira animação do lendário Miyazaki, realizada antes da fundação do também lendário Studio Ghibli. A trama é baseada no mangá Lupin III, de Monkey Punch, que Miyazaki já havia adaptado como série de TV. O assaltante Arsene Lupin III rouba notas falsificadas em um cassino em Monte Carlo. Junto com seu fiel aliado Jigen, Lupin parte para o Castelo Cagliostro, pequeno reino onde as notas falsificadas são produzidas. A narrativa envolve desejo de vingança, mas muda de rumo quando Lupin conhece Clarisse, jovem destinada a se casar com o malévolo Conde do castelo. 

O castelo Cagliostro é uma divertida história com tons medievais das belas princesas que habitam castelos, transitando pelas narrativas de máfias e gangsteres do século XX, ou seja, uma mistura de tons narrativos bem ao estilo de Miyasaki. A animação é repleta de ação, entremeadas por tiroteios, duelos de samurais e lutas corporais. Logo em seu primeiro longa-metragem, Miyazaki provocou furor no universo da animação, anunciando o que viria na sequência: uma sucessão de clássicos criados e dirigidos pelo mestre dos mestres da animação. 

O castelo Cagliostro (Japão, 1979), de Hayao Miyazaki.