The potemkinists

The potemkinists (Romênia, 2022), de Radu Jude. 

O curta de Radu Jude centra no debate entre um escultor e uma funcionária do governo, travado em uma praia da Romênia onde foi erguida uma grande escultura. A conversa envereda por uma polêmica envolvendo o clássico O encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein. 

A obra termina com o famoso embate entre a esquadra russa e o Encouraçado, com a confraternização entre os soldados no final. O escultor expõe a verdade: os marinheiros revoltosos navegaram para a Romênia, onde pediram asilo político. A maioria ficou no país, trabalhando e tentando sobreviver, os que voltaram para a Rússia foram executados pelo governo. 

Os diálogos em torno da escultura misturam crítica, ironia e bom humor, versando sobre o cinema, a memória manipulada e a burocracia imposta aos produtores de arte, que devem criar sob os auspícios das autoridades. 

De humani corporis fabrica

De humani corporis fabrica (França, 2022), de Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor. 

Prepare sua mente, seu estômago e todos os sentidos antes de assistir a esse impressionante documentário. Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor acompanham o cotidiano de um grupo de cirurgiões em cinco hospitais da periferia de Paris. A câmera se projeta literalmente dentro das vísceras e órgãos dos pacientes, em uma viagem fantástica povoada pelas partes internas da carne humana de uma forma que só os cirurgiões conhecem. 

Como off, o documentário usa conversas e relatos dos médicos durante os procedimentos, às vezes refletindo sobre o trabalho, outras vezes em conversas triviais enquanto manejam os bisturis e demais instrumentos. O título do filme é tirado do famoso livro de anatomia humana, amplamente ilustrado, escrito por Andreas Vesalius, em 1543. Vesalius era professor da Universidade de Paris e realizou uma série de dissecação de cadáveres. 

O documentário expandiu a polêmica que começou há 500 anos, com cenas de estarrecer até os mais frios cidadãos, com direito a um final apoteótico com música disco e a câmera percorrendo ilustrações eróticas. 

Please baby, please

É ótimo encontrar filmes contemporâneos nos quais a estética noir ainda provoca forte influência. O grande trunfo de Please baby, please é o visual extravagante, pontuado por números musicais também estranhos e por fortes doses de violência e erotismo. 

No início da trama, o casal formado por Suze e Arthur presencia uma gangue gótica assassinando um homem a pontapés no beco da cidade. Os dois passam a ser chantageados pela gangue, mas entre os riscos de violência e morte, desenvolvem um complexo fascínio: Suze fica cada vez mais obcecada pelo visual e estilo da gangue; Harry se entrega ao desejo por Teddy, um dos integrantes. 

O roteiro não traz atrativos, muito menos surpresas. O destaque fica por conta da estética, da participação especial de Demi Moore e da interpretação caricata de Andrea Riseborough (indicada ao Oscar em 2022 por To Leslie).  

Please baby, please (EUA, 2022), de Amanda Kramer. Com Andrea Riseborough (Suze), Harry Melling (Arthur), Demi Moore (Maureen), Karl Glusman (Teddy), Ryan Simpkins (Dickie), Cole Escola (Billy). 

Jaime

Jaime (Bélgica, 2022), de Francisco Javier Rodriguez. 

Jaime é um homem de 31, 32 anos (ele alterna sua idade) que passou grande parte da vida em uma instituição psiquiátrica, após incendiar a própria casa. Ele despeja para a câmera, em uma conversa presumivelmente com um entrevistador, seus pensamentos e desejos confusos, versando sobre Deus, a mãe que o espancava quando criança, os cachorros, super poderes que possui…

O premiado média-metragem de Francisco Javier Rodriguez é um retrato inquietante da mente do protagonista que transita indistintamente entre imaginação e realidade, entre falas e pensamentos que se concretizam para o espectador. Com um soberba atuação de Guy Dessent, o inesperado final confunde mais ainda o espectador, abrindo as brechas para as surpreendentes revelações da mente humana. 

Holy spider

Holy spider (Dinamarca/Alemanha, 2022), de Ali Abbasi.

O filme tem um dos finais mais perturbadores do cinema contemporâneo, de revirar a mente e acreditar de forma decisiva que o fanatismo religioso é um dos grandes males da humanidade. A jornalista Rahimi (Zar Amir Egrahimi) chega à cidade sagrada de Mexede, no Irã, para fazer uma reportagem sobre o “Assassino de Aranhas”, um homem que se julga justiceiro de Deus e mata prostitutas. 

Não há mistério sobre a identidade do assassino, é Saeed (Mehdi Bajestani), um pai de família amoroso, ensina os preceitos religiosos aos filhos, trata a mulher com respeito e carinho. Baseado em fatos reais, a virada da narrativa acontece quando o assassino é preso, vai a julgamento e ganha apoio de centenas de fanáticos nas ruas da cidade. 

Prepare-se para cenas fortes de assassinatos, o diretor Ali Abbasi não poupa o espectador neste filme denúncia contundente. Zar Amir Egrahimi ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes por sua atuação como a jornalista investigativa que arrisca a própria vida em busca da verdade e da justiça.

Alcarràs

O filme da diretora espanhola Carla Simón foi o grande vencedor do Festival de Berlim, conquistando o Urso de Ouro. A narrativa acompanha, de forma quase documental, uma família de agricultores em uma pequena vila catalã. A Família Solé cultiva a terra onde moram sem nunca terem adquirido o registro da propriedade, pois ganharam de presente do proprietário como reconhecimento: o patriarca da Família Solé, ainda vivo, salvou a vida do proprietário durante a Guerra Civil Espanhola. No entanto, os herdeiros originais não querem mais honrar o acordo e tentam expulsar os colonos, pois a terra vai receber modernos painéis de energia solar. 

O coletivismo dos agricultores é marcante, pontuando durante a narrativa o eterno conflito entre agricultores e atravessadores. O grande tema de Alcarràs é a desagregação familiar, dividida entre aceitar o trabalho assalariado na empresa de energia solar ou lutar pela independência e continuar cultivando a terra. O conflito entre geração, pai e filho, é responsável pelos momentos mais tensos e ternos do filme.

Alcarràs (Espanha, 2022), de Carla Simón. Com Josep Abad (Rogelio), Jordi Pujol Dolcet (Quimet), Anna Otín (Dolores), Albert Bosch (Roger), Xenia Roset (Mariona).

Marte Um

A Produtora Filmes de Plástico tem colecionado prêmios trabalhando com a estratégia consagrada pelo neorrealismo italiano. Os filmes são rodados em locações, geralmente nos bairros periféricos da cidade de Contagem, mesclando atores profissionais e amadores, muitas vezes os próprios moradores da região atuam nos filmes. 

Marte Um é a obra mais badalada desta safra (o filme foi o indicado do Brasil para concorrer ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro, mas ficou de fora da lista final). Deivinho é um menino da periferia que sonha em ser astrofísico e participar de uma missão ao planeta vermelho, intitulada Marte Um. No entanto, seu pai, porteiro de um condomínio de luxo, tem outros planos para o filho: ele deve ser jogador de futebol. 

A narrativa explora as nuances do gênero melodrama, desenvolvido em torno da família. A grande personagem do filme é Tercia, mãe do garoto, que trabalha como faxineira e passa por vários conflitos psicológicos que podem refletir em consequências sérias para a família. É uma história de transformações e aceitações no âmbito familiar que refletem as próprias transformações da sociedade – infelizmente ainda marcada pela não-aceitação. O final de Marte Um é terno e reflexivo. 

Marte Um (Brasil, 2022), de Gabriel Martins. Com Rejane Faria (Tercia), Carlos Francisco (Wellington), Cícero Lucas (Deivinho), Camilla Damião (Eunice), Russo Apr (Flávio), Ana Hilário (Joana).

O monastério

O filme abre com uma sequência cruel: no altar de uma igreja, um padre está prestes a executar um bebê recém-nascido. Ele é impedido por policiais que entram na igreja e matam o padre. Corta para trinta anos depois. 

Marek, um policial disfarçado de padre, chega a um monastério, famoso por seus casos de exorcismo. Marek precisa investigar o desaparecimento de jovens mulheres da região que, possivelmente, são as vítimas dos casos de exorcismo. 

A sequência inicial aponta a possível ligação entre Marek e uma seita maligna, formada pelos padres do monastério. A narrativa é recheada de cenas brutais, até mesmo repulsivas (atenção para o alimento impingido ao falso padre). A virada de roteiro perto do final do filme provoca o tradicional banho de sangue dos filmes de terror contemporâneos. 

O monastério  (Hellhole, Polônia, 2022), de Bartosz M. Kowalski. Com Piotr Zurawski (Marek), Olaf Lubaszenko (Padre Andrzej), Sebastian Stankiewicz (Padre Monk).

Crimes do futuro

O mais recente filme de David Cronenberg exige do espectador estômago, no sentido literal, para acompanhar a trama. Em um futuro desconhecido, o célebre artista Saul Tenser faz performances expondo seus órgãos internos. Os humanos passaram por mutações, novos órgãos foram desenvolvidos. A jovem Caprice acompanha seu namorado nas apresentações, narrando as performances de forma dramática e visceral. 

Prepare-se para cenas absurdamente cronenberguianas: no início do filme, um menino come um balde de plástico no banheiro e, a seguir, é assassinado pela própria mãe; a exposição pública dos órgãos de Saul; simulações sexuais de puro prazer a partir do compartilhamento de órgãos; um casal de assassinas em busca de sangue; a autópsia pública do cadáver de uma criança, manipulada por uma máquina aterradora. Bem, é um filme de David Cronenberg. 

Crimes do futuro (Crimes of the future, Canadá, 2022), de David Cronenberg. Com Viggo Mortensen (Saul Tenser), Léa Seydoux (Caprice), Kristen Stewart (Timlin), Scott Speedman (Lang Dotrice), Don McKellar (Whippet). 

Lar dos esquecidos

O terror parece ser o gênero da segunda década do século XXI. Basta ver a quantidade de produções que são lançadas nos diversos streamings. Lar dos esquecidos, produção alemã disponível na Netflix, segue as normas do gênero, além de fazer referência explícita ao clássico A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero. 

A narrativa abre com um brutal assassinato: um idoso mata sua cuidadora, massacrando sua cabeça com um cilindro (referência à aterradora cena de Irreversivel). Corta para Ella dirigindo em uma estrada com seus dois filhos. O destino é a sua cidade natal, um povoado com poucos moradores, a maioria deixou a cidade. Restou aos idosos da cidade uma casa de repouso, onde foram praticamente abandonados pelos parentes. 

Na noite do casamento da irmã de Ella, os idosos se revoltam, acometidos por uma espécie de vírus que os torna violentos e sanguinários. Segue-se um massacre na cidade, com os idosos sitiando a casa onde aconteceu a festa. É a noite dos mortos vivos, no caso, idosos abandonados, relegados a uma vida solitária e sem perspectivas em uma casa de repouso decrépita. Terror e crítica social se misturam em Lar dos esquecidos.  

Lar dos esquecidos (Old people, Alemanha, 2022), de Andy Fetscher. Com Melika Foroutan (Ella), Louie Betton (Alex), Paul Fassnacht (Aike), Ott Emil Koch (Noah), Stephan Luca (Lukas), Anna Unterberger (Kim).